ARQUITETURA SEM LUGAR: ESPAÇOS RESIDUAIS

A arquitetura funciona como a base para  a vida urbana. Contudo, é impossível não reparar nos espaços as relações entre cheios x vazios que os edifícios em suas formas configuram. Por isto, é uma consequência associar a arquitetura com os conceitos da fotografia e filmagem pela sensibilidade em relação à representação arquitetônica que tais conceitos transmitem. Pode-se dizer que a percepção que temos da arquitetura é uma percepção esteticamente reelaborada pelo olho e pela técnica fotográfica. Isto não significa que através das fotografias e filmagens estamos vendo as cidades. Porém, através da imagem fotográfica somos capazes de receber impulsos físicos que dirigem numa determinada direção a construção de um imaginário que estabelecemos como o de um lugar ou uma cidade determinada e a memória que acumulamos por experiência direta, por narrações ou por simples acumulação de novos indícios é a que produz nossa IDEIA da cidade. Esta ideia varia de acordo com cada lugar que vivenciamos:ao percorrer espaços em seus cheios e vazios, que proporcionam experiências únicas de acordo com os elementos que os compõem, seja ele uma cobertura, um brise que forma um jogo de luzes, uma textura ou até mesmo a ausência de elementos que muitas vezes configura espaços que não pertencem a ninguém: espaços residuais.

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Foto de John Davies em Kenton, Reino Unido.

Os espaços urbanos vazios e abandonados,funcionam como íman aos olhos dos fotógrafos cidadãos. A expressão francesa terrain vague, representa os que parecem se converter em fortes pontos de atenção, indiciando e indicando o que as cidades são e a experiência que tem-se dela. Porém, tais espaços vazios, ausentes e inóspitos, fazem com que sejamos estranhos frente a nossa própria cidade: o habitante urbano sente os espaços não dominados pela arquitetura como reflexo da sua própria insegurança, do seu vago por espaços sem limites que constituem uma expressão física do seu temor vazio,mas também uma expectativa do espaço do possível. Contudo, tais espaços incertos não necessariamente transmitem uma mensagem negativa, mas inegavelmente, sempre a expectativa utópica do por vir. O entusiasmo por esses espaços flutuantes é, em código urbano, a resposta a nossa estranheza ante o mundo, ante nossa cidade, ante nós mesmos.

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Imagem via satélite do Arco do Triunfo em Paris, França.

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Imagem via satélite de Guadalajara, México.

COMO ESTES LUGARES SE CONSTITUEM ?

Estes espaços residuais são lugares externos, estranhos, que ficam fora dos circuitos, das estruturas produtivas. Frutos muitas vezes de uma corrente modernista que tem como critério a  indisposição em dialogar com o ambiente local, assim como a recusa por construir lugares significativos e que, em antemão, prioriza projetos esteticamente exuberantes, onde encontram-se formas glamurosas que se destacam ante a passividade de uma vida urbana sem identidade. É a forma que seduz mais do que o conteúdo, a aparência contra a essência, a beleza contra a utilidade. Desde um ponto de vista econômico,estes espaços configuram áreas industriais, estações de trem, portos,baixos de viadutos, áreas residenciais inseguras, lugares contaminados, tem se convertido em áreas das que se pode dizer que a cidade já não se encontra ali.

Segundo Sola Morales, em seu lúcido texto Terrain Vague, o que configura estes espaços:

“São suas bordas carentes de uma incorporação eficaz, são ilhas interiores esvaziadas de atividade, são olvidos e restos que permanecem fora da dinâmica urbana. Convertendo-se em áreas simplesmente des-habitadas, in-seguras, im-produtivas. Em definitiva, lugares estranhos ao sistema urbano, exteriores mentais no interior físico da cidade que aparecem como contraimagem da mesma, tanto no sentido de sua crítica como no sentido de sua possível alternativa.”

Portanto, estas cicatrizes urbanas conferem na cidade lugares que supostamente tem de ser de todos, mas não representa o lugar de ninguém. Decorrente de uma arquitetura “ausente” e da intorspecção do espaço urbano ,são partes de uma ambição fracassada de muitos idealizadores.

