Revista Monolito

– POR GABRIELA CAROTINI PEREIRA E LUIZA ALBIERO TAVARES

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Edições Ano 2012 – n° 7 Fevereiro- Março e n° 11 Outubro – Novembro

A Monolito é uma revista brasileira de publicação bimestral, monotemática, cultural e não técnica, em que cada edição é abordado um único assunto que possui uma temática que permeia toda a revista, tentando aprofundar a discussão arquitetônica sobre a releitura da arquitetura brasileira.

Com fundamentos analíticos e não críticos, de fácil entendimento, com um contexto em que é apresentado opiniões de arquitetos, urbanistas e colaboradores, não fixos, com interesse em arquitetura das mais diversas áreas culturais de atuação, escolhidos de acordo com o tema da edição, trazendo uma abordagem diferente das quais propostas pelas outras revistas brasileiras, tentando consolidar posições dentro da arquitetura nacional.

Dessa maneira, a revista inicia-se como um livro de referências, dotado de uma introdução que não é provocativa mas sim explicativa em sua essência e que atrai o leitor para uma determinada linha de raciocínio, onde serão apresentadas de forma expositiva contínua e coerente as informações e opiniões, mas que não são o suficientes  para gerar o aprofundamento necessário, o qual se dispõe a fazer, para que o leitor  alcance um ponto de vista próprio, sem que o leitor sofra imposições por parte da revista.

Cada número da Monolito é realizado com um cuidado de um livro, principalmente no que diz respeito a qualidade gráfica e de impressão, diagramação, com textos bilíngues (português/inglês), textos expositivos que contribuem para a integral legibilidade do conceito do projeto com apresentação de aspectos técnicos da construção bem como plantas, cortes e detalhamentos dos projetos apresentados.

Com edição de Fernando Serapião, ex-editor da revista Projeto, que agora dedica-se somente a Monolito, cada edição trata de um projeto, arquiteto ou escritório de forma profunda, já que esse tipo de informação só era possível antes em livros, contando com ensaios do mesmo, divulgando seu realizador e sua obra em que o critério de escolha é realizado de acordo com o contexto do tema e interesse da própria revista e do público ao qual ela se dedica.

Por ser narrativa, a revista atende uma função especifica tornando- se uma espécie de portfólio de referências, “Murais usados para mostrar ídolos. …Mitos podem ser compartilhados.”( Como cita Rem Koolhaas em seu texto Junkspace de 2001.), do escritório ou arquiteto que não possui uma publicação voltada somente a ele, tornando pública a matéria, que promove a massificação da ideia, que gera um conhecimento mais detalhado sobre o assunto, diferente de outras revistas que apenas citam o tema.

JOVENS ARQUITETOS 

  Na edição de número 11 publicada em 2012, o tema se refere aos Jovens Arquitetos (brasileiros), com profissionais nascidos a partir de 1972.   A revista selecionou 16 projetos, que são descritos através de textos e imagens e que contam com obras construídas em sete estados diferentes, tais como, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, tendo como traço comum a ambição e a crença desses arquitetos com o futuro.

PAVILHÃO HUMANIDADE – RIO DE JANEIRO 

  Dentre os projetos que estão presentes nessa edição da Monolito, o Pavilhão Humanidade realizado por Carla Juaçaba que contou com a colaboração de Bia Lessa (2011/2012) na praia de Copacabana, construído para atender as atividades paralelas durante a conferência internacional da ONU Rio +20 merece destaque. A arquiteta Carla, que recebeu o prêmio ArcVision por este projeto, idealizou um espaço disponível buscando aproveitar a modulação e os vãos de andaimes utilizados na estrutura de coberturas e do piso de eventos temporários no forte, já que a cidade contemporânea abriga e promove espaços e estruturas arquitetônicas pensadas com caráter efêmero  Sendo assim, o projeto arquitetônico procura encontrar formas constitutivas baseadas no movimento e na transitoriedade para dialogar de forma direta com a condicionante do tempo, próprio de eventos como no caso da Rio +20.

ImageImagem – http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/carla-juacaba-pavilhao-rio-janeiro-10-10-2012.html

O pavilhão como citado a cima, era uma estrutura temporária, e foi muito elogiado pelo fato de que a Rio +20 foi uma oportunidade importante para dar entrada a uma discussão global sobre o que está ou não está sendo feito para salvar a Terra de um desastre ambiental e, além disso, outro fato a ser citado foi a abertura que este pavilhão trouxe para retomar a importância de construções recicláveis, de baixo custo e facilmente desmontáveis, dando um caráter de racionalidade e movimento a obra.

