The Architectural Review – Por Diogo Nóbrega e Stéphanie Rosemberg

 

 

SOBRE A THE ARCHITECTURAL REVIEW
The Architectural Review foi fundada em 1896. Caracteriza-se como revista internacional de arquitetura, e é publicada mensalmente em Londres.

A REVISTA E SUA HISTÓRIA
(Resumo do texto presente em http://www.architectural-review.com/story.aspx?storyCode=8603298)

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A capa da primeira edição trazia a legenda “uma revista para o artista e o artesão”. Neste primeiro momento, as discussões da revista mantinham-se no movimento Arts and Crafts, ditado principalmente por John Ruskin e AWN Pugin, e focava em formar sua área de interesse na arquitetura visual e verbal.
Com o zeitgeist, a revista foi direcionando-se à arquitetura clássica, consciente do agitado desenvolvimento internacional. A partir de então, se estabelece claramente a intenção de se formar uma revista cujos ideais se baseiam em tratar do lado artístico separadamente dos negócios.
Em sua primeira década, é publicado The Practical Exemplar of Architecture, que se destinava a fornecer aos arquitetos padrões universais, com fotografias e desenhos técnicos, ilustrando os vários estilos arquitetônicos da época.
Seu relançamento em 1913 realizou-se afim de aproveitar os avanços na qualidade da reprodução fotográfica, anunciando um formato novo e luxuoso, com fotografias de página inteira, expondo grandes obras.
Durante a Primeira Guerra Mundial, a AR colocou-se na tarefa de documentar a pior destruição na França e na Bélgica, e foi escolhida pelo governo para ser a editora oficial de fotos coloridas das decorações de Londres para as celebrações de paz em 1919.
Os anos 1920 e 1930 trouxeram à AR um envolvimento mais ativo com novos movimentos arquitetônicos. Inclusive, foi na AR que Nikolaus Pevsner, o famoso historicista alemão de arte e arquitetura, começou sua ilustre carreira.
Nos anos do pós-guerra Pevsner foi sucedido pelo jovem Colin Rowe, que fez contribuições memoráveis para a revista.
Na década de 1950, a AR testemunhou uma reorientação de arquitetos britânicos que passam a voltar seus esforços para a reconstrução em meio às conseqüências da Segunda Guerra, além de acompanhar o auge do modernismo.
A década de 1960 é marcada por um debate sobre os problemas da Grã-Bretanha, levando a revista à um reposicionamento polêmico para a época, que se traduz na série The Manplan, ambiciosamente estabelecendo uma correção de tais “males” com sugestões de soluções a partir de uma enorme cobertura fotográfica dos mesmos.
Durante os anos 70, a AR desceu em um estado de crise de auto-crítica típica do fim do modernismo e agravada por suas pretensões de ser um registro simples e não um porta-voz do avant-garde.
Na década de 1980 a revista recupera seu foco com Peter Davey, mudando para um formato temático, em que os edifícios foram agrupados por função ou idéia. Foi durante este período que a AR recupera a sua superioridade intelectual e visual, com edições especiais sobre o meio ambiente, paisagem, arte e ecologia, e arquitetura e clima, o que indica um compromisso profético com as questões ambientais.
Já no final do século, com a profundidade da discussão dada aos edifícios (como com Lloyd em Londres ou as sedes do Hongkong and Shanghai Bank em Hongkong) fez-se claro de que Rogers, Foster, e os “comandantes” da High Tech passaram a marcar forte representação para o período.

A AR Hoje
Já passada mais de uma década do novo século, a AR, ao se encontrar em meio a um reino de parametricismo, pluralismo e plágio, permanece cética em relação às modas e tendências, acreditando ser a arquitetura, em sua essência, uma arte socialmente responsável.
Como em todos os meios de comunicação, torna-se impossível dizer até que ponto a AR tem relatado com precisão as preocupações e ideais das várias gerações, e até que ponto se definiu e se formou estas. No entanto, apesar de ao longo do tempo observar-se mudanças no formato, design, e pessoal, a AR ainda mantém sua base na continuidade, e em suas raízes históricas.