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Baixo de viadutos: de quem são estes espaços?

COMO REVERTER ESTA SITUAÇÃO?

É natural que depois de entender como funcionam estes espaços, surgem questionamentos. Como lidar com os limites imprecisos destas cidades que tanto influenciam e circundam a vida cotidiana? Como incorporar estes espaços estranhos novamente na cidade? Como controlar o processo de globalização desenfreada que , em muitas vezes, é a justificativa para esta consequência?

O espaço público é uma conquista democrática , direito de todo e qualquer cidadão. Contudo, as assimetrias sociais criam uma setorização onde se criminaliza o excluído o que é refletido na sociedade e onde ela acontece , ou seja, na cidade e mais precisamente, nos espaços públicos. Por outro lado, as classes mais altas renunciam destes espaços por receio e medo e o resultado é catastrófico: um ciclo vicioso onde o medo e falta de interação geram uma inércia e ainda mais exclusão. Muito disto é resultado da imposição de um modelo econômico e social que traduz uma maneira estéril de fazer a cidade rentável e sem conexões com o passado e vida urbana.

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Professores lecionando embaixo de um viaduto na índia. O espaço residual ainda que absolutamente esquecido, ainda é utilizado.

As soluções são alternativas para contornar uma situação existente e em sua maioria danosa onde o papel da arquitetura e do urbanismo se faz complexo e problemático, uma vez que muitas vezes entende-se por arquitetura a imposição de limites e formas, que quando projetados parecem introduzir transformações radicais , modificando e causando o estranhamento pela cidadania. É um desafio atuar no terrain vague sem se converter em um instrumento agressivo de poderes. Por isto, qualquer intervenção deve ser feita através de uma continuidade e da escuta atenta a voz da vida cotidiana local, afinal recuperar o espaço público vazio implica um retorno ao essencial que o circunda, tendo em conta as também as tecnologias disponíveis atualmente, criando novas formas de viver o espaço público, através de diversos aspectos.

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Projeto Undergardiner, em Toronto, Canadá.

O projeto Undergardiner funciona baixo a uma grande estrutura com extensão de 1,75 km, conectando 7 bairros e envolve diferentes programas destinados ao uso público da população.

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Undergardiner em Toronto, Canadá.

Alguns pontos importantes devem ser levados em consideração para reintegrar e recuperar os espaços residuais as cidades fazendo com que sejam mais habitáveis e dinâmicas e que criem ambientes  mais vivos e menos exclusivos, de interesse a toda vida urbana. Através de projetos que enxerguem a cidade como um todo, de forma heterogênea e plural que é, como um organismo dependente de cada parte e articulação, que também envolvam programas que contem com um sistema coerente de mobilidade, cultura e atividades que atendam a diferentes usuários. Afinal o direito ao espaço público de qualidade deve e precisa ser de todos.

 

Nahla Chahoud e Orlando Stedile / maio de 2016.

PROVOCAR | CONVOCAR URBANOS: Inquietações sobre a cidade

POR CAMILA FISCHMANN E FELIPE SAURIN

As obras expostas na exposição “Provocar/Convocar Urbanos” propõem reflexões sobre a ocupação da cidade, levando em consideração as dimensões individuais, sociais e políticas problematizando algumas questões socioambientais do espaço urbano; procuram mostrar ao publico em diferentes perspectivas as dificuldades que a mobilidade urbana vem apresentando nos tempos atuais.

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À seguir, após leitura do trecho retirado do folhetim da exposição, mostraremos um pouco de cada uma dessas obras e seus objetivos, além de uma reflexão geral sobre o tema abordado.

“Podemos afirmar que a cidade escreve a contemporaneidade. Isto se deve à sua dupla vocação de, por um lado, ser um ambiente densamente povoado e constantemente atravessado por fluxos migratórios e, por outro, funcionar como uma multifacetada representação físico-simbólica da nossa época, com todas as suas contradições. Organismo em permanente mudança, a cidade se constitui a partir daquilo que ela própria estimula e fomenta. Suas transformações afetam os menores detalhes da vida cotidiana dos cidadãos. Estes, por sua vez, têm a possibilidade de produzir alterações nas dinâmicas da urbe, por meio da mobilização social e política.

