Estruturas Paramétricas

  Bryan Feldman e Mariana Freitas

Difícil pensar que o mesmo ser que dominou o fogo foi o mesmo ser que fez o Burj Khalifa, equiparável a torre de babel, endeusada, tocando os céus, com seus mais de 800 metros de altura.

O Homo Sapiens, uma espécie inigualável, produz conhecimento, com proposito tal, a chegar na perfeição. Celulares, televisões, carros, câmeras, computadores, são frutos desse conhecimento.

Espaços como este acima, estão por todo o globo terrestre, logicamente seguindo um raciocínio econômico, no qual possibilita ou não a sua construção. Levando em consideração a viabilidade no quesito tecnológico, materialidade, repensando no uso de novos materiais, apropriação e aceitação da obra pela sociedade, entre outros pontos de extrema importância.

A revista Domus, aponta a Arquitetura Contemporânea produzida em Sevilha, cidade medieval. O Metropol Parasol (Guarda Sol – como seu “pai”, o arquiteto alemão Jürgen Mayer a chama) é um novo olhar na cidade, possibilitando um lugar antes degradado, em ambientes com diversidade no uso, diversidade na materialidade e da forma.

Fruto de uma grande discussão, a construção desta obra monumental, fez a sociedade perguntar: o que é necessário?

Estruturas reciprocas e paramétricas consistem em peças que se apoiam mutualmente e são colocadas em um circuito fechado. Normalmente são feitas por grelhas tridimensionais e principalmente usadas em coberturas. O Metropol Parasol é uma delas.

https://www.youtube.com/watch?v=n9kldijOyX0

 

Outras estruturas paramétricas, foram feitas, tais como:

Gridshell – Edward Cullinan

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Mannheim Multihalle – Frei Otto

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Smithsonian Institute – Norman Foster

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As estruturas acima são resultado de uma longa e intensiva pesquisa da materialidade e forma que a madeira e metal, podem adquirir. É importante notar que todas as estruturas possuem algum tipo de fechamento, seja vidro, laminas de madeira ou até lonas tensionadas, menos a Metropol Parasol.

Mas, será que tais estruturas já não foram pensadas anteriormente?

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(Mesquita Zayed, Abu Dhabi, United Arab Emirates)

Apesar da cultura árabe não fazer estruturas paramétricas, seus mosaicos geométricos, no qual, seguem tipos de harmonia, repetitividade e ciclos, fazem a cultura árabe ser a precursora deste tipo de raciocínio.

A possibilidade que a sociedade assumiu de traduzir os mosaicos árabes em arquiteturas paramétricas monumentais, que permeiam o céu e criam espaços dos mais diversos tipos, fazem a pergunta que acorreu em Sevilha, ser sentida em todo o globo e em todas as funções que a contemporaneidade. O que é necessário? É necessário o uso de celulares? É necessário usar carros em vez de pernas? É necessário o tempo se esgotar antes da percepção dele mesmo? É necessário a produção de monumentos?  De Metropols Parasols? É necessário? O que è necessário?

como elas mudam o mundo contemporâneo (1)

ou será?

como elas mudam o mundo contemporâneo (3)

Ter a consciência de que as estruturas paramétricas são somente um “pequeno” viés da Arquitetura Contemporânea talvez seja desesperador, assim como perceber que a resposta para essa pergunta, O que é necessário, seja uma incógnita.

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“A figura mostra um exemplo design gráfico que utiliza o conceito de parametrização. Esse poster chamado de Morisawa 8 faz parte de um conjunto de posters desenvolvido pelo artista John Maeda. Essa obra foi gerada a partir de um programa de computador que repetia o logotipo da empresa Morisawa diversas vezes a partir de três principais parâmetros: largura do layout, altura do layout e fator de progressão aritmética. A largura da composição define o tamanho do primeiro logotipo; a altura define o máximo de linhas a serem preenchidas; o fator de progressão define quantos logotipos serão adicionados a cada nova linha.”

(Retirado em 10/10/2017 http://www.fau.usp.br/fauforma/2015/assets/anderson_vieira.pdf)

IDOSOS EM QUESTÃO | Será que temos cidades para todas as idades?

