(i) m a t e r i a l i d a d e

     A transparência é tanto uma condição material assim como o resultado de um processo intelectual, rico em possibilidades e aberto a interpretações. Normalmente, associamos esta a um estado físico, um elemento palpável que percebemos através do olhar imediato e objetivo – a condição literal da transparência. Por outro lado, enquanto a condição objetiva é perceptível através da visão, uma interpretação de uma transparência não-óbvia implicada é captada conceitualmente através da mente.

     O processo de percepção de um objeto depende de como ele nos é apresentado. Em essência, sabemos que algo é transparente quando captamos imagens de diferentes pontos em um espaço simultaneamente. Além disso, a consciência de uma organização de elementos dentro de um espaço revela a presença de camadas e planos que compõe uma ordem espacial mais ampla e complexa.

                                   Picasso “The Clarinet Player”                            Braque “The Portuguese”

     Ambas as qualidades da transparência são fortemente presentes no movimento Cubista da arte. Em busca de uma terceira dimensão, os cubistas utilizavam técnicas que reforçam a ilusão de uma profundidade. De uma maneira literal, a pintura de Picasso intitulada The Clarinet Player, faz uso da técnica de um contorno marcante para definir a figura que se encontra em primeiro plano. Uma vez que a figura frontal é identificada como um elemento independente, o olhar do observador o leva aos demais planos, estabelecendo uma profundidade. Esta figura portanto, assume o papel de um elemento transparente, pois é através dela que enxergamos o que acontece nos planos atrás.

     No caso de “The Portuguese” de Braque, esse é um processo inverso. As linhas horizontais e verticais que formam a grelha no plano de fundo, estabelece uma profundidade rasa. A partir dai, o observador consegue investir mais espaço e aos poucos a figura começa a tomar forma. A transparência nesta obra é fenomenal, pois ela só é detectada a partir de uma observação da superimposição de elementos presentes na tela.

     Em uma situação contemporânea, o artista Dan Graham trabalha a questão da transparência literal e fenomenal através de suas pinturas, fotografia, esculturas e instalações. As imagens abaixo ilustram exemplos destes trabalhos.

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Dan Graham “Groovy Spiral”

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Dan Graham “Triangular Pavillion with Circular Cut-out variation C”

     O primeiro exemplo trata do conceito de transparência literal. Através da utilização de planos curvados em vidro formando um percurso, o observador assume um papel de participante ativo na obra de arte. Graham busca oferecer uma superfície que é transparente ao mesmo tempo que é reflexiva. Com isto, a obra se torna uma superimposição de experiências físicas e intelectuais.

     A segunda obra se difere na maneira em como ela lida com essa questão. A organização dos elementos formais se refere a múltiplos planos que interagem entre si simultaneamente. As formas são transfiguradas e se transformam, ao mesmo tempo que mantêm seu formato original, possibilitando diferentes interpretações sobre uma mesma configuração.

     O fenômeno da transparência e a percepção da mesma lidam com uma variedade de conceitos mais complexos do que o enxergar além de uma superfície. Tais como espaço-tempo, superimposição de planos, ambivalência, simultaneidade, organização, distorção, estratificação, continuidade…

     Assim como na Arte, no mundo da arquitetura, também temos transparência como aspecto literal e como fenomenológico. Quando tratamos de transparência literal, falamos do aspecto físico da visibilidade através de um material e imediatamente associamos essa condição ao vidro, apesar de conseguir atingir o mesmo efeito com outros materiais. A transparência física é perceptível através do olhar, ao nos depararmos com uma superfície transparente, imediatamente enxergamos o que se encontra atrás da mesma. Vemos, então, em uma só vez, duas ou mais superfícies – aquela que esta em nossa frente, e o que, graças a transparência dessa, encontra-se no plano de trás.