ESTRUTURA
Capa (set/2012 – China Issue e dez/2012 – Emerging Architecture, respectivamente):

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Editorial View– Nesta parte encontra-se uma breve apresentação do Editor chefe sobre os temas abordados na revista.
Overview– Nessas páginas encontram-se visões gerais ligadas ao mundo da arquitetura, ao seu contexto e aos temas propostos na edição.
Após estas duas primeiras partes, há basicamente um padrão de apresentação da edição, com pouca variedade em sua forma, primeiramente com a exposição de pontos de vista de grandes nomes da arquitetura, da arte e do urbanismo (Viewpoints), seguida eventualmente por alguma matéria relacionada, ou ao design (Design review), ou à algum futuro evento de interesse (Preview), ou ainda à algum evento de interesse já ocorrido (Review). Além disso, todas as revistas exibem uma parte direcionada à apresentação de sua visão sobre algum lugar do planeta (View from) e termina com comentários de leitores (Your Views).
Depois desta primeira parte, seguem-se as matérias principais. Os temas são diversificados e abrangentes, porém sempre dentro do tema principal que a edição escolheu para o mês.
Em sequência às matérias principais, há a parte final da revista também de forma padronizada, muitas vezes com a apresentação de algum tema abordado pela campanha “The big rethink”, seguido pelos tópicos de fundo mais teórico e didático de nome Reviews, Pedagogy, Reputations, e Folio.
Reviews é uma parte mais cultural, que apresenta e recomenda desde conceitos, livros, exposições, até a exploração de novos ideais, etc.
Pedagogy é onde a revista dedica sua atenção ao ensino, focando em universidades de características singulares ao redor do mundo, expondo, além de entrevistas com professores de arquitetura e urbanismo, sua história e seu impacto em relação aos alunos e à cidade.
Reputations é onde grandes nomes da arquitetura são lembrados ou celebrados com uma matéria exclusiva normalmente de duas páginas.
Folio é a parte da revista onde eventualmente se homenageia alguma personalidade de destaque no mês, apenas com a apresentação de alguma imagem de sua obra, e por vezes com uma breve explicação desta.

DESTAQUES
1. THE BIG RETHINK (Tradução: O grande repensar; Autor: Peter Buchanan)
“Em resposta às atuais crises ecológicas e econômicas globais, este parece ser um momento oportuno para rever todos os aspectos da arquitetura e catalisar novas abordagens culturais e intelectuais para as questões de sustentabilidade, urbanismo e educação. […]” (Fonte: site http://www.architectural-review.com/home/the-big-rethink/)
Assim a AR publica desde janeiro de 2012, ensaios sobre vários temas de preocupação crítica com o objetivo de estimular um novo pensamento e debate.
ALGUNS TEMAS TRATADOS PELO “THE BIG RETHINK” EM 2012:
Spiral Dynamics and Cultural Evolution (Dinâmica Espiral e Evolução Cultural)
Propõe uma teoria que ressalta a narrativa ainda em desenvolvimento da evolução humana, analisando a complexa interação entre cultura e sociedade, de modo que se considere a forma como se vive e, fundamentalmente, como se pode viver, tornando os indivíduos mais engajados tanto uns com os outros, quanto com o mundo. (AR, vol. 232, nº 1390, dez/2012)
Architectural education: a more fully human paradigm (A educação arquitetônica: um paradigma mais plenamente humano)
Propõe uma educação arquitetônica radicalmente reconsiderada que passe a envolver o homem com a sociedade e a cultura, de forma que interaja com a atual e crítica realidade. (AR, vol. 232, nº 1388, out/2012)
– Lessons from Peter Zumthor and Other Living Masters (Lições de Peter Zumthor e outros mestres vivos)
– Learning from Four Modern Masters (Aprendendo com quatro Mestres modernos)
– Place and Aliveness: Pattern, Play and The Planet (Lugar e vivência: Padrão, situação e o planeta)
– Transcend and Include The Past (Transcender e incluir o Passado)
– The Purposes of Architecture (Os propósitos de Arquitetura)

2. AR v. 095, nº 567, Março 1944

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Capa da AR, vol. 095, nº 567, mar. 1944. Especial Brasil.

Edição especial de 1944, com o texto “The architects and the modern scene” de Kidder-Smith (complementado em 1950 por P.J. Marshall com o texto “South America Scrapbook”, In: Architectural Review, vol 107, nº 638, e em 1954 pelas críticas dos arquitetos Max Bill – cuja crítica, de caráter negativo, foi a mais polêmica – , o alemão Walter Gropius – crítica precedida de publicação no mesmo ano e de mesma autoria na revista Habitat – e sua mulher Ilse Gropius, o italiano Ernesto Nathan Rogers, o japonês Hiroshi Ohye e o inglês Peter Craymer) sobre o Brasil e sua imagem historiográfica da arquitetura moderna, difundida internacionalmente, principalmente nas décadas de 40 e 50, posteriormente recebendo importantes contribuições até a década de 80, e seguindo com novos debates a partir de novas interpretações.
Além da AR, revistas como L’Architecture d’Aujourd’hui, The Architectural Forum e Casabella também participam desta primeira exposição do Brasil e sua relação com o movimento moderno, porém, tais primeiros documentos de difusão ainda correspondem à uma fase de “cegueira inicial”, onde nem obras, tampouco protagonistas dessa história haviam sido eleitos. Contudo, abre-se portas à novos debates para a arquitetura brasileira desde então.