POR CAROLINA BITELLI E DANIELA PERRONI

O acelerado processo de urbanização, atrelado ao alto processo de envelhecimento da população, a globalização e o individualismo, são fenômenos e fatores presentes na sociedade atual, vistos como protagonistas na dinâmica capitalista contemporânea. Além disso, carregam consigo os valores e discussões sobre construção de identidade, liberdade, gênero, etc.

A crescente segmentação do mercado imobiliário, com projetos de habitação voltados exclusivamente para jovens e idosos, é uma reflexão sobre o território urbano que acaba diminuindo a relação entre os diferentes grupos etários da sociedade, segregando a população e levando a divisão funcional da cidade, um caráter já ultrapassado. Tanto os arquitetos quanto as autoridades públicas devem se esforçar para impedir ou mesmo reverter esses processos de segregação, pois a cidade deve promover acessibilidade e socialização para todas as idades.

Frente a isso, podemos questionar: Será que os vínculos que garantiam a estrutura tradicional através da ajuda mútua foram perdidos?

A estrutura é tida com os pais cuidando de seus filhos e então de seus pais idosos e, mais tarde, as crianças cuidando de seus pais e então, quando mais velhas, sendo cuidadas por seus filhos. Essa foi uma prática que se espalhou entre as famílias e das famílias para a comunidade. Hoje, é possível observar que esse vínculo e assistência foram confiados também para pessoas fora dos laços de parentesco.

Mas quem são os idosos dos quais estamos falando?

É fundamental sabermos quem compõe essa geração. É comum pensarmos em idosos como pessoas já debilitadas e muitas vezes desconectadas do resto da sociedade, o que acaba sendo reforçado até mesmo por alguns personagens conhecidos presentes em diferentes meios de comunicação, como é o caso do personagem Carl, famoso velhinho rabugento do filme “Up, altas aventuras” (imagem a baixo).

CARL

Fonte: https://euvouparaomundo.com/2014/01/23/os-segredos-do-filme-up-altas-aventuras/

Entretanto, graças a mudanças de hábitos, novas descobertas e avanços da medicina, este perfil está se diversificando rapidamente, se tornando cada vez mais comum encontrarmos pessoas com idades mais elevadas que são tão ativos e conectados com o mundo em seu entorno quanto pessoas mais novas. Um exemplo disso é a presença marcante de muitos destes “menos jovens” em redes sociais, muitas vezes apresentados às mesmas por seus netos ou parentes mais novos. Esse novo hábito pode ser benéfico, uma vez que ajuda o idoso a manter contato com amigos e familiares, e estimula novas formas de pensar, sendo assim um bom exercício para a mente. Isso se reflete também na aparência e nos hábitos dessa geração. Assim, se tornando cada vez mais presente em ambientes antes pouco prováveis, como: academias, grupos de motociclistas, estúdios de tatuadores, passarelas de moda, frequentando cursos de faculdade e nos mais diversos locais. No link https://pin.it/_34QKc3 é possível observar vários desses exemplos.

Em entrevista com o tatuador Sergio Maciel, o Leds, diz que o número de “velhinhos modernos e descolados tende a aumentar”; “Tenho muitos clientes com mais de 60 e 70 anos, eles querem expressar liberdade. E o discurso é sempre o mesmo: queriam ter feito antes, mas esperaram por medo”. Estima-se que, entre os clientes que entram no estúdio por dia, ao menos três estão na terceira idade.

Leds acredita que a sociedade conviverá com tantos idosos tatuados que o cenário passará a ser comum, e deixará de despertar olhares estranhos nas ruas, da mesma forma que vem ocorrendo em outros segmentos, como: médico, chefe de cozinha, modelo e dona de casa. Nas palavras do tatuador “[a tatuagem] virou um acessório, como uma jóia”.

Vovôs e vovós que, apesar dos efeitos do tempo, mostram orgulhosos suas tattoos e piercings.

Fontes: http://www.hypeness.com.br/2014/05/e-quando-voce-envelhecer-como-ficarao-suas-tatuagens/ ; https://tudoparahomens.com.br/como-ficam-as-tatuagens-quando-se-e-idoso/ ; http://delas.ig.com.br/comportamento/2014-03-24/tatuagens-marcam-uma-nova-terceira-idade.html

Um grande exemplo de superação e de dedicação ao longo de sua vida é o chinês Wang Deshun, que ficou conhecido após realizar seu primeiro desfile de moda aos 79 anos e ter sua vida retratada no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=WQAs-TfZ4SY, no qual da uma grande lição de determinação e mostra que a idade não é um limitador de nossas capacidades.

