Espaço Público X Espaço Privado | Muros pra quem?

POR CAROLINA BITELLI E DANIELA PERRONI

Uma das maiores responsabilidades do planejamento urbano é criar cidades que sejam convenientes para a diversidade urbana, projetando espaços acessíveis e de qualidade para todos, tratando os espaços públicos juntamente com os espaços privados. Esses espaços nos levam a uma reflexão de como os principais locais públicos de uma cidade são seus órgãos vitais e como a relação entre eles e os locais privados estabelecem certa qualidade de vida para as diferentes áreas da cidade.

A noção de público e privado ainda é muito controversa, as pessoas muitas vezes tratam o público como não sendo responsabilidade delas, quando na verdade o espaço público é de todos e devemos zelar por ele. Além disso, na sociedade atual, enquanto os espaços privados, envoltos por portões, grades ou muros, são tidos pelas pessoas como locais seguros, os espaços públicos são tidos como perigosos.

O que fazer para melhorar a relação e transição entre esses espaços?

Na contemporaneidade, essa questão vem ganhando cada vez mais notoriedade, sendo tema até mesmo do plano diretor atual, no qual, espaços com uso misto e voltados para a cidade, ou também chamados de espaços publico-privados, são incentivados, podendo ser utilizados até mesmo como contrapartida para que o lote seja mais explorado pelo empreendedor.

Essa preocupação não vem de hoje, o edifício Louveira, localizado no bairro de Higienópolis em São Paulo, projetado em 1946 pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, é um importante representante da arquitetura moderna na cidade que trata do assunto em questão. A obra caracteriza-se pela composição de duas lâminas paralelas, abrigando apartamentos, sendo uma com sete e outra com seis pavimentos, intermediadas por um pátio interno ajardinado. Mesmo não sendo uma obra recente, o projeto aborda a solução para uma questão contemporânea; sendo um bom exemplo de arquitetura que transita e “divide” de forma harmoniosa o espaço público do espaço privado. Sua implantação e o projeto de seus acessos proporcionam a integração visual desses dois espaços, trazendo ao interior do lote do edifício, a praça Vilaboim, localizada em frente, sem afetar a privacidade dos moradores do edifício.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Imagens do Edifício Louveira. Fonte: http://refugiosurbanos.com.br/casas-predios/louveira/

Já a Casa N, do arquiteto japonês Sou Fujimoto, construída em 2008 na cidade de Oita no Japão, é um exemplo de arquitetura contemporânea que em seus 150 m² questiona os limites, em especial entre o “dentro” e “fora” de uma residência. Uma casa que foi originalmente pensada para duas pessoas e um cão, a qual, se subdivide em três caixas, uma menor que a outra, sendo a menor delas inserida dentro da caixa média e a média inserida dentro da caixa maior; todas elas com aberturas retangulares que as relacionam entre si ainda mais.

stringio-12

Esquema de projeto das três caixas da Casa N de Sou Fujimoto. Fonte: https://www.archdaily.com/7484/house-n-sou-fujimoto

stringio-3.jpg

Corte da Casa N de Sou Fujimoto. Fonte: https://www.archdaily.com/7484/house-n-sou-fujimoto

A caixa mais externa possui suas aberturas sem nenhum tipo de fechamento, criando uma barreira muito mais visual do que física com a rua, além de abrigar um jardim para dentro dos limites da casa. A caixa média apresenta fechamos com vidro, isolando a residência de intempéries e abrigando algum dos cômodos da casa. Já a caixa menor e mais interna, embora não possua aberturas com fechamentos, apresenta maior privacidade. De acordo com o próprio arquiteto, a ideia era questionar a forma como as casas e a rua encontram-se, separadas por uma única linha: os muros, e explorar as possibilidades de gradação entre o espaço público e privado, criando espaços variados, desde um espaço que seja dentro do lote em questão mas quase na rua, depois outro espaço mais distante da rua e então outro espaço totalmente distante da rua, todos em um mesmo projeto.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fotos da Casa N de Sou Fujimoto. Fonte: https://www.archdaily.com/7484/house-n-sou-fujimoto

Um artista contemporâneo que questiona a relação entre os espaços públicos e privados é Eduardo Basualdo, em sua exposição Arena apresentada no MuBE – Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, de 21 de outubro a 26 de novembro de 2017.

