IDOSOS EM QUESTÃO | Será que temos cidades para todas as idades?

POR CAROLINA BITELLI E DANIELA PERRONI

O acelerado processo de urbanização, atrelado ao alto processo de envelhecimento da população, a globalização e o individualismo, são fenômenos e fatores presentes na sociedade atual, vistos como protagonistas na dinâmica capitalista contemporânea. Além disso, carregam consigo os valores e discussões sobre construção de identidade, liberdade, gênero, etc.

A crescente segmentação do mercado imobiliário, com projetos de habitação voltados exclusivamente para jovens e idosos, é uma reflexão sobre o território urbano que acaba diminuindo a relação entre os diferentes grupos etários da sociedade, segregando a população e levando a divisão funcional da cidade, um caráter já ultrapassado. Tanto os arquitetos quanto as autoridades públicas devem se esforçar para impedir ou mesmo reverter esses processos de segregação, pois a cidade deve promover acessibilidade e socialização para todas as idades.

Frente a isso, podemos questionar: Será que os vínculos que garantiam a estrutura tradicional através da ajuda mútua foram perdidos?

A estrutura é tida com os pais cuidando de seus filhos e então de seus pais idosos e, mais tarde, as crianças cuidando de seus pais e então, quando mais velhas, sendo cuidadas por seus filhos. Essa foi uma prática que se espalhou entre as famílias e das famílias para a comunidade. Hoje, é possível observar que esse vínculo e assistência foram confiados também para pessoas fora dos laços de parentesco.

Mas quem são os idosos dos quais estamos falando?

É fundamental sabermos quem compõe essa geração. É comum pensarmos em idosos como pessoas já debilitadas e muitas vezes desconectadas do resto da sociedade, o que acaba sendo reforçado até mesmo por alguns personagens conhecidos presentes em diferentes meios de comunicação, como é o caso do personagem Carl, famoso velhinho rabugento do filme “Up, altas aventuras” (imagem a baixo).

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Fonte: https://euvouparaomundo.com/2014/01/23/os-segredos-do-filme-up-altas-aventuras/

Entretanto, graças a mudanças de hábitos, novas descobertas e avanços da medicina, este perfil está se diversificando rapidamente, se tornando cada vez mais comum encontrarmos pessoas com idades mais elevadas que são tão ativos e conectados com o mundo em seu entorno quanto pessoas mais novas. Um exemplo disso é a presença marcante de muitos destes “menos jovens” em redes sociais, muitas vezes apresentados às mesmas por seus netos ou parentes mais novos. Esse novo hábito pode ser benéfico, uma vez que ajuda o idoso a manter contato com amigos e familiares, e estimula novas formas de pensar, sendo assim um bom exercício para a mente. Isso se reflete também na aparência e nos hábitos dessa geração. Assim, se tornando cada vez mais presente em ambientes antes pouco prováveis, como: academias, grupos de motociclistas, estúdios de tatuadores, passarelas de moda, frequentando cursos de faculdade e nos mais diversos locais. No link https://pin.it/_34QKc3 é possível observar vários desses exemplos.

Em entrevista com o tatuador Sergio Maciel, o Leds, diz que o número de “velhinhos modernos e descolados tende a aumentar”; “Tenho muitos clientes com mais de 60 e 70 anos, eles querem expressar liberdade. E o discurso é sempre o mesmo: queriam ter feito antes, mas esperaram por medo”. Estima-se que, entre os clientes que entram no estúdio por dia, ao menos três estão na terceira idade.

Leds acredita que a sociedade conviverá com tantos idosos tatuados que o cenário passará a ser comum, e deixará de despertar olhares estranhos nas ruas, da mesma forma que vem ocorrendo em outros segmentos, como: médico, chefe de cozinha, modelo e dona de casa. Nas palavras do tatuador “[a tatuagem] virou um acessório, como uma jóia”.

Vovôs e vovós que, apesar dos efeitos do tempo, mostram orgulhosos suas tattoos e piercings.