Após tal desfile, Wang se tornou ainda mais conhecido e aos 80 anos é personagem principal em propagandas de marcas mundialmente conhecidas como pode ser visto no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=02p7JQGOEBc.

Filmes atuais tem buscado retratar esses novos hábitos, como por exemplo, o retorno ou a permanência de maiores de 60 anos no mercado de trabalho, retratado em “Um senhor Estagiário” (uma comédia com Robert De Niro e Anne Hathaway). O filme conta a história de um homem de 70 anos que após se cansar do marasmo de uma empresa em que trabalhou por anos, decide se inscrever como estagiário em uma startup e levar sua experiência para a jovem empresa que acaba de explodir na internet – um roteiro que fala da interação e colaboração entre duas gerações diferentes, onde, embora os dois personagens principais tenham uma grande diferença de idade e, aparentemente, vivam mundos muito distintos, no fundo, ambos buscam a razão da vida.

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Fonte: http://www.obomtempo.com.br/cultura/filme-um-senhor-estagiario-ganha-destaque-mostrando-como-um-idoso-pode-ajudar-uma-startup.html

Embora seja um filme de ficção, “Um senhor Estagiário” expõe uma tendência observada mundialmente: o aumento do número de pessoas acima de 60 anos que continuam trabalhando. No Brasil, a situação não é diferente, e de acordo com informações do IBGE, três a cada dez idosos seguem exercendo atividades remuneradas.

Alguns motivos que explicam essa tendência é a dificuldade de manter uma boa qualidade de vida apenas com os valores da aposentadoria e a dificuldade por parte dos aposentados de lidar com o tempo “ocioso” que adquirem ao pararem de trabalhar. Entretanto, está havendo também um movimento das empresas em busca de funcionários nessa faixa etária por conta de sua qualificação, especialização e o conhecimento adquiridos ao longo de toda uma carreira profissional, além do equilíbrio emocional para lidar com diversas situações do dia a dia.

Os especialistas avaliam que vale a pena investir em profissionais com idade mais avançada, mas destacam alguns riscos, como: a possibilidade de perda de produtividade, dificuldade de lidar com novas tecnologias e aumento dos custos atrelados à saúde. Assim, para atenuar esses riscos, os empresários têm adotado práticas como “home office”, horários mais flexíveis e redução da jornada de trabalho.

Outro filme que pode ser citado é “O Exótico Hotel Marigold”, que mostra o desejo de um grupo de aposentados britânicos de explorar novos locais e se aventurar a mudar de país em busca de um local exótico e menos caro para viverem sua aposentadoria. Na trama, o grupo composto por Muriel (Maggie Smith), Douglas (Bill Nighy), Evelyn (Judi Dench), Graham (Tom Wilkinson) e mais três amigos, muda-se para a Índia atraídos por anúncios do recém-restaurado Hotel Marigold e seduzidos com visões de uma vida cheia de lazer. Eles são recebidos pelo jovem simpático e sonhador Sonny (Dev Patel); porém, o ambiente não é tão luxuoso como eles imaginavam, causando certo choque no grupo. Mas, apesar disso, as experiências que eles vivem no local acabam mudando para sempre o futuro de todos.

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Fonte: http://portalamigodoidoso.com.br/2012/07/26/filme-o-exotico-hotel-marigold/

O desejo de explorar e adquirir novos conhecimentos tem sido comprovado na vida real refletido no grande número de pessoas de idade cada vez mais avançada que vem buscando empresas a fim de realizar intercâmbios e viagens. No Brasil, algumas companhias de turismo abriram divisões de intercâmbio destinadas exclusivamente para tal faixa etária.

Algumas diferenças no perfil dos viajantes seniors são: maior flexibilidade para viajar ou realizar cursos durante a baixa temporada, busca por lugares com clima menos severos, programas mais curtos e mais voltados ao dia a dia, para que eles possam, por exemplo, aprender a pedir um vinho.

Pensando neste novo perfil da população mais velha, surgiram algumas organizações como a “Lata 65”, uma organização sem fins lucrativos, sediada em Lisboa, que tem como objetivo apresentar a arte “transgressora” dos grafittis para os idosos dos 65 até os 102 anos ou mais.