A exposição é composta de várias obras que nos fazem refletir sobre os espaços públicos e privados que convivemos e ocupamos. Em relação ao nome que leva sua exposição, ele não se refere ao sentido literal da palavra “arena” e sim sobre a relação de peças e objetos com o espaço, que muitas vezes formam outros espaços / arenas. Suas obras discutem o espaço tridimensional e discorrem a respeito de que não existe um “espaço absoluto”, mas sim experiências vivas entre corpos e objetos.

Um aspecto que é importante questionar, é o próprio edifício onde está sendo exibida a exposição, projeto fruto de um concurso vencido por Paulo Mendes da Rocha e que conta também com o jardim projetado por Roberto Burle Marx, o MuBE, espaço situado entre a Avenida Europa e a Rua Alemanha, tinha como intenção projetual tornar-se uma praça pública em meio ao bairro do Jardins. Entretanto, poucos dias após ser inaugurado, o local foi gradeado, criando-se uma barreira física entre o espaço da praça e a rua. Assim, nos perguntamos, o quão público é o espaço? Por que essas grades? Para quem esses “muros”?

IMG_0663IMG_0673IMG_0674

Fotos do MuBe – Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia. Fotos Autorais.

Entre uma das obras da exposição de Eduardo Basualdo, temos a Torre, uma construção que é fragmento da arquitetura, conhecida por demarcar entradas de residências e/ou lotes, que remete a ideia de portão, sinalizando também a divisão entre público e privado. Encontra-se deslocada dentro do museu, tendo sua função original perdida, passando assim, na interpretação do artista, a funcionar como um farol que guia o navegante (o artista), mas também o desorienta, uma vez que não há norte a seguir na arte contemporânea. Outro ponto importante é o fato da peça ser apresentada como uma unidade e não em uma dupla, como ocorre normalmente quando usada para criar um pórtico de entrada de casarões, trazendo a ideia de que algo se inicia ali. Sem mostrar para o visitante o pórtico em sua totalidade, quebra essa divisão entre dentro e fora, público e privado.

IMG_6955

Obra Torre de Eduardo Basualdo. Foto autoral.

Na obra Cegueira, temos um quadro translúcido que permite que nosso olhar atravesse o papel e veja a estrutura de uma grade por trás da obra, de modo turvo, embasado, passando de certa forma uma sensação aflitiva, de incômodo; que se trata da relação das pessoas com as barreiras que elas colocam para si mesmas, passando a ideia de que as pessoas se prendem muitas vezes na situação em que estão por medo de mudanças ou por estarem acomodadas, tornando-se cegas. Outra interpretação mais literal que pode ser feita é o medo das janelas e grades que nos cercam, um medo que surgiu quando as criamos para nos “proteger” do exterior, algo que muitas vezes acabam por nos aprisionar em nossas próprias propriedades.

IMG_6961

Obra Cegueira de Eduardo Basualdo. Foto autoral.

De forma mais marcante, na obra Grito, foram usadas barras de metal, papel e grafite; a linearidade das barras de metal foi quebrada pelo papel amassado nelas colocado, papel que contém o desenho das próprias barras, desenho que tenta ser contínuo, tentando resistir às “barreiras”. Para o desenho, foi usada a técnica frottage – processo de fricção a partir de uma superfície irregular para formar a base de uma obra de arte, que reflete bastante o nome dado à obra; e questiona o aprisionamento, a liberdade, e a quebra de barreiras.

IMG_6944

Obra Grito de Eduardo Basualdo. Foto autoral.

Questionando a cidade em que vivemos, toda cercada e murada, as grades de duas peças da exposição provocam a interação e desafiam os visitantes. Estamos falando da obra La caída, onde o público é provocado a atravessar as barras verticais paralelas, que “fecham” o salão de exposições, dividindo o espaço entre a exposição do artista em questão e a exposição de outro artista. O espaçamento entre essas barras vai diminuindo conforme elas são dispostas. Essa obra questiona as barreiras que encontramos no nosso dia a dia, tanto as barreiras físicas quanto as culturais, psicológicas e econômicas; além de questionar a forma que podemos ultrapassar essas barreiras e até quantas barreiras suportamos enfrentar e superar.

