Revista Arquitectura Viva

– POR JÚLIA DARAYA E LETICIA DE NOBREGA

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Arquitectura Viva é uma revista espanhola, com sua primeira edição publicada em 1988. Desde sua criação até 1993 era completamente escrita em sua língua nativa – o castelhano. A partir desta data, foi introduzido o índice bilíngue e algumas páginas ao final contendo o resumo da edição em inglês. Mas só isto não bastava. Em 2011, essas últimas páginas foram excluídas das novas publicações, por não serem consideradas satisfatórias. Precisavam ir além. Era necessário que todas as matérias atingissem um maior número de leitores, a fim de propagar informação ao redor do mundo e para isso era necessário  uma transformação na revista,  para uma maior compreensão do público em geral, mundial. Assim, a partir de 2013, a revista se torna bilíngue por completo.

Arquitectura Viva possui um site na Web, onde publica por vezes informações extra de certas matérias e assuntos, “já que os tempo da impressão não estão acompanhando  a urgência da atualidade”. Ao mesmo tempo em que se torna bilíngue a revista passa também de bimestral a mensal, com o intuito de fornecer informações mais rapidamente – acompanhando o mundo contemporâneo. Os preços variam de 15 a 18 euros para a versão impressa e de 8,99 euros aproximadamente para a versão digital, disponível em PDF ou na loja digital da Apple (Arch Papers).

Possui também outras duas publicações: AV Monografias e a AV Proyectos. A primeira, como o próprio nome diz, fala sobre um tema monotemático e específico, aprofundando melhor cada assunto publicado. A segunda, AV Proyectos, publica e comenta projetos mais detalhadamente. Como não tivemos acesso a nenhuma dessas edições “AV”, baseamos nossa análise apenas nas revistas propriamente ditas.

EDIÇÃO DA REVISTA

Diretor Luis Fernández-Galiano

Co-Director José Jaime S. Yuste

Layout/Editorial Cuca Flores, Luis Játiva, Raquel Congosto, Laura Fernández, Eduardo Prieto, Lys Villalba, Pablo del Ser, Maite Báguena e David Cárdenas

Coordenação Laura Mulas e Gina Cariño

Produção Laura González e Jesús Pascual

Administração Francisco Soler

Assinaturas Lola González

Distribuição Mar Rodríguez

Publicidade Cecilia Rodríguez e Raquel Vázquez

ESTRUTURA

A revista abrange assuntos em três grandes temáticas, de certa forma interligadas: arquitetura (projetos propriamente ditos), arte/cultura e técnica/construção.

Uma das edições que escolhemos é justamente a edição de transição para a nova fase bilíngue e mensal. A revista achou apropriado marcar estas mudanças com uma seleção de projetos que também tratassem de transformação (intervenções).

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 148ª edição, Janeiro de 2013 

Exemplo de índice:  Na parte exclusivamente projetual tudo foi muito bem pensado e há analogias tanto dos projetos com o momento de transição em que a resista está passando quanto com o momento contemporâneo em que o mundo se encontra. Entre 3 subdivisões, foram escolhidos 18 projetos  espanhóis a serem tratados:

  • História Recontruída – “Os tempos de crise econômica são também tempos de crise ideológica. Hoje, depois da hipertrofia urbanizadora, uma nova perspectiva encontra na reutilização dos edifícios um campo para a arquitetura”. Sendo assim, são separadas 6 intervenções e/ou restauração de edifícios patrimoniais espanhóis.
  • A outra vida das fábricas – Este segundo também é formado por mais 6 projetos que transformam e qualificam edifícios industriais antigos.

Materiais e tipos – No último grupo estão outros 6 projetos de menores dimensões, chegando a ser escalas até domésticas, que também se atendo ao território espanhol, focando nos materiais, esquemas tipológicos e formais dos edifícios das intervenções.

ANÁLISE

A revista tem uma proposta interessante e bem sintonizada com o mundo em que vivemos. É de fácil leitura, possui pouca propaganda e não trata somente de assuntos de arquitetura propriamente dita – possui textos sobre assuntos diversos que dizem respeito ao mundo contemporâneo no geral e sua história, englobando arte e cultura, o que achamos de extremo bom gosto e inteligência, pois um leitor de arquitetura e/ou arquiteto necessita de repertório e de entendimento do mundo como um todo e das coisas ao seu redor. Expõe diferentes opiniões, fazendo com que os leitores possam se tornar seres críticos e pensantes ao ler uma reportagem ou até mesmo uma charge, conhecida como “historietas”.