O projeto começou a ser desenvolvido no final de novembro de 2011 e o tempo de montagem de toda a estrutura foi de três meses.O primeiro impacto dessa experiência foi o milagre da aparição de um etéreo edifício retangular de 170 x 40 x 20 metros, com múltiplos volumes suspensos no ar, flutuando sobre as sólidas construções do forte, e vê-lo desaparecer em menos de duas semanas. A segunda surpresa foi o enorme sucesso popular que levou mais de 200 mil pessoas a visitá-lo. E, por último, a inédita experiência vivenciada no pavilhão,  na alternância entre a circulação exterior nas rampas contínuas, delimitada pelos filtros metálicos da estrutura de andaimes, e o acesso ao misterioso e inesperado interior dos volumes expositivos. (Trecho de “Festivos andaimes cariocas” de Roberto Segre).

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                           Imagem retirada do site Vitruvius
 

  Visto de fora, a arquitetura no Brasil provoca fascínio pela dualidade e ambiguidade de estímulos. Como país de contradições e de extremos, é esta capacidade de viver e crescer numa aparente incoerência que o torna especial.

Conhecida e desconhecida, a criatividade brasileira atrai pela sua capacidade de renovar mantendo a tradição. Essa posição, progressista mas conservadora, retrata sua sociedade. E mostra que a permanente reinvenção nas artes e na vida acaba por ser o principal protocolo de trabalho, como se uma recriação das condições do Brasil moderno que permitiram o aparecimento do Manifesto antropófago reaparecesse quase um século depois, novamente tardia em relação ao resto do mundo globalizado. (Trecho de “Tupi or not tupi” de Carlos Pedro Sant’Ana).

Image Imagem – Revista Monolito n°11
 
O Pavilhão Humanidade, possuía  cinco camadas de estrutura de andaimes e uma malha metálica de aproximadamente 500 toneladas com uma aparência leve. O projeto contava com salas expositivas, salas de reuniões e eventos, área de alimentação e auditório com capacidade para aproximadamente 500 lugares. Já a cobertura dava para um terraço com uma vista panorâmica do entorno do lugar. As caixas expositivas tinham como função, unir as estruturas como se fossem nós e após o término do evento, todos materiais utilizados (andaimes, tapumes, moveis e até os resíduos gerados), foram reaproveitados, já que as arquitetas buscaram criar soluções inteligentes e rápidas para a montagem e desmontagem do projeto.
 
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                                     Imagem -Revista Monolito n° 11    
 
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http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/carla-juacaba-pavilhao-rio-janeiro-10-10-2012.html
 
CASA 4 X 30 – CR2 ARQUITETURA + FGMF ARQUITETOS – SÃO PAULO
 
Na mesma edição da revista, outra matéria interessante é o projeto da Casa 4 X 30 (2008/ 2011), realizada pelo escritório CR2 Arquitetura + FGMF Arquitetos em São Paulo.
 
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O casal de arquitetos Clara Reynaldo (CR2) e s Lourenço Gimenes (FGMF) , resolveram projetar sua própria casa. A história teve início mais como um desafio do que como um projeto de arquitetura, a casa está implantada em um lote de apenas quatro metros de frente por 30 metros de profundidade, localizada no bairro Jardim Europa.
Esta obra teve como desafio buscar encontrar soluções para ventilação e iluminação, já que o lote se encontra em um contexto residencial onde a maioria das casas são geminadas e tem em média 50 anos de idade, a solução para esse projeto veio a partir de inúmeras pesquisas e da tentativa de tentar solucionar e aproveitar ao máximo o pouco espaço de uma maneira inteligente e criativa, como vistas em casas japonesas e holandesas, A opção foi lançar mão de espaços integrados e eliminar outros considerados obrigatórios.
 
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Imagem – Revista Monolito n°11
 
A solução que o grupo de arquitetos adotou foi, demolir a construção existente e criar de alguma forma, um novo tipo de disposição interna, mas de modo que a ocupação original fosse mantida, ou seja, o perímetro do pátio teve que permanecer com os limites do quintal da casa que foi demolida. A busca por iluminação e ventilação naturais condicionou a ênfase no jardim central, recortado no volume construído de forma a criar três fachadas generosamente banhadas com luz natural.
 
