CCSP – X BIENAL DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO ESTA EM LUTO. ROBIN HOOD IS DEAD. ENRICO BEER BOIMOND – JULIA STECCA.

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Robin Hood Gardens. Apenas a menção do personagem vestido de verde, que roubava dos ricos para dar aos pobres já diz muito, sobre a intenção e o partido tomado para a criação desse complexo habitacional.

Localizado em Poplar, leste de Londres (51°30’29.97”N, 00°00’32.47”O) o edifício pretende se identificar como uma arquitetura residencial inovadora, concebida para tornar se um ponto de referência ao longo dos anos. Com toda sua estrutura em concreto, a obra foi concluída  em 1972, influenciada pela década seguida do término da Segunda Guerra Mundial, período intimamente relacionado ao processo de industrialização, e a os problemas sociais gerados a partir dela.

Época que a Europa, e a Inglaterra especificamente, buscavam um novo começo, ditado pelo idealismo e prosperidade para o futuro. Com base nesse pensamento vanguardista tudo tinha que ser novo, se auspiciava assim uma década de experimentação. A cidade de Londres apesar da motivação para crescer ainda demonstrava um olhar de pós-guerra, triste, sustentada ainda em muitos segmentos pelo estado. O setor imobiliário na época representava um dos setores mais prejudicados, com a maioria da população de Poplar morando em moradias pré- fabricadas e em casas de fundos Vitorianas parcialmente destruídas pelos bombardeamentos. Londres precisava urgentemente de uma solução.

A chave veio do governo, renovação que se refletiu na criação de uma legislação que defendeu o direito de habitação nunca discutido antes. Sua idealização ocorreu em meio a política do “Welfare State” (Estado  do  bem-estar social; idealizado por Gunnar Myrdal), onde seus termos eram definidos por garantir padrões mínimos de vida a todos os cidadãos, baseados numa política econômica que colocou o Estado como agente da promoção social e organizador da economia, gerando assim a instauração da “Housing Policies of the British Welfare State”.

Além das razões políticas, a legislação propôs um modelo progressista de habitação social, conceito que se refletia nos principais ideais dos arquitetos Alison e Peter Smithson, dois visionários ingleses, dos quais formaram uma das mais importantes parcerias na arquitetura do século XX. Associados com o Novo Brutalismo e Líderes do Team X  os Smithsons comandaram a revolta contra as ultrapassadas teorias dos Congrès Internationaux d’Architecture Moderne (CIAM), abordando um constante questionamento para a inovação puramente legível na estrutura conceitual de Robin Hood Gardens.

Por meio desse projeto Alison e Peter atacaram os dogmas vigentes por décadas, propostas nos anos 1930 por “Le Corbusier e Walter Gropius; a cidade ideal”. Para eles combinar atividades diferentes dentro das mesmas áreas era de essencial importância, eles visionavam as modernas habitações a serem construídas e ligadas entre si por ruas elevadas, (streets in the skies), criando assim uma circulação de pedestres rigorosamente separada do tráfego de veículos, um tema popular na década de 1960. Essa visão vanguardista de habitação social, proposta com o Robin Hood Gardens , caracterizada pela multifuncionalidade e abertura a conexões, reflete em um conceito quase tão futurista na época, que hoje pode ser interpretado como contemporâneo.

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O conjunto é formado por dois edifícios, que estão construídos com painéis e elementos de concreto pré-fabricado, gerando quase que uma ordem de repetição geométrica, inspirado a um conceito georgiano neoclássico. A característica inovadora porém, não era só manter um visual legível ao simples olhar, mas elevar uma qualidade de interação social encontrada nas ruas para as habitações verticais através das conhecidas “steets in the sky.” A cada três pavimentos, coincidindo com as circulações verticais, estão presentes “as ruas no ar”, corredores de largura suficiente para se converterem em um espaço de convívio e lazer, espaços com o objetivo de alimentar uma comunidade interna.

O bloco ocidental apresenta sete pavimentos e é quebrado em dois momentos angulares, ou seja, dois pontos de circulação. Já o bloco oriental apresenta dez pavimentos, porém é mais curto, com apenas uma angulação. Construído em um terreno de 2 hectares, o projeto totaliza 213 apartamentos, determinados por seis modelos entre unidades de pavimento simples e unidades duplex. Cada edifício foi situado nas laterais do terreno, em sentido norte-sul, gerando um grande jardim comum ao centro caracterizado por um morro central, contendo os detritos das edificações vitorianas anteriormente situadas no local. A ideia da função desse desnível central era prevenir atividades de lazer instaurando assia.2 colorida

