PROVOCAR | CONVOCAR URBANOS: Inquietações sobre a cidade

POR CAMILA FISCHMANN E FELIPE SAURIN

As obras expostas na exposição “Provocar/Convocar Urbanos” propõem reflexões sobre a ocupação da cidade, levando em consideração as dimensões individuais, sociais e políticas problematizando algumas questões socioambientais do espaço urbano; procuram mostrar ao publico em diferentes perspectivas as dificuldades que a mobilidade urbana vem apresentando nos tempos atuais.

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À seguir, após leitura do trecho retirado do folhetim da exposição, mostraremos um pouco de cada uma dessas obras e seus objetivos, além de uma reflexão geral sobre o tema abordado.

“Podemos afirmar que a cidade escreve a contemporaneidade. Isto se deve à sua dupla vocação de, por um lado, ser um ambiente densamente povoado e constantemente atravessado por fluxos migratórios e, por outro, funcionar como uma multifacetada representação físico-simbólica da nossa época, com todas as suas contradições. Organismo em permanente mudança, a cidade se constitui a partir daquilo que ela própria estimula e fomenta. Suas transformações afetam os menores detalhes da vida cotidiana dos cidadãos. Estes, por sua vez, têm a possibilidade de produzir alterações nas dinâmicas da urbe, por meio da mobilização social e política.

Apostando na capacidade interventiva das práticas artísticas e ativistas diante de premências socioambientais, o projeto Provocar urbanos propõe reflexões e ações em torno do direito pleno à cidade, considerando as dimensões coletivas, individuais e políticas aí implicadas. Composto por um conjunto de instalações concebidas por artistas contemporâneos – distribuídas por diferentes espaços do Sesc – seu vetor expositivo busca friccionar aspectos urbanísticos, ambientais, arquitetônicos, populacionais e culturais.

Seu segmento complementar intitula-se Convocar urbanos. Integram-no o programa educativo e uma série de proposições dedicadas a discutir elementos centrais da urbanidade, como, por exemplo, o direito universal à agua, à mobilidade, à moradia e, tão importante quanto, aos recursos que nos permitam repensar a cidade de maneira alternativa aos parâmetros especulativos, excludentes e segregadores que marcam o perfil das megacidades contemporâneas no capitalismo tardio.

Ao refletir sobre os desafios apresentados pelo conglomerado urbano, conjugando-os às demandas e às lutas dos seus cidadãos, Provocar urbanos repercute a natureza socioeducativa e cidadã do trabalho realizado pelo Sesc. Articulando manifestações culturais imbuídas dos processos de transformação da realidade, o projeto dá sequência a uma ação institucional afeita aos questionamentos e aos vislumbres daí decorrentes, compartilhando com seus públicos diferentes modos de imaginar e reinventar as cidades.”
Texto extraído do folhetim da exposição (Sesc Vila Mariana – São Paulo)

 CIDADE PARA CRIANÇAS DE 0 A 99 ANOS | COLETIVO BASURAMA

O coletivo espanhol Basurama (nome vem da palavra “basura”, lixo em espanhol) procura inverter a lógica residual das grandes cidades, criando instalações para ocupação de espaços públicos, e não simplesmente transformam lixo em arte. É um espaço no qual pessoas de todas as idades podem vivenciar a coletividade ampliando as relações que podem surgir nas cidades.

 Na obra Cidade para crianças de 0 a 99 anos há uma transformação de vários tipos de resíduos em matéria lúdica, um playground para lazer e reflexão. Os materiais utilizados foram reaproveitados de peças que seriam descartadas pelo Sesc.

 LÁGRIMAS DE SÃO PEDRO | VINÍCIUS S.A.

A obra Lágrimas de São Pedro, é composta por lâmpadas recicladas, cheias de água destilada, suspensas por fios de nylon no teto em diferentes alturas e iluminação específica; propõe uma reflexão sobre as chuvas e a crise hídrica atual do país.

“É como se tivéssemos o poder de pausar a chuva, uma chuva de gotas grandes, limpas, transparentes, leves e com isso poder contemplar sua beleza, seu poder, seu símbolo, sua necessidade”, afirma Vinícius.

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Algumas questões são colocadas em questão a partir desta obra: A redução do volume de chuvas é resultado de mudanças climáticas? A ocupação das áreas de mananciais e desmatamento impactaram na capacidade dos reservatórios? Faltaram investimentos, obras de infraestrutura e planejamento? Qual o impacto do consumo domiciliar frente ao consumo da indústria e da agricultura? Como promover o uso racial e evitar o desperdício? Ou seja, é colocada em pauta a contradição que há entre a intervenção política e as causas naturais.