Fontes: http://www.hypeness.com.br/2014/05/e-quando-voce-envelhecer-como-ficarao-suas-tatuagens/ ; https://tudoparahomens.com.br/como-ficam-as-tatuagens-quando-se-e-idoso/ ; http://delas.ig.com.br/comportamento/2014-03-24/tatuagens-marcam-uma-nova-terceira-idade.html

Um grande exemplo de superação e de dedicação ao longo de sua vida é o chinês Wang Deshun, que ficou conhecido após realizar seu primeiro desfile de moda aos 79 anos e ter sua vida retratada no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=WQAs-TfZ4SY, no qual da uma grande lição de determinação e mostra que a idade não é um limitador de nossas capacidades.

Após tal desfile, Wang se tornou ainda mais conhecido e aos 80 anos é personagem principal em propagandas de marcas mundialmente conhecidas como pode ser visto no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=02p7JQGOEBc.

Filmes atuais tem buscado retratar esses novos hábitos, como por exemplo, o retorno ou a permanência de maiores de 60 anos no mercado de trabalho, retratado em “Um senhor Estagiário” (uma comédia com Robert De Niro e Anne Hathaway). O filme conta a história de um homem de 70 anos que após se cansar do marasmo de uma empresa em que trabalhou por anos, decide se inscrever como estagiário em uma startup e levar sua experiência para a jovem empresa que acaba de explodir na internet – um roteiro que fala da interação e colaboração entre duas gerações diferentes, onde, embora os dois personagens principais tenham uma grande diferença de idade e, aparentemente, vivam mundos muito distintos, no fundo, ambos buscam a razão da vida.

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Fonte: http://www.obomtempo.com.br/cultura/filme-um-senhor-estagiario-ganha-destaque-mostrando-como-um-idoso-pode-ajudar-uma-startup.html

Embora seja um filme de ficção, “Um senhor Estagiário” expõe uma tendência observada mundialmente: o aumento do número de pessoas acima de 60 anos que continuam trabalhando. No Brasil, a situação não é diferente, e de acordo com informações do IBGE, três a cada dez idosos seguem exercendo atividades remuneradas.

Alguns motivos que explicam essa tendência é a dificuldade de manter uma boa qualidade de vida apenas com os valores da aposentadoria e a dificuldade por parte dos aposentados de lidar com o tempo “ocioso” que adquirem ao pararem de trabalhar. Entretanto, está havendo também um movimento das empresas em busca de funcionários nessa faixa etária por conta de sua qualificação, especialização e o conhecimento adquiridos ao longo de toda uma carreira profissional, além do equilíbrio emocional para lidar com diversas situações do dia a dia.

Os especialistas avaliam que vale a pena investir em profissionais com idade mais avançada, mas destacam alguns riscos, como: a possibilidade de perda de produtividade, dificuldade de lidar com novas tecnologias e aumento dos custos atrelados à saúde. Assim, para atenuar esses riscos, os empresários têm adotado práticas como “home office”, horários mais flexíveis e redução da jornada de trabalho.

Outro filme que pode ser citado é “O Exótico Hotel Marigold”, que mostra o desejo de um grupo de aposentados britânicos de explorar novos locais e se aventurar a mudar de país em busca de um local exótico e menos caro para viverem sua aposentadoria. Na trama, o grupo composto por Muriel (Maggie Smith), Douglas (Bill Nighy), Evelyn (Judi Dench), Graham (Tom Wilkinson) e mais três amigos, muda-se para a Índia atraídos por anúncios do recém-restaurado Hotel Marigold e seduzidos com visões de uma vida cheia de lazer. Eles são recebidos pelo jovem simpático e sonhador Sonny (Dev Patel); porém, o ambiente não é tão luxuoso como eles imaginavam, causando certo choque no grupo. Mas, apesar disso, as experiências que eles vivem no local acabam mudando para sempre o futuro de todos.

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Fonte: http://portalamigodoidoso.com.br/2012/07/26/filme-o-exotico-hotel-marigold/

O desejo de explorar e adquirir novos conhecimentos tem sido comprovado na vida real refletido no grande número de pessoas de idade cada vez mais avançada que vem buscando empresas a fim de realizar intercâmbios e viagens. No Brasil, algumas companhias de turismo abriram divisões de intercâmbio destinadas exclusivamente para tal faixa etária.

