Pedra Líquida – Liquid Stone

Por Maria Fernanda Xavier e Victória Guimarães Eugênio

Parafraseando o termo “modernidade líquida” proposto por Zigmund Bauman, onde este qualifica o mundo atual como líquido, para a arquitetura objetivou-se o uso da pedra e da pedra líquida como forma de explicitar a maneira como as construções veem perdendo ou transformando valores durante gerações.

Será essa pedra líquida o concreto que conhecemos hoje?

A pedra em sua forma pura é um material simples de se trabalhar visto que ela é abundante na natureza, requer pouca energia para o seu uso, é reutilizável e inigualável em seu desempenho arquitetônico, marcando assim todos os pré-requisitos de sustentabilidade.

Porém, o seu uso para infraestrutura vem desaparecendo de forma crescente, em nome da modernidade liquida, no entanto não desapareceu da paisagem arquitetônica, mas se tornou um pastiche, sendo usada somente como uma decoração, um folheado em paredes de concreto.

Um exemplo pode ser o Arco de La Défense, em Paris. O arco é um projeto de Johann Otto von Spreckelsen, e foi projetado para ser um dossel infraestruturado, estimado pela pureza em sua forma, porém ele foi executado em concreto, com revestimento em mármore, uma heresia ambiental segundo Gilles Perraudin, arquiteto francês que desenvolveu estudos sobre o uso da pedra e sobre arquitetura vernacular.

Arco de La Défense, Paris

Arco de La Défense, Paris

 

Arco de La Défense, Paris

Arco de La Défense, Paris

 

A partir da significação do concreto de diversas visões, percebe-se que este remete a solidez, rigidez e a inflexibilidade, porém a visão deste vem mudando ou como diria Bauman em 44 Cartas de um mundo líquido moderno “(…) Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança: as modas que seguimos e os objetos que despertam nossa atenção; as coisas que sonhamos e que tememos, aquelas que desejamos e odiamos, as que nos enchem de esperanças e as que nos enchem de aflição.”

Considerando-se a visão de Bauman mostrada acima, podemos concluir que o concreto se tornaria duplamente líquido.

Primeiramente, devido ao seu estado físico antes de se tornar rígido e resistente. E, posteriormente devido a sua efemeridade quando comparado a forma pura e primária da pedra.

O concreto como conhecemos hoje trata-se da pedra artificial, que tem como base pedra utilizada nas construções antigas junto com outros compostos que produzem esse material.

Antes construíam-se palácios, igrejas, fortalezas e monumentos com a pedra na forma pura encontrada na natureza e esculpida de acordo com o seu objetivo, diferente da maneira como se constroem os edifícios da atualidade, onde as escolhas dos materiais tornaram-se banais como questões mais ligadas a ideologia contemporânea ao invés de partir das suas propriedades.

Um exemplo de edificação esculpida na pedra, em sua forma pura, são as igrejas escavadas em Lalibela, na Etiópia.

Elas constituem Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, e é composta por onze igrejas e um mosteiro, sendo o Templo de São Jorge o principal deles.

Esta igreja é um bloco monolítico, esculpido em granito rosa, de cima pra baixo e de fora pra dentro, em formato de cruz grega. Construída no século XII, hoje combina o rosa da pedra com o amarelo dos líquens que cresceram com o passar dos séculos.

Igreja de São Jorge esculpida em granito rosa em Lalibela - Etiópia

Igreja de São Jorge esculpida em granito rosa em Lalibela – Etiópia

 

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Igreja de São Jorge, Lalibela – Etiópia

 

Hoje esses palácios, igrejas e fortalezas são tratadas como ruínas de um período passado e esquecido, essas construções são lembradas apenas por representarem um momento e não pela sua contribuição dentro dos âmbitos das cidades. As populações não reconhecem esses sítios como parte de sua história.

Atrium, Farwell Building - 2006

Atrium, Farwell Building – 2006

 

Waiting Hall, Michigan Central Station - 2008

Waiting Hall, Michigan Central Station – 2008

 

Considerando as propriedades da pedra em sua forma pura apontadas no início desta postagem, podemos estudar com diferentes olhares dois projetos, sendo eles o projeto da cidade de Valletta em Malta, projetado por Renzo Piano e o projeto de habitação para o indano Mukesh Ambani.

A ilha de Malta foi amplamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial, restando as ruínas dessa cidade de um lado e um portão futurista que representava a independência de Malta adquirida em 1964, de outro lado.

Renzo Piano foi contratado pelo governo da cidade para construir um novo prédio de Parlamento, um teatro a céu aberto e um novo portal para a cidade de Valletta. Os clientes tinham a expectativa de que o arquiteto, famoso pelos seus projetos “high-tech”, elaborasse algo com vidro e materiais modernos, porém não foi o que ele propôs.

O arquiteto desenvolveu desenhos com um prédio feito de pedra, alegando que Valletta havia sido originalmente construída de calcário, porém esse material se fragmenta facilmente e não era adequado para as novas construções. Então pesquisou-se um material regional que tivesse as mesmas características, porém fosse mais resistente a erosão.

Visitaram-se diversas pedreiras, e elas ofereciam materiais ainda muito friáveis, e foi necessário o suporte de geomorfologistas e do governo para encontrar o material adequado, que ao ser identificado foi dificilmente obtido, pois era necessário abrir uma nova pedreira para a sua aquisição.

No entanto, Malta necessitava de um Parlamento que refletisse a identidade da ilha, sem que nenhum outro material ou estrutura interferisse na unidade do edifício. Usando-se impressão 3D, foi definido vinte elementos de pedra que compunham a fachada do edifício e o portal da cidade.

Portal da cidade de Valletta em Malta

Portal da cidade de Valletta em Malta

 

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Edifício do Parlamento

 

Edifício do Parlamento

Edifício do Parlamento

 

Teatro a céu aberto

Teatro a céu aberto

 

Já Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, em 2006 decidiu construir uma casa para ele, sua esposa, sua mãe e três filhos. A casa possui 27 andares, e uma área total de 37.000 m², contendo academia de ginástica, estúdio de dança, sala de cinema para 50 pessoas, sala de estar moderna, sala de estar tradicional, salão de festas, jardins suspensos, mega home theater, casa de hóspedes, 168 vagas de estacionamento, 9 elevadores e 3 heliportos.

Estima-se que a casa empregue 600 funcionários e gaste US$ 265 mil em energia elétrica por mês. Tudo isso no centro de Mumbai, uma cidade tomada pela pobreza, onde 60% da população moram em favelas. A rua onde ela está sendo construída já se tornou a décima mais valorizada do mundo com o valor de US$ 25 mil por metro quadrado, ou seja, a região sofreu um grave e bruto processo de gentrificação.

Antilia, de Mukesh Ambani

Antilia, de Mukesh Ambani

 

Dessa forma, podemos entender que enquanto Renzo Piano procurava empregar a forma mais pura e simples do material, para a sua melhor adequação no meio e melhor custo benefício, Mukesh Ambani não se importa com a quantidade de material, energia, água e outros recursos necessários, utilizados e até mesmo desperdiçados para a construção e manutenção da sua “casa”, ou seja a pedra líquida na atual modernidade líquida.

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