Habitação em Singapura – Por Pedro Senna e Priscila Sato

Revista a+u, edições 501 (Junho), 500 (Maio), e 499 (Abril).

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A revista japonesa a+u possui uma temática que permeia todo o volume, apresentando opiniões diversas de arquitetos, urbanistas e de representantes tanto governamentais quanto do setor privado. Portanto, a revista inicia-se como um livro, dotado de uma introdução provocativa que atrai o leitor para uma determinada linha de raciocínio, onde serão apresentadas de forma contínua e coerente as informações e opiniões, gerando o aprofundamento necessário para que o leitor alcance um ponto de vista próprio, analisando o assunto tratado por diversos ângulos, sem sofrer imposições por parte da revista.

Em relação aos projetos, a revista faz uma análise humanitária da arquitetura, apresentando, além de aspectos técnicos da construção, uma visão poética da sua inserção no contexto urbano e sociocultural. Utilizando-se, portanto, de recursos como textos breves, objetivos e expressivos e imagens que contribuem para a integral legibilidade do conceito projetual.  

Ao fim da leitura, como ponto positivo, são dados créditos aos arquitetos urbanistas cujos projetos foram abordados, fornecendo informações básicas para pesquisas posteriores. 

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Conceito do projeto realizado por meio de versos.

 

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Lado humano do projeto, seus impactos na sociedade local.

 

Na edição 501 da revista, o tema abordado é a cidade-estado Singapura, desenvolvido através de textos, entrevistas e discussões, abrangendo desde sua formação, até seus principais projetos arquitetônicos e urbanísticos, buscando analisar as vertentes da habitação, da água, da cobertura vegetal e da relação destes com a população.

            Singapura obteve sua independência da Malásia em 1965, quando possuía uma população de 1,89 milhões, sendo que 1,3 milhões moravam ainda em barracos sem tratamento moderno de esgoto e o fornecimento de água e eletricidade era limitado. Esta população era constituída por vários povos, como chineses, malaios e indianos, devido ao atual país ter pertencido a vários impérios no passado, gerando uma fraca noção de nação.

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            Após a independência, com o Primeiro Ministro da República de Singapura Lee Kuan Yew, foi realizado um programa habitacional que erradicou o déficit de moradias, transformando a paisagem de cortiços e favelas em condomínios populares (HDB – Housing Development Board), dando a 93% dos singapurianos a garantia de imóvel próprio. Contrastando com o déficit habitacional brasileiro, de cerca de 8 milhões de casas. Em comparação com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) brasileiro, o modelo de habitação de Singapura debita mensalmente 20% do salário da população no fundo, já servindo para pagar a prestação do imóvel. No caso brasileiro, o valor acumulado no FGTS serve para dar entrada ou quitar o imóvel, tendo o comprador, portanto, que arcar com as parcelas mensais de um financiamento.

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            Singapura possui uma dimensão territorial equivalente à da Região Metropolitana do Recife, sem grandes possibilidades de expansão, vivendo hoje, uma forte especulação imobiliária. O prazo de propriedade dos imóveis para a população é de 99 anos, porém, a um custo oneroso ao governo, ou se houver a posse de uma propriedade desde a época em que o país era colônia do Reino Unido, pode-se obter a propriedade definitiva.

            O incentivo do governo para que as pessoas não aluguem e lutem pela casa própria, apesar do prazo não definitivo de propriedade, faz com que elas estabeleçam raízes e criem relações de vida, como convivência, portanto, que cuidem melhor de suas casas e do ambiente compartilhado. Cada bairro suporta de 5000 a 6000 apartamentos, contendo um centro com lojas, mercado, um parque e escolas, todos com proximidade suficiente para locomoção a pé.

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O governo de Singapura possui um modelo de gestão independente, realizando parcerias entre os setores público e privado. Como diz Michael Chia, diretor de uma empresa de engenharia que investe na área de produção de energia: “O mais importante neste processo é a confiança entre o governo e as empresas. A iniciativa privada faz a máquina funcionar e o setor público leva o serviço à população. Esse entrosamento é vital uma vez que falamos de contratos de 20, 25 anos”. Este sistema acarretou baixíssimas taxas de inflação, desemprego, analfabetismo e criminalidade. O Brasil tem buscado este tipo de parceria para investimentos em infraestrutura, o mesmo feito em Singapura, que alavancou desde usinas elétricas a sistemas de reciclagem de lixo.