Algumas diferenças no perfil dos viajantes seniors são: maior flexibilidade para viajar ou realizar cursos durante a baixa temporada, busca por lugares com clima menos severos, programas mais curtos e mais voltados ao dia a dia, para que eles possam, por exemplo, aprender a pedir um vinho.

Pensando neste novo perfil da população mais velha, surgiram algumas organizações como a “Lata 65”, uma organização sem fins lucrativos, sediada em Lisboa, que tem como objetivo apresentar a arte “transgressora” dos grafittis para os idosos dos 65 até os 102 anos ou mais.

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Fonte: http://www.conexaolusofona.org/projeto-em-portugal-ensina-a-idosos-a-arte-do-graffiti-veja-o-resultado/

Para saber um pouco mais sobre o assunto, vale consultar estes dois artigos:

https://exame.abril.com.br/negocios/dino/os-desafios-do-envelhecimento-na-sociedade-moderna-dino89089117131/ ; https://www.theguardian.com/cities/2016/apr/25/improving-with-age-how-city-design-is-adapting-to-older-populations

Analisando todos esses fatos, fica a principal questão: Precisamos de moradias exclusivamente para idosos ou precisamos ajustar nossas cidades para todas as idades?

A gentrificação expulsa aqueles com menor renda dos centros da cidade, e isso pode se estender aos idosos se criarmos instalações específicas para eles nas periferias urbanas. É importante transformar as cidades em uma propriedade compartilhada de todos, evitando a segregação econômica e geracional, garantindo que a habitação exclusivamente para idosos se torne exceção e não uma regra.

Os idosos devem ser vistos como elementos-chave do sistema econômico, seja por meio do consumo ligado ao lazer e às viagens ou através do suporte material para a próxima geração. Somente se vivemos juntos com pessoas de todas as idades, podemos aceitar o declínio físico, a doença e a morte como processos naturais e encontrar conforto no dia a dia.

Tratando-se de habitações exclusivamente para idosos, de casas adaptadas a residências coletivas com assistência, existem exemplos que dão uma resposta digna às necessidades especiais de pessoas da terceira idade; pois é sabido que não surtiria resultado agregar os idosos na cidade sem considerar os cuidados que eles podem necessitar. Assim, projetos apresentam soluções para idosos que precisam de cuidados especiais diariamente, sejam intensivos ou apenas assistenciais; na medida em que adaptar suas casas às novas necessidades envolveriam custos elevados. Tendo como inovação e alternativa, esses projetos abordam diferentes graus de fragilidade e dependência da pessoa de terceira idade. Longe de esconder a velhice, procuram tratá-la de forma suave e natural.

Um exemplo de arquitetura contemporânea é o projeto de Óscar Miguel Ares Álvares em Aldeamayor de San Martín na Espanha, que criou uma casa de cuidados inspirada em ambientes áridos.

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Imagens externas do edifício.

Fonte: https://www.dezeen.com/2016/10/31/aldeamayor-de-san-martin-care-home-elderly-residential-architecture-concrete-courtyards-oscar-miguel-ares-alvares-spain/

O prédio é fechado por uma parede de blocos de concreto e abriga em seu interior um grande jardim de convivência. O complexo não é constituído por salas, mas de casas brancas térreas idênticas, agrupadas de forma desordenada com o objetivo de enfatizar sua individualidade e a de cada uma das pessoas que vivem nelas. Os corredores entre as casas tornam-se ruas e praças de pequena escala para estimular a relação entre os vizinhos.

O projeto tem como objetivo fazer com que o idoso se sinta independente, mesmo necessitando de cuidados e monitoramento.

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Imagens das áreas externas do edifício, área interna e planta do projeto.

Fonte: http://www.arquitecturaviva.com/en/Info/News/Details/10721

Outro exemplo de arquitetura contemporânea é o projeto de Dietger Wissounig Architekten em Graz na Áustria, que criou um prisma de dois andares em estrutura de madeira destinado a abrigar oito comunidades de idosos, sendo quatro por andar, que compartilham uma série de jardins subordinados a um espaço central, que funciona como uma praça e dá ao edifício um determinado caráter público.

