Projetos direcionados à redução do déficit habitacional . [Londres – São Paulo]

Bárbara Miranda, Letícia Miranda e Marcela Bedin

Um dos problemas que as grandes cidades enfrentam hoje em dia esta relacionado à questão da habitação, a falta desta causa verdadeira preocupação e nos impulsiona na busca de novas soluções.
Em Londres foi realizado um concurso internacional pela New London Architecture (NLA), com o objetivo de solucionar a crise habitacional. Os 10 projetos que ganharam abrangem desde soluções arquitetônicas radicais até soluções econômicas radicais. Dentre eles destacamos três:

The Urban Darning Project – Patrick J.A. Massey, CZWG

A proposta deste projeto é identificar e “remendar”alguns buracos no tecido urbano da cidade, e neste propor um pré projeto visando acelerar o processo de desenvolvimento.
  


Housing Over Public Assets – Bill Price, WSP/ Parsons Brinckerhoff

Com o uso do espaço superior dos edifícios públicos de Londres seria possível criar 630.000 novas moradias. As empresas privadas renovariam ou reconstruiriam os edifícios públicos existentes, os quais seriam recompensados podendo vender ou alugar as moradias acima.



Wood Blocks – dRMM Architects

Nesta proposta o custo e o tempo da construção podem ser minimizados significativamente, se utilizando da popularidade crescente da auto-construção, sendo possível que os proprietários possam personalizar o interior do edifício como preferirem.

 

  

 

No Brasil foi realizado um estudo que analisou todas as cidades do país, este apontou um déficit de 85% no perímetro urbano. É necessário ressaltar que o conceito de déficit não significa necessariamente falta de casas, mas sim condições precárias, que abrange desde moradias em más condições até alugueis muito altos.

Em São Paulo, Biselli & Katchborian, propõem na região central de São Paulo, no Bairro da Luz, um conjunto de habitações sociais e a sede da Escola de Música Tom Jobim. Serão construídas cerca de 1.200 unidades habitacionais, 90% delas devem ser destinadas as famílias com renda de até 6 salários mínimos, os 10% restantes dessas unidades para as famílias com até 10 salários mínimos.

A proposta aponta para um concepção urbanística que visa maior integração, priorizando as vias de circulação. Sendo assim, grande parte das edificações possuem relação com a rua.




No Brasil, um programa que propõem estimular a habitação é o Minha Casa Minha Vida, porém existem grandes questionamentos e debates em cima de tal programa habitacional. Os arquitetos apontam que estas obras não estimulam a expansão das cidades, mesmo porque dos 64 conjuntos construídos, 42 estão localizados à pelo menos 25km de distância da cidade, gerando exclusão social, infraestrutura pública precária e falta de segurança.
    

É nítido que os programas habitacionais no Brasil priorizam a QUANTIDADE e não a QUALIDADE das habitações, em que falta maior flexibilidade, variedade tipológica e inserção das moradias no tecido urbano. A necessidade de criar novas soluções é crescente, visto que a relacão entre as pessoas e a cidade é cada vez maior.

 

Arquitetura Regional : o passado refletindo o futuro / Arquitectura Viva

A Arquitectura Viva foi a revista escolhida como base para a produção textual. É uma revista espanhola cujos interesses vão além da arquitetura, que abrange outras disciplinas relacionadas, a partir de uma perspectiva plural e crítica.  O tema é ” A arte da realidade” , que serviu como ponto de partida para a análise feita neste texto.

Arquitetura sustentável x Arquitetura regional 

A agora denominada arquitetura sustentável não representa  um conceito novo, senão uma parte da tradicional arquitetura regional. Corresponde a uma arquitetura pertencente ao seu lugar, o que implica três aspectos principais: o respeito à regionalidade cultural e social; a adaptação ou regionalização das obras ao meio e em terceiro lugar, a forma e os materiais com que as obras são construídas. Tem a utilização racional dos recursos naturais para sua conservação futura como principal característica, o que implica o emprego de materiais de baixo consumo de energia, assim como materiais de uma alta eficiência estrutural.

Quando mencionado pela primeira vez o conceito de sustentabilidade na década de 70, seguido por  recomendações para uma arquitetura condizente, as premissas para que se consolidassem edificações “eco friendly”, ou seja,  que considerassem condições climáticas, da hidrografia e dos ecossistemas, a eficácia e moderação no uso de materiais de construção, a redução do consumo de energia  e o cumprimento com os requisitos de conforto higrotérmico, salubridade, iluminação e ocupação, abriam -se novas portas para um novo conceito. Uma arquitetura que consolida edifícios que contam com muitos estudos e tecnologia de ponta,  telhados verdes, sistemas hídricos que envolvem reaproveitamento de águas pluviais, materiais locais, dentre outros. Porém, vale ressaltar  que  uma realidade inevitável, é a construção de obras muitas vezes artificiais, assim como a intervenção dos arquitetos dentro de um âmbito natural que significa, de uma maneira, uma alteração da natureza. Contudo, a  que nos referimos com esta denominação e o que devemos entender por arquitetura sustentável?

 

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Projeto de Hiperstudio + Arkiz , que ganhou o primeiro lugar no concurso do Hotel Aliah.

 

 

Hoje, a arquitetura regional , que adquiriu novos traços com a contemporaneidade, vem sido relacionada a arquitetura sustentável . Baseado nas características citadas acima, os dois conceitos compreendem idéias de distintas extensões. A primeira abarca à segunda e também, à arquitetura sem arquitetos ou a chamada arquitetura vernacular, portanto, a arquitetura regional tem uma maior extensão e um caráter inclusivo, do qual carece a sustentável e a vernacular.