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O NOME DA MARGEM | ERICA FERRARI + MAURÍCIO ADINOLFI

A obra foi feita a partir de apoios que sustentam e comprimem materiais que são comumente usados na construção civil. Ela remete à ocupação desordenada do espaço urbano e traz o registro de depoimentos de diferentes colaboradores desta obra, em forma de áudio. O ponto principal para a criação deste trabalho, foi a acelerada urbanização que ocorreu no Brasil no século passado. A ocupação urbana desenfreada, acabou por muitas vezes, se autoconstruindo de forma irregular, e é desta dinâmica que trata a obra.

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MONOBLOCOS | MARCELO CIDADE

“Queremos permanecer imobilizados pelo concreto? Ou queremos permitir que ele se movimente, a partir de nossas vontades coletivas, ganhando novas formas e funções?” Folhetim da exposição.

A partir destes questionamentos, pode-se entender o objetivo do autor da obra Monoblocos. Ele procura, através de blocos de concretos sobre rodas, espalhados sobre a sala de exposição, desconstruir o fato de que este material, essencial nas cidades, engesse a horizontalidade da cidade, permitindo que o visitante posso reorganizar os blocos de qualquer maneira.

CICLOVIAÉREA | JARBAS LOPES – PROJETO MUTIRÃO | GRAZIELA KUNSCH

Para o artista, a bicicleta representa o equilíbrio entre o homem e a máquina. Através de uma maquete, ele propõe uma nova via elevada do solo, para que o ciclista possa circular de forma livre e independente dos outros meios de locomoção. Ele acredita ser de extrema necessidade a população ter alternativas, perante ao estresse que é viver em cidades nas quais o congestionamento e número de veículos aumentam cada vez mais.

Seguindo o mesmo tema das ciclovias, Graziela Kunsch, com o Projeto Mutirão, procura mostrar, através de uma série de vídeos de ações coletivas de transformação espacial, a evolução do tema ao passar dos anos, sendo renovada a cada edição, a partir da colaboração entre a artista e o público.

LABORATÓRIO DE MODELAGEM URBANA | GUILHERME TEIXEIRA

O Laboratório de Modelagem Urbana segue a mesma proposta de liberdade de montagem da obra Monoblocos: diversas peças de madeiras, em diferentes formatos e tamanhos, são dispostas sobre mesas modulares, onde o visitante pode projetar e partilhar suas ideias, propondo novas formas de uso do espaço urbano ou construindo cidades imaginarias. A obra foi inspirada em jogos como Simcity e Civilization, onde o plano urbano pode ser criado sem regras impostas e de forma coletiva.

BARRAVENTO | RODRIGO BUENO

A sensação de aprisionamento nas cidades tornou-se comum, seja no trabalho, no trânsito, ou até mesmo em casa. No conjunto de esculturas denominado Barravento, o artista expõe a liberdade do vento.

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Os materiais utilizados tem suas funções alteradas e as vezes contrárias as originais: grades de proteção tornam-se esculturas, mobiliários viram suportes de plantas, ripas de madeira que seriam descartadas tornam-se suportes de sustentação etc.

CONCLUSÃO

Tais questões de mobilidade urbana levam o espectador da exposição à inúmeras reflexões sobre o tema.

Até que ponto os políticos e empreendedores estão preocupados com a melhoria da cidade para as pessoas, e não com os seus próprios interesses? A especulação imobiliária, que aperta cada vez mais as pessoas em condomínios fechados e a crescente privatização dos espaços urbanos, são notadas pela população? Provavelmente não!

Nós, do ramo da arquitetura, procuramos nos conscientizar cada vez mais, mas infelizmente a mídia tende a esconder e mascarar esses problemas. A exposição procura trazer esses problemas em pauta, primeiro levando as pessoas a refletirem sobre o tema, “provocando”, para que assim, depois de adquirir certo conhecimento, sejam “convocadas” para agir, fazendo a sua parte da maneira que possam. Por isso algumas das obras permitem interação; poder tocar e sentir o que o artista propôs com aquilo, ajuda ainda mais na reflexão do expectador leigo.

Mesmo que de forma indireta, começar a conscientizar a sociedade é de extrema importância para que, quem sabe no futuro, este tema seja tratado de forma explicita, coerente e justa. Melhor a pequenos passos do que na inércia.

INFORMAÇÕES

Exposição: “Provocar Urbanos – Inquietações sobre a cidade”, coletiva com curadoria do Sesc Vila Mariana.

Datas e horários: Abertura dia 20 de março, domingo, às 11h. Em cartaz de 20 de março a 31 de julho de 2016. De terça a sexta, das 10h às 21h30; sábados, das 10h às 20h30; domingos e feriados, das 10h às 18h30.

Local: Sesc Vila Mariana | R. Pelotas, 141 – Vila Mariana.

Entrada gratuita.

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