“THE STATE OF THE ART OF ARCHITECTURE”

Luísa Cortez Salviano e Tamara Cirlinas.

Comentário sobre a Bienal de Arquitetura de Chicago, 2015.

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Chicago

Chicago – Illinois, EUA.

Entre sites especializados em urbanismo, design, arquitetura e artes plásticas internacionais, como ArchDaily até o Treehugger [Abraçador de Árvores], o assunto foi amplamente, mas para variar, foi pouca, ou quase nula, comentada em terras brasileiras. Esse texto busca criar uma discussão sobre a exposição, os limites e questões que ela trás, e se estamos, ou não, perdendo muita coisa ao não sabermos quase nada dela.

Chicago é sem dúvida a cidade da arquitetura moderna. Louis Sullivan, os primeiros arranha-céus, Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, o SOM : a cidade foi construída utilizando o modelo do século XX. Mas o que pode-se dizer sobre o vigésimo primeiro século? Chicago seria sempre a cidade de arquitetura ou de uma nostalgia ao modernismo?

Esta pergunta não é feita pela primeira edição da Bienal de Arquitetura em Chicago, e, talvez, é injusto fazer-lhe a provocação. Ela preferia desenvolver uma temática bastante oca para O Estado da Arte da Arquitetura. Os curadores Joseph Grima e Sarah Herda, desejam que a exposição fosse o mais elástica possível, ideal para acomodar a enorme variedade de temas que a arquitetura contemporânea abarca, ou, a suas próprias incertezas.

Os curadores a denominaram, em seu catálogo como uma “an experiment in what is possible.” [ uma experimentação do que é Possível.] e também  “round table at which people of all ages, backgrounds and origins are invited to present their outlook” [ uma mesa redonda onde pessoas de todas as idades, referências e origens são convidadas a apresentar as suas visões]. Com cerca de 500 inscrições de participação, foram convidados 120 escritórios, grupos artísticos, sendo a maioria com menos de 50 anos de idade.

bienal de chicago

Segundo Grima e Herda, não haveria um tema central na exposição, como algo neutro. Mas isso seria muito improvável. Para começar, o seu titulo “The State of the Art of Architecture” [O Estado da Arte da Arquitetura ], entra numa temática polemica no campo artístico. Os curadores acreditam que a Arquitetura é um tipo de arte, invocando a discussão formalista iniciada nos anos 1970 e praticada na atualidade, entre os arquitetos Peter Eisenman, Michael Graves até Zaha Hadid. Exaltando esse caráter artístico, a arquitetura se colocaria a cima das artes, algo alem da estética, num caráter mais socialmente engajada.

Os registros fotográficos das obras expostas na Bienal, mostram alguns trabalhos que poderiam ser extremamente questionados, se seriam objetos artísticos ou arquitetônicos. Um exemplo seria o trabalho do coletivo URBZ, de Mumbai, Índia. Eles remontam uma pequena favela da cidade, com suas casas de tijolos. O projeto do Rua Arquitetos, tenta remontar a favela da Maré, da cidade do Rio de Janeiro, como um possível modelo de bairro, suas estruturas e etc.

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Trabalho do coletivo URBZ, Mumbai, Índia.

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Projeto do Rua Arquitetos, na favela da Maré, Rio de Janeiro.

Outro trabalho, semelhante ao de URBZ, seria o trabalho de Yasmeen Lari, que demonstra a construção de uma Yurt, habitação de caráter vernacular, construídas com um tipo de pau-a-pique, e estruturadas com bambu, muito comuns no Paquistão. Percebe-se que existe uma tentativa de resgate das tradições arquitetônicas, comuns em certas regiões, e institucionalizando-as, tirando do seu local comum, típico, e a colocando como algo temático, rústico, como os museus de história natural fazem. Mesmo o discurso dos curadores sendo a exaltação de produtos sustentáveis, com belos gráficos e tipologias, não podemos esquecer um Gabinete das Curiosidades[1].

[1] Gabinete das Curiosidades: eram normalmente uma exposição de coisas exóticas e achados procedentes das novas explorações ou de instrumentos tecnicamente avançados, comuns no século XVII, que seriam o início dos museus.

Yasmeen Lari

Trabalho de Yasmeen Lari, habitação de caráter vernacular.