Contemporaneidade

No mundo industrializado e rico, resultado de um sistema capitalista e com olhos voltados – quase – sempre para a arquitetura do espetáculo e do êxtase ,onde tudo que é imaginado pode ser criado, o cenário da atualidade começa a dar espaço novamente a uma vertente que , por hora, estava esquecida, onde o menos é mais : sistemas construtivos simples e de fácil execução, objetos arquitetônicos que se integram , através da escala e programa, com seus usuários e onde o efeito “uau” passa a ser segundo plano, diferentemente da arquitetura contemporânea da corrente dos STAR ARCHITECTS, onde a beleza é prioridade e estruturas e formas que parecem ser impossíveis de serem construídas chamam mais atenção do que a arquitetura em si. Isto não representa em sua totalidade um conceito negativo, apenas um diferente ponto de vista. Contudo, segue uma tendência de esterilização, onde a arquitetura parece ter entrado em seu próprio mundo autônomo e muitas vezes  já não media a relação com as realidades da vida e da cultura, perdendo o contato com seu objetivo original, que é servir de ponto de apoio a existência e necessidades humanas.

 

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“The Gherkin” Londres, por Norman Foster

 

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Casa da Ópera em Valência, por Santiago Calatrava

 

 

 

 

 

 

Em contraponto, parece apropriado e bem vindo o destaque  a corrente da arquitetura regional. Resulta que as matérias primas ou primárias, com as que construímos durante milênios nossa arquitetura regional e própria ou indígena, são a base e o sustento da assim chamada, arquitetura sustentável hoje em dia. Ultimamente, muitas revistas vêm publicando projetos de lugares mais humildes, assim como exposições são dedicadas cada vez mais a temas recorrentes de tal vertente, como por exemplo ” Small scale, big change”,   “Architecture of the essential”, ” Arquitectura necesaria” , dentre outros.

Este ano, o ganhador do Pritzker, grande prêmio da arquitetura, foi Alejandro Aravena, arquiteto chileno, que trabalha sob grande influência do ideal da melhora de espaços urbanos e a crise habitacional global. Também é um grande representante da arquitetura regional Diébédo Francis Keré, um arquiteto africano, nascido em Gando. Foi o primeiro cidadão de seu povoado a frequentar a universidade e para seu trabalho de conclusão de curso, propôs uma escola para sua terra natal, que foi construída e premiada. Keré e Aravena são representantes de uma arquitetura que vai além do superficial : se comprometem com as tradições locais e habilidades sociais e realizam um trabalho cosmopolita com o desafio de projetos que tem a ver com realidades socioeconômicas totalmente distintas.

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Quinta Monroy, Chile por ELEMENTAL, escritório do qual Alejandro Aravena faz parte.

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O projeto foi concebido para locar as 100 famílias da Quinta Monroy , no mesmo local de 5.000 metros quadrados que eles ocupavam ilegalmente durante os últimos 30 anos, no centro de Iquique, uma cidade no deserto chileno.

 

 

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Escola primária em Gando, África. Por Francis Keré

 

 

 

 

 

 

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O projeto é feito com materiais locais, sobretudo argila e madeira , com o intuito de criar edifícios que sejam modernos e ainda coerentes com seu entorno e cultura local.

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O projeto concedeu ao arquiteto prêmios como o Aga Khan Award for Architecture em 2004 e o Global Award for Sustainable Architecture em 2009.

Considerando que é incontornável a realidade dos problemas sociais e que, cada vez mais, há uma tendência para reconhecer arquitetos que têm ido além dos limites tradicionais da disciplina de arquitetura, e que são capazes de  exercer  influência para gerar soluções para os problemas urgentes da sociedade , o futuro da arquitetura parece ser bastante promissor para o sentido da recuperação da identidade com seus usuários. No paradigma demográfico e ecológico em que o planeta se encontra, estes processos que recorrem ao disponível e adequado em lugar de conceberem autocraticamente o desenho final ganham sentido.
Para isto, o uso de ferramentas vernaculares contemporâneas que permitem configurar os programas segundo a identidade de cada cultura, de cada comunidade, de cada indivíduo é essencial, assim como a mudança de conceito sobre a real arquitetura. Esta é a hora de valorizar projetos com conteúdos realmente importantes e de extrema urgência.

Nahla Chahoud e Orlando Stedile, Abril 2016.

 

 

 

 

Onde é arte? | Revista Domus

 

     A velocidade com a qual o mundo contemporâneo se transforma, se modifica e se inventa, resulta em uma sociedade que é cada vez mais inquieta, angustiada e impaciente. E é esta velocidade que nos leva a buscar experiências novas e incomuns. Nos tornamos dependentes dessa novidade como forma de fugir do tédio e vida mundana. O dinamismo, por consequência, acaba sendo uma característica cada vez mais presente no dia-a-dia.

     A arte e arquitetura podem ser vistas como um reflexo daqueles que as cria, portanto, um reflexo da sociedade. Exemplo disso está na maneira em como lidamos com arte e como a definamos. Hoje, mais do que nunca, é possível encontrarmos várias formas de arte, desde uma pintura até uma performance. O ponto é que hoje, não são só objetos físicos que caiem na classificação do que é arte. E então, isso nos leva ao questionamento da natureza dos espaços que irão recebê-los.

Chegamos então nos questionamento:

O que é arte? Como é arte? Onde é arte?

     A experiência do espectador que observa, tornou-se um elemento importante para a compreensão da obra exibida. Sendo a interação do indivíduo um fator chave, os espaços expositivos precisam adaptar—se a essa nova ordem.

     O novo Tate Modern, por exemplo, inaugurará com uma exposição na qual o espectador é convidado a deitar-se nas estruturas expostas. Não só apreciando a obra com a visão mas também com os outros sentidos.