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Fonte: http://www.conexaolusofona.org/projeto-em-portugal-ensina-a-idosos-a-arte-do-graffiti-veja-o-resultado/

Para saber um pouco mais sobre o assunto, vale consultar estes dois artigos:

https://exame.abril.com.br/negocios/dino/os-desafios-do-envelhecimento-na-sociedade-moderna-dino89089117131/ ; https://www.theguardian.com/cities/2016/apr/25/improving-with-age-how-city-design-is-adapting-to-older-populations

Analisando todos esses fatos, fica a principal questão: Precisamos de moradias exclusivamente para idosos ou precisamos ajustar nossas cidades para todas as idades?

A gentrificação expulsa aqueles com menor renda dos centros da cidade, e isso pode se estender aos idosos se criarmos instalações específicas para eles nas periferias urbanas. É importante transformar as cidades em uma propriedade compartilhada de todos, evitando a segregação econômica e geracional, garantindo que a habitação exclusivamente para idosos se torne exceção e não uma regra.

Os idosos devem ser vistos como elementos-chave do sistema econômico, seja por meio do consumo ligado ao lazer e às viagens ou através do suporte material para a próxima geração. Somente se vivemos juntos com pessoas de todas as idades, podemos aceitar o declínio físico, a doença e a morte como processos naturais e encontrar conforto no dia a dia.

Tratando-se de habitações exclusivamente para idosos, de casas adaptadas a residências coletivas com assistência, existem exemplos que dão uma resposta digna às necessidades especiais de pessoas da terceira idade; pois é sabido que não surtiria resultado agregar os idosos na cidade sem considerar os cuidados que eles podem necessitar. Assim, projetos apresentam soluções para idosos que precisam de cuidados especiais diariamente, sejam intensivos ou apenas assistenciais; na medida em que adaptar suas casas às novas necessidades envolveriam custos elevados. Tendo como inovação e alternativa, esses projetos abordam diferentes graus de fragilidade e dependência da pessoa de terceira idade. Longe de esconder a velhice, procuram tratá-la de forma suave e natural.

Um exemplo de arquitetura contemporânea é o projeto de Óscar Miguel Ares Álvares em Aldeamayor de San Martín na Espanha, que criou uma casa de cuidados inspirada em ambientes áridos.

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Imagens externas do edifício.

Fonte: https://www.dezeen.com/2016/10/31/aldeamayor-de-san-martin-care-home-elderly-residential-architecture-concrete-courtyards-oscar-miguel-ares-alvares-spain/

O prédio é fechado por uma parede de blocos de concreto e abriga em seu interior um grande jardim de convivência. O complexo não é constituído por salas, mas de casas brancas térreas idênticas, agrupadas de forma desordenada com o objetivo de enfatizar sua individualidade e a de cada uma das pessoas que vivem nelas. Os corredores entre as casas tornam-se ruas e praças de pequena escala para estimular a relação entre os vizinhos.

O projeto tem como objetivo fazer com que o idoso se sinta independente, mesmo necessitando de cuidados e monitoramento.

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Imagens das áreas externas do edifício, área interna e planta do projeto.

Fonte: http://www.arquitecturaviva.com/en/Info/News/Details/10721

Outro exemplo de arquitetura contemporânea é o projeto de Dietger Wissounig Architekten em Graz na Áustria, que criou um prisma de dois andares em estrutura de madeira destinado a abrigar oito comunidades de idosos, sendo quatro por andar, que compartilham uma série de jardins subordinados a um espaço central, que funciona como uma praça e dá ao edifício um determinado caráter público.

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Imagem da área externa do edifício.

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Planta do pavimento térreo do projeto.

Fonte: http://www.archdaily.com/565058/peter-rosegger-nursing-home-dietger-wissounig-architekten

Cada comunidade acomoda treze residentes e consiste em salas conectadas por uma cozinha compartilhada e área de jantar, com a ideia de criar uma atmosfera doméstica e, tanto quanto possível, familiar. Este tipo de escala intermediária é reforçada com grandes varandas que abrem o edifício para o exterior.

O projeto tem como objetivo promover a convivência entre os moradores e tirar a ideia de que residências exclusivamente para idosos são “internatos”.

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Imagens da área interna do edifício.