Apostando na capacidade interventiva das práticas artísticas e ativistas diante de premências socioambientais, o projeto Provocar urbanos propõe reflexões e ações em torno do direito pleno à cidade, considerando as dimensões coletivas, individuais e políticas aí implicadas. Composto por um conjunto de instalações concebidas por artistas contemporâneos – distribuídas por diferentes espaços do Sesc – seu vetor expositivo busca friccionar aspectos urbanísticos, ambientais, arquitetônicos, populacionais e culturais.

Seu segmento complementar intitula-se Convocar urbanos. Integram-no o programa educativo e uma série de proposições dedicadas a discutir elementos centrais da urbanidade, como, por exemplo, o direito universal à agua, à mobilidade, à moradia e, tão importante quanto, aos recursos que nos permitam repensar a cidade de maneira alternativa aos parâmetros especulativos, excludentes e segregadores que marcam o perfil das megacidades contemporâneas no capitalismo tardio.

Ao refletir sobre os desafios apresentados pelo conglomerado urbano, conjugando-os às demandas e às lutas dos seus cidadãos, Provocar urbanos repercute a natureza socioeducativa e cidadã do trabalho realizado pelo Sesc. Articulando manifestações culturais imbuídas dos processos de transformação da realidade, o projeto dá sequência a uma ação institucional afeita aos questionamentos e aos vislumbres daí decorrentes, compartilhando com seus públicos diferentes modos de imaginar e reinventar as cidades.”
Texto extraído do folhetim da exposição (Sesc Vila Mariana – São Paulo)

 CIDADE PARA CRIANÇAS DE 0 A 99 ANOS | COLETIVO BASURAMA

O coletivo espanhol Basurama (nome vem da palavra “basura”, lixo em espanhol) procura inverter a lógica residual das grandes cidades, criando instalações para ocupação de espaços públicos, e não simplesmente transformam lixo em arte. É um espaço no qual pessoas de todas as idades podem vivenciar a coletividade ampliando as relações que podem surgir nas cidades.

 Na obra Cidade para crianças de 0 a 99 anos há uma transformação de vários tipos de resíduos em matéria lúdica, um playground para lazer e reflexão. Os materiais utilizados foram reaproveitados de peças que seriam descartadas pelo Sesc.

 LÁGRIMAS DE SÃO PEDRO | VINÍCIUS S.A.

A obra Lágrimas de São Pedro, é composta por lâmpadas recicladas, cheias de água destilada, suspensas por fios de nylon no teto em diferentes alturas e iluminação específica; propõe uma reflexão sobre as chuvas e a crise hídrica atual do país.

“É como se tivéssemos o poder de pausar a chuva, uma chuva de gotas grandes, limpas, transparentes, leves e com isso poder contemplar sua beleza, seu poder, seu símbolo, sua necessidade”, afirma Vinícius.

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Algumas questões são colocadas em questão a partir desta obra: A redução do volume de chuvas é resultado de mudanças climáticas? A ocupação das áreas de mananciais e desmatamento impactaram na capacidade dos reservatórios? Faltaram investimentos, obras de infraestrutura e planejamento? Qual o impacto do consumo domiciliar frente ao consumo da indústria e da agricultura? Como promover o uso racial e evitar o desperdício? Ou seja, é colocada em pauta a contradição que há entre a intervenção política e as causas naturais.

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O NOME DA MARGEM | ERICA FERRARI + MAURÍCIO ADINOLFI

A obra foi feita a partir de apoios que sustentam e comprimem materiais que são comumente usados na construção civil. Ela remete à ocupação desordenada do espaço urbano e traz o registro de depoimentos de diferentes colaboradores desta obra, em forma de áudio. O ponto principal para a criação deste trabalho, foi a acelerada urbanização que ocorreu no Brasil no século passado. A ocupação urbana desenfreada, acabou por muitas vezes, se autoconstruindo de forma irregular, e é desta dinâmica que trata a obra.