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Capsules (NBP x me-you) 2000 Ricardo Basbaum born 1961 Presented by the Latin American Acquisitions Committee 2004 http://www.tate.org.uk/art/work/T11863

Já com a artistas como Marina Abramovic, entende-se que arte expandiu-se para além do confinamento da canvas.

Como então que a arquitetura lida com essa nova condição?

     O recém aberto Whitney Museum de Renzo Piano, em Nova Iorque, é um projeto que provocou curiosidade e debate a respeito deste tema de espaços expositivos. O visitante, ao chegar no museu, se depara com o que parecem elevadores convencionais. Porém, ao adentrá-los, torna-se um participante ativo numa obra de arte de Richard Artschwager. Com esta obra, o artista não só questiona a função do elevador, como qual é a definição de um espaço adequado para exposição de arte. O elevador torna-se, portanto, espaço e obra.

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     Similarmente, existe uma necessidade desses espaços serem flexíveis e adaptáveis. A solução para isso não necessariamente se limita a espaços open-plan, onde a falta de divisórias permite variedade de configuração e uso. É possível, de uma forma mais sustentável, incluir já na concepção do espaço, possibilidades de exposição não-convencionais, afim de evitar o ato de montagem e desmontagem personalizada para cada artista.

     Ilustrando-se essa ideia, o Garage Museum of Contemporary Architecture do OMA, em Moscou, é uma exemplificação do que pode ser projetado, de uma maneira inteligente e funcional, para a criação de possibilidades de espaço. Nele, foi articulada paredes brancas que podem ser dobrados abaixo do teto, criando um cubo branco em casos onde a exposição demanda uma ambiente mais neutro. Além disso, uma abertura de 9×11 metros no piso do pavimento superior cria um espaço de pé direito duplo para o hall de entrada, permitindo a exposição de grandes esculturas for a de tamanhos padrões. Caso a exposição não necessite do pé direito duplo, por exemplo, a abertura pode ser coberta por uma grelha de metal, por cima de onde visitantes podem transitar. Esta grelha, quando não em uso, é içada até o teto.

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Garage Museum in Gorky Park, arch. OMA, Rem Koolhaas, 2015

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     O questionamento do espaço físico “ideal” para receber arte contemporânea, no projeto de UNK Project para o National Centre for the Contemporary Arts, vai além do entendimento do conceito de espaço físico delimitado. Na proposta, a liberdade da interpretação do individual, é dada pelo não confinamento de obras entre 4 paredes. Isto é, o espaço é tido como uma tela em branco, livre e pronta para receber o que for. A surpresa desse espaço não convencional é o que o faz atrativo e desperta curiosidade. A interação do espectador é um fator chave para a compreensão da obra pois existe uma troca no processo cíclico do artista-obra-espectador.

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Será a solução para o projetar o não construir?

 

 

 

Catarine Frade, Ghabriela Amorim – Abril 2016

Arquitetando a Interação Social | Landscape Architecture Magazine

Fabiana Curi e Fernanda Giansante

A Revista – LAM

A partir da de três edições (volumes 105 – N12 dezembro de 2015; 106 – N2 fevereiro de 2016; 106 – N1 janeiro de 2016) da revista Landscape Architecture Magazine (Lam) – publicação americana que aborda reportagens diversificadas com destaque para arquitetura paisagística –, percebemos que a maneira como se pode atribuir valor aos ambientes públicos e coletivos através da forma que é feita sua interação – de acordo com o que é instalado no espaço útil, seja um mobiliário urbano ou uma escultura, para que os mesmos passem novas experiências – é um tema bastante abordado.

Para analisar o assunto, os projetos escolhidos são: Soundwave, Square Dance e Superkilen.

 

SOUNDWAVE | Xiangyang, China

Composta por 500 aletas de aço de diferentes alturas, Soundwave é uma instalação que homenageia a subida e descida das barras de um visualizador de som digital. Feita por Penda Architects, a ideia principal do projeto é mostrar a relação existente entre música, arte, natureza e arquitetura. Pensando nisso, o projeto ultrapassou o conhecimento sobre paisagem e foi além, criando um espaço interativo entre a cidade e o Myrtle Tree Garden.

 

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A inspiração surgiu da citação “A música é a arquitetura líquida; arquitetura é música congelada”, e o mecanismo da instalação funciona através da imaginação. Ou seja, oferece a possibilidade de o visitante escapar dos transtornos diários da cidade e entrar em um mundo de experiência sensorial – basta apostar na criatividade e se deixar levar e sentir pelo contexto.

Além disso, os movimentos de luzes e cores das aletas criam uma espécie de transição e interação entre a cidade e a paisagem, caracterizando o local pela grandeza e particularidade de remeter a uma skyline – panorama geral do horizonte de uma cidade, onde a superfície da terra e o céu se encontram.

 

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“Música, ritmo e dança em combinação com a paisagem circundante foram os principais parâmetros para moldar o Soundwave” – Chris Precht & Dayong Sun.

 

Em relação aos materiais das aletas, são painéis perfurados de aço inox (em tons de roxo). Eles são coloridos através da passivação eletrolítica, processo necessário quando é feito tratamento mecânico ou soldagem em peças de aço inoxidável para manter as principais características do material intactas e resistentes à corrosão.

 

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Durante o dia, o reflexo do sol atinge as aletas, refletindo em seu entorno e deixando a aparência da escultura versátil. Ou seja, os painéis ficam propensos a mudar de acordo com a posição solar. Outro ponto interessante é o fato das aletas estarem localizadas em quatro lagoas diferentes, produzindo o reflexo do metal cintilante na água e proporcionando um lindo jogo de luz. Já durante a noite, a escultura tem uma transformação de imagem constante que reage diretamente aos movimentos dos visitantes da praça.

