ARTE-QUE-TE-TURA

Era uma vez, a arte era inseparável da arquitetura. Arte-que-te-tura (Paulo Leminsky). Ela estava nos domos, nos altares das igrejas e nas paredes dos grandes palácios. Pinturas eram concebidas para cômodos específicos (afrescos, hoje “sight-specifics”), esculturas eram feitas especialmente para jardins e as praças das cidades. A arte era parte da arquitetura e parte da cidade.

Também havia, ocasionalmente, molduras. Molduras douradas primorosamente esculpidas que continham obras de arte. Uma vertente da história da arte moderna é justamente o escape dessas molduras. Arte conceitual, minimalismo, performance e assim por diante, todos desprezam as molduras. O abandono desse artificio que simultaneamente molda e declara que o que há nele é arte, faz entender que a responsabilidade caiu para a arquitetura. O edifício agora carrega o compromisso de delinear e definir o seu conteúdo. E como isso aconteceu? Fazendo quase nada.

Silêncio, deixe a arte falar.

santa ceia da vinci

A última ceia (1495-1498) – Leonardo Da Vinci. Um afresco “sight-specific” encomendado para o refeitório do convento da Santa Maria delle Grazie, em Milão.

O casal de colecionadores Nancy Olnick e Giorgio Spanu sempre foi apaixonado por arte. Foi enquanto mobiliavam seu primeiro apartamento em Nova York que eles começaram a colecionar todas as obras que hoje compõe parte de sua coleção. O gosto começou por peças de Pop Art, passando pelos Expressionistas Abstratos, e chegou até a mobília, com peças Art Deco de Jean Michel Frank e Pierre Chareau (Maison de Verre, 1932). A paixão pela coleção passou pelos Muranos (hoje o casal é detentor de uma das primorosas coleções do mundo, expostos até no MoMA), e chegou em um ponto que o casal também era interessado: A arquitetura. Foi em uma viagem de pesquisa que o casal conheceu o arquiteto espanhol Alberto Campo Baeza, e, vendo seu trabalho os dois perceberam o balanço entre modernismo e classicismo que tanto procuravam. O terreno de sua casa dos sonhos já havia sido escolhido há anos. Uma reserva nas margens do Rio Hudson, na cidade de Garrison, a aproximadamente 1h de Nova York.

NEZ LONG ET CHAISE SEPTEMBRE (1961) – Jean Dubuffet. O expressionista francês tem um espaço inteiro dedicado para seus trabalhos na propriedade.

Poltronas Deco de Jean Michel Frank.

Arquitetura contemporânea para arte veio a ser definida pelo crítico Brian O’Doherty como “O Cubo Branco”: O mínimo. Com paredes brancas, piso de madeira, bem iluminado, e que se submete a arte se despojando de quase toda sua expressão de arquitetura. A confluência entre arte minimalista e arquitetura não é acidental. A agenda dos arquitetos modernos – a obsessão pela simplicidade, luz e material coincide perfeitamente com as demandas de uma galeria. Nos dias de hoje, a arte é considerada exigente de pureza e isolamento e a estética da galeria de arte foi trazida pra dentro de casa.

Olnick Spanu House (2008) – Alberto Campo Baeza

A vista para o Rio Hudson é um dos protagonistas do projeto.

Absolutamente todos os objetos que entram na casa foram anteriormente curados pelo casal. A escolha é por mobiliário moderno que tem desenhos de Alvar Aalto e Marcel Breuer. Ao fundo, bandeira da Italia, obra de Michelangelo Pistoletto.

E foi esse o briefing do casal Olnick Spanu para o arquiteto Alberto Campo Baeza. Sua casa devia permanecer invisivel perante a sua coleção de arte. O resultado do projeto foi tão inesperado que ao final da obra, o casal decidiu mover para a propriedade toda a sua coleção de Arte Povera (estilo de arte italiana da década de 60 que os dois já vinham demonstrando interesse por algum tempo) e a casa foi aberta para o público: amigos, parentes e interessados em dividir a experiência e que não eram tão familiares com esse poder da arte italiana. Caso parecido com o que aconteceu com a Philips Collection em Washington. Quando o lar do colecionador vira o lar da coleção.

Nos croquis iniciais de Campo Baeza as obras de Arte Povera já figuravam o espaço. Neste desenho, a obra Sfera di Formas, de Michelangelo Pistoletto, e abaixo, sua aplicação.

Remo Salvadori

Domenico Bianchi

Massimo Bartolini

Giorgio Vigna

Depois de muita discussão e com o apoio do conselho da cidade, foi projetado em 2013 um pavilhão na mesma propriedade também por Campo Baeza em parceria com Miguel Quismondo que abrigaria toda a coleção de Arte Povera adquirida pelo casal com o passar dos anos.

Pavilhão erguido na propriedade dos Olnick Spanu, o MIA (Magazzino Italian Art) Museum.

Exposição inaugural do MIA Museum – 2017.

Outro exemplo muito bem sucedido é o Instituto Inhotim, em Brumadinho-MG, que também celebra a arte contemporânea e a arquitetura com pavilhões sight/artist-specific.

Galeria Adriana Varejão (2008) – Tacoa Arquitetos, Brumadinho – MG.

Exemplo de intervenção sight-specific é a construção da sala que abriga a coleção dos “azulejões” 2000 Mares de Varejão.

É uma boa hora para arte. É um aspecto indispensável para a cultura urbana tanto nas esferas comercial quanto no público e no privado. Toda cidade ambiciosa precisa de um bom programa de arte para se consolidar no cenário global. Também precisa de boa arquitetura, as vezes mais do que a própria arte para declarar a sua presença.

Era uma vez, existia arte na arquitetura, onde pinturas e esculturas eram expostas. Ao invés disso, hoje existe a arquitetura para a arte.

Para mais informações sobre o programa: http://olnickspanu.com/art-program/

 

GABRIEL CONTREIRA E ISABELA RINCON

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