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MONOBLOCOS | MARCELO CIDADE

“Queremos permanecer imobilizados pelo concreto? Ou queremos permitir que ele se movimente, a partir de nossas vontades coletivas, ganhando novas formas e funções?” Folhetim da exposição.

A partir destes questionamentos, pode-se entender o objetivo do autor da obra Monoblocos. Ele procura, através de blocos de concretos sobre rodas, espalhados sobre a sala de exposição, desconstruir o fato de que este material, essencial nas cidades, engesse a horizontalidade da cidade, permitindo que o visitante posso reorganizar os blocos de qualquer maneira.

CICLOVIAÉREA | JARBAS LOPES – PROJETO MUTIRÃO | GRAZIELA KUNSCH

Para o artista, a bicicleta representa o equilíbrio entre o homem e a máquina. Através de uma maquete, ele propõe uma nova via elevada do solo, para que o ciclista possa circular de forma livre e independente dos outros meios de locomoção. Ele acredita ser de extrema necessidade a população ter alternativas, perante ao estresse que é viver em cidades nas quais o congestionamento e número de veículos aumentam cada vez mais.

Seguindo o mesmo tema das ciclovias, Graziela Kunsch, com o Projeto Mutirão, procura mostrar, através de uma série de vídeos de ações coletivas de transformação espacial, a evolução do tema ao passar dos anos, sendo renovada a cada edição, a partir da colaboração entre a artista e o público.

LABORATÓRIO DE MODELAGEM URBANA | GUILHERME TEIXEIRA

O Laboratório de Modelagem Urbana segue a mesma proposta de liberdade de montagem da obra Monoblocos: diversas peças de madeiras, em diferentes formatos e tamanhos, são dispostas sobre mesas modulares, onde o visitante pode projetar e partilhar suas ideias, propondo novas formas de uso do espaço urbano ou construindo cidades imaginarias. A obra foi inspirada em jogos como Simcity e Civilization, onde o plano urbano pode ser criado sem regras impostas e de forma coletiva.

BARRAVENTO | RODRIGO BUENO

A sensação de aprisionamento nas cidades tornou-se comum, seja no trabalho, no trânsito, ou até mesmo em casa. No conjunto de esculturas denominado Barravento, o artista expõe a liberdade do vento.

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Os materiais utilizados tem suas funções alteradas e as vezes contrárias as originais: grades de proteção tornam-se esculturas, mobiliários viram suportes de plantas, ripas de madeira que seriam descartadas tornam-se suportes de sustentação etc.

CONCLUSÃO

Tais questões de mobilidade urbana levam o espectador da exposição à inúmeras reflexões sobre o tema.

Até que ponto os políticos e empreendedores estão preocupados com a melhoria da cidade para as pessoas, e não com os seus próprios interesses? A especulação imobiliária, que aperta cada vez mais as pessoas em condomínios fechados e a crescente privatização dos espaços urbanos, são notadas pela população? Provavelmente não!

Nós, do ramo da arquitetura, procuramos nos conscientizar cada vez mais, mas infelizmente a mídia tende a esconder e mascarar esses problemas. A exposição procura trazer esses problemas em pauta, primeiro levando as pessoas a refletirem sobre o tema, “provocando”, para que assim, depois de adquirir certo conhecimento, sejam “convocadas” para agir, fazendo a sua parte da maneira que possam. Por isso algumas das obras permitem interação; poder tocar e sentir o que o artista propôs com aquilo, ajuda ainda mais na reflexão do expectador leigo.

Mesmo que de forma indireta, começar a conscientizar a sociedade é de extrema importância para que, quem sabe no futuro, este tema seja tratado de forma explicita, coerente e justa. Melhor a pequenos passos do que na inércia.

INFORMAÇÕES

Exposição: “Provocar Urbanos – Inquietações sobre a cidade”, coletiva com curadoria do Sesc Vila Mariana.

Datas e horários: Abertura dia 20 de março, domingo, às 11h. Em cartaz de 20 de março a 31 de julho de 2016. De terça a sexta, das 10h às 21h30; sábados, das 10h às 20h30; domingos e feriados, das 10h às 18h30.

Local: Sesc Vila Mariana | R. Pelotas, 141 – Vila Mariana.

Entrada gratuita.