 

 

Feita com cuidado e projetada nos mínimos detalhes, a escultura é circundada de colinas e vales, e suas cores vibrantes criam uma referência visual para a área. Sobre os tons de roxo, é importante citar que foram escolhidos de forma que remetessem ao tom das árvores do Jardim Myrtle. E a partir desta referência, a ideia é transmitir aos visitantes a sensação de estar em um bosque, cercados pelos troncos das árvores.

 

 

 

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Quanto maior o número de pessoas circulando no local, mais vida, movimento, brilho e iluminação. A natureza tem suas próprias características e som, mas em Soundwave esses conceitos e detalhes são potencializado através das vibrações e luzes, ativadas no momento em que os indivíduos exploram o ambiente. O projeto pode parecer complexo e até mesmo equivocado, mas faz sentido quando se entende que paisagem não é apenas árvores, arbustos e plantações. Paisagem é tudo aquilo que a mente é capaz de imaginar, sem limites. Portanto, passa a ser um ambiente diferenciado pelo fato de não ser apenas um espaço construído, mas um espaço que oferece diferentes sensações, experiências e imaginações.

 

Fonte:

http://landarchs.com/the-nature-of-the-soundwave-brought-out-in-a-landscape/

http://www.dezeen.com/2015/03/27/penda-purple-pillars-motion-activated-light-sound-soundwave-installation-park-xiangyang-city-china/

 

 

FICHA TÉCNICA

Arquiteto: Penda

Localização: Xiangyang, Hubei, China

Área: 5000.0 metros quadrados

Ano: 2015

Fotografias: Xia Zhi

Equipe de Design: Dayong Sun, Chris Precht, Fei Tang Precht, Yongjian Huang, Zhonghua Tang, Chunlei Zhu, Junfeng Li, Runxin Tang

 

SUNDANCE SQUARE | Fort Worth, Texas

Square Dance é considerado um dos mais conceituados distritos comercial, residencial e de entretenimento de Fort Worth. Repleto de opções de hotéis, condomínios, museus, clubes, cinemas, lojas, restaurantes, casas noturnas e galerias de arte, o local se transformou na grande “sala de estar” da cidade.

Localizado no Texas, numa área em que se encontrava um estacionamento de aproximadamente 800 m2, o espaço se tornou público e amplo para sediar eventos culturais e outras diversas atividades da cidade.

A concepção da praça foi definida 1981 e é um lugar onde passado e futuro se cruzam, já que a arquitetura moderna de David Schwarz está alinhada com sua característica estética antiga, o art-deco.

 

 

A instalação tem capacidade para 498 pessoas, e sua distribuição funciona da seguinte maneira: 279 cadeiras, 79 mesas estilo café, 24 bancos, 392 pés lineares de seatwalls e 1 palco. Além disso, possui um adicional de 214 cadeiras ao ar livre e 82 mesas nos cafés, restaurantes e bares com fachadas na praça.

 

 

 

Outro fator importante é que a praça conta um bosque permeável com arvores nativas que possuem bases estruturais com drenos de escoamento – importantes para função de drenar água das chuvas. E mais: 4 guarda-chuvas estruturais fornecem áreas de sombreamento.

Além da beleza, também proporcionada pelas lâmpadas de LED instaladas no local e que fazem com que a praça fique colorida e ofereça um espetáculo de luzes para quem passa, o espaço é confortável e funcional durante todas as estações do ano.

 

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É uma ótima referência de reabilitação de um espaço público que se tornou extremamente eficiente para a vida cotidiana. O que antes era um espaço sem relevância e mal projetado, hoje foi requalificado e se transformou em um ponto acolhedor, convidativo e repleto de interação.

 

Fonte: http://landscapeperformance.org/case-study-briefs/sundance-square-plaza

FICHA TÉCNICA

 

Localização: Sundance Square Plaza – Fort Worth, Texas, Estados Unidos

Ano: 2013

Área: 555m2

Projeto: Designer Michael Vergason Landscape Architects

 

SUPERKILEN | Copenhagen, Dinamarca

Superkilen é um parque multidisciplinar localizado na capital Dinamarquesa. Suas características refletem a fusão da arquitetura com paisagens e artes criativas. Localizado no bairro com maior diversidade étnica e social da Dinamarca, o local tem como objetivo ser um ponto de referência da cidade e servir de elemento unificador para os diferentes povos da região.

Pode ser considerado uma exposição permanente de móveis e objetos do mundo todo, como postes, bancos, iluminação e plantas.
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A divisão do parque é feita em 3 zonas de cores diferentes – verde, preto e vermelho – que se integram e formam ambientes dinâmicos em um só conjunto excepcional. Além disso, conta com pequenas ilhas de diversos tipos de vegetações, que conferem ainda mais vida e natureza ao local.

 

 

Praça ou Zona Vermelha. Essa área é caracterizada por elementos contemporâneos e urbano, com instalações culturais e desportivas. São elas: áreas fitness, parque infantil, abundância de bancos, carrinhos de bicicletas, estacionamento, entre outros.

 

 

 

Mimers Plads – Zona ou Mercado preto. É o coração do Superkilen. Com conceito mais clássico, o local conta com bancos e chafariz para promover o encontro das pessoas. Em dias de semana, as instalações servem como uma sala de estar urbana para jogadores de gamão, xadrez e outros jogos.

 

 

Green Park ou Zona Verde. Essa área foi criada com a intenção de proporcionar paz e lazer. As atividades possíveis vão desde passeios com animais de estimação até pic-nics com a família e amigos.