Fonte: http://www.arquitecturaviva.com/en/Info/News/Details/10721

Um exemplo no Brasil de como a questão pode ser abordada, é o Residencial Santa Cruz para Idosos, localizado no Campo Grande em São Paulo. Projeto de Hoeazevedo Arquitetura, possui como partido promover o bem-estar físico, afetivo, intelectual e espiritual dos residentes; além do conforto, acolhimento e acessibilidade.

O projeto arquitetônico foi desenvolvido de forma a promover espaços de atividades físicas, recreativas, de lazer, cultura e convivência entre seus usuários e familiares. Com 36 suítes individuais, 18 duplas e 2 triplas; o projeto atentou-se aos detalhes referentes a segurança, como: banheiros adaptados, móveis sem quinas, botões de emergência em todos os quartos, corredores com corrimões, luzes que acendem através de sensores, etc; além do acompanhamento médico constante e assistência de enfermagem 24 horas por dia.

Imagens das áreas internas do Residencial Santa Cruz (área da piscina, sala de cinema, capela e solarium).

Fonte: http://rsantacruz.com.br/estrutura/

De acordo com o IBGE, o número de idosos que moram sozinhos vem aumentando cada vez mais no Brasil. O problema mais frequente relatado pelas famílias é que sozinhos em suas respectivas casas ou apartamentos, os idosos se encontram mais vulneráveis. Passam muito tempo sem fazer atividades físicas, apenas ficam ao sofá assistindo televisão; podem desenvolver algum tipo de depressão por estarem sem companhia para conversar e exercitar a mente; podem sofrer quedas ao se deslocarem de um cômodo ao outro; etc. Muitos se apegam a seus lares e continuam morando longe de seus familiares, o que dificulta a visita e convivência entre os mesmos.

Temos como exemplo relatos dos próprios residentes do Residencial Santa Cruz, já citado anteriormente, que foram relutantes com seus familiares a se mudarem para lá, pois tinham a imagem de que seria um ambiente triste, de contato com idosos doentes onde não haveria interações e atividades, apenas confinamento. Porém, após alguns dias de vivência e adaptação no local, adoraram e quiseram se mudar definitivamente.

Confira o depoimento dos responsáveis pelo funcionamento do Residencial Santa Cruz, discutindo a questão dos idosos no link: https://www.youtube.com/watch?v=dGLd5Edj7AA.

Para concluir, voltamos a pergunta: Será que temos cidades para todas as idades?

É visto que não, muito ainda temos que melhorar em nossas cidades para que elas atendam todas as idades, principalmente em questão de acessibilidade e segurança. Porém, é se estudando a sociedade e formas de soluções que podemos integrar cada vez mais as diferentes idades nos espaços da cidade em todos os aspectos de convivência, tanto fisicamente (por meio de projetos arquitetônicos, atividades, sinalizações, etc), quanto imaterialmente (em relação as formas de comunicação e interação).

 


Fontes Gerais:

Revista Arquitectura Viva; Vivienda para mayores – Dossier Bambú, 196.7-8/2017.

Texto Questão urbana e envelhecimento populacional: breves conexões entre o direito à cidade e o idoso no mercado de trabalho, de Maura Pardini Bicudo Véras e Jorge Felix (http://www.scielo.br/pdf/cm/v18n36/2236-9996-cm-18-36-0441.pdf)

Reportagem “Dementia Village” inspires new care (http://edition.cnn.com/2013/07/11/world/europe/wus-holland-dementia-village/index.html)

 

Pedra Líquida – Liquid Stone

Por Maria Fernanda Xavier e Victória Guimarães Eugênio

Parafraseando o termo “modernidade líquida” proposto por Zigmund Bauman, onde este qualifica o mundo atual como líquido, para a arquitetura objetivou-se o uso da pedra e da pedra líquida como forma de explicitar a maneira como as construções veem perdendo ou transformando valores durante gerações.

Será essa pedra líquida o concreto que conhecemos hoje?

A pedra em sua forma pura é um material simples de se trabalhar visto que ela é abundante na natureza, requer pouca energia para o seu uso, é reutilizável e inigualável em seu desempenho arquitetônico, marcando assim todos os pré-requisitos de sustentabilidade.

Porém, o seu uso para infraestrutura vem desaparecendo de forma crescente, em nome da modernidade liquida, no entanto não desapareceu da paisagem arquitetônica, mas se tornou um pastiche, sendo usada somente como uma decoração, um folheado em paredes de concreto.