No inicio de cada edição, o diretor Luis Fernández-Galiano dá uma introdução ao tema que será abordado na revista, com seus pareceres individuais. Estão presentes no início também os “breves internacionais” que consistem em pequenos parágrafos com uma ilustração apenas, a fim de sintonizar o leitor, sinteticamente, com o que está acontecendo no mundo. Funciona basicamente para despertar a curiosidade, fornecendo apenas o mínimo de informações sobre os temas. O mesmo processo se dá nos breves de livros: para todas as indicações de leitura da revista existe uma resenha da temática tratada e sua relevância para os arquitetos. Ao final das edições há um espaço reservado às inovações presentes no mundo, tanto tecnológicas, quanto de materiais, entre outras.

LINHA DE RACIOCÍNIO

Procurando uma linha de raciocínio entre as edições recentes de Arquitectura Viva, notamos que as últimas publicações ressaltam muito a mudança constante da arquitetura no mundo.  Assim, escolhemos quatro matérias que tem transformação em sua essência, em três escalas diferentes e com propostas diversas. Com esse foco essencial em transformação, podemos também traçar uma ligação com as recentes mudanças que a revista sofreu.

“A arquitetura é um espaço sem tempo no qual se une a realidade com o sonho, e o presente com o passado.” – Paisajes oníricos – edição 145.

As duas primeiras matérias tratam de arquitetura efêmera, assunto o qual vem sendo cada vez mais relevante e recorrente nos dias de hoje. Tratam, portanto, sobre projetos de menor escala, que podem influenciar e revitalizar certos locais. O efêmero arquitetônico tem princípios baseados em sua capacidade móvel e temporal, sendo intervenções, edificações ou até mesmo esculturas arquitetônicas, capazes de ser desmontadas e remontadas  com agilidade e, sempre que possível, sem produção de resíduos.  Podem ter também, como nos pavilhões do Serpentine Gallery, por exemplo, funções experimentais além de se basear em conceitos de interação e participação social.

Da edição 141 Espacios Efímeros: entre La celebración e la inovación

  • Intimidad transitória: sistemas de alojamentos evacuados no Japão
  • Aldea vertical: projeto Open House, Anyang, Corea do Sul

Da edição 148 Transformaciones – The second life of buildings, extraímos a terceira matéria, que trata sobre um intervenção em um edifício arquitetônico, com conceito muito diferente em essência do que era em 1750 para sua transformação em 2009.

  • Faculdade de Ciencias da Empresa e Museu Naval:  Cartagena

Da edição 145 Colectivos españoles – Nuevas formas de trabajo: redes y plataformas, selecionamos um texto que diz respeito à transformação em escala global – o capitalismo e como ele vem influenciando o pensamento das pessoas nos dias de hoje.

Delírios capitalistas: Miguel de Brieva

MATÉRIAS

  1. Edição 141 – Espaços efêmeros: entre a celebração e a inovação

INTIMIDADE TRANSITÓRIA: SISTEMA DE ALOJAMENTO PARA EVACUADOS, JAPÃO

Com o terremoto e o tsunami ocorridos no Japão em 2011, a maioria das 600.000 pessoas afetadas pela catástrofe tiveram que ser evacuadas de suas casas que estavam inacessíveis e destruídas. Diversas dessas pessoas ficaram hospedadas em espaços públicos como ginásios, que se tornaram seus lares por um grande período de tempo.

Era necessário que, quando as necessidades de alimentação e higiene já estivessem resolvidas, essas pessoas, que foram atendidas pelas autoridades, tivessem o mínimo de condições de privacidade. Para solucionar esse problema, o arquiteto Shigeru Ban criou um sistema de divisão de interiores, onde várias superfícies  separavam os núcleos familiares dentro dos ginásios lotados, permitindo com que essas pessoas pudessem conviver ao mesmo tempo em que tivessem sua intimidade.

O sistema de divisões era construído com tubos de papelão de 180 centímetros de comprimento que se apoiavam no chão e funcionavam como um quadro onde eram colocadas as lonas que dividiam as células. Essas células eram configuradas conforme as necessidades de cada família, em função da quantidade de pessoas que cada uma delas possuía.

