Cenas da ZL – por Daniel Cunha e Paulo Kehl

Esta postagem será bastante diferente do que temos visto neste blog. Diferente porque não se trata da análise de uma obra (ou várias) ou de uma revista. Este texto fala sobre o subúrbio. Este texto fala sobre aquela cidade além da bolha de desenvolvimento que são as regiões centrais da metrópole. Mais especificamente, este texto fala da experiência de um aluno que, voluntariamente, viveu por cinco dias na beira da cidade de São Paulo, no bairro Vila Norma, zona leste da capital.

Tal experiência social será aqui brevemente analisada sob a ótica de dois estudantes de urbanismo e, para tanto, será dado certo enfoque aos seguintes aspectos: localização, transporte, desenho urbano, habitação, saneamento e educação.

Localização e transporte:


O bairro fica a aproximadamente 17km do centro de São Paulo, o que significa 1 hora e 40 minutos de viagem, utilizando-se do transporte público e entre 45 minutos e 1 hora de carro. Tempo que depende do transito, normalmente intenso.

Bairro-Centro (4:50) Centro Bairro (17:00)
Transporte público

1h e 40min

1h e 40min

Transporte privado

45min

1h e 10min

Grande parte dos moradores da região possui carro próprio, o que é um reflexo da condição do transporte público que atende às zonas periféricas da cidade. Precária, insuficiente e ineficiente, a falta de transporte público de qualidade praticamente obriga que os moradores possuam seu próprio carro, nem que seja para se locomover apenas dentro do bairro.

Desenho Urbano:

É interessante notar a diferença entre o desenho das ruas de Higienópolis e as ruas na Vila Norma. Se não fosse São Paulo, seria difícil de acreditar que ambos fazem parte da mesma cidade.

Fruto de situações completamente diferentes, ambos têm suas qualidades e defeitos. Se por um lado as ruas de Higienópolis são largas e arborizadas, por outro lado o traçado retilíneo ignora por completo o relevo acidentado da região, criando ladeiras muito íngremes. Já a Vila Norma possui um desenho que parece se adequar ao relevo, apesar das ruas estreitas.

Higienópolis com seu traçado retilíneo, totalmente racional, a cidade da higiene (!) e a Vila Norma, com suas ruas estreitas de traçado irregular, espontâneo, feito provavelmente pelos primeiros moradores da região.

Habitação:

Precário e insuficiente são as palavras que definem a habitação nesta região da cidade. Precária é a habitação original e insuficientes são os esforços do governo investidos em melhorias.

A formação dos subúrbios em São Paulo aconteceu de forma completamente descontrolada por tempo demais e a mancha urbana se espalhou pra fora dos limites da cidade, criando a região metropolitana. Essa ocupação desenfreada era regida apenas pelas necessidades espaciais da população que crescia exponencialmente com a industrialização da cidade, e que consistia majoritariamente de pessoas pobres. Sem instrução, dinheiro ou lugar pra morar, essas pessoas se instalam onde conseguem, quase sempre nas regiões onde a terra é mais barato devido à falta de infraestrutura.

A combinação habitação precária mais falta de saneamento é recorrente na Vila Norma (e em diversos bairros suburbanos) e os órgãos públicos parecem ignorar o que se passa nesses lugares.






Digo que parecem ignorar porque em meio ao caos de se viver às margens da cidade, existe o CDHU. São cerca de 10 mil pessoas habitando 2500 apartamentos, em prédios de até sete andares.

Já muito melhores do que a favela original, os conjuntos habitacionais do CDHU parecem uma piada de mau gosto para com a população. Os prédios de sete andares, de qualidade arquitetônica bastante questionável, com apartamentos de 48m², não possuem elevador e são entregues no osso, sem revestimento algum.

Não há forro ou azulejos nos banheiros. Ruas inacabadas, ainda sem pavimentação, fazem as vias de acesso aos edifícios.