 

 

 

 

O espaço coletivo é uma mistura do ambiente social com a sofisticação da arquitetura. E, além de agradável, integra a população e traz harmonia para a cidade.

Fonte: http://www.archdaily.com/286223/superkilen-topotek-1-big-architects-superflexFICHA

 

FICHA TÉCNICA

Arquiteto: BIG Architects, Topotek 1, Superflex

Localização: Copenhagen, Dinamarca

Ano: 2012

 

CONCLUSÃO GERAL

Ao analisar o tema, conclui-se que espaços públicos e coletivos são importantes para a sociedade. Mas mais importante ainda é, antes de suas construções, entender e estudar a cidade, a área em questão e as pessoas que podem vir a visitar o local. A partir disso, fica cada vez mais fácil entregar uma instalação rica em valores e com maior identificação com os grupos sociais que a produz, habita ou usufrui. Esses três fatores ajudam a criar um espaço interativo e ativado por um público envolvido, que preza pela circulação entre os espaços e suas experiências possíveis.

A formação destas intervenções mostra-se de grande importância dentro do contexto urbano porque, além de patrimônio histórico e cultural, oferece possibilidades para o desenvolvimento de projetos nas cidades contemporâneas. E, além de possibilitar inúmeros benefícios comerciais e até de paisagens, proporciona o principal: o encontro e interação de pessoas que vivem em um mesmo lugar.

 

                                 FABIANA CURI E FERNANDA GIANSANTE

 

Geração verde | L’Architecture d’Aujourd’hui

Com base na análise das últimas edições da revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui (fundada em 1930 e conhecida como A’A), percebeu-se uma vasta abordagem do “verde” inserido de diversas maneiras na arquitetura mundial. Nessa publicação, serão analisados projetos nos quais a natureza esta em contato com a arquitetura.

BIESBOSCH MUSEUM | Werkendam, Holanda

Retirado da edição Março de 2016 da AA, este museu foi ampliado recentemente após uma obra de 8 meses comandada pelo Studio Marco Vermeulen, ganhando uma nova ala que abriga uma galeria para exposições temporárias e restaurante.

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A região onde o museu esta implantando foi reconstruída para transformar o terreno em uma ilha artificial. O projeto original consistia em blocos hexagonais, os quais foram mantidos, anexando um novo espaço com arquitetura contemporânea contrastante, e cobertura verde em todo o complexo, composta de grama e ervas (este telhado foi projetado para adicionar valor ecológico à edificação e obter caráter escultural para a paisagem da região, além de auxiliar no equilíbrio térmico e minimizar o consumo de energia). Os vidros da edificação são resistentes ao calor, o que elimina a necessidade de brises. Todo o esgoto do museu passa por um processo de purificação através de um filtro da própria vegetação e é desaguado na zona úmida ao redor do terreno.

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O projeto teve uma grande preocupação com a questão sustentável.  Foi minusciosamente pensado em todos os aspectos para que o impacto ambiental fosse mínimo, apesar de uma grande intervenção no meio natural, com a retirada de terra para a criação de uma ilha. Os arquitetos fizeram com que a edificação marcasse tanto visualmente quanto conceitualmente.

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FICHA TÉCNICA

Projeto anexo: Studio Marco Vermeulen
Área: 1300m2
Custo: €3.000.000,00
Tempo de obra: 8 meses
Conclusão: Junho 2015

BOSCO VERTICALE | Milão, Itália

O Bosco Verticale (Bosque Vertical) é o primeiro exemplo de “floresta vertical” no mundo. Foi inaugurado em Outubro de 2014, em Milão, na área de Porta Nuova Isola, como parte de um projeto de renovação da área. O projeto consiste em duas torres de 80 e 112 metros, 480 árvores grandes e médias, 300 árvores pequenas, 11.000 plantas perenes e 5.000 arbustos. O equivalente – sobre uma superfície urbana de 1.500 m2 – a 20.000 m2 de floresta e vegetação rasteira.

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O projeto tem um conceito arquitetônico que substitui materiais tradicionais em superfícies urbanas utilizando a policromia das folhas para suas paredes. O arquiteto biólogo baseia-se em uma tela de vegetação, criando um microclima e proteção solar.

É um edifício residencial sustentável, um projeto de reflorestamento metropolitano que contribui para a renovação do ambiente e da biodiversidade urbana. É um modelo de adensamento vertical da natureza dentro da cidade, que opera em relação às políticas de reflorestamento. As torres com suas vegetações produzem umidade, absorvem partículas de CO2, poeira, e produzem oxigênio.
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É um grande avanço na arquitetura e principalmente um grande passo para a conscientização das pessoas em relação aos danos que os seres humanos causam na natureza. A preocupação com o reflorestamento mostra que os arquitetos contemporâneos estão tentando mudar a mentalidade das pessoas. Mesmo que utopicamente, de pouco em pouco a humanidade tende a progredir neste aspecto.

FICHA TÉCNICA

Projeto: Stefano Boeri
Área: Aproximadamente 50000m2 cada torre
Valor dos apartamentos: €1.500.000,00 a €4.700.000,00
Conclusão: Outubro 2014

FARMING KINDERGARTEN | Biên Hòa, Dong Nai, Vietnam

Mais um artigo presente na edição de Março de 2016 da AA, este projeto relata a relação da cidade contemporânea com a arquitetura. As condições precárias da cidade vietnamita (secas, inundações, congestionamento diário aumentando a poluição e etc.) consequências da rápida urbanização, serviram de premissa para o desenvolvimento de um projeto que proporcionasse um local mais saudável, e com maior relação com a natureza para as crianças.

