X Bienal de Arquitetura de São Paulo – CCSP – O Copan que não se vê, por Elisa Maretti e Isabela Velozo.

O COPAN QUE NÃO SE VÊ
Local: Centro Cultural São Paulo (CCSP)
X Bienal de Arquitetura de São Paulo
Elisa Maretti e Isabela Velozo

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A Bienal de Arquitetura de São Paulo, realizada há 40 anos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, chega à sua décima edição com o tema “Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar”, refletindo sobre a cidade contemporânea. Dentre os locais que estão recebendo a Bienal, o escolhido por nós foi o Centro Cultural São Paulo, e faremos a seguir uma análise crítica da Exposição “O Copan que não se vê”. Faremos uma leitura do que foi exposto sobre o Edifício Copan e suas vertentes, e adicionaremos alguns pontos pesquisados além do que está nas paredes.

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Projetado por Oscar Niemeyer em 1951, inaugurado em 1966, o Copan e um dos edifícios mais emblemáticos e simbólicos de São Paulo. Foi construído em um lote sinuoso, empreendimento da Companhia Panamericana de Hotéis e Turismo, por isso o nome COPAN.
A princípio, como projetou Niemeyer, era para ser um complexo de uso misto, com hotel, habitação, comércio e escritórios, mas com a quebra do Banco Nacional Imobiliário, que repassava os recursos para a obra, a construção foi interrompida e o projeto foi modificado, desaparecendo o programa hoteleiro, entre muitas outras características, para desgosto do arquiteto.

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O Copan tem a maior estrutura de concreto armado do país, com 115 metros de altura, repartidos em 32 andares, e 120 mil m² de área construída. Ocupa um terreno de 6.006,35 m², possui 6 blocos com 20 elevadores e 1160 unidades habitacionais, que variam de quitinetes a apartamentos com 3 dormitórios; é uma “minicidade” composta por comércio e serviços no andar térreo, onde se estima 70 estabelecimentos, além do metrô muito próximo.

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A exposição contém propostas de leitura do Copan bastante interessantes, uma delas foi feita a partir de desenhos de projetos urbanos de Le Corbusier, outra a partir de fotos, entrevistas de moradores e funcionários do edifício, e também um conjunto de imagens de trabalhos artísticos de artistas e residentes estrangeiros e brasileiros, como Paola Salerno, Pablo Leon de la Barra, Peter Friedl, entre outros, trabalhos esses relacionados à Metrópole de São Paulo e suas tantas questões urbanas e sociais.
Esses artistas/residentes foram hospedados nas residências artísticas no Copan, que aconteceram entre 2002 e 2007, por um programa criado pela plataforma exo experimental org, do Ministério da Cultura e Petrobrás, plataforma essa autônoma de investigação e ativação de práticas estéticas contemporâneas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro.

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SITE DA PLATAFORMA: http://www.arquivoexo.org/

“A esmagadora maioria da população de São Paulo vive hoje em uma cidade sem paisagem, ou em uma paisagem sem cidade. Constantemente, encontramos em cartões postais de São Paulo imagens do Edifício Copan e do Conjunto Nacional, como reflexo da identidade metropolitana, e o curioso é que 50 anos depois, é a escassez de concorrentes contemporâneos.” – Denise Xavier, Residência Artística no Copan.
Foram expostos desenhos do projeto executivo de Oscar Niemeyer, mostrando a Planta do andar tipo, térreo, detalhes da circulação e do comércio. Folhetins do lançamento do edifício também ganharam espaço na exposição, mostrando acionistas, fazendo propagandas espetaculares do novo edifício da cidade.

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A partir dos desenhos e dos textos do conjunto “De Le Corbusier ao Copan”, que está inserido exposição, existe uma percurso gradual entre Corbusier e Niemeyer. O aspecto formal das obras de Le Corbusier decorre de operações modulares combinatórias, e a organização das células permite que a forma do edifício atinja uma distensão horizontal “infinita”, como podemos observar, por exemplo, no zigue-zague dos blocos da Ville Radieuse e no movimento serpenteante de seu edifício-viaduto de 6 quilômetros no Rio de Janeiro.

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Niemeyer também adota a lâmina curva, com o projeto para o Hotel Quitandinha, em Petrópolis, no contexto da paisagem natural da região serrana do Rio, com o perfil das montanhas em segundo plano. Já no projeto do Copan, ao invés de se implantar no vazio natural, insere-se o edifício em um lote no centro de São Paulo, contraindo – se em um contexto urbano, em uma geometria irregular do espaço.

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Apesar de sua altura, se tem a sensação de que o edifício é basicamente um movimento horizontal, e esse percurso do edifício-viaduto de Corbusier ao Copan de Niemeyer nos mostra o quão irreversível é o processo de conciliação entre a forma moderna e a cidade real.
Foi exposto um ensaio de fotos do processo de construção do edifício Copan, desde a sua fundação, e fotos internas do edifício, de quando foi inaugurado, com as primeiras lojas, com detalhes construtivos, e uma maquete física.