Projetado para ser construída por voluntários ou pelas próprias pessoas que lá habitariam durante certo período, a intervenção é uma estrutura versátil e seus materiais podem ser reciclados após a estrutura cumprir a sua função. Deveriam ser materiais acessíveis que demorassem no máximo uma semana para chegar ao local de necessidade. Foram instaladas 1.800 unidades com esse sistema em mais de 50 ginásios e refúgios temporais distribuídos pelo Japão.

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2. Edição 141 – Espaços efêmeros: entre a celebração e a inovação

ALDEIA VERTICAL: PROJETO OPEN HOUSE, CORÉIA DO SUL

Com o principio de ser uma “aldeia vertical”, a Open House foi instalada durante vários meses na cidade de Anyang, na Coreia do Sul,  no contexto do festival de arte pública APAP, celebrado em 2010. A proposta tinha a intenção de questionar os princípios do urbanismo convencional, baseado em um crescimento rápido e desordenado.

A intervenção foi resultado de um processo aberto e participativo, desenvolvido em duas etapas: em primeiro lugar foram feitas entrevistas com a população a fim de analisar as necessidades e as opiniões dos cidadãos locais, que desfrutariam do programa. Perguntas foram feitas sobre quais implantações arquitetônicas poderiam ser mais adequadas. A segunda etapa foi o desenho e a própria construção de um edifício temporal – uma construção efêmera.

Com base na entrevista realizada com os moradores da região, um mapeamento das preferências e ideias referenciais foi executado, colocando as ideias em comum em evidência e levando em consideração as condições urbanísticas do entorno. Para a construção da instalação se organizou uma oficina aberta que acabou contando com a colaboração de mais de 200 pessoas de diferentes condições ao longo do verão de 2010. Essas pessoas, alem de construir algumas pecas fundamentais da aldeia como, por exemplo, um bar, um pavilhão de chá e uma pequena oficina de gestão imobiliária, se dividiram em equipes e também projetaram outras peças, como um quiosque, um pavilhão de jogos, um de exposições e um “invernadero”.

A aldeia consistia em 20 módulos de madeira que se empilhavam em 7 plataformas de uma torre com 17m de altura, concebida como uma grande escultura urbana.

 

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3. Edição 148 – Transformações – A segunda vida dos edifícios

FACULDADE DE CIENCIAS DA EMPRESA E MUSEU NAVAL

A Faculdade de Ciências da Empresa e Museu Naval em Cartagena, Espanha, foi o projeto que achamos que melhor representa as transformações das quais queremos focar o nosso estudo. O espaço que atualmente abriga a Faculdade e o Museu Naval da cidade passou por vários processos de transformações.

Em 1750, este mesmo espaço, que hoje serve para educar, já serviu para abrigar 5.200 homens, onde 3.000 desses faziam trabalhos forçados. Dentre eles estavam artesões, peões e aprendizes e, por ser considerado um espaço de péssima conservação, foi transformado, por decisão real, em prisão. Este quartel de presidiários e escravos, uma prisão de penas aflitivas e cárcere militar da marina, passou a ser, em 1946, um quartel de instrução da marinha e funcionou até 1998.

Em 2009, o edifício passa a abrigar a Faculdade de Ciências da Empresa e o Museu Naval, que sofreram reformas para que hoje pudesse cumprir a função educacional. As salas, que antes abrigavam presos e escravos, viraram modernas salas de aula, que se encontram no entrono do pátio central. Este, que antigamente era aberto, agora possui uma cobertura que proporciona aos usuários do espaço um lugar de convivência, o que antes não era possível por ser considerado inóspito pelo calor que ali fazia.

COMENTÁRIOS DA MATÉRIA

Foi possível perceber que apesar de ser indicado no índice que apenas a última parte é dedicada à detalhes de materiais e técnicas construtivas, não houve um aprofundamento por parte da revista em relação as questões projetuais: não há implantação, apenas cortes e plantas, o que dificulta o entendimento do contexto do projeto.

A revista dá as ferramentas necessárias para você pesquisar sobre o projeto e enriquecer seu repertório. No entanto, procuramos e não obtivemos sucesso em encontrar mais referências – a matéria acabou decepcionando um pouco apesar de seu conceito interessante, motivo pelo qual a escolhemos para abordar em nossa análise.

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O local, anteriormente de exclusão social passa, depois da intervenção, a ser um local de inclusão social:  “O edifício construído para disciplinar e humilhar o homem em cativeiro foi modificado para educá-lo em liberdade” 

4. Edição 145 – Coletivos espanhóis – Novas formas de trabalho: redes e plataformas

DELÍRIOS CAPITALISTAS

A matéria Delírios Capitalistas que esta contida na edição 145, escrita por Rafael Vetusto, trata das charges do desenhista e escritor espanhol Miguel de Brieva, que critica a sociedade em que vivemos.