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SAANA Glass Pavilion no Toledo Museum of Art

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Gijs van Vaerenbergh Church

A transparência fenomenológica na arquitetura não é algo tão comum. Le Corbusier não só lidou com essa questão em sua arquitetura como também em sua arte. O projeto Villa Stein em Garches, na França, ilustra bem como a concepção de uma projeto em termos de composição pode providenciar uma experiência de espaço mais subjetiva.

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Le Corbusier Villa Stein

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Le Corbusier Drawing in layers

     A estruturação espacial dos componentes da edificação implica em uma experiência e interpretação fenomenológica deste espaço. Esta estruturação inclui técnicas como:

  • Lajes em balanço
  • Pavimento térreo recuado redefinido pelo alinhamento das as empenas na cobertura
  • Fechamento em vidro que dobra as quinas da fachada
  • Superfícies em alvenaria e em vidro de altura similares gerando tensão entre si
  • Planos paralelos como pontos de referencia para organização da fachada

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     Estas são qualidades óticas que a mente processa para a compreensão de uma variedade em planos, criando profundidade e uma transparência fenomenológica. Uma análise similar poderia ser feita no interior da vila, revelando o mesmo fenômeno. A presença de uma estratificação em camadas dos espaços interiores, que na verdade são entendidos como acontecendo um atrás do outro.

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     A transparência para Corbusier não é necessariamente encontrada na materialidade do vidro, e sim na organização dos planos dessas superfícies. É feito então uma superimposição de elementos sem a destruição ótica dos mesmos.

     Em lidando com a transparência, sempre haverá uma dualidade no contínuo dialeto entre o fato e o implicado, o objetivo e o subjetivo, o literal e o fenomenal.

Catarine Frade & Ghabriela Amorim

 

BIOTECNOLOGIA/ BIOLUMINESCÊNCIA INSERIDOS NA ARQUITETURA – Media-TIC Barcelona

Bárbara Miranda, Letícia Miranda e Marcela Bedin

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O QUE É BIOLUMINESCÊNCIA?

A Bioluminescência é uma reação química regulada por um gene, que permite que alguns organismos produzem luz. 90% dos organismos marinhos, algas, águas-vivas, lulas, peixe ou camarão tem essa capacidade.

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O OBJETIVO GLOWEE: Repensar a maneira como produzimos e consumimos luz , oferecendo primeiro um material leve, suave , cultivável , que não exige nem electricidade nem a instalação de infra-estrutura para operar.

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Iluminar ruas e fachadas sem o uso da eletricidade já é possível, isso porque a empresa francesa Glowee criou um sistema de iluminação que faz uso de bactérias geneticamente modificadas.

E como isso é possível? A ideia surgiu quando um dos sócios fundadores da empresa assistia a um documentário a respeito de animais marinhos e peixes que eram capazes de produzir luz própria. Sendo assim, as bactérias (que não são toxicas) recebem das lulas um gene responsável pela luminescência e são cultivadas em uma solução de nutrientes que permite a multiplicação destas.

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É importante notar que esse método pode ajudar na redução da emissão de CO2, porem, a vida útil desse sistema atualmente é de apenas três horas.
*Na prática: os clientes que aderirem a esta tecnologia, sendo publico ou privado, pagarão uma taxa de inscrição para que a iluminação possa ser renovada todas as vezes em que as bactérias deixarem de emitir luz.

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GLOWING PLANT PROJECT
Outro projeto interessante que trata da produção e emissão de luz por meio de um organismo vivo é o desenvolvido pelo Glowing Plant Project (Califórnia), este foca principalmente em injetar genes de bioluminescência em plantas de floração. Tal projeto é dividido em três etapas: projetar, imprimir e transformar.

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Etapa 1 – Projeto: criação da sequencia de DNA da primeira planta fluorescente utilizando um software que se chama Genome Compiler .

Etapa 2 – Impressão: trata da impressão do DNA com o Cambrian Genomics, que é o primeiro sistema capaz de imprimir DNA usando laser.

