Does anyone have a Band-Aid?

Por Cássio Pereira e Bárbara Ginjas

Jia Zhangke é um cineasta que em seu trabalho busca retratar a transformação vivida na China em conta da Revolução Cultural, iniciada por Mao Tsé-Tung em 1966, e a abertura para o capitalismo, o chamado socialismo de mercado, e como isso afetou a maneira de viver dessas pessoas.

“O Mundo, seu primeiro filme feito com permissão estatal, filmado em Pequim no parque que da nome ao mesmo. Esse parque oferece a seus visitantes a “oportunidade” de conhecer os pontos turísticos de todo o mundo sem sair da cidade.“Dê-nos um dia e lhe mostraremos o mundo” , é o slogan do parque e nele existem réplicas dos mais variados marcos, da Torre Eiffel à Torre de Pisa. Como linha principal o cineasta segue mostrando o dia a dia de trabalhadores do parque.

O contexto do parque acaba por ser uma analogia metafórica ao espaço existente na contemporaneidade, o parque acaba sendo, de certa forma, um enclausuramento para seus trabalhadores, pertencentes a chamada geração flutuante (os migrantes que fazem o êxodo rural para tentar a vida na metrópole).

Ao longo do filme é possível estabelecer relações muito explicitas entre o que é representado pelo parque e a maneira em que o mundo, mais especificamente a arquitetura, tem se desenvolvido. A primeira relação pensada foi em Coney Island, Nova Iorque, o parque de diversões fundado em 1886 funcionava como um refúgio do dia a dia, que já era caótico, da cidade grande. As pessoas saiam de NY, pegavam o trem por aproximadamente 5 dólares e passavam o dia na praia e no parque, onde podiam encontrar atrações que os permitiam fugir completamente do mundo real, isso ia de atrações mecânicas até FreakShows, onde pessoas com deficiências físicas eram expostas como animais num gabinete de curiosidades do século XVI. O parque funcionava até durante a noite, incluindo a praia, que com a luz elétrica ficava acessível para um maior número de pessoas por mais tempo.

Atualmente é possível estender essa relação para parques temáticos de fama internacional, como a DisneyLand, lugares onde a realidade deixa de existir no período que se freqüenta. Ao contrario do que soa, isso não é uma critica aos parques temáticos e espaços similares, e sim à replicabilidade que isso tem tomado, muitas vezes de maneira inconsciente no mundo contemporâneo, mais especificamente na arquitetura.

A arquitetura contemporânea acabou se tornando, em um âmbito geral, a arquitetura do espetáculo, onde os ArchStars, são cultuados sem praticamente nenhuma reflexão sobre os projetos apresentados, levando em conta somente o valor estético e a apresentação. No filme apresentado foi utilizado como um exemplo disso a arquiteta Zaha Hadid, não fazendo nenhuma critica ao trabalho dela ou qualquer coisa do gênero, mas sim expondo como profissionais que estão nesse pedestal da arquitetura acabam realizando pesquisas e projetos que não necessariamente se adéqüem às necessidades atuais presentes no entorno.

Do you? Really?

A discussão proposta é: Até que ponto a arquitetura contemporânea se distancia dos jardins chineses de Jia Zhangke?

O filme “Jurassic World” que foi uma estréia dos grandes circuitos, fala do Wow Factor que seria a necessidade de gerar atrações cada vez mais impressionantes para continuar atraindo o publico e não só mantendo mas como aumentando os lucros. A partir disso surge a pergunta: Não é o mesmo que a arquitetura tem apresentado nas ultimas décadas? Uma edificação que mais se assemelha a um objeto de design, uma escultura?.

Reflexões que surgiram em via da situação atual, não só da arquitetura mas de um geral da sociedade, podem ser vistas em trabalhos recentes de artistas como Banksy que ao construir a instalação conhecida como Dismaland, Disney + Dismal, sombrio em português, faz uma sátira a esse mundo de parques de diversões onde a realidade acaba sendo deixada de lado.

O vídeo apresentado busca refletir em que aspectos estamos vinculados a tal maneira de pensar e até que ponto não somos feitos a pensar assim, sendo usado como exemplo o filme O show de Truman”, onde entre outros contextos, o personagem principal vive uma vida normal, porém o seu entorno foi manipulado. A questão proposta é ponderar o que acontece na sociedade contemporânea, em especial na arquitetura, para prever e se possível evitar um colapso que pode afetar muitos e que além disso fomenta um pensamento irreflexivo sobre a pratica construtiva e seus conceitos que ultimamente tem se apresentados fracos e vazios.

O filme de Jia Zhangke começa com uma trabalhadora do parque gritando: “Alguém tem um Band-Aid?”, e ao longo do filme é possível perceber que isso é uma metáfora para o desejo de se reparar a situação em que aquelas pessoas se encontram, assim como toda a situação na China. Com essa linha de pensamento o filme “Does anyone have a Band-Aid?”, foi elaborado mostrando as reflexões sobre os colapsos, citados acima, que a arquitetura e sociedade tem presenciado.

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