3. AR + d AWARDS
ARQUITETURA EMERGENTE E A RESILIÊNCIA CRIATIVA –
O prêmio AR+d (THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1390 – DECEMBER 2012)
O AR + d Awards foi fundado pela The Architectural Review no ano de 1999, e oferece a jovens arquitetos (de idade abaixo de 45 anos) a oportunidade de situar sua obra em um cenário internacional, e vale para os diferentes campos de desenho como arquitetura, urbanismo, paisagismo, etc. Todos os projetos passam por jurado internacional, e os vencedores têm seus projetos publicados na revista.
Envolvendo-se com uma geração emergente de arquitetos, o Prêmio AR + d capturou um espírito de resistência/superação criativa e apresentou uma perspectiva única sobre as preocupações críticas que irão moldar o futuro da arquitetura.
Na edição de dezembro de 2012, a The Architectural Review celebrou o trabalho premiado de quatro grupos vencedores do Ar + d Awards for Emerging Architecture do mesmo ano.
Em júri, concordou-se sobre a importância de certos critérios-chave como conexão, o uso adequado de materiais e tecnologia, o cultivo de responsabilidade ambiental e social e um compromisso com a noção de que arquitetura deve ser propositiva, moldando novas idéias sobre o ambiente construído e sua relação com o resto do mundo. Apenas projetos já construídos são elegíveis para que não se limite a arquitetura à teoria e à informação, contextualizando-a na prática.
Com diversos contextos e perspectivas, os vencedores representam Japão, Espanha, Bangladesh e Canadá.
JAPÃO – Em Hiroshima, Hiroshi Nakamura propõe uma habitação urbana de blocos de vidro, explorando o potencial dos materiais de transmutar o espaço e luz.

OPTICAL GLASS HOUSE

Detalhe da parede de vidro

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Fabricados a partir de 6000 blocos longos e finos, a enorme parede de vidro forma um véu brilhante, que seleciona as distrações da cidade e anexa um jardim no coração da casa

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A parede de vidro projeta sombras por toda a casa

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. Os blocos são feitos de vidro de borossilicato, normalmente utilizado na fabricação de instrumentos ópticos. O vidro retém pequenas irregularidades, que produzem efeitos visuais inesperados.

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Outros projetos vencedores:

ESPANHA – Em Madrid, Langarita-Navarro Arquitectos reutilizam criativamente o casco de um antigo matadouro para um novo cenário vibrante para fazer música e peformances.
RED BULL MUSIC ACADEMY

BANGLADESH – No delta do Ganges, o Centro de Amizade de Kashef Chowdhury sintetiza as formas e materiais para uma autêntica arquitetura moderna, regional.
THE FRIENDSHIP CENTRE – URBANA

CANADÁ – Em Winnipeg, 5468796 Architects reiniciam um programa genérico para habitação social em algo mais formal e experimentalmente complexo.
BLOC 10 HOUSING

 

THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1387 – SEPTEMBER 2012
CHINA SPECIAL ISSUE | GHOST TOWNS | THE GREEN DELUSION | MAD | MODERNISING
O progresso de uma superpotência emergente relacionado à passagem do maior projeto de urbanização na história da humanidade
Ao longo dos últimos 10 anos, a China emergiu como a segunda maior economia do mundo, e hoje caracteriza-se como o maior importador do mundo e maior exportador, além de ser o maior detentor de reservas internacionais.
Porém, não se pode empolgar demais com a ascensão da China como o flip-side do colapso ocidental, pois quando a esquerda-liberal perde a confiança no capitalismo e democracia, observa-se uma tendência a ver a salvação nos ‘milagres’ do Estado autoritário. Os artigos desta edição destinam-se à percepção de desafio – da China e de nós mesmos – porque o debate contemporâneo sobre a China muitas vezes diz mais sobre “nós” do que sobre “eles”.
Embora a questão das condições precárias de vida seja uma realidade cotidiana para um país ainda emergente de uma economia agrária, o fato de que 400 milhões de pessoas saírem da pobreza nos últimos 20 anos é algo a ser comemorado, pois esta é a maior transformação social na história humana. Mas as desigualdades sociais existentes são contraditórias, talvez provenientes de um sinal de sucesso de transição social.
Esta edição do The Architectural Review propôs examinar algumas das questões fundamentais – a partir de programa de construção pública da China para seu sistema de ensino, a partir de sua velocidade de desenvolvimento de seus impactos ambientais, a partir de suas ambições modernas para sua construção tradicional e colocá-las no contexto .
Pela falta de um plano diretor, o êxodo da população do campo acabou por superlotar as cidades.
Assim, o governo interviu de forma inovadora. Começou a se construir cidades, e quando se fala cidades, trata-se de uma questão de capacidade para mais de 10 Milhões de habitantes. Só que ainda nem todas foram ocupadas, muitas permanecem vazias, caracterizando-se, portanto, nas famosas cidades fantasmas que já correram o mundo nas notícias (existem atualmente 64 Milhões de casas disponíveis). Entretanto, estabelece-se um sentindo nesta situação. Mesmo que não sejam ocupadas agora, futuramente atenderão às necessidades do país, visto que o êxodo do campo para a cidade ainda não terminou. Ainda é possível afirmar que para a China compor uma imagem de igualdade social e econômica, o caminho a percorrer é grande.
Mas será que com toda esta construção algo em termos ambientais está sendo feito? Afinal, é uma oportunidade única de se fazer o correto e o necessário. A China, hoje, tenta vender para o mundo uma nova bandeira, uma bandeira “verde”, onde as suas construções têm o famoso telhado verde, que como instrumento de marketing, já lhe dá validade automática para a sustentabilidade. No entanto, o que aqui se traz para discussão não se mantém apenas em como que a edificação se posiciona simplesmente perante a melhoria na qualidade do ar, e sim, em como de fato se pode ser sustentável. Como realmente se atende às necessidades de uma população que sofre um crescimento grande e rápido, e de maneira tão diferente e nova? Como se resolver os problemas atuais de forma mais significativa?

PROJETO
MAILLEN HOTEL AND APARTMENTS, SHEKOU, SHENZHEN, CHINA

O Projeto escolhido desta edição foi o Maillen Hotel and Apartments, Shekou, Shenzhen, China.
O motivo da escolha deste projeto foi a forma como os arquitetos trabalharam no terreno e no seu entrono.
É um conjunto de edifícios que cercam uma área central mas nunca fechando totalmente o lote, sendo possível cruzar de um lado para o outro. Outro ponto que chama a atenção são os espelhos d’água e os jardins existentes na área central.

Escritorio: Urbanus
localização: Yanshan Road, Shekou, Nanshan District, Shenzhen, China
Project Designers, Design Director: Meng Yan, Zhu Jialin
Architecture Design: Zheng Ying, Huang Zhiyi, Yao Xiaowei, Zuo Lei, Liu Xiaoqiang, Yie Peijun, Li Da, Shen Yandan, Ji Yuyu, Zhang Zhen, Liu Liu, Liu Zirong, Xia Miao, Yuan Yi, Guo Donghai
Landscape Design: Xing Guo, Wei Zhijiao, Ding Yu, Cedric Yu, Li Jing, Huang Yihong, Liao Zhixiong
Cliente: China Merchants Real Estate Co. Ltd.
Construido: 2011
Area: 13,198 m²
Area Construida: 21,540 m²

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CONCLUSÃO
Como pontos positivos, é possível apontar uma intenção geral da revista The Architectural Review de ligar o leitor a uma arquitetura contextualizada na história, na cultura, e na sociedade, de forma que se revele um aspecto didático e pedagógico desta, com sua forte base teórica, e seu reconhecimento mundial por sua longa presença no mercado. Os projetos apresentados na revista dispõem de clareza nas informações, bem como relatório de imagens (tanto de fotografias, quanto de desenhos técnicos) rico em detalhes e disposição.
Além disso, a AR disponibiliza todo o conteúdo de suas edições em seu site para cadastrados.
Em relação à possíveis e eventuais aspectos negativos da revista, não se viu grande relevância a ponto de se questionar a qualidade da revista.

THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1387 – SEPTEMBER 2012
CHINA SPECIAL ISSUE | GHOST TOWNS | THE GREEN DELUSION | MAD | MODERNISING
THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1390 – DECEMBER 2012
EMERGING ARCHITECTURE | CAMPAIGN: SPIRAL DYNAMICS | JOSEP MARIA JUJOL | LEBBEUS WOODS

BIBLIOGRAFIA
THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1387 – SEPTEMBER 2012
THE ARCHITECTURAL REVIEW – 1390 – DECEMBER 2012
http://www.architectural-review.com/
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.072/352

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