Etapa 3 – Transformação: nesta ultima etapa é feita a transformação do DNA personalizado na planta.

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*Na pratica: a equipe que trabalha neste projeto pretende enviar sementes para aqueles que apoiam a causa, o que possibilitará uma experiência mais próxima desta nova tecnologia, além de uma reprodução massiva da mesma.

Media-TIC / Enric Ruiz Geli 

  • Arquitetos:
Enric Ruiz Geli
  • Localização: Barcelona,
  • Fotografias: 
Iwan Baan
  • Ano : 2007
  •  Pisos: 8
  • Área Bruta: 3.572 m2
  • Área Construída: 23, 104 m2
  • Orçamento: $ 20,791,486 €

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O Edifício Media-TIC teve sua construção fomentado pelo Consórcio para a Zona Franca, está localizado no distrito 22@ Barcelona, entorno do Parc Barcelona Media. Concebido pelo arquiteto catalão Enric Ruiz Geli para ser ponto de encontro com instituições e empresas no mundo da comunicação da informação e principalmente da tecnologia em Barcelona. O projeto estimulou novas idealizações ao campo da arquitetura, tornando-se uma sede emblemática do mundo digital conduzindo e propagando novas tecnologias, além de ser um espaço cívico, socialmente aberto.

 

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Seu formato cúbico é constituído por ferro e coberto por uma membrana de plástico inflável, que proporciona a visão interna do edifício. O recurso inovador possui a utilidade funcional como instrumento regulador de temperatura, umidade e luz. Este material híbrido é conhecido pela sigla ETFE (Etileno Tetrafluor etileno), considerado um protetor solar com grandes resultados, utilizando pouco material obtendo leveza e elasticidade.

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A “mebrana” do ETFE contem sensores, que dependendo da energia solar existente, aciona automaticamente os mecanismos que o fazem inflar. Estes sensores são energeticamente independentes. O recurso permite uma considerável economia energética, além de ambientalmente sustentável. A fachada do cubo de 38m de altura e o revestimento ETFE que a cobre estão dispostos conforme sua orientação e incidência solar.

 

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1Media-ICT Bioluminescent Structure: https://vimeo.com/20872197

O edifício é constituído por uma estrutura de aço principal formada por treliças com tinta Bioluminescente, uma estrutura em rede que suporta o edifício, evitando pilarares no piso térreo, que compreende espaços abertos flexíveis translúcidos.

111Media-ICT_ETFEs Section https://vimeo.com/20799229

11  Media-ICT_Bioluminiscencia: https://vimeo.com/20794755

INSUSTENTÁVEL GERAÇÃO Y

Bruna Miron e Louise Canuet

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Analisando o insustentável mundo de Kundera (1984), foi possível fazer uma analise profunda dialogando paralelamente á geração Y e o modo de viver, onde fizemos correlações  com a arquitetura contemporânea.

A história se desenvolve durante os anos 60 e 70, inserindo os personagens que encarnam figuras metafóricas na vida artística e intelectual tcheca, durante um período comunista na primavera de Praga que ocorre até a invasão soviética de 1968.

A partir da dualidade do autor, analisamos a leveza e o peso do ser, que inserem os personagens diante diversos conceitos que citaremos a seguir.  Leveza e peso são as noções  básicas que fundaram o livro, analisadas através do questionamento dos critérios do Parmênides (filosofo antes de Sócrates). Sendo assim o peso é negativo e a leveza, positiva. E na arquitetuta podemos traduzir como peso sendo conceito e estrutura e leveza sendo estética.