O hall e os apartamentos foram terminados pelos próprios moradores.

Apesar de tudo isso, as áreas de lazer parecem ser suficientemente grandes e estar bem cuidadas.

Saneamento:

Talvez fosse mais fácil falar sobre o saneamento se houvesse algum! Todo o esgoto do bairro todo o esgoto do bairro vai para o córrego que o corta. Não apenas o esgoto, mas praticamente todo o lixo parece ir para lá. Embora a prefeitura diga que o córrego se encontra canalizado que o lixo é removido, não é isso o que podemos perceber.

Lixo de todo tipo pode ser encontrado às margens do córrego, mas predominam o lixo doméstico e o lixo proveniente da construção civil.

Muitas das casas beiram o rio, o que torna necessário a construção de passarelas feitas pelos próprios moradores. Há apenas uma passarela feita pela prefeitura.

Segundo a prefeitura, há um interceptor às margens do córrego. Difícil de acreditar ao ver a poluição das águas.

O lixo da construção civil realmente domina as encostas do córrego.

Novamente uma pequena piada ação por parte da prefeitura: o ECOPONTO. Aqui o lixo reciclável é recolhido para depois ser levado às usinas de reciclagem ou para o aterro sanitário de Guarulhos.

Seja pela falta de recolhimento ou de informação da comunidade, as caçambas destinadas ao material reciclável demoram até dois meses para ficarem cheias, enquanto que as grandes caçambas de entulho enchem em mais ou menos um dia. As fotos anteriores mostram como as ações da prefeitura são deficientes quanto a questão do lixo nesta região.

Educação:

Este talvez seja o ponto mais notável na área: o Centro Educacional Unificado (CEU) Parque São Carlos. Sempre instalados em regiões de periferia, CEUs são complexos educacionais, esportivos e culturais.

Já são 45 CEUs na cidade de São Paulo, e eles possuem:

  • Centro de educação Infantil (CEI) para crianças de zero a três anos;

 

  • Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) para alunos de quatro e cinco anos;
  • Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF), que também oferece Ensino de Jovens e Adultos (EJA);
  • Quadra poliesportiva, teatro, playground, piscinas, biblioteca, Telecentro e espaços para oficinas, ateliês e reuniões;
  • Os espaços são abertos à comunidade, inclusive aos finais de semana;

Com programação variada para todas as idades, os CEUs garantem aos moradores dos bairros mais afastados acesso a equipamentos públicos de lazer, cultura, tecnologia e práticas esportivas, contribuindo com o desenvolvimento das comunidades locais.






As imagens aqui registradas mostram com clareza a situação em que vive a população dos bairros pobres no subúrbio de São Paulo. Estas fotos poderiam vir de qualquer metrópole de um país em desenvolvimento e a situação não seria nada diferente. Este é o retrato do século XXI: no mesmo município existem duas cidades, uma dos ricos, outra dos pobres. Mesmo separadas por uma barreira invisível porém intransponível de preconceitos e descaso, essas cidades se chocam todos os dias pelas avenidas da metrópole. Nesta cidade paralela vivem as pessoas que giram as pesadas engrenagens do mundo contemporâneo com as próprias mãos nuas, enquanto na bolha endinheirada, desfrutamos do nosso ar-condicionado, em escritórios silenciosos, sem saber que pouco além do horizonte visível está a dura realidade do paulistano. Creio que resolver os problemas desta outra cidade, às margens do desenvolvimento, seja o grande desafio deste século.

Não é mais necessário pensar em novas formas de cidade ou de buscar no passado uma forma que se ajuste aos dias de hoje. As soluções existem por toda a parte, bem como as pessoas capazes de realiza-las. Mas infelizmente o que falta a essas pessoas é a alavanca financeira e, para que esse retrato seja revertido, talvez seja necessária uma grande mudança no pensamento da sociedade, uma mudança tão profunda que altere as próprias estruturas sociais/financeiras que hoje regem o planeta.

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