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Localizado ao lado de uma grande fábrica de calçados, e projetado para 500 filhos de trabalhadores da fábrica, o edifício é concebido como um telhado verde contínuo, proporcionando alimentação e agricultura em uma horta local para as crianças, além de um amplo campo verde a ceu aberto, criados para que as crianças aprendem a importância da agricultura e recuperem uma conexão com a natureza .
O telhado verde é em forma de um anel triplo, circundando três pátios interiores, formando playgrounds seguros.

O edifício possui janelas que aumentam a ventilação cruzada e a iluminação natural. Além disso, há vários artifícios arquitetônicos para economizar energia como por exemplo: telhado verde como isolamento e fachada verde como sombreamento e aquecimento solar de água. São projetados de forma visível e desempenham um papel importante na educação sustentável das crianças.

Mais uma vez, percebeu-se a preocupação com o meio ambiente, mas mais que isso com as crianças da cidade. A construção deste projeto, ajudará uma nova geração a crescer mais conscientizada em relação a natureza e também mais saudável. Nesta construção, a situação da cidade contemporânea foi  indispesável para que todos fatores acima citados fossem pensados cuidadosamente.

FICHA TÉCNICA

Projeto: Vo Trong Nghia Architects
Área: 3.800 m2
Ano do projeto: 2013

OUTROS EXEMPLOS

MUSEU QUAI BRANLY | PARIS, FRANÇA

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CASA BETANIA | RIO DE JANEIRO, BRASIL

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PAREDE VERDE | LONDRES, INGLATERRA

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Ao analisar este tema, percebemos que já há uma maior conscientização das pessoas ao redor do mundo. No entanto, é o suficiente? Acreditamos ser apenas um pequeno passo diante de um caminho enorme a ser percorrido. E nós, como futuros arquitetos urbanistas, temos a missão de transmitir a importância destes conceitos para a sociedade. Independente da forma, sendo uma preocupação com a natureza existente, a inserção de artifícios para proteje-la ou a criação de novos métodos para complementá-la, qualquer ação é valida.

CAMILA FISCHMANN E FELIPE SAURIN

Jeito de morar… 生き方… ikikata

Considerando as abordagens das ultimas edições da revista japonesa JA foi possível encontrar o partido para uma analise cultural e estética diante o modo de morar contemporâneo que será contemplado a seguir frente às configurações brasileira e japonesa.

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Partindo do fato de que as edições publicadas buscaram abranger a metrópole diante da natureza centrada sobre a arquitetura, foi no projeto típico de moradias sociais japonesas que encontramos inspiração para aperfeiçoar o tema e compara-lo ao modo de morar de favelas brasileiras.

Analisaremos a seguir projetos de habitação de pequeno porte, tomando como parâmetro soluções utilizadas na arquitetura contemporânea japonesa. Para isso, situaremos os dois países no espaço e no tempo para conectar culturas e estética.

O Japão é uma península, enquanto Brasil ocupa quase que sozinho, um continente.

O Japão tem um histórico de recorrência de habitações de pequeno porte em sua arquitetura por questões de restrição espacial e cultural. Para entendermos melhor a habitação japonesa, primeiro fizemos um panorama da evolução arquitetônica até os dias atuais, onde foi possível perceber que a arquitetura japonesa ficou praticamente inalterada por um largo período até a abertura dos portos e imigração da cultura ocidental em seus costumes. A propagação da habitação de pequeno porte ocorreu, portanto, após o grande terremoto de 1923, a leste do Japão, que estabeleceu uma rápida reação do governo para realocar as pessoas desalojadas.

Percebemos enfim, pela posição geográfica, que o território vem sofrendo por desastres naturais e não tem como escapar.  Ou seja, a natureza impõe a forma e dita os valores culturais. O japonês se adapta frente um caráter preventivo, pragmático, racional, regulado e rigoroso que transparece no seu jeito de viver e nas suas obras arquitetônicas.

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Para exemplificar, escolhemos a obra da arquiteta Kazuyo Sejima apresentada na revista. Trata-se de uma habitação multifamiliar de interesse social que fica no Japão, em Gifu, e que foi realizada entre 1994 e 2000. Previamente, a arquiteta realizou uma pesquisa a qual foi nomeada “Housing and community” retratando a característica dos apartamentos urbanos, onde projetou protótipos para cinco tipos de apartamentos.  Naquela época o padrão de moradia para apartamentos públicos era de 120 unidades repartidas em 1 ha, cada unidade tendo uma área de 60m2 ou 70 m2  . O estudo consistiu também em uma analise da proporção existente entre o edifício e o lote na periferia, no centro da cidade e nas áreas estritamente residenciais. Após a elaboração de varias estruturas e volumes para diferentes padrões de altura surgiu a proposta para o projeto do HIS localizado em Gifu.

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O projeto consiste em 430 unidades no total, onde Kazuyo Sejima projetou apenas 107 das unidades de 70m2. As unidades têm uma configuração flexível, apresentando cinco tipologias (solteiro, casal, casal+1, casal+2, casal+3). A arquiteta queria criar um espaço coletivo, evocando uma relação entre vida e cidade, onde o volume foi concebido através do modo de viver. A partir desse jeito de projetar minimalista, com uso de figuras codificadas foi possível enxergar como volume se encaixaria na cidade, para isso a arquiteta também passeou dentro de um trem onde tinha a vista global do terreno.

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Foi feita então uma seleção dos diferentes modos de viver, a fim de selecionar os que resultariam o projeto. O que resultou em múltiplas entradas que expressam a existência de diferentes maneiras de interagir com a sociedade. A partir de uma abertura panorâmica pelo corredor do fluxo coletivo e inserção de varanda privada nas habitações, descreveu-se a relação com a natureza. Assim, o espaço deve ter continuidade com o ambiente circundante (tema recorrente em todos os projetos da arquiteta) e deve expressar sua relação com o entorno. O objetivo final foi, portanto, criar simultaneamente um lugar onde as pessoas passam tempo juntos como um grupo, não perdendo a característica individual, onde se pode confortavelmente ter seu próprio tempo e espaço.

