Regeneração do provecto pelo contemporâneo

Propostas hodiernas que tem como embasamento a recuperação de regiões deterioradas com a passagem do tempo.

Daniel Tavares e Isadora Ferraz, Arquiteturas Contemporâneas

03 Abril 2018|08h00

                Com o passar dos anos, e com as evoluções tecnológicas e construtivas, as cidades vem cada vez mais evoluindo e se reconstruindo. Buscando novos meios de construir, ocupar os espaços, e ao mesmo tempo pensando em sustentabilidade. Tendo assim uma expansão territorial e populacional, alguns espaços onde antes tinha um uso retroativo, não possuem mais finalidades no hodierno.  A vista disto  acabam por sua vez se deteriorando, e convertendo-se em lugares inseguros e negligenciado.

            Para reverte-se essa situação, e recuperar o valor histórico e patrimonial, é importante que as novas arquiteturas se “encaixem” no existente.  O intuito não é dizer que novo é mais valioso porque se encaixa; mas seu encaixe é um teste de seu valor. Criando-se assim uma Arquitetura Sustentável, com edifícios energéticos, saudáveis e confortáveis de uso flexível e com vida longa útil.

            Em um comentário sobre o que faz um bom projeto, a Comissão de Arquitetura, disse: “Um bom designer considerará a relação entre um projeto e seu contexto. Isso não implica que um dos objetivos de um projeto seja necessariamente “encaixar”; no pior dos casos, isso pode ser pouco mais do que uma desculpa para a mediocridade. Diferença e variedade podem ser virtudes tanto em novas propostas quanto em conformidade; e, claro, diferentes contextos podem ser mais ou menos uniformes em sua natureza “.

            O que existe é um ideal exigindo conformidade. Não leva em conta o poder de transformação da arquitetura em relação não apenas a um único local, mas a todo um bairro urbano. Um bom exemplo disso é criar edifícios em locais inseguros e deteriorados que quebram os modelos convencionais, trazendo um efeito vital para área, para que deste modo, o novo faça ter vida no antigo. Por consequência, o local se torna funcional e ganhe ao mesmo tempo uma diversidade de pessoas e usos, deixando assim de ser inutilizado, ou seja, do que adianta modernizar somente uma região enquanto outra vive em completo caos.

            Exemplo disso foi o projeto da Zaha Hadid, Port House, em Antuérpia, onde o projeto foi feito em lugar deteriorado, restaurando um antigo edifício e combinando o clássico com o contemporâneo, ao fazer um edifício em cima do outro, esse efeito pode ser alcançado pela introdução de edifícios incomumente altos em um  local específicos(Porto de Antuérpia – Bélgica).  A altura não é a única coisa  que investe em significado urbano, mas a combinação de arquitetura, força de vontade, finanças, confiança no futuro e políticas de planejamento arrojadas.

“Somente aqueles que arriscam ir longe demais podem descobrir até onde pode ir ” – Eliot

            O projeto Port House, em Antuérpia, da Zaha Hadid Architects mencionado anteriormente  faz uma ruptura com o passado encenando uma batalha entre o antigo e o novo de forma tão direta que se torna brutal. O antigo é um posto de bombeiros abandonado do início do século XX, com características mais  simétrica. Enquanto o novo com uma  forma multifacetada em sua extensão.

ZHA_Port_House_HeleneBinet_01  Hafenhaus Antwerpen | Port House Antwerp

Fonte: Archdaily

                O novo edifício renova e amplia a estação de bombeiros abandonada tornando-a uma nova sede para o porto – reunindo os 500 funcionários do porto que, anteriormente, trabalhavam em edifícios separados espalhados pela cidade.

Devido à sua localização cercada por água, as quatro fachadas do edifício são consideradas de igual importância sem a existência de uma fachada principal. A criação de ZHA é uma extensão elevada, em vez de um volume próximo, que teria ocultado pelo menos uma das fachadas existentes. A análise histórica da antiga estação de bombeiros também destacou o papel da sua torre original.

Cercada por água, a fachada da nova extensão é uma superfície envidraçada e ondulada que reflete os tons e cores de céu da cidade. As facetas triangulares permitem que as curvas, aparentemente lisas em cada extremidade do edifício, sejam formadas com folhas planas de vidro. Elas também facilitam a transição gradual de uma fachada plana na extremidade sul do edifício para uma superfície ondulada no norte.

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Fonte: Archdaily

                A desconstrução do antigo para o novo feito por Zaha Hadid ganha toda a sua força desafiando os próprios valores de harmonia, unidade e estabilidade, e propondo, ao contrário, uma visão diferente de estrutura: a visão de que as falhas são intrínsecas à estrutura.

            A Casa do Porto é diferente porque é uma extensão de um edifício existente e rigidamente simétrico, emblemático para a arquitetura clássica, repetitiva, ordenada e supostamente opressiva e desonesta da qual Hadid queria se livrar, infundindo a disciplina com invenção, complexidade, não-euclidiana, geometria e estruturas de construção assustadoramente improváveis.