Um exemplo pode ser o Arco de La Défense, em Paris. O arco é um projeto de Johann Otto von Spreckelsen, e foi projetado para ser um dossel infraestruturado, estimado pela pureza em sua forma, porém ele foi executado em concreto, com revestimento em mármore, uma heresia ambiental segundo Gilles Perraudin, arquiteto francês que desenvolveu estudos sobre o uso da pedra e sobre arquitetura vernacular.

Arco de La Défense, Paris

Arco de La Défense, Paris

 

Arco de La Défense, Paris

Arco de La Défense, Paris

 

A partir da significação do concreto de diversas visões, percebe-se que este remete a solidez, rigidez e a inflexibilidade, porém a visão deste vem mudando ou como diria Bauman em 44 Cartas de um mundo líquido moderno “(…) Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança: as modas que seguimos e os objetos que despertam nossa atenção; as coisas que sonhamos e que tememos, aquelas que desejamos e odiamos, as que nos enchem de esperanças e as que nos enchem de aflição.”

Considerando-se a visão de Bauman mostrada acima, podemos concluir que o concreto se tornaria duplamente líquido.

Primeiramente, devido ao seu estado físico antes de se tornar rígido e resistente. E, posteriormente devido a sua efemeridade quando comparado a forma pura e primária da pedra.

O concreto como conhecemos hoje trata-se da pedra artificial, que tem como base pedra utilizada nas construções antigas junto com outros compostos que produzem esse material.

Antes construíam-se palácios, igrejas, fortalezas e monumentos com a pedra na forma pura encontrada na natureza e esculpida de acordo com o seu objetivo, diferente da maneira como se constroem os edifícios da atualidade, onde as escolhas dos materiais tornaram-se banais como questões mais ligadas a ideologia contemporânea ao invés de partir das suas propriedades.

Um exemplo de edificação esculpida na pedra, em sua forma pura, são as igrejas escavadas em Lalibela, na Etiópia.

Elas constituem Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, e é composta por onze igrejas e um mosteiro, sendo o Templo de São Jorge o principal deles.

Esta igreja é um bloco monolítico, esculpido em granito rosa, de cima pra baixo e de fora pra dentro, em formato de cruz grega. Construída no século XII, hoje combina o rosa da pedra com o amarelo dos líquens que cresceram com o passar dos séculos.

Igreja de São Jorge esculpida em granito rosa em Lalibela - Etiópia

Igreja de São Jorge esculpida em granito rosa em Lalibela – Etiópia

 

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Igreja de São Jorge, Lalibela – Etiópia

 

Hoje esses palácios, igrejas e fortalezas são tratadas como ruínas de um período passado e esquecido, essas construções são lembradas apenas por representarem um momento e não pela sua contribuição dentro dos âmbitos das cidades. As populações não reconhecem esses sítios como parte de sua história.

Atrium, Farwell Building - 2006

Atrium, Farwell Building – 2006

 

Waiting Hall, Michigan Central Station - 2008

Waiting Hall, Michigan Central Station – 2008

 

Considerando as propriedades da pedra em sua forma pura apontadas no início desta postagem, podemos estudar com diferentes olhares dois projetos, sendo eles o projeto da cidade de Valletta em Malta, projetado por Renzo Piano e o projeto de habitação para o indano Mukesh Ambani.

A ilha de Malta foi amplamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial, restando as ruínas dessa cidade de um lado e um portão futurista que representava a independência de Malta adquirida em 1964, de outro lado.

Renzo Piano foi contratado pelo governo da cidade para construir um novo prédio de Parlamento, um teatro a céu aberto e um novo portal para a cidade de Valletta. Os clientes tinham a expectativa de que o arquiteto, famoso pelos seus projetos “high-tech”, elaborasse algo com vidro e materiais modernos, porém não foi o que ele propôs.

O arquiteto desenvolveu desenhos com um prédio feito de pedra, alegando que Valletta havia sido originalmente construída de calcário, porém esse material se fragmenta facilmente e não era adequado para as novas construções. Então pesquisou-se um material regional que tivesse as mesmas características, porém fosse mais resistente a erosão.