O Robin Hood Gardens era tudo que uma habitação social inovadora queria, mas inocentemente vítima de seu próprio promotor, o Estado. A politica ao longo dos anos veio se alterando em responder a economia mundial inflacionada. Na década de 80, apenas dez anos após sua criação, o Robin Hood Garden seguiu em seu primeiro desafio, a privatização imobiliária. Anos depois da grande recessão, com o Governo liberal da presidente Thatcher, novas medidas econômicas foram instauradas para defender os valores do país. Com tal foco foram introduzidas as primeiras reformas de privatização, focadas em diminuir as despesas públicas, sem perder o direto de propriedade total, mas cedendo a gestão. Assim, a privatização vinha acompanhada pelo conceito de que havia chegado a hora de responsabilizar o cidadão e, de se elevar ao status de proprietário, e não mais só atuar como usufruidor de um bem estadual, mas obrigando assim, a ter que contribuir às despesas de manutenção. Com taxas sobre o imobiliário residencial quase mínimas, as pessoas não perderam tempo e saíram de empreendimentos como o Robin Hood Gardens para adquirir sua própria “casa”.

O Robin Hood Gardens assim experimentou um quebra inicial em seu equilíbrio interno. O estado não era mais o proprietário único e agente controlador, e os ocupantes sempre mais precários e não conseguindo atingir as cotas econômicas para executar uma correta manutenção. Com toda sua estrutura exposta em concreto armado, metodologia concebida no pós-guerra, a causa dos baixos custos de fabricação e com a maioria das fábricas de sigilos bombardeadas, o concreto era visto como o material justo para atender as construções renovadoras. Material que na época apresentava uma qualidade muito baixa, se comparado ao concreto de hoje, que fez-se que acelerasse esse procedimento de desgaste e aumentando assim a necessidade de uma contínua manutenção.

Talvez por anteceder a Era Thatcher – uma doutrina político-econômica que defende a liberdade das empresas agirem conforme seus interesses sem que haja intervenção do Estado – toda a essência do conjunto criado pelos Smithsons não demorou a perder seu valor, pois em menos de quarto décadas foi alegado, pelas autoridades municipais de Londres, que a sua degradação era demasiada para ser recuperado. Apesar de o Robin Hood Gardens ter problemas construtivos e sociais desde os primeiros anos de sua existência, considerar que o edifício foi um fracasso na carreira dos arquitetos, talvez seja uma opinião desequilibrada. O edifício representa uma corrente arquitetônica que procura sintetizar a natureza intrínseca dos materiais com as técnicas através das quais estes são elaborados, e estabelecer de uma forma extremamente natural uma unidade entre a forma construída e os homens que a utilizam. Um edifício que chegou com uma presunção conceitual totalmente contextualizada, procurando criar uma malha de comunicação vertical diferenciada numa área de Londres, qual panorama era ditado por uma constante infraestrutura naval, atendendo a área industrial. Infelizmente esse olhar futurista não foi compartilhado no seu contesto urbano, deixando assim o edifício isolado na sua presunção brutal.

Hoje, era do consumismo, o edifício foi premiado com uma aprovação de demolição pelo conselho administrativo de Tower Hamlets. Demolição que foi aprovada dia 15 de Março de 2013, a qual reflete plenamente um estado de total hipocrisia, o qual a sociedade de hoje se encontra, onde o novo prevalece sempre. Um edifício que só por não se destacar positivamente quando aparece no fundo de uma foto urbana, por ter sido um mal cuidado constantemente durante esses anos, e  vítima de uma política de privatização; hoje habitado por classes de imigrantes paquistanês não existem razões que justificam tal ação. Uma má administração de um sistema político, ofuscado por uma economia do “novo”,  cobriram-se os olhos enfrente à uma petição assinada por grandes nomes como como: Richard Rogers, Zaha Hadid, Robert Venturi, Denise Scott-Brown, Peter Cook, Oriol Bohigas, Mary Banham, Beatriz Colomina, Mark Wigley, Alejandro Zaera-Polo, Kenneth Frampton, Toyo Ito, Iain Borden, Stefano Boeri, Jean-Louis Cohen, entre outros… Que por uma vez colocaram o próprio ego do lado para preservar algo único. Um golpe à sociedade dos arquitetos à um monumento que manifesta uma visão utópica tão futurística, com o poder, ainda hoje, de testemunhar uma filosofia que poderia ser adotada para resolver questões de segregação urbana até hoje não solucionadas.

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Uma demolição emblemática, diante de uma política voltada aos interesses fúteis, para atender um evento que tornou se hoje, nada mais que econômico, chamados de Jogos Olímpicos. Uma destruição de um patrimônio que significará o esquecimento, cada vez maior de uma memória construída a respeito de uma época aonde prevalecia o direito de discussão hoje difícil de se encontrar .

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