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A partir de todo conteúdo e do tema da exposição, “O Copan que não se vê”, nos aprofundamos um pouco mais no assunto, a partir de pesquisas.
O arquiteto paulistano Ciro Pirondi, indicado por Niemeyer, propôs algumas interferências no entorno e no próprio Copan, entorno esse onde se encontram alguns exemplares históricos da arquitetura moderna no Brasil, por exemplo, o edifício Itália, o Esther, o Cine Ipiranga, o ABC, a Biblioteca Municipal, as praças da República e Roosevelt, entre outros. Essa iniciativa de renovação do edifício já decadente surgiu do síndico, que contatou Niemeyer, que indicou Pirondi.
A sinuosidade do concreto nos traçados de Niemeyer, “que reinterpreta montanhas e formas femininas”, no Copan se materializam em suaves ondas de 32 andares, forma curva que mantém uma relação com o perímetro irregular do terreno. A extensa fachada curva e a grande altura do prédio foram minimizadas pelos pavimentos-rua que cortam sua volumetria, e pelos pilotis da laje do jardim elevado que foram modificados durante a construção, e devido ao fato de o projeto original ter sofrido sérias intervenções como essas, Niemeyer não gostava de falar sobre ele.
Dentre essas modificações, o hotel foi eliminado, os apartamentos de quatro dormitórios foram divididos em unidades menores e, o mais grave, o jardim elevado, implantado sobre o nível das lojas, sofreu sérias transformações com o envidraçamento dessa área, adquirida pela Companhia Telefônica. E como foi citado anteriormente, os pilotis ali existentes, que sustentam a laje de transição de três metros de altura, estão encobertos até hoje, causando “uma mutilação estética”.

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A fachada voltada para a Avenida Ipiranga está em fase de tombamento, mas os 92 brises de concreto revestidos de pastilha pedem urgente recuperação.
Para Pirondi, é impossível pensar na renovação do edifício independentemente de sua vizinhança. O arquiteto sugere passarelas ligando as praças da República e Roosevelt, e para valorizar o caminhar e o encontro, o piso da calçada e o leito de carros devem ser nivelados.
O projeto de renovação libera o pavimento térreo rebaixando os pisos dos cafés e restaurantes existentes. A galeria do edifício Imperium será interligada à praça Rooseveld e a galeria do edifício Vila Normanda receberá cobertura de aço e vidro, gerando uma comunicação com a rua São Luís. Essa área estará também reservada a exposições de esculturas e à feira de artes.
O arquiteto propõe também a retirada das instalações da Telefônica a fim de recuperar o projeto do terraço-jardim e a volumetria curva do edifício que, sem os vidros, se tornará evidente.
A cobertura, atualmente pouco utilizada, possui uma vista privilegiada de 360 graus da cidade. O projeto sugere um café-mirante e um restaurante na marquise existente. Lembra o arquiteto que o edifício não possui fachadas frontais ou posteriores; nelas, apenas os brises serão recuperados e, na face voltada para a rua da Consolação, além da restauração dos caixilhos, o projeto propõe a instalação de pequenas lâminas horizontais metálicas de 6 cm, como uma segunda pele, a fim de evitar degradação e interferência de objetos colocados pelos moradores.
Em relação à circulação, as escadas de segurança receberão um invólucro de metal, e para tornar possível os novos usos, Pirondi projetou uma circulação independente que não interfere na atividade normal dos usuários e moradores do edifício, uma torre multimídia com um espaçoso elevador panorâmico dotado com cerca de 20 assentos, construída no vértice da Avenida Ipiranga com a rua Araújo. O elevador, totalmente metálico e transparente, estará acoplado à caixa de escadas em concreto.
O edifício brilhou da sua inauguração até os anos 70, quando começou a entrar em decadência, os valores dos aluguéis desvalorizaram, transformando o Copan em um “cortiço vertical”. No final da década de 80, quando os próprios moradores passaram a administrar o edifício, a situação melhorou. Hoje no Copan, vivem pessoas de diversas classes sociais.

“O edifício Copan, projetado por mim muitos anos atrás, tinha as limitações naturais de um prédio de apartamentos. E seguir o programa apresentado com as preocupações de economia que uma obra desse gênero sempre revela, era coisa inevitável.” – Oscar Niemeyer, 2001.

De acordo com tudo o que abordamos sobre o Copan, e sobre o tema “O Copan que não se vê”, chegamos a algumas conclusões. As pessoas hoje não “enxergam” o símbolo que é o Copan por questões estéticas, questões urbanísticas e talvez a pior delas, por questões sociais.
Questões estéticas de projeto que foram modificadas do projeto original, por exemplo a mutilação estética dos pilotis que nada mais seria que um espaço aberto, livre, e foram utilizados fechamentos que encobriram essas estruturas, fechamentos esses tão diversos que embaralham nossa percepção ao olhar para esses primeiros pavimentos do edifício, pela quantidade de “informação visual”; questões urbanísticas relacionadas aos níveis das calçadas e leitos de carro, e também relacionadas ao edifício que está em frente ao Copan na Avenida Ipiranga, pois ele quebra uma visão completa do edifício; e a por fim questões sociais, onde a grande maioria das pessoas da nossa cidade de São Paulo tem uma postura preconceituosa em relação a edifícios com comércio e serviço no térreo, não conseguem enxergar e perceber o quanto valoriza a convivência e o espaço, os olhos estão muito ocupados em enxergar somente as 3 portarias de seus prédios, pois assim estão bem seguras, livre de pessoas indo e vindo no “seu” térreo.
Portanto, um olhar livre de preconceitos, livre de paredes de concreto embutidas na rua retina, enxerga a beleza de um edifício que tem a cidade em suas veias.

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Elisa Maretti e Isabela Velozo

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