Sociedade Ilustrada

Fabiana Curi | Fernanda Giansante

 

O tempo da visão. Nenhum sentido é tão requisitado e valorizado quanto esse.

Não é de hoje que nossa sociedade foi habituada a crer que só as pessoas que enxergam podem vivenciar uma experiência completa. Vem desde a era dos grandes filósofos, quando Platão já considerava a visão como o mais nobre dos sentidos, e Heráclito dizia que “os olhos são testemunhas mais confiáveis do que os ouvidos”.

No entanto, ver e não enxergar é muito mais comum do que se imagina. Especialmente para nós que estamos acostumados a somente olhar para tudo e não perceber o que realmente está a nossa volta. O que realmente nós enxergamos?

Quantas vezes passamos despercebidos por algo que nos rodeia e não enxergamos as coisas simples que a vida nos mostra?

Olhar não significa necessariamente que você está, de fato, prestando atenção e tirando proveito da experiência. Além disto, há diversas preocupações com a quantidade de imagens e visões que recebemos no mundo contemporâneo. E desenvolver novas formas de conhecer e ampliar os outros sentidos é preciso.

 

 

A Arquitetura é nosso principal instrumento de relação com espaço e tempo, por dela envolver várias experiências sensoriais que se integram entre si. As edificações imponentes de algumas grandes cidades contemporâneas mostram uma certa falta de humanismo, quando deveriam estar focadas em aguçar todos os sentidos, mostrando que a visão não é o principal, nem único sentido importante.

O filosofo Hegel afirmava que o único sentido que pode dar sensação de profundidade espacial é o tato, pois sente o peso, a resistência e a forma tridimensional dos corpos materiais, e assim nos faz entender que as coisas se afastam de nos em todas as direções. A visão revela o que o tato já sabe.

 

 

Felizmente, durante os últimos 25 anos houve maior direcionamento da arte e arquitetura aos sentidos, a percepção e à experiência humana, mesmo que de maneira rasa. A arquitetura passou a atentar-se com a materialidade, espaço, simbolismo, a relação da mesma com o contexto e atmosfera, em conjunto.

A arte, muito antes da arquitetura, comecou a trabalhar com essas questões multisensoriais, por exemplo nas pinturas de Matisse, conseguimos sentir o calor do sol e a brisa fresca de suas pinturas com janelas com vistas para o mar.

 

 

Peter Zumthor é um otimo exemplo de arquiteto que ao inserir uma matéria na paisagem, mescla artesanato com indústria, percepção sensorial com a razão, subjetividade com o conceitualismo, e a natureza com a tecnologia.

Sua obra – Termas de Vals (Suíça, 1990-1996) – compõe seu interior com uma atmosfera especial feita de luzes artificiais e naturais, de texturas variadas de pedra e do concreto, dos sons das pessoas e das vibrações da água, das variações de temperatura e diferentes odores. Um edifício que lida com diversas percepções no espaço interno.

 

 

Maurício Rocha também estimula os sentidos com sua Arquitetura. Com o Centro para cegos e deficientes visuais (Iztapalapa, México, 2000-2001), o tato, o olfato e a audição são colocados acima da visão. Mauricio projetou os espaços abertos e fechados com base na peculiar percepção das pessoas cegas ou com dificuldade de visão. As mudanças de texturas, tipos diferentes de pisos de pedra e cascalho, os permitem assimilar as diferentes fricções dos pés. Os espaços abertos variados, semicobertos e cobertos ressoam os sons e os passos, além de dispor de seis grupos de espécies de plantas e flores odoríferas nos jardins do perímetro para que os usuários se localizem com base no olfato.

 

 

Essa sociedade ilustrada em que vivemos, tem que ser descontruída.

Através da exposição ”Diálogo no escuro”, vivenciamos uma experiência totalmente inusitada, que rompe a barreira do desconhecido e desafia o público a conhecer o mundo com outros olhos. A interação feita acompanhada de um guia com deficiência visual, totalmente no escuro, nos fez explorar todos os nossos sentidos, além de nos fazer confiar em pessoas com habilidade diferenciadas. Além de sensibilizar, o “Diálogo no escuro” evidencia que não poder enxergar, não significa não poder sentir a experiência, muito pelo contrário. Com isso, refletimos que é preciso encontra uma nova forma de “ver” as realidades.