Essas empresas singapurianas, principalmente indústrias litorâneas, estão presentes nos planos urbanos desde 1971, quando a expansão territorial foi incentivada, realizando-se aterramentos marítimos, movimentando, assim, a economia dos portos, juntamente com o centro comercial da cidade. Por ocorrer de maneira conjunta, a densidade habitacional, os pequenos centros comerciais e o aumento da infraestrutura, principalmente com o sistema de transporte MRT (Mass Rapid Transit), possibilitou uma melhor integração entre esses três elementos, além de preservar áreas verdes com o intuito de manter a qualidade do ar e da água.

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Rio de Singpura nos anos 70 e nos dias de hoje.

Ícones:

 – Resort Marina Bay Sands e museu de Arte e Ciência, por Moshe Safdie.

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– Superárvores – Conservatory Eco System, por Grant Associates

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– Há 18 “superárvores” com alturas de 25 a 50 metros;

– As pontes e passarelas possuem 420 metros de comprimento e estão a uma altura de 22 metros, interligando as “superárvores” mais altas;

– 11 das árvores possuem placas fotovoltaicas, a energia recolhida é usada a iluminação das estruturas;

– Cada superárvore abriga flores tropicais e uma variedade de samambaias que sobem pela estrutura de aço;

– As copas servem como moderadores de temperatura, absorvendo e dispersando calor, além de coletarem águas pluviais;

– As “superárvores” são compostas por cerca de 163 mil plantas de mais de 200 espécies;

– Cada árvore tem um núcleo de concreto, um tronco de aço equipado com painéis para plantio e uma cobertura no topo levantado por um sistema de macaco hidráulico.

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O Projeto Cingapura – São Paulo

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            O projeto foi idealizado durante o mandato do ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, com o objetivo de possibilitar que moradores de favelas adquirissem suas casas próprias por meio de parcelas que poderiam chegar a R$ 18,00 mensais. Porém, os apartamentos eram construídos no mesmo local onde antes estavam os barracos, sob o pretexto de que os moradores já tinham ali uma vida estabelecida, com um círculo de convivência já definido, desconsiderando o fato de que o subsolo da área já estava contaminado pela falta de infraestrutura sanitária, como é o exemplo do Conjunto Habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Oeste de São Paulo, cujo solo está contaminado com gás metano, correndo risco de explosão. Os moradores dos 20 mil apartamentos entregues reclamam da imposição do projeto, realizado sem consulta à população contemplada. Além disso, uma das construtoras envolvidas no projeto, a Schahin, esteve sob investigações por falhas na execução de projetos. Pela falta de infraestrutura, urbanização básica e equipamentos públicos, como creches, escolas e hospitais próximos à comunidade, a maior parte dos apartamentos estão abandonados. A Justiça determinou, em 2011, que os moradores restantes (2787 pessoas) fossem removidos do local devido ao risco, o que causou revolta.

            Após o ocorrido, em 2012, a Secretaria de Habitação de São Paulo irá transformar os conjuntos em condomínio fechados. Os moradores das antigas favelas haviam recebido um Termo de Permissão de Uso para morarem nos apartamentos, mas diante da falta de planejamento, a venda informal das escrituras aumentou, fazendo com que a prefeitura transferisse a propriedade e a responsabilidade de manutenção dos conjuntos aos moradores. Para poder comercializá-los, a Sehab passou a reformar os conjuntos, transformando-os em condomínios fechados, com grades e guaritas, segundo os moradores, eles não participaram do processo de decisão de como seria a intervenção.

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Guarita de entrada do Cingapura – Goiti. Foto: Natália Garcia

 “É preciso entender que a cidade não é um amontoado de prédios, o que lhe dá alma são os espaços públicos, em quantidade e qualidade, através dos quais podemos dimensionar a democracia de uma sociedade.” – Urbanista Norma Lacerda.

 

 

 

Referências:

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