Em contrapartida, o Brasil sofreu colonização e passou por vários cenários de mudança ao longo de seu desenvolvimento, resultando uma miscigenação de diversas culturas. O país passou por varias fases históricas e isso refletiu em sua arquitetura eclética a situação sociopolítica econômica.  A diversidade de recursos naturais e o clima tropical característico brasileiro remetem a um caráter diversificado que, ao contrario da homogeneidade nipônica, desenvolveu um caráter emocional, flexível e moldável.

Sendo assim, encontramos um paralelo nas favelas brasileiras, que é resultado de um processo arquitetônico e urbanístico vernáculo singular, de estética própria e que reflete o contexto econômico no qual se encontra o país. Questões culturais, imateriais e principalmente estética das favelas (samba, carnaval, festas populares, religiosas, diversas etnias, cores e saudade) possuem ligação direta com esses espaços.

Para exemplificar, analisamos a favela paulistana Paraisópolis que tem um perfil multifamiliar, onde 100.000 habitantes compõem as moradias despadronizadas em um local de topografia em declive. Ao invés de se desenvolver na periferia, como a maioria das favelas típicas brasileiras, Paraisópolis está localizada no antigo centro urbano de fábricas, onde antigamente era um terreno privado com lotes delimitados. Dessa forma, as habitações cresceram sem limites dos blocos, respeitando apenas os maiores eixos de fluxo viário.

Nesse caso, o volume constrói a paisagem e concebe o modo de viver. Causando um desenvolvimento de conjuntos de moradias desalinhadas que vão se autoconstruindo.

Por se tratar de um projeto urbano, onde uma cidade cresceu dentro de outra cidade, observamos que as moradias não tem proporção e as vias estruturadoras se dão à medida que as habitações nascem. Isso tem como consequência uma sobra mínima de vazios, onde não se há regras nem limites. Assim, a cidade parece ser enterrada embaixo de uma massa de edificações sem fim. As unidades habitacionais, diferente das unidades japonesas de Kasuyo Sejima, não apresentam caráter individual e as janelas são na maioria das vezes abertas para a vizinhança. As pessoas se vêem privadas da sua privacidade.

Diante um cenário contemporâneo, não existe certo ou errado, mas sim diferentes modos de viver. No Japão observamos um desenvolvimento regrado enquanto no Brasil houve um autodesenvolvimento. Logo podemos concluir que a questão escala faz toda a diferença quando comparamos um ao outro. As favelas são muito mais densas diversificadas e geram maiores fluxos e conexões, enquanto a habitação coletiva japonesa abrange um publico especifico e uma sociedade muito mais laçada ás regras.

O morar contemporâneo é então, resultado do processo de desenvolvimento de suas cidades. Sendo assim, a cidade contemporânea pode ser entendida como uma “angelopolis”, que segundo Massimo Cacciare quer dizer “anjos que sobrevoam a terra sem nunca parar”. Portanto, uma cidade sem moradia resulta um homem contemporâneo vagueador, que nunca para num ponto fixo, como se fosse nômade. Podemos então nos perguntar se este fenômeno é causado por falta de moradia ou se a falta de moradia é a causa do “vagueamento” dos Homens. Assim, a cidade se tornou metrópole, pessoas se movimentam em alta velocidade e nunca estão em um lugar só. Pessoas vagueiam sem nunca parar e cidades são os lugares das possibilidades.8

Bruna MIRON e Louise S. CANUET

BRINCADEIRA COLETIVA [PLOT]

A revista PLOT é produzida em Buenos Aires desde 2010 trazendo um conteúdo sobre arquitetura contemporânea em um momento no mundo onde tem uma necessidade e a possibilidade da renovação de argumentos. Os projetos apresentados na revista são relativamente recentes, mas sempre com um tom idealista, sem deixar de lado responsabilidades sociais e políticas. A revista não é muito conhecida no Brasil ainda, mas tem potencial em design e qualidade, tanto da revista física quanto de conteúdo apresentado.

Selecionamos para esse post três projetos a partir das edições da PLOT que lidam com o entorno de uma forma especial e o processo de construção como o meio para o resultado final. Mesmo sendo em três continentes diferentes, pode-se ver semelhanças nos projetos, a inclusão das pessoas no projeto [com graus diferentes de participação], o uso escolhido e materiais construtivos:

BIJLMERPARK

arquitetos_ CARVE, em parceria com Marie-Laure Hoedemakers

área_ 8400m2

localização_ Amsterdam, Holanda

anos_ 2009-2011

[plot 28]

Bijlmerpark-by-carve-landscape-architecture-03

O projeto de BIJMERPARK envolve muito mais do que um simples parque para crianças; ele faz parte de um mini master plan de uma área que sofreu da “morte” do ideal do modernismo. Logo se vê uma necessidade de renovação de áreas antes limitadas pelos pensamentos modernistas, e assim foi que esse mini master plan foi pensado e articulado. Rodear um parque esquecido com residências para assim florescer e dar vida àquela parte do bairro, e junto com esse parque desenvolver áreas que pudessem ser ocupadas por esses novos residentes.

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Uma dessas áreas é o BIJLMERPARK, um lugar para brincadeiras; o escritório CARVE acredita que as brincadeiras são extremamente importantes para qualquer criança e as cidades precisam dessas oportunidades. O projeto é desenvolvido por um grande anteparo de cordas e plataformas para as crianças entrarem e percorrerem com alguns elementos quadrados amarelos que servem de obstáculos, mas também promovem outros tipos de brincadeiras e banheiros públicos.