Visitaram-se diversas pedreiras, e elas ofereciam materiais ainda muito friáveis, e foi necessário o suporte de geomorfologistas e do governo para encontrar o material adequado, que ao ser identificado foi dificilmente obtido, pois era necessário abrir uma nova pedreira para a sua aquisição.

No entanto, Malta necessitava de um Parlamento que refletisse a identidade da ilha, sem que nenhum outro material ou estrutura interferisse na unidade do edifício. Usando-se impressão 3D, foi definido vinte elementos de pedra que compunham a fachada do edifício e o portal da cidade.

Portal da cidade de Valletta em Malta

Portal da cidade de Valletta em Malta

 

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Edifício do Parlamento

 

Edifício do Parlamento

Edifício do Parlamento

 

Teatro a céu aberto

Teatro a céu aberto

 

Já Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, em 2006 decidiu construir uma casa para ele, sua esposa, sua mãe e três filhos. A casa possui 27 andares, e uma área total de 37.000 m², contendo academia de ginástica, estúdio de dança, sala de cinema para 50 pessoas, sala de estar moderna, sala de estar tradicional, salão de festas, jardins suspensos, mega home theater, casa de hóspedes, 168 vagas de estacionamento, 9 elevadores e 3 heliportos.

Estima-se que a casa empregue 600 funcionários e gaste US$ 265 mil em energia elétrica por mês. Tudo isso no centro de Mumbai, uma cidade tomada pela pobreza, onde 60% da população moram em favelas. A rua onde ela está sendo construída já se tornou a décima mais valorizada do mundo com o valor de US$ 25 mil por metro quadrado, ou seja, a região sofreu um grave e bruto processo de gentrificação.

Antilia, de Mukesh Ambani

Antilia, de Mukesh Ambani

 

Dessa forma, podemos entender que enquanto Renzo Piano procurava empregar a forma mais pura e simples do material, para a sua melhor adequação no meio e melhor custo benefício, Mukesh Ambani não se importa com a quantidade de material, energia, água e outros recursos necessários, utilizados e até mesmo desperdiçados para a construção e manutenção da sua “casa”, ou seja a pedra líquida na atual modernidade líquida.

Arquitetura contemporânea: Como suprir a demanda da sociedade do exagero?

– Camila Chavez e Bruna Calza

Absolutamente tudo, a todo momento, está em constante evolução, seja fisicamente, mentalmente ou a favor do tempo. Assim como na Arquitetura, o acelerado processo de globalização, acompanhado de suas transformações históricas, nos levaram ao quadro da Arquitetura contemporânea e sua preocupação com o esgotável e o não renovável. Nesse caso, testemunhamos o esforço de diversos arquitetos em moldar cidades auto-sustentáveis, com edifícios de baixo impacto, utilizando-se da alta tecnologia – como por exemplo o arranha-céu em Manhattan de Mark Foster Gage, um exemplo do que hoje é chamado de arquitetura inesgotável, isto é, que não utiliza-se de elementos finitos para existir.

 

Mark Foster Gage é um arquiteto que estuda em seus projetos a possibilidade da perpetuação de uma arquitetura provida de um raciocínio voltado não apenas para ocupar a cidade com  altos blocos de estrutura metálica revestidos de vidro, como comumente o senso estético da maioria enxerga como de “ultima geração”. Na verdade, Gage espera que seus projetos efetivamente somem ao espaço urbano, tanto esteticamente quanto em relação ao bem-estar, qualidade de vida e a conexão que deve existir entre a urbe e o ser humano. Para tanto é irracional que se abra mão dos recursos tecnológicos, como alguns pensadores mais radicais sugerem.

Em verdade, devemos pensar, assim como Gage, em utilizar os avanços científicos em favor a uma produção arquitetônica menos agressiva e não nos opor aos mesmos ou mesmo sugerir algum tipo de retrocesso tecnológico. Exatamente por essa razão temos tantos pesquisadores e estudiosos na área da construção civil que se dedicam exclusivamente à elaboração e aperfeiçoamento de novos materiais e técnicas construtivas capazes de amenizar a agressão que, inevitavelmente, a construção de um edifício desencadeia ao meio ambiente e à cidade.