Outro ponto que merece uma melhor observação, é a instalação do arquiteto japonês Sou Fujimoto, expondo em pedestais, montados de maneira bela, objetos do cotidiano, sendo arquitetura. Nada muito arrebatador, se conhecermos as obras de Marcel Duchamp, ou dos artistas considerados Art Povera[2]. Outra pesquisa interessante seria a do arquiteto alemão, com o trabalho colaborativo com aranhas. Elas fariam suas teias, onde spots de iluminação focam em seu trabalho. Segundo o autor, essa seria uma possível solução para arquiteturas temporárias. Mas realmente, acho um tanto quanto difícil isso realmente acontecer.

[2] Art Povera:  expressão criada pelo crítico e curador italiano Germano Celant, para referir-se ao movimento artístico que se desenvolveu originalmente na segunda metade da década de 1960, na Itália. Os seus adeptos utilizavam materiais de pintura (ou outras expressões plásticas não convencionais, como por exemplo areia, madeira, sacos, jornais, cordas, feltro, terra e trapos) com o intuito de questionar o caráter de obra de arte, reduzindo os seus artifícios e eliminando barreiras entre a Arte e o quotidiano das sociedades.

Sou Fujimoto

Instalação do arquiteto japonês Sou Fujimoto.

Dois temas que estão sendo discutidos intensamente na Bienal, seriam as casas econômicas e uma pesquisa em relação aos materiais produzidos industrialmente. Um dos projetos que pesquisa isso é a Light House for Bangkok, onde a empresa tailandesa All(zone), cria abrigos para catástrofes. Já em relação as residências de baixo custo, alguns escritórios desenvolveram propostas e pesquisas mais interessantes. Tatiana Bilbao, da Cidade do México, pesquisou entre os moradores das favelas e concluiu que o grande problema que enfrentam seria um estigma em relação a falta de acabamento das residências. Para resolver isso, criou placas de concreto e pallets de madeira, que podem ser movimentados, criando novos cômodos para as casas. Já a solução para os moradores do rio Mekong, do Vietnã, desenvolvida pelo arquiteto Vo Trong Nghia, que se assemelham muito a barcos para caso de cheias do rio.

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Light House for Bangkok, da tailandesa All(zone).

Tatiana Bilbao

Tatiana Bilbao, da Cidade do México.

Vo Trong Nghia

Arquiteto Vo Trong Nghia, para moradores do rio Mekong, Vietnã.

Ou seja, a partir dos registros da exposição, podemos chegar a algumas perguntas:

  • Devemos entender que a arquitetura discute como um assunto na vanguarda do seu campo de ação?
  • Ou é tratado como uma arte separada?
  • Ou ambos ao mesmo tempo?
  • Ou nem uma coisa nem outra?

Como uma tentativa de resposta a essas perguntas, o artista Theaster Gates resgata um antigo banco da cidade, que fora anteriormente abandonado, em uma nova área de lazer, com galerias, área para eventos, livrarias e uma biblioteca. Ele é chamado de Stony Island Arts Bank, e é uma tentativa para recuperação da área de South Side. Com uma área de 1.580m2 , tem um apelo interessante: por ser um antigo banco, que facilitava o racismo a segregação social, criar uma área comunitária seria uma tentativa de reversão social que ela causou. Sua edificação data do ano 1923, mas na década de 1980, foi abandonado, e deixou de ser utilizado.

Stony Island Arts Bank

Stony Island Arts Bank, do artista Theaster Gates.

Sim, que ela agrega um novo sentido a edificação, é extremamente interessante, e que seria um produto a cidade. Que ela se mostra engajada nos campos sociais, tentando desmistificar a arquitetura como algo elitista, trazendo soluções de diferentes partes do mundo. Cria um contraponto a Bienal Arquitetura de Veneza, de 2013, onde cada pais criava o seu pavilhão, e depois o desmontava.

Lisbon Ground - Bienal de Veneza 2013

Pavilhão Lisbon Ground na Bienal de Veneza (2013).

Existe uma tentativa de criação de projetos arquitetônicos com um embasamento social, mostrar diversas realidades mundiais, de dificuldades que cada uma enfrenta e suas soluções propostas. Muito semelhante ao discurso apontado por Hal Foster em seu livro “O Complexo arte-arquitetura”. Seriam os arquitetos “globais”, é uma linguagem utilizada por arquitetos como Norman Foster, com alcance a ações que não se restringem apenas ao campo do projeto, mas também de infraestrutura, causando um impacto regional. Outros nomes também podem ser sitados, como Renzo Piano e Richard Rogers, pois buscavam uma pesquisa dos materiais e tecnologias, entendidas em qualquer espaço.