Outra obra que trata essa questão é a Em Mi casa (es tu casa), onde um espaço, como se fosse uma casa ou abrigo, é construído através de grades que podem ser ultrapassadas (o espaçamento entre as grades é do tamanho do corpo do artista de lado), elas demarcam a oposição entre público/privado e externo/interno, porém, essas divisões deixam de funcionar plenamente justamente pelo espaço criado ser permeável. O artista questiona novamente a liberdade, a proteção e o aprisionamento. O nome da obra tende a provocar algo convidativo, ao mesmo tempo que o espaço em si não parece ser tão convidativo, por dar a impressão de ser uma prisão; em contrapartida, por permitir que as pessoas entrem nesse espaço e pelo fato de que de fora pode ser visto o que está acontecendo do lado de dentro, é passada certa segurança ao observador.

IMG_6947IMG_6949

Fotos da obra La caída de Eduardo Basualdo. Fotos autorais.

IMG_6950

Obra Em Mi casa (es tu casa) de Eduardo Basualdo. Foto autoral.

Assim, o trabalho de Eduardo Basualdo nos coloca diante do enigma entre o nosso corpo, o pensamento e a experiência com o espaço, as barreiras presentes nas cidades e no dia a dia das pessoas, e a questão da segurança quando se diz respeito aos espaços públicos e privados e a transição entre eles.

Outro projeto arquitetônico que trata da transição entre os espaços públicos e privados é a nova sede do Instituto Moreira Salles, localizado na Avenida Paulista em São Paulo, projetado pelo escritório Andrade Morettin Arquitetos, foi inaugurado esse ano (2017). Pensando em uma das principais características de um museu, que é sua capacidade de trazer interesse e vitalidade para os espaços públicos, esse centro cultural foi construído para abrigar a programação organizada pelo instituto e servir de experimentação, trazendo como um dos principais diferenciais a Praça IMS, um ambiente de entrada e convívio que, embora encontre-se no quarto pavimento, é acessado por escadas rolantes diretamente a partir do vão livre do térreo, levando dessa forma, o espaço público para dentro do prédio, e não apenas localizando-o no térreo.

am_institucional_ims_dia_001

Diagrama do programa do projeto do IMS.

am_institucional_ims_cor_002

Corte do projeto do IMS, onde podemos ver a praça, projetada no quarto pavimento do edifício, trazendo o espaço público a um nível superior ao térreo. Fonte: http://www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/

1080imspaulista-fachada

Foto do IMS. Fonte: http://www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/

Outra característica muito interessante é o fato de usos comumente implantados no térreo ou em galerias comerciais como cineteatro, áreas para exposições e biblioteca foram implantados em uma construção vertical, distribuídos em sete andares, levando esses usos para níveis elevados ao da rua, que funcionam como uma continuação da mesma. Como dito pelos arquitetos, o objetivo da obra é que “[o projeto] tenha uma relação franca e direta com a cidade e que, ao mesmo tempo, ofereça um ambiente interno tranqüilo e acolhedor; um museu capaz de equilibrar a vibração das calçadas com a natureza e a escala dos espaços museológicos […]”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Infográfico Folha.

Ainda na mesma Avenida Paulista e muito próximo ao IMS, outro projeto que lida com a questão do espaço público/privado é o Conjunto Nacional, embora não seja uma construção nova (datada de 1950). Uma obra que também possui caráter residencial além de áreas de serviços, espaços comerciais e culturais, como cinemas, livrarias e espaços comuns, destinado a eventos diversos e exposições temporárias, de forma que se mantém muito interessante essas relações até sua contemporaneidade.

A crítica à segregação entre o espaço público e privado também aparece nas artes de rua. Os muros que normalmente nos cercam, nos impedem de ver a vida que acontece ao redor e permitem que as pessoas se fecham com suas individualidades, é o espaço onde artistas como Banksy expõem seus questionamentos para a sociedade. Nos graffiti’s a seguir, o artista cria “janelas” no enorme muro que separa a Palestina do seu entorno, questionando, entre outras coisas, as diversas possibilidades que poderiam se esconder atrás do mesmo, mostrando uma tentativa de negação e não aceitação do entorno.

banksy-5

Obras do artista Banksy. Fonte: http://flavorwire.com/34080/quote-of-the-day-banksy-refutes-warhol-dishes-with-fairey

_

Para mais informações sobre o tema discutido, acesse:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2017/05/o-que-voce-faz-para-mudar-sua-cidade.html

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1918763-em-sao-paulo-muros-se-alastram-e-isolam-cidadaos-em-espacos-privados.shtml

http://lounge.obviousmag.org/arquitexturas_musicais_e_a_vida/2014/04/espacos-publico-privados-na-arquitetura-e-no-urbanismo.html

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s