 
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O pátio configura o bloco dividido em duas partes que são ligados por uma passarela se estende até a circulação dos quartos.  As salas de estar, jantar e cozinha que estão todas localizadas em um mesmo espaço e estão localizadas na parte térrea maior do volume frontal. Uma característica inovadora é o fato da cozinha estar rebaixada 75 cm, que além de aumentar o pé-direito, criando uma passagem “elevada”, de forma que a entrada da casa não desse diretamente  para a cozinha, mas por um eixo de circulação que se estendesse por toda a casa, de uma maneira clara. Outro aspecto interessante nesse projeto é a continuidade entre o nível da sala e a mesa de jantar, integrada à ilha com forno embutido, gerando uma visão diferente e inovadora da cozinha.Já no piso superior, há dois dormitórios, que estão abrigados em uma espécie de caixa revestida com materiais metálicos que possuem um balanço de um metro em relação a entrada e que se estende até um pouco antes do limite do vidro que define o pátio.Image

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Imagem – Revista Monolito n°11

O segundo bloco ( dos fundos) é um pouco menor em área entretanto, possui um piso a mais e conta com o escritório, serviços e a sala de TV que esta interligada ao deque da cobertura dos dormitórios, que por sua vez, funciona como uma espécie de solário e área técnica, onde estão instalados o aquecedor e o ar – condicionado.

EDIÇÃO – HABITAÇÃO SOCIAL EM SÃO PAULO

A Guerrilheira Urbana + Áreas Urbanas Criticas

  Na edição dedicada Habitação Social em São Paulo que evidencia um dos mais graves problemas da metrópole, a primeira reportagem mostra a rotina de Elisabete França que é responsável pela Secretaria na prefeitura de São Paulo (Sehab), e  que está há sete anos na “espinhosa trincheira de favelas, loteamentos ilegais, cortiços e áreas de mananciais” (revista Monolito, nº 7, A Guerrilheira Urbana, pág 19).

O sucesso de seu desempenho está baseado na combinação de um orçamento mais robusto, (cresceu 12 vezes em oito anos) antes de assumir o orçamento era de 150 milhões e hoje passa dos 1,8 bilhões.

Do orçamento da Secretaria de Habitação Social 50% está destinado a áreas de mananciais, 40% a urbanização de favelas e 10% a intervenção de loteamentos irregulares e uma metodologia de trabalho que, entre outras coisas, valoriza a atuação dos arquitetos e urbanistas, deixando de lado o projeto padrão e criando desenhos específicos para cada situação, para a construção de cidade e não unidades e mostra o urbanismo como potencial transformador, dando atenção especial ao espaço público.

Outro elemento abordado na metodologia da Sehab considera as bacias hidrográficas. Como metade da verba é destinada a áreas de mananciais, faz mais sentido que o trabalho seja estabelecido pelo desenho dos rios, e não por divisões geográficas artificiais.

ImageImagem – Revista Monolito n° 7 – Grajaú SP – Parque Cantinho do Céu – Aos arredores da Represa Billings

Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo hoje vivem em favelas, e a expectativa e que esse número gire em torno de 1,5 bi nos próximos 50 anos, no Brasil é estimado que 11 milhões de pessoas moram em ocupações informais, e só na cidade de São Paulo são mais de 3 milhões espalhadas em quase 1.000 favelas. Segundo dados da ONU o número de favelados cresce 25 milhões anualmente em todo o mundo.

Esses assentamentos informais tornaram–se parte do ambiente urbano, e suas dimensões tanto demográfica quanto físicas, cada vez maiores e amorfas, não permitem que essas áreas sejam esquecidas ou ocultadas aos olhos da sociedade, como tanto tentou-se fazer através de projetos sociais eleitoreiros que simplesmente projetavam prédios “pombais”, precários e insuficientes, que escondem uma incompetência técnica para enfrentar a complexidade do assunto e para encobrir as favelas que continuavam logo atrás, tentando amenizar a evidência do desajuste ou sumindo com elas da paisagem , do que alguns julgavam ser quase como uma manifestação de um tumor espontâneo e involuntário nas cidades contemporâneas, que surgem e tomam mais e mais o espaço urbano.

“A mudança foi divorciada da ideia de melhoria. Não há progresso.” (Koolhas, Junkspace, 2001).

Com esse crescimento, crescem também as demandas e necessidades de infraestrutura básica – ruas, esgotos, operações urbanas, segurança, saúde, espaços públicos, tudo o que a cidade oferece a outras áreas, talvez de maior interesse econômico.

E necessário que se pense nessas cidades informais como elemento de potencial, que possa ser transformador e não que devam ser suprimidas ou erradicadas, como o paradigma moderno dita, que promove o sentimento de exclusão.

