Arquitetura Regional : o passado refletindo o futuro / Arquitectura Viva

A Arquitectura Viva foi a revista escolhida como base para a produção textual. É uma revista espanhola cujos interesses vão além da arquitetura, que abrange outras disciplinas relacionadas, a partir de uma perspectiva plural e crítica.  O tema é ” A arte da realidade” , que serviu como ponto de partida para a análise feita neste texto.

Arquitetura sustentável x Arquitetura regional 

A agora denominada arquitetura sustentável não representa  um conceito novo, senão uma parte da tradicional arquitetura regional. Corresponde a uma arquitetura pertencente ao seu lugar, o que implica três aspectos principais: o respeito à regionalidade cultural e social; a adaptação ou regionalização das obras ao meio e em terceiro lugar, a forma e os materiais com que as obras são construídas. Tem a utilização racional dos recursos naturais para sua conservação futura como principal característica, o que implica o emprego de materiais de baixo consumo de energia, assim como materiais de uma alta eficiência estrutural.

Quando mencionado pela primeira vez o conceito de sustentabilidade na década de 70, seguido por  recomendações para uma arquitetura condizente, as premissas para que se consolidassem edificações “eco friendly”, ou seja,  que considerassem condições climáticas, da hidrografia e dos ecossistemas, a eficácia e moderação no uso de materiais de construção, a redução do consumo de energia  e o cumprimento com os requisitos de conforto higrotérmico, salubridade, iluminação e ocupação, abriam -se novas portas para um novo conceito. Uma arquitetura que consolida edifícios que contam com muitos estudos e tecnologia de ponta,  telhados verdes, sistemas hídricos que envolvem reaproveitamento de águas pluviais, materiais locais, dentre outros. Porém, vale ressaltar  que  uma realidade inevitável, é a construção de obras muitas vezes artificiais, assim como a intervenção dos arquitetos dentro de um âmbito natural que significa, de uma maneira, uma alteração da natureza. Contudo, a  que nos referimos com esta denominação e o que devemos entender por arquitetura sustentável?

 

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Projeto de Hiperstudio + Arkiz , que ganhou o primeiro lugar no concurso do Hotel Aliah.

 

 

Hoje, a arquitetura regional , que adquiriu novos traços com a contemporaneidade, vem sido relacionada a arquitetura sustentável . Baseado nas características citadas acima, os dois conceitos compreendem idéias de distintas extensões. A primeira abarca à segunda e também, à arquitetura sem arquitetos ou a chamada arquitetura vernacular, portanto, a arquitetura regional tem uma maior extensão e um caráter inclusivo, do qual carece a sustentável e a vernacular.

Contemporaneidade

No mundo industrializado e rico, resultado de um sistema capitalista e com olhos voltados – quase – sempre para a arquitetura do espetáculo e do êxtase ,onde tudo que é imaginado pode ser criado, o cenário da atualidade começa a dar espaço novamente a uma vertente que , por hora, estava esquecida, onde o menos é mais : sistemas construtivos simples e de fácil execução, objetos arquitetônicos que se integram , através da escala e programa, com seus usuários e onde o efeito “uau” passa a ser segundo plano, diferentemente da arquitetura contemporânea da corrente dos STAR ARCHITECTS, onde a beleza é prioridade e estruturas e formas que parecem ser impossíveis de serem construídas chamam mais atenção do que a arquitetura em si. Isto não representa em sua totalidade um conceito negativo, apenas um diferente ponto de vista. Contudo, segue uma tendência de esterilização, onde a arquitetura parece ter entrado em seu próprio mundo autônomo e muitas vezes  já não media a relação com as realidades da vida e da cultura, perdendo o contato com seu objetivo original, que é servir de ponto de apoio a existência e necessidades humanas.

 

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“The Gherkin” Londres, por Norman Foster

 

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Casa da Ópera em Valência, por Santiago Calatrava

 

 

 

 

 

 

Em contraponto, parece apropriado e bem vindo o destaque  a corrente da arquitetura regional. Resulta que as matérias primas ou primárias, com as que construímos durante milênios nossa arquitetura regional e própria ou indígena, são a base e o sustento da assim chamada, arquitetura sustentável hoje em dia. Ultimamente, muitas revistas vêm publicando projetos de lugares mais humildes, assim como exposições são dedicadas cada vez mais a temas recorrentes de tal vertente, como por exemplo ” Small scale, big change”,   “Architecture of the essential”, ” Arquitectura necesaria” , dentre outros.

Este ano, o ganhador do Pritzker, grande prêmio da arquitetura, foi Alejandro Aravena, arquiteto chileno, que trabalha sob grande influência do ideal da melhora de espaços urbanos e a crise habitacional global. Também é um grande representante da arquitetura regional Diébédo Francis Keré, um arquiteto africano, nascido em Gando. Foi o primeiro cidadão de seu povoado a frequentar a universidade e para seu trabalho de conclusão de curso, propôs uma escola para sua terra natal, que foi construída e premiada. Keré e Aravena são representantes de uma arquitetura que vai além do superficial : se comprometem com as tradições locais e habilidades sociais e realizam um trabalho cosmopolita com o desafio de projetos que tem a ver com realidades socioeconômicas totalmente distintas.

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Quinta Monroy, Chile por ELEMENTAL, escritório do qual Alejandro Aravena faz parte.

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O projeto foi concebido para locar as 100 famílias da Quinta Monroy , no mesmo local de 5.000 metros quadrados que eles ocupavam ilegalmente durante os últimos 30 anos, no centro de Iquique, uma cidade no deserto chileno.

 

 

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Escola primária em Gando, África. Por Francis Keré

 

 

 

 

 

 

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O projeto é feito com materiais locais, sobretudo argila e madeira , com o intuito de criar edifícios que sejam modernos e ainda coerentes com seu entorno e cultura local.

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O projeto concedeu ao arquiteto prêmios como o Aga Khan Award for Architecture em 2004 e o Global Award for Sustainable Architecture em 2009.

Considerando que é incontornável a realidade dos problemas sociais e que, cada vez mais, há uma tendência para reconhecer arquitetos que têm ido além dos limites tradicionais da disciplina de arquitetura, e que são capazes de  exercer  influência para gerar soluções para os problemas urgentes da sociedade , o futuro da arquitetura parece ser bastante promissor para o sentido da recuperação da identidade com seus usuários. No paradigma demográfico e ecológico em que o planeta se encontra, estes processos que recorrem ao disponível e adequado em lugar de conceberem autocraticamente o desenho final ganham sentido.
Para isto, o uso de ferramentas vernaculares contemporâneas que permitem configurar os programas segundo a identidade de cada cultura, de cada comunidade, de cada indivíduo é essencial, assim como a mudança de conceito sobre a real arquitetura. Esta é a hora de valorizar projetos com conteúdos realmente importantes e de extrema urgência.

Nahla Chahoud e Orlando Stedile, Abril 2016.

 

 

 

 

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