O edifício habitacional projetado em Manhattan, Nova Iorque, possui um programa bastante semelhante ao que se estabelece nos demais edifícios do bairro. Trata-se de uma torre luxuosa de 447 metros de altura, distribuídos em 107 pavimentos, que de forma alguma dialoga de forma esteticamente coerente com o entorno e nem mesmo considera as camadas históricas embutidas nos projetos vizinhos. Porém a ousadia do projeto não pode ser vista como algo totalmente negativo, ja que apesar do exagero e pompa, apresenta novas possibilidades sustentáveis referentes à revestimentos, texturas, aproveitamento de espaço, etc. Apesar de destacar-se aos olhos, serve como aprendizado para que nós arquitetos possamos adaptar essas mesmas técnicas quando pensarmos em habitações populares e até mesmo restauros.

Se por um lado, resquícios estéticos e esquemáticos da Arquitetura Moderna ainda sobrevivem para alguns escritórios de arquitetura – especialmente no Brasil-  o escritório Mark Foster Gage acredita que o cidadão merece uma arquitetura nova, embora tenha retirado as melhores características dos movimentos anteriores e adaptado-as para nossas necessidades atuais, que são especialmente ligadas ao menor uso possível de matérias primas não renováveis, especialmente porque vivemos numa sociedade de excessos. Segundo Mark Foster, seria então responsabilidade do arquiteto estar atento a esse dilema. Como suprir a demanda da sociedade do exagero sem explorar demasiadamente os recursos naturais?

Os hábitos de consumo desmedido e a necessidade de obter sempre o mais novo e exclusivo, nos direciona a uma arquitetura muito preocupada em ser cartão-postal, ser emblemática, ser símbolo. Daí as formas orgânicas e desconstruídas de Frank Gehry e Zaha Hadid. Softwares cada vez mais precisos e inteligentes fazem o trabalho de compatibilização que seria exaustivo. A era do anti-classicismo na qual parte de nós vive, relaciona a forma arquitetônica ao futurista, ao tecnológico, como observamos em diversos edifícios despensiosos em Dubai – símbolos de riqueza, tecnologia e inovação. Não gera surpresa se pensarmos quando, precisamente o novo deixa de ser novo e torna-se obsoleto? Especialmente no caso da arquitetura que, diferentemente da moda e da música, por exemplo, é um bem tão durável (consideramos que um edifício sobrevive entre 70 e 100 anos). Não seria esse modelo exagerado e pomposo totalmente descabido – até mesmo porque nenhuma preocupação social é envolvida nessa estética, diferentemente do que ocorreu no Modernismo e no Brutalismo, por exemplo. Hoje muitos escritórios de arquitetura, tentando atender a demanda das classes mais endinheiradas, projeta uma arquitetura tão facilmente consumível que corre o risco de tornar-se rapidamente “velha”, “fora de moda” e “kitsh”. Um desperdício, dado que, como ja disse mos antes, não há preocupações sociais que justifiquem a sobrevivência desses edifícios puramente plásticos. Como podemos aceitar que a arquitetura, arte-ciência tão concreta e tão necessária, possa se submeter de forma tão injustificada à mesma onde de consumo desenfreado como um sapato que dura três míseros anos? Sim, a mesma Zaha Hadid que projetou edifícios também projetou sapatos com as mesmas formas mirabolantes.

O projeto do edifício do escritório Mark Foster Gage, ainda que, claro, seja direcionado ao público mais abastado, faz uma tentativa de trazer o que é novo sem que seja exatamente algo “descartável” ou passageiro, afinal de contas estamos falando de um edifício com mais de 100 andares e muito investimento de capital.  E se décadas atrás esse projeto poderia levar muitos anos para ser concluído, hoje as novas técnicas construtivas tornam possível uma obra mais eficiente, mais rápida e com menor desperdício possível. Efetivamente, é um arranha-céu peculiar, cuja arquitetura difícil de digerir, alcança o objetivo de colocar os novaiorquinos para repensar seus conceitos de moderno, de futurista e até mesmo de belo – especialmente porque é um projeto destinado à alta renda.

Em sua divulgação, o projeto foi alvo de diversos comentários, críticas e dúvidas do tipo “é o fim da arquitetura?“, “Michelangelo voltou a vida e desenhou esse arranha-céu?“, maneiras e maneiras de interpretação do projeto, buscando diversos pensamentos e não a filosofia de um mundo que estátão batido, como exemplo as obras de Santiago Calatrava, impondo uma arquitetura facilmente interpretada, mas sim que a mesma apresente diferentes reações e sensações.