American-style shopping e a criação de American-style problems

Por Goutier Rodrigues e Julia Martinelli

“Only a very few giant retailers (…) will survive and prosper in each segment of retailing and in each geographic market” – Walter J. Salmon, 1996.

Em Her Er Harold um pequeno comércio intitulado Lunde Furniture vem à falência quando IKEA decide abrir uma filial junto à loja. Harold, o proprietário desse comércio, sofre as consequências de uma empresa grande que acaba ‘destruindo’ seu negócio local. O filme traz a questão que vem sendo comum nos dias atuais, a de grandes empresas que acabam extinguindo os pequenos comércios. Isso não acaba trazendo novos postos de trabalho, pelo contrário, acaba trazendo o desemprego e a pobreza para moradores da região, assim retratado também no documentário Wal-Mart: O Alto Custo do Preço Baixo.

  O novo modelo do século XX, chamado de american-style shopping – shopping mall and big box, traz a premissa básica de prover uma grande variedade de produtos em um só lugar, com uma atrativa, moderna e acessível esfera varejista. No caso dos american-style shoppings, a estrutura básica estava em uma ou duas grandes lojas-ancora, diversas outras pequenas lojas, uma praça de alimentação, ATMs, espaços sociais e um vasto estacionamento. O paraíso consumista.

  A adoção do novo modelo na Europa tomou maiores proporções quando falado em resistência. O livro Harvard Design School Guide To Shopping relata que a introdução deste american-style shopping provocou american-style problems. “A Europa está passando o mesmo fenômeno que os Estados Unidos viram há muitos anos atrás”, relata um dono de loja de departamentos europeu. A maioria da renda perdida por lojas de pequenas famílias em centros urbanos tiveram que buscar refúgio contra falência em centros não-urbanos.

  Um exemplo visto no Reino Unido, o Merry Hill mall atrai 22 milhões de visitantes por ano, extraindo a maioria da receita varejista da cidade de Dudley desde 1994. Merry Hill devastou o centro comercial de Dudley, roubando aproximadamente 70% do mercado consumidor, enquanto a receita varejista de cidades ao redor caia drasticamente.

  Alarmados pela grande velocidade e gravidade das mudanças varejistas nas cidades, Europeus ansiosos organizaram movimentos de resistência no início dos anos 90, compostos por varejistas independentes e donos de pequenas lojas, políticos nacionalistas e ambientalistas horrorizados com a destruição causada. A pressão e os resíduos consumistas foram tamanhos que os países do continente rapidamente reagiram junto à resistência, criando leis e atos que limitavam os templos do consumo em tamanhos de áreas, taxas e impostos. Por exemplo, a Italia foi um dos primeiros países reacionários, impondo em 1971 leis estritas para obtenção de licenças para lojistas que desejavam crescer suas lojas.

  Um interessante estudo de caso é o Wal-Mart. Em 1962 foi construida a primeira loja da multinacional, e em 1995 atinge a meta de $93.5 bilhões de dólares em vendas, se tornando a maior varejista do mundo.

  No longa-metragem Wal-Mart: O Alto Custo do Preço Baixo são apresentadas imagens de arquivo da multinacional estadunidense, um contraponto entre o CEO Lee Scott louvando a corporação em uma grande convenção intercalada com entrevistas destinadas contrariar as declarações de Scott.

Walmart’s big lie: No, it doesn't create jobs!  As argumentações apresentadas tem um ponto inicial nas remunerações baixas oferecidas a seus trabalhadores, pagando-lhes uma média de $17.000 por ano (em dólares – 2005). De acordo com as entrevistas, esses salários são baixos demais até para pagar seguro de saúde do Wal-Mart, por isso, a gestão aconselha os trabalhadores a candidatar-se a programas governamentais, como Medicaid.

  O documentário também afirma que o Wal-Mart contrata imigrantes ilegais para suas equipes de limpeza, pagando-lhes bem abaixo do salário mínimo. Outras críticas incluem práticas antissindicais, o seu efeito negativo sobre lojas locais e pequenas comunidades, políticas insuficientes de proteção ambiental, e nenhum apoio aos direitos dos trabalhadores no Estados Unidos e internacionalmente.

  Lee Scott relata que a empresa possui boa relação com a China, que o país gosta dos EUA e que os ajuda a manter um padrão mais alto em saúde pública. Os trabalhadores da fábrica na China relatam longas jornadas de trabalho, sem direito a hora extra (o mesmo acontece nos EUA) e quem precisa do pouco dinheiro que recebem para sobreviver, aceitam essas condições. Existem dormitórios nas fábricas para os trabalhadores, mas quem decide não ficar, o aluguel será cobrado de qualquer jeito, tirando somente o gasto da eletricidade e água, que são cobrados às pessoas que ali ficam. Não há conforto ambiental na fábrica, já que o ambiente é muito quente e os ventiladores são escassos, muitos dos ambientes não possuem janelas e ventilação nenhuma.

  A empresa avisa quando irão pessoas inspecionar as fábricas e quem coordena ensina como os trabalhadores devem agir e o que devem falar. Como por exemplo, a mentir que trabalham 6 dias, sendo que trabalham 7. Os trabalhadores não ousam reclamar, para não serem castigados pelos gerentes. Existe uma reunião em que eles aprendem a mentir aos inspetores. Se mentir bem, será recompensado. Se não, será castigado ou demitido. Os salários são de menos de 3 dólares por dia. Em Bangladesh, 189.000 mulheres jovens costuram artigos de vestuário para o Wal Mart. Trabalham 14 horas por dia, 7 dias por semana. Recebem de 13 a 17 centavos a hora e são lesionadas fisicamente pelos supervisores, presas na miséria absoluta. Como sendo uma das maiores empresas do mundo, o Wal Mart define os padrões que outras companhias vão seguir, ou seja, o Wal Mart rebaixa os padrões em todo o mundo. O filme também argumenta que estacionamentos do Wal-Mart têm taxas de crime anormalmente elevadas, uma situação que poderia ser amplamente melhorado, se a empresa estivesse disposta a gastar o dinheiro para colocar câmeras fora das lojas.

  Próximo do final do filme, o diretor Greenwald apresenta histórias de ex-funcionários e moradores de comunidades que o Wal-Mart tem impactado e documenta os esforços e sucessos de várias comunidades em bloquear a construção de novas unidades da empresa em suas cidades sugerindo que os outros distritos devem fazer o mesmo.

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