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Bibliografia:

http://www.archdaily.com/158301/center-for-the-blind-and-visually-impaired-taller-de-arquitectura-mauricio-rocha/5015349328ba0d02f000074f-center-for-the-blind-and-visually-impaired-taller-de-arquitectura-mauricio-rocha-photo

http://www.archdaily.com.br/br/01-15500/classicos-da-arquitetura-termas-de-vals-peter-zumthor

PALLASNAA,Juhani. Os olhos da Pele: A arquitetura e os sentidos. Porto Alegre: Bookman, 2011

 

FABIANA CURI | FERNANDA GIANSANTE

 

Japanese Constellation

Exposições sobre arquitetos Japoneses já fazem parte da longa história do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, tendo sua primeira exposição em 1932 sobre a arquitetura moderna internacional e o Central Telegraph Office em Tokyo do arquiteto Mamoru Yamada construído em 1925 demonstrando a expansão do modernismo japonês.

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Logo em 1954 Junzo Yoshimura demonstra o uso de vigas e pilares no jardim do museu transformando o espaço em um modernismo inquietante para os americanos.

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E o mais impactante; o arquiteto Yoshio Taniguchi que em 2004 reinventou o MoMA com sua adição de mais uma fachada que preserva as outras como uma recordação de suas formas.

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Assim, a exposição Japanese Constellation não é uma grande surpresa, depois de 10 anos uma exposição dedicada à arquitetos de uma nação só com exemplos de arquitetos contemporâneos que entre si se interligam.

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Ao entrar na exposição monocromática branca, já se sente a presença de um jeito diferente de construir espaços. Divisórias feitas com 3 tecidos de linho branco, todas as plantas em um tipo de vinílico branco grudadas nas paredes cinza claro. As janelas cobertas com o mesmo tecido de linho criando uma iluminação natural difusa, junto com iluminação artificial porem com um parecer natural.

Tudo pra criar um clima único para falar sobre a arquitetura japonesa e seus contemporâneos. Uma parede cinza mais escuro ampara o espectador com uma única imagem e a direção que a exposição começa.

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A primeira parede é certamente dedicada ao trabalho do Toyo Ito, e quando você navega pelos os espaços percebe que não tem uma divisão modular clara; mas nas divisões que existem, cada arquiteto ganha seu lugar.

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A arquitetura Japonesa sempre teve um olhar estético diferente do lado oeste do mundo; sempre olhando para as tendências urbanas e estéticas baseadas em qualidades espaciais ao contrário dos ‘star architects’ que priorizavam a estética sem considerar o fator social e o entorno em que se locavam os seus projetos [Museu de Bilbao de Frank Gehry por exemplo].

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Um ponto crítico e talvez mais importante nas obras de Toyo Ito até hoje, e da onde parece partir a exposição [já que é o primeiro projeto a ser apresentado], é o projeto de 2001 Sendai Mediatheque aonde a estrutura é transformada em um vazio e a leveza permeia uma arquitetura desenhada para aqueles que vão habitar o espaço.

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Ito se impressionou ao ver que a reação dos arquitetos, do público e daqueles que iriam habitar o prédio foram boas; e percebeu que tinha um espaço para uma arquitetura sem rótulo e radical.

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“Arquitetura que é moderna somente no estilo, não tem o poder de mudar a sociedade. Arquitetura que é reconhecida somente por arquitetos e não pelo público, não tem futuro. Eu acredito que uma arquitetura que verdadeiramente tem o poder de reformar a sociedade de hoje tem que focar seu poder crítico em uma outra forma de proposta.” [TOYO ITO]

Os arquitetos contemporâneos japoneses respondem à mudança urbana de uma forma imediata, permitindo que ao momento que a sociedade vai mudando, a arquitetura dança junto com ela. A mudança é rápida.

Assim se moldou uma constelação japonesa; arquitetos com interesses a partir do social, do espaço, da função; sem ter uma arquitetura rotulada e um reconhecimento do radical em uma escala mundial sempre com uma resposta espontânea para as mudanças constantes da sociedade.

