Jeito de morar… 生き方… ikikata

Considerando as abordagens das ultimas edições da revista japonesa JA foi possível encontrar o partido para uma analise cultural e estética diante o modo de morar contemporâneo que será contemplado a seguir frente às configurações brasileira e japonesa.

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Partindo do fato de que as edições publicadas buscaram abranger a metrópole diante da natureza centrada sobre a arquitetura, foi no projeto típico de moradias sociais japonesas que encontramos inspiração para aperfeiçoar o tema e compara-lo ao modo de morar de favelas brasileiras.

Analisaremos a seguir projetos de habitação de pequeno porte, tomando como parâmetro soluções utilizadas na arquitetura contemporânea japonesa. Para isso, situaremos os dois países no espaço e no tempo para conectar culturas e estética.

O Japão é uma península, enquanto Brasil ocupa quase que sozinho, um continente.

O Japão tem um histórico de recorrência de habitações de pequeno porte em sua arquitetura por questões de restrição espacial e cultural. Para entendermos melhor a habitação japonesa, primeiro fizemos um panorama da evolução arquitetônica até os dias atuais, onde foi possível perceber que a arquitetura japonesa ficou praticamente inalterada por um largo período até a abertura dos portos e imigração da cultura ocidental em seus costumes. A propagação da habitação de pequeno porte ocorreu, portanto, após o grande terremoto de 1923, a leste do Japão, que estabeleceu uma rápida reação do governo para realocar as pessoas desalojadas.

Percebemos enfim, pela posição geográfica, que o território vem sofrendo por desastres naturais e não tem como escapar.  Ou seja, a natureza impõe a forma e dita os valores culturais. O japonês se adapta frente um caráter preventivo, pragmático, racional, regulado e rigoroso que transparece no seu jeito de viver e nas suas obras arquitetônicas.

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Para exemplificar, escolhemos a obra da arquiteta Kazuyo Sejima apresentada na revista. Trata-se de uma habitação multifamiliar de interesse social que fica no Japão, em Gifu, e que foi realizada entre 1994 e 2000. Previamente, a arquiteta realizou uma pesquisa a qual foi nomeada “Housing and community” retratando a característica dos apartamentos urbanos, onde projetou protótipos para cinco tipos de apartamentos.  Naquela época o padrão de moradia para apartamentos públicos era de 120 unidades repartidas em 1 ha, cada unidade tendo uma área de 60m2 ou 70 m2  . O estudo consistiu também em uma analise da proporção existente entre o edifício e o lote na periferia, no centro da cidade e nas áreas estritamente residenciais. Após a elaboração de varias estruturas e volumes para diferentes padrões de altura surgiu a proposta para o projeto do HIS localizado em Gifu.

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O projeto consiste em 430 unidades no total, onde Kazuyo Sejima projetou apenas 107 das unidades de 70m2. As unidades têm uma configuração flexível, apresentando cinco tipologias (solteiro, casal, casal+1, casal+2, casal+3). A arquiteta queria criar um espaço coletivo, evocando uma relação entre vida e cidade, onde o volume foi concebido através do modo de viver. A partir desse jeito de projetar minimalista, com uso de figuras codificadas foi possível enxergar como volume se encaixaria na cidade, para isso a arquiteta também passeou dentro de um trem onde tinha a vista global do terreno.

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Foi feita então uma seleção dos diferentes modos de viver, a fim de selecionar os que resultariam o projeto. O que resultou em múltiplas entradas que expressam a existência de diferentes maneiras de interagir com a sociedade. A partir de uma abertura panorâmica pelo corredor do fluxo coletivo e inserção de varanda privada nas habitações, descreveu-se a relação com a natureza. Assim, o espaço deve ter continuidade com o ambiente circundante (tema recorrente em todos os projetos da arquiteta) e deve expressar sua relação com o entorno. O objetivo final foi, portanto, criar simultaneamente um lugar onde as pessoas passam tempo juntos como um grupo, não perdendo a característica individual, onde se pode confortavelmente ter seu próprio tempo e espaço.

Em contrapartida, o Brasil sofreu colonização e passou por vários cenários de mudança ao longo de seu desenvolvimento, resultando uma miscigenação de diversas culturas. O país passou por varias fases históricas e isso refletiu em sua arquitetura eclética a situação sociopolítica econômica.  A diversidade de recursos naturais e o clima tropical característico brasileiro remetem a um caráter diversificado que, ao contrario da homogeneidade nipônica, desenvolveu um caráter emocional, flexível e moldável.

Sendo assim, encontramos um paralelo nas favelas brasileiras, que é resultado de um processo arquitetônico e urbanístico vernáculo singular, de estética própria e que reflete o contexto econômico no qual se encontra o país. Questões culturais, imateriais e principalmente estética das favelas (samba, carnaval, festas populares, religiosas, diversas etnias, cores e saudade) possuem ligação direta com esses espaços.

Para exemplificar, analisamos a favela paulistana Paraisópolis que tem um perfil multifamiliar, onde 100.000 habitantes compõem as moradias despadronizadas em um local de topografia em declive. Ao invés de se desenvolver na periferia, como a maioria das favelas típicas brasileiras, Paraisópolis está localizada no antigo centro urbano de fábricas, onde antigamente era um terreno privado com lotes delimitados. Dessa forma, as habitações cresceram sem limites dos blocos, respeitando apenas os maiores eixos de fluxo viário.

Nesse caso, o volume constrói a paisagem e concebe o modo de viver. Causando um desenvolvimento de conjuntos de moradias desalinhadas que vão se autoconstruindo.

Por se tratar de um projeto urbano, onde uma cidade cresceu dentro de outra cidade, observamos que as moradias não tem proporção e as vias estruturadoras se dão à medida que as habitações nascem. Isso tem como consequência uma sobra mínima de vazios, onde não se há regras nem limites. Assim, a cidade parece ser enterrada embaixo de uma massa de edificações sem fim. As unidades habitacionais, diferente das unidades japonesas de Kasuyo Sejima, não apresentam caráter individual e as janelas são na maioria das vezes abertas para a vizinhança. As pessoas se vêem privadas da sua privacidade.

Diante um cenário contemporâneo, não existe certo ou errado, mas sim diferentes modos de viver. No Japão observamos um desenvolvimento regrado enquanto no Brasil houve um autodesenvolvimento. Logo podemos concluir que a questão escala faz toda a diferença quando comparamos um ao outro. As favelas são muito mais densas diversificadas e geram maiores fluxos e conexões, enquanto a habitação coletiva japonesa abrange um publico especifico e uma sociedade muito mais laçada ás regras.

O morar contemporâneo é então, resultado do processo de desenvolvimento de suas cidades. Sendo assim, a cidade contemporânea pode ser entendida como uma “angelopolis”, que segundo Massimo Cacciare quer dizer “anjos que sobrevoam a terra sem nunca parar”. Portanto, uma cidade sem moradia resulta um homem contemporâneo vagueador, que nunca para num ponto fixo, como se fosse nômade. Podemos então nos perguntar se este fenômeno é causado por falta de moradia ou se a falta de moradia é a causa do “vagueamento” dos Homens. Assim, a cidade se tornou metrópole, pessoas se movimentam em alta velocidade e nunca estão em um lugar só. Pessoas vagueiam sem nunca parar e cidades são os lugares das possibilidades.8

Bruna MIRON e Louise S. CANUET

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