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Imagem – Revista Monolito n° 7 – Foto por Fabio Kinoll

“A transparência só revela tudo aquilo que você não pode participar”. (Koolhas, Junkspace, 2001)

Favelas tem de ser algo a ser transformado e não destruído, a transformação sem destruição, processo de restituição da urbanidade e não da substituição da condição atual (desenvolvimento x degeneração).

“É difícil descobrir quais as ações próprias e impróprias a serem operadas sobre essas configurações que denominamos áreas urbanas críticas; é difícil encontrar padrões e regras por trás dessa realidade. No entanto, podemos intuir que existe uma lógica nas configurações de ocupação, resultado da transposição dos lugares de origem, da topografia, da necessidade, universo do qual há de se fazer a triagem e descarte das patologias.

É paradoxal que um país como o Brasil, com tantas urgências habitacionais, possivelmente a maior aceleração na formação de territórios urbanos, tenha poucos exemplos destacados sobre essa problemática.” (trecho de Áreas urbanas críticas, de Héctor Vigliecca).

As cidades precisam ser pensadas, projetadas e construídas  em escala humana.

Se alguém tem direito a arquitetura e ao desenho urbano, são precisamente as classes menos privilegiadas, sediadas em áreas excluídas de toda urbanização, a disjunção permanente, e não a miséria como um paradigma a ser promovido, o produto da pobreza como modelo.

É necessário que a discussão da habitação de interesse social, digno, não seja de quantidade, custo ou tecnologia, o objetivo final deve ser sempre a construção da cidade, é fundamentalmente um problema político e de projeto.

“É preciso entender que a cidade não é um amontoado de prédios, o que lhe dá alma são os espaços públicos, em quantidade e qualidade, através dos quais podemos dimensionar a democracia de uma sociedade.” – Norma Lacerda, urbanista.

Espaço Lixo é o corpo duplo no espaço, um território de deficiência visual, a expetativa limitada, seriedade reduzida. Confunde intensão com a realização. Ele substitui hierarquia com acúmulo, composição com adição. Mais e mais, mais é mais. (Koolhas, Junkspace, 2001).

Renova SP

Um terço da revista é dedicado ao concurso Renova SP que ocorreu em 2011.

Este concurso teve como principal objetivo a contratação de projetos de arquitetura e urbanismo para 22 perímetros de ação integrada da cidade de São Paulo, o projeto busca a democratização e agiliza a contratação na reurbanização dessas áreas de tensão na cidade. Os participantes apresentaram  projetos, tendo em vista a eliminação de áreas de risco, a implantação de infraestrutura urbana, drenagem, construção de espaços públicos e de novas unidades habitacionais, para que esses locais se transformem em novos bairros da cidade.

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Imagem – Site Renova SP

PROJETO JARDIM EDITE

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Projeto desenvolvido pelos escritórios MMBB + HF Arquitetos. O conjunto está localizado em uma região de edifícios de negócios na equina das Avenidas Engenheiro Luis Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho – uma das mais valorizadas áreas da cidade.

Implantado em uma pequena porção da favela que se esparramava ao longo da várzea do córrego Água Espraiada. Ocupação essa iniciada há meio século.

O programa do conjunto, atualmente em construção, tem área total construída de 25.700 m2, e conta com 252 unidades habitacionais (50 m2), um restaurante escola de (850 m2), creche (1400 m2) e UBS (1300 m2).

Dividido em duas glebas, que possuem base com serviços, áreas comunitárias, edifícios com apartamentos e o térreo praticamente público.  Para reforçar o uso público do térreo e diminuir as contas de condomínio, não há espaços remanescentes de recuos obrigatórios entre a calçada e a construção, os espaços sendo dessa maneira configurado pelo próprio volume da construção.

Conjunto que abriga as unidades são divididos entre lâminas e torres. A lâmina, que não possui elevador, possuem quatro pavimentos tipo, já as torres que contam com elevadores, apresentam 16 andares, cada um com quatro apartamentos interligados por uma generosa circulação que tem objetivo de funcionar como uma extensão de moradia.

A ausência do gradil, os recuos incorporados das calçadas e a implantação dos serviços públicos fazem parte das séries de estratégias de desenhos para que o conjunto habitacional se diferencie dos projetos existentes, atendendo a necessidade social e mantendo o desenho do projeto.

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REFERÊNCIAS:

– Revista Monolito 7 – Habitação Social em SP

– Revista Monolito 11- Jovens Arquitetos

– Revista Serrote, 9

– Rem Koolhas – Junkspace, 2011

– Jacobs, Jane, Morte e Vida de Grandes Cidadaes

– Site Renova SP

– Site MMBB

– Site Macroeconomiabrasileira.blogspot.com.br

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