Ito, em 1976, projetou o White U, um edifício aonde o intocado era preservado: “uma fuga da intensidade urbana” que se estendeu até 1991 quando Sejima criou um universo universitário que era um dormitório para mulheres rejeitando o urbano caótico de eventos. Ela rejeitou qualquer padrão hierárquico dentro da arquitetura para criar essa cidade nova fora do espaço de viver, provocando os limites entre o privado e público, o pessoal, a identidade e sociedade.

 

Ito então percebeu que a arquitetura não devia se virar para dentro de si como seu projeto de 1976. O que ele herdou do moderno avant-garde é que a arquitetura deveria servir como uma rejeição das formas que hoje definem a estrutura do sistema social e uma maneira de criticar a sociedade. O que levou Ito a projetar o Sendai [citado acima].

“ A sociedade está em um processo de alterações que são muito mais pragmáticas e radicais do que possamos imaginar, então não guardo nenhuma frustração em relação ao empreendimento, nem me desespero sobre o mesmo. Eu tenho somente um interesse: a questão se a arquitetura como arquitetura é praticável nesses tempos” [TOYO ITO]

A centralidade da estrutura no trabalho de Ito é expressada em Sendai, seja em seu uso de exoesqueletos para definir a imagem de uma edificação ou o seu interesse em interiores derivados de geometrias complexas. Logo foi acompanhado por Sejima e, mais tarde profundamente questionado por SANAA, as funcionalidades estabelecidas, a sua organização inovadora das necessidades dos clientes, e seu uso sofisticado de materiais como vidro e metal.

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Apesar de termos como kawaii (bonito) têm sido utilizados em análises de arquitetura japonesa contemporânea, tais descrições, com características fundadas na aparente simplicidade das estruturas, são profundamente enganosa quando se considera as construções de SANAA. Além de sua leveza na definição e mínimo esforço, têm sido descritas como “inclusiva” e “democrático”, devido à sua inovadora, concepção de inovação espacial, Ito ofereceu que a liberdade conceitual de Sejima “libertado das convenções sociais e restrições” deu-lhe “um maior conhecimento sobre as realidades sociais.”

Century Museum_SANAA_Kanazawa

Arquitetos como Fujimoto e Ishigami têm sido igualmente elogiado por seu compromisso arquitetural para a estética radicais e a produção de mudança social. O trabalho de Fujimoto tem sido descrito como tendo “os elementos da arquitetura para além”, apenas para montá-las em um comentário de lazer ainda crítica sobre privacidade na sociedade contemporânea. E enquanto missões arquitetônicas de Ishigami pode parecer obsessivo e focado quase que exclusivamente em questões disciplinares abstratos, ele conta com os usuários e seu senso de maravilha para tornar significativa seus esforços artísticos.

House NA_Sou Fujimoto_Tokyo

Kanagawa Institute of Technology_Junya Ishigami_Japão

Na esteira do desastre, arquitetos no Japão desenvolveram uma nova consciência, reconhecendo que o seu trabalho deve estender-se para além do contexto urbano imediata e apoiar as necessidades sociais emergentes. Como Ito descreveu, arquitetura deve mover-se “para além de prazer”, “abster-se de críticas,” e procurar “auto-pagamento.”

Serpentine Gallery_Sou Fujimoto_Londres 2013

A diferença de potencial entre um sistema de estrelas e uma constelação é que as estrelas principais e emergentes estão ligadas por forças gravitacionais que tornam a sua agregação de interesses reconhecível, parcialmente imaginado. Em contraste com as estrelas cadentes, entidades únicas condenadas a desvanecer-se espetacularmente, constelações evocam uma imagem bem diferente: cada estrela individual , é claro, carrega seu próprio significado, mas o mesmo acontece com o acordo coletivo das estrelas; suas proximidades relativas e distâncias, e seu brilho combinado, sugerem mais do que uma soma de partes. Desde os tempos antigos, constelações têm oferecido direção para aqueles que olham para o céu em busca de orientação.

Juliana Valle e Giovana Belinello