O sistema capitalista está cheio de imagens que descrevem a desaparição do planeta ou da vida humana na Terra. Parece muito difícil para a cultura ocidental aceitar um fato muito mais simples: o desaparecimento do próprio capitalismo. O sistema se crê eterno e nessa crença está a sua justificativa.

SÁTIRAS URBANAS

Nossa geração é a primeira a presenciar a população urbana da Terra ultrapassar em número a população rural. A quantidade de pessoas morando em cidades urbanas hoje em dia já supera a população mundial de 1960.

Um terço dessa população que sobrevive em cidades vive na miséria. Todo o crescimento futuro da população mundial ocorrerá nas cidades, sobretudo nas periferias/suburbios.

A cidade deixa de ser resultado de um largo processo histórico vinculado a uma cultura e passa a crescer de forma descontrolada. Desta situação urbana, Miguel de Brieva extrai suas imagens divertidas, porém criticas.

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Nos desenhos da cidade de Brieva as pessoas moram em casas invisíveis porque são promocionais e mais difíceis de roubar, são uma tecnologia de ponta.

A população caminha sem se deter a nada porque nas suas praças não há bancos para sentar. O “campo”, aquilo que se situa mais adiante na cidade não é mais nem sequer uma paisagem e sim um provedor agroindustrial, suscetível a ser asfaltado. A publicidade é o símbolo e o motor da produção de inutilidades a que se aplicam as pessoas do universo de Brieva. Uma cultura de resíduos expressa incansávelmente, começando pela televisão familiar, o que ele define como “aparato para cujo alojamento se controem as casas”.

“As casas são construídas para alojar dentro delas uma televisão assim como a cidade é edificada para acomodar os carros”

  • CASA  →  TV
  • CIDADE → CARRO
  • PESSOAS ?

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O ultimo volume editado de Miguel Brieva, Memorias de la Tierra, faz crítica à sociedade do consumo e ao seu cenário natural – a cidade contemporânea, além de um argumento contra a desvalorização e a falta de sentido das coisas.

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COMPARAÇÃO

Na mais recente edição de Arquitectura Viva, notamos ainda mais transformações. Todos os projetos abordados na revista tem a profundidade necessária para seu entendimento e mais fotos do que nas edições anteriores. A revista está reformulada. Críticas más, praticamente não cabem em suas páginas reformuladas. Escolhemos uma reportagem nova para comparar com uma de uma edição um pouco mais antiga, para ilustrar essa modificação: Celosías cívicas – Mercado central de Abu Dabi nos Emirados árabes por Norman Foster, da edição 147 e o novo espaço islâmico no Museu do Louvre em Paris.

Apesar dos contextos e assuntos serem sempre muito interessantes e abrangentes, sentíamos falta de algumas plantas com escalas mais claras ou de implantações que esclarecessem mais o programa do projetos. A nosso ver, anteriormente a revista não  deixava muito a desejar, mas sim com “gostinho de quero mais” por estar, por vezes, com menos informações do que desejaríamos. Nesta nova edição, porém,  não há projetos que careçam de muitas informações.

5 . Edição 147 – Lo común: de la austeridad a la solidaridad

GRADES CÍVICAS: MERCADO DE ABU DABI (EMIRADOS ÁRABES)

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Apesar de haver cortes e plantas na matéria, a escala gráfica é de difícil leitura e compreensão. Pela dimensão do projeto, os desenhos necessitariam ser muito maiores e uma planta precisaria de uma página inteira para entendimento da escala humana e dos detalhes.

6. Edição 149 – Francia al frente

VELO DORADO: BELLINI & RICCIOTTI, LOUVRE DEPT. OF ISLAMIC ART

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Pegamos o exemplo da matéria da edição 149, que apresenta o projeto que foi feito no Museu do Louvre, França, para mostrar o quanto a revista evoluiu na  apresentação de projetos em questão de 1 mês, ela apresenta detalhes construtivos, conceitos do projeto, plantas e cortes, reservando um espaço muito maior para cada tema apresentado.

REVISTAS ANALISADAS

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COMENTÁRIO FINAL

Adoramos a revista como um todo. Muito bem estruturada, assuntos interessantíssimos e com um layout muito claro e agradável.

Recomendamos a leitura!

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