Livro Hal Foster

Livro “O Complexo arte-arquitetura” de Hal Foster.

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The Centre Georges Pompidou, Renzo Piano.

Parece um contraposto aos arquitetos dos Stararchitects também apontado por Foster, onde existe uma busca formalista e uma materialidade exagerada. Os arquitetos, buscariam formas extremamente truncadas e distantes da realidade daqueles que a utilizarão. São artísticas apenas por fora, sem qualquer interpretação mais aprofundada sobre o tema. Dois exemplos citados no livro são a arquiteta Zaha Hadid, que estuda o suprematismo, mas não realiza uma relação com o espaço, como Malevich fazia em suas pintiras, só utilizando os formatos. Outro exemplo são os arquitetos Herzog & de Meuron, que se baseiam no minimalismo, mas não criam qualquer relação com o usuário, diferentemente dos artistas.

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Zaha Hadid. Heydar Aliyev Center, em Azerbaijão.

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Zaha Hadid. Opera House, em Dubai.

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Herzog & de Meuron. Estádio de Pequim, China.

De acordo do Pedro Fiori Arantes, arquiteto e professor de artes visuais e arquitetura contemporânea na UNIFESP, em seu artigo publicado na revista Ars, faz uma análise da arquitetura contemporânea, como um “fetichismo da forma, análogo `a autonomização do poder e da riqueza abstrata no capitalismo contemporâneo” . E acrescenta:

“ Sociedade dita pós-utópica em que o capital parece não mais encontrar adversários à altura, a ideologia moderna do plano (que pressupunha a coabitação entre capital e trabalho) deu lugar à produção de efeitos espetaculares em edifícios isolados, que seriam capazes, por si só, de ativar economias fragilizadas, atrair turistas e investidores, desencadear processos de valorização imobiliária e redefinir a identidade de sociedades inteiras.”

Fenômenos analisados também por Foster, essas obras, de imenso poder simbólico, são a demonstração cabal de que: “pode-se chegar a um verdadeiro “espaço delirante”, sem restrições de estrutura, materiais, recursos e mesmo de qualquer uso”; como diz Hal Foster, em outro livro, Design and crime“sem os constrangimentos clássicos da arquitetura (resistência dos materiais, estrutura, contexto), sua arquitetura rapidamente se torna algo arbitrário e autoindulgente (porque essas curvas e não outras?) – os fãs de Frank Gehry tendem a confundir essa arbitrariedade com liberdade”.

Museo-Guggenheim-Bilbao

Frank Gehry. Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha.

Obviamente, percebemos que os comentários a cima tratam-se dos Starchitects, com sua respectiva subjetividade estonteante, contraposta a uma sociabilidade sustentada pelo espetáculo. As obras arquitetônicas oferecem uma experiência econômica cosmopolita, que se auto proclama orgânica, mas que em muitos casos é oca e banal; ficam deslizando na superfície.

Percebemos que a Bienal se esforça para não entrar nessas questões [ não convidam arquitetos mundialmente conhecidos; a maioria da temática dos projetos abordada possuem um caráter social; utilizam-se de materiais diferenciados]. Mas, se nos aprofundarmos, notamos que a discussão só vai até um certo limite. Com a tentativa de tratar a arquitetura contemporânea engajada, esquece o modo expositivo. Mesmo com acabamentos diferentes do cubo branco, como madeira, tiras metálicas e etc., o modelo e conceito expositivos é o mesmo.

Livro No interior do Cubo Branco

Livro “No interior do Cubo Branco”, de Brian O’Doherty.

Brian O’Doherty, em seu livro “No interior do cubo branco” explica que o cubo branco[3] é a institucionalização da arte, e no caso da Bienal, da arquitetura.