            Por mais que a primeira impressão  do projeto de Zaha Hadid seja aterrorizante, por conta do seu tamanho, e forma perante ao contexto que está inserido,   não podemos  negar que o edifício trouxe por sua vez uma nova característica para o antigo Porto da cidade. Alem de conduzir uma nova multiplicidade a região, com novos uso e diversidades de pessoas. Prova do valor atribuído ao projeto é que atualmente para visita-lo precisa-se agendar com meses de antecedência.

            Outro projeto que focou na restauração de uma estrutura antiga para que esta tenha novos usos, e que ao mesmo tempo traga vitalidade para algo que antes estava deteriorado foi o projeto Seoullo 7017 na Coreia do Sul, embora se trata de uma escala maior do que o projeto anterior, o Seoullo é a revitalização de um viaduto destinado para carros, onde se torna inviável a vida e diversidade no local.

            O prefeito de Seul, Park Won-soon, em 2014 anunciou que a capital sul-coreana construiria uma versão do High Line (parque elevado de Manhattan), redirecionando um viaduto para uma rota de pedestres. Perto da estação rodoviária ferroviária no centro de Seul.

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Fonte: Archdaily

         O escritório MVRDV que foi o vencedor do concurso para a elaboração do novo High Line, disse que o projeto “é como uma coisa viva que pode se adaptar às mudanças de condições”, correspondendo “exatamente às nossas exigências”.

            O viaduto de 16 metros de altura e de 983 metros de passagem, foi imaginado para possuir mais de 25 conexões de pedestres para ajudar a requalificar a área entre a Estação de Seul e o Mercado de Namdaemun. Até agora, 10 conexões foram concluídas. O skygarden também possui um projeto luminotécnico, para que haja iluminação a noite, tendo assim uso 24 horas por dia.

            Preocupados em ter massa arbórea não foi viável acomodar um plantio extensivo e continuo como o do high line, pois deste modo só seria possível 100 mm de terra o que é suficiente somente para grama. Com isso o parque possui mais de 24.000 plantas de 228 espécies e subespécies.

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Fonte: Archdaily

              Ao longo do viaduto para atrair pessoas foram criados: sete pavilhões circulares abrigam cafés, uma exposição e uma loja, bem como o elevador, trampolins e uma piscina rasa. Esses conjuntos de formas de bolas aleatórias cria bolsos movimentados de atividade que se chocam fisicamente e visualmente com o passeio linear, mas os visitantes não parecem se importar.

            Uma grande comparação com  o Seoullo 7017 é a rodovia elevada do Minhocão de São Paulo, construída em 1970 e fechada ao tráfego aos domingos desde 1976, é uma comparação óbvia. Uma proposta de criar dois generosos corredores de plantio em contêineres pré-fabricados, juntamente com estruturas de bambu em forma de árvore e uma infinidade de atividades, planejadas pelo arquiteto Jaime Lerner e o projeto está atualmente sob revisão pelo prefeito. São Paulo é uma cidade com 3m² de espaço aberto por pessoa, ou seja, parecido com o centro de Suel.

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Fonte: Archdaily

              Seul poderia servir de inspiração para colocar o projeto brasileiro em pratica.  Tanto o Seoullo 7017 quanto o Minhocão contrastam visivelmente com a extravagante proposta Garden Bridge, de Thomas Heatherwick, para Londres, outro exemplo de contágio da High Line, que fez a capital desperdiçar aproximadamente 40 milhões de libras em projetos e obras antes de abandonar o projeto sob uma nuvem de aquisições.

            Seoullo é um notável projeto para o design do espaço público em um ambiente urbano denso, uma lição que todas as cidades podem aprender. Em que a mudança desse elevado obsoleto, construída em uma época em que a prioridade eram os automóveis, sugere um caminho a seguir para uma construção de cidades mais sustentável.

                Com tudo isso pode-se concluir que a cidade contemporânea ideal é a que consegue conciliar o antigo com o novo, de tal forma que se consolide um modelo de cidade compacta, onde podemos afirmar que esse sistema de cidade sustentável evite a saturação, e a degradação de bairros, ou edifícios que por sua vez não teriam mais funcionalidade para aquele período que esta inserido.

                Para isto  o modelo ideal de cidade compacta deve possuir alta densidade com uso misto, para que deste modo haja uma diversidade de pessoas, e fluxos variados em vários períodos do dia, com novos padrões de consumo, ruas seguras, e preservação patrimonial, usando deste modo edifícios antigos para novos usos, tornando-os duráveis e reutilizáveis.

                Os edifícios mais altos perto de transportes públicos, ou eixos importantes, enquanto os miolos de quadra com ate 4 pavimentos, alem de praças ajardinadas criando assim microclimas. Os bairros devem serem conectados entre si,  com eixos verdes, e priorizando o pedestre ao invés do carro.

 

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