Bijlmerpark-by-carve-landscape-architecture-01

É necessário ver que a escolha de usar cores não foi ao acaso, pois com um inverno longo precisa-se de cores para alegrar a paisagem branca e cinza. As cores [rosa e amarelo] percorrem todo o território ocupado por essas brincadeiras, conduzindo as crianças a perceber que o limite não é aquele anteparo, aquele apartamento, aquele aparelho celular… Que é importante sair e brincar, ver que em uma cidade grande pode se ter o conforto de se relacionar com outras crianças em um ambiente próprio. Existem poucos lugares como esse, mas quando valorizados, são muito bem ocupados.

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RESIDÊNCIA PARA ARTISTAS E CENTRO CULTURAL THREAD

arquitetos_ Toshiko Mori Architects

área_ 1050m2

localização_ Sinthian, Senegal

anos_ 2014-2015

[plot 26]

Sinthian_TMA_6410

Esse debate nos leva ao segundo projeto, com um uso tão específico quanto ao projeto direcionado à crianças, uma escola direcionada para artistas. É impressionante ver que uma fundação de um artista renomado [Josef Albers] consegue chegar de um estado tão careta e rico que nem Connecticut até Senegal, um lugar pouco destacado no mundo. A intenção da arquiteta foi um processo que envolvesse o lugar que a arquitetura seria inserida que pode ser visto nas escolhas dos materiais, das cores, do partido da implantação e do uso do local.

site_plan

detail_(2)

Sinthian_TMA_7772

O foco central do projeto é abrigar artistas da região e artistas de qualquer outro lugar do mundo, com uma vontade de poder dar a opção de adotar como musa Senegal, um lugar rico em cultura, pessoas e natureza porém pobre em água, economia e estrutura. O CENTRO CULTURA THREAD usa-se de palha, tijolo, bambu e conhecimento dos pedreiros e moradores locais para criar uma arquitetura que valorizaria os aspectos da vida na vizinhança de Sinthian. A cobertura inclinada criada com palha, designada ao escoamento de água para coletas específicas, já que água é tão rara na região. As áreas construídas por baixo dessa contínua e apaixonante cobertura, abriga dormitórios e ateliês semi cobertos que podem atuar como mercado, reuniões da vila e até eventos característicos locais.

Sinthian_TMA_6362

diagram

section

O Centro THREAD tem a intenção de servir como apoio para  a vila local e também para as vilas da redondeza, querendo dar a comunidade alguma estrutura para poderem ter desenvolvimento pessoal, como humanos e como artistas. Pode-se dizer que esse é o espaço para expressar brincadeiras e promover convívio de todas as idades.

portada_Sinthian_TMA_8063

PRAÇA DE NOSSOS SONHOS

arquiteto_ Lukas Fuster

área_ 14000m2

localização_ Remansito, Villa Hayes, Paraguai

anos_ projeto: 2013 e construção: 2014

orçamento_ $24000

[plot 26]

PORTADA_01.Plaza_de_Nuestros_Sueños_-_Ph.Federico_Cairoli_(low)

O último projeto leva nele uma importância muito maior no processo do projeto e da construção do espaço do que o resultado final. O nome já diz muito: PRAÇA DE NOSSOS SONHOS. Nossos, do coletivo. Podemos lembrar que vemos aos anos passarem, que o coletivo consegue ir mais longe do que o indivíduo, e o ganhador do Pritzker [Aravena] desse ano nos lembra disso. O processo, em algumas situações, é mais importante para a comunidade ou para a vizinhança, ou para a cidade do que o resultado final. Pois quando o processo é bem feito, o resultado é consequência.

Presentacion AntePro RemansitoFINAL octubre 2013

18.Plaza_de_Nuestros_Sueños_-_Ph.Federico_Cairoli_(low)

A PRAÇA DE NOSSOS SONHOS, como qualquer praça, é para valorizar o espaço público e a vida ao ar livre. O arquiteto fez questão de um processo participativo no projeto da praça para assim, quando finalizasse, as pessoas teriam conquistado aquele espaço. Podem considerar que aquele projeto é delas e assim utilizar com mais frequência e dividir o espaço com a vizinhança para ocupar a cidade com mais prazer. Do sonho de cada um, criando um sonho conjunto, rumo à realidade idealizada.

03.Plaza_de_Nuestros_Sueños_-_Ph.Federico_Cairoli_(low)

Fuster [o arquiteto] pediu a todos que imaginassem aquilo que desejaria naquela praça, e assim foi se criando esboços, croquis, maquetes de argila do que aquilo poderia se desenvolver. E assim, como um coletivo conseguiu-se construir com a ajuda dos moradores e usando materiais doados, uma praça pronta para ser ocupada; um mirante, balanços, rede para escalar, carrossel, mesinhas para atividades locais e qualquer outra brincadeira que quiser por lá fazer.

Presentacion AntePro RemansitoFINAL octubre 2013

Presentacion AntePro RemansitoFINAL octubre 2013

11.Plaza_de_Nuestros_Sueños_-_Ph.Federico_Cairoli_(low)

Com esses projetos e o incentivo da Revista PLOT em destaca-los não pela arquitetura monumental e chamativa, mas pelos princípios de educação e respeito pela sociedade inserida no meio de convívio urbano, nos faz refletir sobre o ideal casamento entre arquitetura e urbanismo, com a sensibilidade de estruturar soluções para problemas socioeconômicos e ambientais.

 

Giovana Belinello e Juliana Valle.