[3] Cubo Branco: Modelo de espaço expositivo, amplamente usado no século XX, e pelo o que parece, XXI. Brian O’Doherty, em seu livro, aponta para as contradições a partir de sua experiência paradoxal entre produzir uma obra e inseri-la neste espaço de arte normativo. A arte está contida dentro de uma série de complexas tramas onde as instâncias que a ela pertencem – artista, espectador, colecionador, curador e críticos – são inclinadas a fazer parte deste jogo que é regido por nada mais que os espaços denominados Cubos Brancos: Galerias, museus, espaços expositivos institucionalizados, ou os que dizem ser “alternativos” (apesar de que mesmo estes se tornaram peças deste jogo). Não há artista que não se defronte, em um determinado momento de sua carreira, com a vontade ou a inclinação de inserir seu trabalho neste espaço – pois para se “viver” de arte, devemos ser aceitos e consagrados pelos olhos destes senhores brancos, precisamos nos institucionalizar.  Consequentemente a este desejo de pertencimento, a produção artística corre o risco de ser induzida e conduzida a coexistir através de códigos referentes e aceitos nestes espaços. Boa parte dos trabalhos que foram produzidos no século passado foram idealizados de antemão para serem expostos neste ambiente sacralizado e distanciado da realidade do mundo, pensamento que se estendeu e se intensificou até a contemporaneidade. O’Doherty começa seu ensaio comparando o espaço da galeria moderna como “construído segundo preceitos tão rigorosos quanto os da construção de uma igreja medieval” onde o fiel se vê diante de um espaço isolado do mundo exterior e diante de uma arquitetura que leva-o a sentir-se ínfero comparado à sua magistralidade arquitetônica. A fé é o link que permite que o fiel sinta-se, por mais diminuto que pareça, conectado àquele espaço. Já na galeria de arte, o espectador e a própria obra atuam influenciados sobre este ambiente espaço. Como espectadores mudamos a postura para sentirmo-nos aceitos neste lugar, assim como a obra de arte, que se condiciona para ser aceita neste sistema. O contexto deste espaço se apodera do objeto artístico, tornando-se ele próprio. O’Doherty pensa que o ambiente expositivo pouco se difere do propósito de construções religiosas que antecederam às igrejas medievais. As catacumbas egípcias, por exemplo, foram idealizadas para quebrar com a consciência do mundo exterior, onde a ilusão de uma presença eterna – indiciada pela múmia e todos os objetos da vida material que a cercam – devia ser conservada pela passagem do tempo. Ainda o autor vai mais além: nas cavernas pintadas no período Paleolítico na França e na Espanha encontramos uma série de produções e registros estéticos de uma época mantidos num ambiente deliberadamente separado do mundo exterior e ainda, de difícil acesso. Para chegarmos aos salões onde estas pinturas foram realizadas, devemos passar por uma série de obstáculos e dominar certas técnicas de exploração deste local. Uma metáfora pode ser construída a partir da ideia do domínio de determinadas “técnicas” ou códigos presentes também no contexto das artes plásticas: para nos relacionarmos com muitas das obras que são produzidas na contemporaneidade, devemos ter domínio de alguns códigos, eruditos ou não. “A galeria ideal subtrai da obra de arte todos os indícios que interfiram no fato de que ela é ‘arte’. A obra isolada de tudo o que possa prejudicar sua apreciação de si mesma. Isso dá ao recinto uma presença característica de outros espaços onde as convenções são preservadas pela repetição de um sistema fechado de valores” A obra portanto é tida como objeto descontextualizado dentro do cubo branco, pela neutralidade do espaço que subtrai qualquer outro tipo de informação visual que possa interferir em sua leitura. Mas há também trabalhos que, ao invés de atuarem na subtração do espaço, atuam na soma. Ao invés de serem subordinados ao espaço, é o espaço que subordina-se ao trabalho. A arte contemporânea consegue usar seus artifícios para através de sua própria existência questionar ou exaltar alguma questão particularmente ao seu próprio status-cuo.

Ao retirar as obras arquitetônicas de seu local de origem, nos parece que perdeu o seu real significado, sua singularidade. São obras enclausuradas, numa exposição arquitetônica.

Um comentário do arquiteto Peter Einsenman, de 1983, no momento, um dos principais nomes da arquitetura novaiorquina, sobre a obra do artista plástico Richard Serra:

“ Quando a escultura adentra o campo da não-instituição, quando ela deixa a galeria ou o museu para ocupar o mesmo espaço e lugar que a arquitetura, e redefine esse espaço e lugar em termos de necessidade escultóricas, os arquitetos se aborrecem. Pois o seu conceito de espaço está sendo não apenas transformado, mas na maior parte dos casos criticado.”

interrogação

A pergunta que fica é: Será que a Bienal de Arquitetura de Chicago, realmente gostaria de questionar o espaço da arquitetura?

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