Arquitetura contemporânea: Como suprir a demanda da sociedade do exagero?

– Camila Chavez e Bruna Calza

Absolutamente tudo, a todo momento, está em constante evolução, seja fisicamente, mentalmente ou a favor do tempo. Assim como na Arquitetura, o acelerado processo de globalização, acompanhado de suas transformações históricas, nos levaram ao quadro da Arquitetura contemporânea e sua preocupação com o esgotável e o não renovável. Nesse caso, testemunhamos o esforço de diversos arquitetos em moldar cidades auto-sustentáveis, com edifícios de baixo impacto, utilizando-se da alta tecnologia – como por exemplo o arranha-céu em Manhattan de Mark Foster Gage, um exemplo do que hoje é chamado de arquitetura inesgotável, isto é, que não utiliza-se de elementos finitos para existir.

 

Mark Foster Gage é um arquiteto que estuda em seus projetos a possibilidade da perpetuação de uma arquitetura provida de um raciocínio voltado não apenas para ocupar a cidade com  altos blocos de estrutura metálica revestidos de vidro, como comumente o senso estético da maioria enxerga como de “ultima geração”. Na verdade, Gage espera que seus projetos efetivamente somem ao espaço urbano, tanto esteticamente quanto em relação ao bem-estar, qualidade de vida e a conexão que deve existir entre a urbe e o ser humano. Para tanto é irracional que se abra mão dos recursos tecnológicos, como alguns pensadores mais radicais sugerem.

Em verdade, devemos pensar, assim como Gage, em utilizar os avanços científicos em favor a uma produção arquitetônica menos agressiva e não nos opor aos mesmos ou mesmo sugerir algum tipo de retrocesso tecnológico. Exatamente por essa razão temos tantos pesquisadores e estudiosos na área da construção civil que se dedicam exclusivamente à elaboração e aperfeiçoamento de novos materiais e técnicas construtivas capazes de amenizar a agressão que, inevitavelmente, a construção de um edifício desencadeia ao meio ambiente e à cidade.

O edifício habitacional projetado em Manhattan, Nova Iorque, possui um programa bastante semelhante ao que se estabelece nos demais edifícios do bairro. Trata-se de uma torre luxuosa de 447 metros de altura, distribuídos em 107 pavimentos, que de forma alguma dialoga de forma esteticamente coerente com o entorno e nem mesmo considera as camadas históricas embutidas nos projetos vizinhos. Porém a ousadia do projeto não pode ser vista como algo totalmente negativo, ja que apesar do exagero e pompa, apresenta novas possibilidades sustentáveis referentes à revestimentos, texturas, aproveitamento de espaço, etc. Apesar de destacar-se aos olhos, serve como aprendizado para que nós arquitetos possamos adaptar essas mesmas técnicas quando pensarmos em habitações populares e até mesmo restauros.

Se por um lado, resquícios estéticos e esquemáticos da Arquitetura Moderna ainda sobrevivem para alguns escritórios de arquitetura – especialmente no Brasil-  o escritório Mark Foster Gage acredita que o cidadão merece uma arquitetura nova, embora tenha retirado as melhores características dos movimentos anteriores e adaptado-as para nossas necessidades atuais, que são especialmente ligadas ao menor uso possível de matérias primas não renováveis, especialmente porque vivemos numa sociedade de excessos. Segundo Mark Foster, seria então responsabilidade do arquiteto estar atento a esse dilema. Como suprir a demanda da sociedade do exagero sem explorar demasiadamente os recursos naturais?

Os hábitos de consumo desmedido e a necessidade de obter sempre o mais novo e exclusivo, nos direciona a uma arquitetura muito preocupada em ser cartão-postal, ser emblemática, ser símbolo. Daí as formas orgânicas e desconstruídas de Frank Gehry e Zaha Hadid. Softwares cada vez mais precisos e inteligentes fazem o trabalho de compatibilização que seria exaustivo. A era do anti-classicismo na qual parte de nós vive, relaciona a forma arquitetônica ao futurista, ao tecnológico, como observamos em diversos edifícios despensiosos em Dubai – símbolos de riqueza, tecnologia e inovação. Não gera surpresa se pensarmos quando, precisamente o novo deixa de ser novo e torna-se obsoleto? Especialmente no caso da arquitetura que, diferentemente da moda e da música, por exemplo, é um bem tão durável (consideramos que um edifício sobrevive entre 70 e 100 anos). Não seria esse modelo exagerado e pomposo totalmente descabido – até mesmo porque nenhuma preocupação social é envolvida nessa estética, diferentemente do que ocorreu no Modernismo e no Brutalismo, por exemplo. Hoje muitos escritórios de arquitetura, tentando atender a demanda das classes mais endinheiradas, projeta uma arquitetura tão facilmente consumível que corre o risco de tornar-se rapidamente “velha”, “fora de moda” e “kitsh”. Um desperdício, dado que, como ja disse mos antes, não há preocupações sociais que justifiquem a sobrevivência desses edifícios puramente plásticos. Como podemos aceitar que a arquitetura, arte-ciência tão concreta e tão necessária, possa se submeter de forma tão injustificada à mesma onde de consumo desenfreado como um sapato que dura três míseros anos? Sim, a mesma Zaha Hadid que projetou edifícios também projetou sapatos com as mesmas formas mirabolantes.

O projeto do edifício do escritório Mark Foster Gage, ainda que, claro, seja direcionado ao público mais abastado, faz uma tentativa de trazer o que é novo sem que seja exatamente algo “descartável” ou passageiro, afinal de contas estamos falando de um edifício com mais de 100 andares e muito investimento de capital.  E se décadas atrás esse projeto poderia levar muitos anos para ser concluído, hoje as novas técnicas construtivas tornam possível uma obra mais eficiente, mais rápida e com menor desperdício possível. Efetivamente, é um arranha-céu peculiar, cuja arquitetura difícil de digerir, alcança o objetivo de colocar os novaiorquinos para repensar seus conceitos de moderno, de futurista e até mesmo de belo – especialmente porque é um projeto destinado à alta renda.

Em sua divulgação, o projeto foi alvo de diversos comentários, críticas e dúvidas do tipo “é o fim da arquitetura?“, “Michelangelo voltou a vida e desenhou esse arranha-céu?“, maneiras e maneiras de interpretação do projeto, buscando diversos pensamentos e não a filosofia de um mundo que estátão batido, como exemplo as obras de Santiago Calatrava, impondo uma arquitetura facilmente interpretada, mas sim que a mesma apresente diferentes reações e sensações.

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