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Para Kundera, a leveza decorre da ausência de compromisso, enquanto o peso é a responsabilidade que da sentido e nos mantem com o pé no chão. Essa leveza as vezes é  insustentável quando contrastada com o peso do destino. No livro, os 4 personagens dialogam diante posições e contradições, como podemos observar:

  • THOMAS à AMBÍGUO – ETICA E ESTETICA à um libertino e amante apaixonado possui um conceito ambíguo, ele tem gosto para aventuras amorosas leves, evita as relações duráveis e quer sim compreender a imensidão do mundo. Ele está preso em uma dualidade constante.
  •  SABINE à LEVEZA – CRIATIVIDADE E IMAGINAÇÃO –  persegue a leveza e a liberdade sentimental e ideológica.
  • TEREZA (AMOR PURO) E FRANZ (INFIDELIDADE, CULPA) – PESO E  MORAL – os dois últimos personagens encarnam a gravidade, eles são seres de princípios.

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Sendo assim, essa dualidade que transparece nos personagens também pode ser observada nas pessoas e no modo de enxergar o mundo frente às diferentes gerações. Analisaremos então a geração “Y”, que sucessora de uma geração de baby boomers, possui características individualistas, sendo mais excessiva do que seletiva. Essa geração consumista de tecnologia prefere compartilhar a produzir. Têm características superficiais, rasas e constantes, sempre estão em movimento e procedem de forma imediata. Preferem observar do que atuar.

Dessa forma de enxergar a vida, podemos contrapor com o conceito do pensamento cíclico do universo e dos eventos de Nietzsche (citado no livro), que acreditava que devemos viver a vida como  gostaríamos que ela se repetisse sempre. Opondo a particularidade da geração “Y”, que pensa de forma linear como um sistema dinâmico. Assim como Kundera, que também  enxerga a vida como um sistema dinâmico onde o homem se vê confrontado a várias escolhas e a certa leveza que ele opõe ao peso.

São revelados dentro da insustentável leveza do ser, conceitos que relacionamos com a forma de agir e pensar da geração “y” e traduzimos para o modo de viver que repercute na arquitetura contemporânea:

  • Eterno retorno – acredita no progresso, historia dinâmica – uma única vida, aproveitar oportunidades – arquitetura contemporânea.
  • Amor – não é programado, proposição acidental, fugaz e fortuito – superficialidade, sentimento mediado, virtual, em rede – encontro das pessoas.
  • Politica – individualista, vazio do pensamento, falta de conteúdo, facilidade da manipulação da mídia – espaço publico.
  • Corpo – lado criativo, artístico – aparência física, preocupação com a estética – fachada.
  • Ser – leveza, mundo dividido em pares de entidades opostas, luz e escuridão, ser e nada, positivo (leveza) e negativo (peso) –  Consomem milhares de informações com rapidez, porém, esquecem  de tudo com a mesma velocidade – uso multidisciplinar, hibrido.

Frente a essas analises, chegamos a conclusão de que a arquitetura contemporânea é a experiência  de se fazer parte do mundo, esta que traduz o modo como as gerações se relacionam e a personalidade das mesmas. A arquitetura contemporânea reprograma o mundo livre, projeta um novo mundo e prevê  a forma como as pessoas vão se relacionar.  A contemporaneidade transparece o que a gente é, sendo reflexo da psicologia das pessoas, que interfere no jeito de usufruir a arquitetura.

Ser contemporâneo, portanto, é reconhecer e estranhar o nosso tempo. Essa pluralidade multidisciplinar da geração do futuro irá produzir um mundo de várias inteligências. A forma de pensar das futuras gerações é a resposta para a arquitetura do futuro.

Para exemplificar o modo como a geração “Y” entende o espaço, pegamos como exemplo o jovem arquiteto e designer russo Oleg Soroko que pertence a essa geração. Sua forma de apropriar o espaço público é a partir de um elemento que o compõe.

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A chair in this concept is a kind of anti-chair. You can sit together, it is possible to lie etc. Multifunctionality is not the most important. The main thing is that the chair exists not to sit, but to get up. Get up, rush, start to act, become a part of the high perfection of the world… this Is the initial historical semantics of the chair, sit down and commit an act of insertion to continue a live, change, flow…” Oleg Soroko