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Imagem da área externa do edifício.

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Planta do pavimento térreo do projeto.

Fonte: http://www.archdaily.com/565058/peter-rosegger-nursing-home-dietger-wissounig-architekten

Cada comunidade acomoda treze residentes e consiste em salas conectadas por uma cozinha compartilhada e área de jantar, com a ideia de criar uma atmosfera doméstica e, tanto quanto possível, familiar. Este tipo de escala intermediária é reforçada com grandes varandas que abrem o edifício para o exterior.

O projeto tem como objetivo promover a convivência entre os moradores e tirar a ideia de que residências exclusivamente para idosos são “internatos”.

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Imagens da área interna do edifício.

Fonte: http://www.arquitecturaviva.com/en/Info/News/Details/10721

Um exemplo no Brasil de como a questão pode ser abordada, é o Residencial Santa Cruz para Idosos, localizado no Campo Grande em São Paulo. Projeto de Hoeazevedo Arquitetura, possui como partido promover o bem-estar físico, afetivo, intelectual e espiritual dos residentes; além do conforto, acolhimento e acessibilidade.

O projeto arquitetônico foi desenvolvido de forma a promover espaços de atividades físicas, recreativas, de lazer, cultura e convivência entre seus usuários e familiares. Com 36 suítes individuais, 18 duplas e 2 triplas; o projeto atentou-se aos detalhes referentes a segurança, como: banheiros adaptados, móveis sem quinas, botões de emergência em todos os quartos, corredores com corrimões, luzes que acendem através de sensores, etc; além do acompanhamento médico constante e assistência de enfermagem 24 horas por dia.

Imagens das áreas internas do Residencial Santa Cruz (área da piscina, sala de cinema, capela e solarium).

Fonte: http://rsantacruz.com.br/estrutura/

De acordo com o IBGE, o número de idosos que moram sozinhos vem aumentando cada vez mais no Brasil. O problema mais frequente relatado pelas famílias é que sozinhos em suas respectivas casas ou apartamentos, os idosos se encontram mais vulneráveis. Passam muito tempo sem fazer atividades físicas, apenas ficam ao sofá assistindo televisão; podem desenvolver algum tipo de depressão por estarem sem companhia para conversar e exercitar a mente; podem sofrer quedas ao se deslocarem de um cômodo ao outro; etc. Muitos se apegam a seus lares e continuam morando longe de seus familiares, o que dificulta a visita e convivência entre os mesmos.

Temos como exemplo relatos dos próprios residentes do Residencial Santa Cruz, já citado anteriormente, que foram relutantes com seus familiares a se mudarem para lá, pois tinham a imagem de que seria um ambiente triste, de contato com idosos doentes onde não haveria interações e atividades, apenas confinamento. Porém, após alguns dias de vivência e adaptação no local, adoraram e quiseram se mudar definitivamente.

Confira o depoimento dos responsáveis pelo funcionamento do Residencial Santa Cruz, discutindo a questão dos idosos no link: https://www.youtube.com/watch?v=dGLd5Edj7AA.

Para concluir, voltamos a pergunta: Será que temos cidades para todas as idades?

É visto que não, muito ainda temos que melhorar em nossas cidades para que elas atendam todas as idades, principalmente em questão de acessibilidade e segurança. Porém, é se estudando a sociedade e formas de soluções que podemos integrar cada vez mais as diferentes idades nos espaços da cidade em todos os aspectos de convivência, tanto fisicamente (por meio de projetos arquitetônicos, atividades, sinalizações, etc), quanto imaterialmente (em relação as formas de comunicação e interação).

 


Fontes Gerais:

Revista Arquitectura Viva; Vivienda para mayores – Dossier Bambú, 196.7-8/2017.

Texto Questão urbana e envelhecimento populacional: breves conexões entre o direito à cidade e o idoso no mercado de trabalho, de Maura Pardini Bicudo Véras e Jorge Felix (http://www.scielo.br/pdf/cm/v18n36/2236-9996-cm-18-36-0441.pdf)

Reportagem “Dementia Village” inspires new care (http://edition.cnn.com/2013/07/11/world/europe/wus-holland-dementia-village/index.html)

 

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