Sociedade Ilustrada

Fabiana Curi | Fernanda Giansante

 

O tempo da visão. Nenhum sentido é tão requisitado e valorizado quanto esse.

Não é de hoje que nossa sociedade foi habituada a crer que só as pessoas que enxergam podem vivenciar uma experiência completa. Vem desde a era dos grandes filósofos, quando Platão já considerava a visão como o mais nobre dos sentidos, e Heráclito dizia que “os olhos são testemunhas mais confiáveis do que os ouvidos”.

No entanto, ver e não enxergar é muito mais comum do que se imagina. Especialmente para nós que estamos acostumados a somente olhar para tudo e não perceber o que realmente está a nossa volta. O que realmente nós enxergamos?

Quantas vezes passamos despercebidos por algo que nos rodeia e não enxergamos as coisas simples que a vida nos mostra?

Olhar não significa necessariamente que você está, de fato, prestando atenção e tirando proveito da experiência. Além disto, há diversas preocupações com a quantidade de imagens e visões que recebemos no mundo contemporâneo. E desenvolver novas formas de conhecer e ampliar os outros sentidos é preciso.

 

 

A Arquitetura é nosso principal instrumento de relação com espaço e tempo, por dela envolver várias experiências sensoriais que se integram entre si. As edificações imponentes de algumas grandes cidades contemporâneas mostram uma certa falta de humanismo, quando deveriam estar focadas em aguçar todos os sentidos, mostrando que a visão não é o principal, nem único sentido importante.

O filosofo Hegel afirmava que o único sentido que pode dar sensação de profundidade espacial é o tato, pois sente o peso, a resistência e a forma tridimensional dos corpos materiais, e assim nos faz entender que as coisas se afastam de nos em todas as direções. A visão revela o que o tato já sabe.

 

 

Felizmente, durante os últimos 25 anos houve maior direcionamento da arte e arquitetura aos sentidos, a percepção e à experiência humana, mesmo que de maneira rasa. A arquitetura passou a atentar-se com a materialidade, espaço, simbolismo, a relação da mesma com o contexto e atmosfera, em conjunto.

A arte, muito antes da arquitetura, comecou a trabalhar com essas questões multisensoriais, por exemplo nas pinturas de Matisse, conseguimos sentir o calor do sol e a brisa fresca de suas pinturas com janelas com vistas para o mar.

 

 

Peter Zumthor é um otimo exemplo de arquiteto que ao inserir uma matéria na paisagem, mescla artesanato com indústria, percepção sensorial com a razão, subjetividade com o conceitualismo, e a natureza com a tecnologia.

Sua obra – Termas de Vals (Suíça, 1990-1996) – compõe seu interior com uma atmosfera especial feita de luzes artificiais e naturais, de texturas variadas de pedra e do concreto, dos sons das pessoas e das vibrações da água, das variações de temperatura e diferentes odores. Um edifício que lida com diversas percepções no espaço interno.

 

 

Maurício Rocha também estimula os sentidos com sua Arquitetura. Com o Centro para cegos e deficientes visuais (Iztapalapa, México, 2000-2001), o tato, o olfato e a audição são colocados acima da visão. Mauricio projetou os espaços abertos e fechados com base na peculiar percepção das pessoas cegas ou com dificuldade de visão. As mudanças de texturas, tipos diferentes de pisos de pedra e cascalho, os permitem assimilar as diferentes fricções dos pés. Os espaços abertos variados, semicobertos e cobertos ressoam os sons e os passos, além de dispor de seis grupos de espécies de plantas e flores odoríferas nos jardins do perímetro para que os usuários se localizem com base no olfato.

 

 

Essa sociedade ilustrada em que vivemos, tem que ser descontruída.

Através da exposição ”Diálogo no escuro”, vivenciamos uma experiência totalmente inusitada, que rompe a barreira do desconhecido e desafia o público a conhecer o mundo com outros olhos. A interação feita acompanhada de um guia com deficiência visual, totalmente no escuro, nos fez explorar todos os nossos sentidos, além de nos fazer confiar em pessoas com habilidade diferenciadas. Além de sensibilizar, o “Diálogo no escuro” evidencia que não poder enxergar, não significa não poder sentir a experiência, muito pelo contrário. Com isso, refletimos que é preciso encontra uma nova forma de “ver” as realidades.

Captura de Tela 2016-05-18 às 09.34.27

 

Bibliografia:

http://www.archdaily.com/158301/center-for-the-blind-and-visually-impaired-taller-de-arquitectura-mauricio-rocha/5015349328ba0d02f000074f-center-for-the-blind-and-visually-impaired-taller-de-arquitectura-mauricio-rocha-photo

http://www.archdaily.com.br/br/01-15500/classicos-da-arquitetura-termas-de-vals-peter-zumthor

PALLASNAA,Juhani. Os olhos da Pele: A arquitetura e os sentidos. Porto Alegre: Bookman, 2011

 

FABIANA CURI | FERNANDA GIANSANTE

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s