Memórias Póstumas de Urbanismo

Cidades são organismos vivos – nascem, crescem, desenvolvem-se. Raramente morrem e, em geral, sobrevivem àqueles que as moldaram ou que nelas vivem.

Daniel Tavares e Isadora Ferraz, Arquitetura Contemporâneas
29 Maio 2018|10h00

                  Com o início da globalização e o desenvolvimento das metrópoles o urbanismo tende a suprir a falta de infraestrutura existente nas cidades, já que boa parte delas se desenvolveram sem uma delineação receptível, com exceção das cidades clássicas que pensavam em um planejamento urbano voltado não só para a população mas para seus recursos. Por conta disso as cidades tendem a ter regiões ociosas e degradadas pelo simples fato de criar arquiteturas individualistas sem pensar no seu entorno, desse modo formando “espaços-lixos”.

                  O fotógrafo paulista Mauro Restiffe elaborou uma exposição que se baseia na paisagem humana, arquitetônica e topográfica, mostrando as tensões políticas e sociais que estavam presentes no período das fotografias.

                Percorreu bairros centrais e periféricos de São Paulo, como Luz, República, Pinheiros, Vila Congonhas e Itaquera. Esse percurso foi feito em um momento no qual a cidade passava por modificações causadas por eventos como as intervenções violentas no bairro da Luz ou as obras que antecederam a Copa do Mundo.

               Restiffe mostrou em seu trabalho os usos que os habitantes dão a cidade, os conflitos econômicos e como é a preservação do patrimônio, tudo isso caracterizando a complexidade do relevo urbano. O dia a dia da população, desde os seus deslocamentos diários á protestos, ou por sua vez construção de novos edifícios descaracterizando a ambiência de uma região, ou seja, o que se vê é o espaço e o tempo da cidade, o que lhe dá corpo e vida.

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Foto: Mauro Restiffe

           São Paulo sofre um ciclo de evolução acelerado que dificulta o controle inteiramente do espaço. Exemplo disso é o que acontece largo da Batata, que ao mesmo tempo esta em reforma e em ruína. Logo surgem as construções, que em um breve período de tempo já parecem gastas, como se precisassem ser constantemente substituídas, numa espiral de renovação que não vê fim.

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Foto: Mauro Restiffe

             As fotografias expõem a complexa interação entre o espaço, as pessoas e a arquitetura, mostrando a fragmentação da experiência urbana.

                   A cidade foi documentada em seu estado de transição”.  Atualmente pode-se ver que muitas das questões com as quais eram preocupantes na época ainda estão pendentes. Por exemplo, o estacionamento do Teatro Oficina, onde ainda esta em disputa judicial.

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Foto: Mauro Restiffe

               Transformar quantidade em qualidade tem sido um fracasso. Já que atualmente com o malogro do urbanismo atual, a cidade tende se requalificar, para impossibilitar a evolução da degradação atual.  Todas as tentativas de fazer um novo começo apenas desacreditou a ideia de um novo começo, já que todas não obtiveram sucesso, pois logo após requalificar, outras partes precisavam de nova infraestrutura, tornando-se assim em um ciclo vicioso sem fim. A insatisfação com a cidade contemporânea não levou ao desenvolvimento de uma alternativa aceitável; tem, pelo contrário, inspirado apenas maneiras mais refinadas de articular a insatisfação.

              Os urbanistas com o passar dos anos percebeu a importância das virtudes da cidade clássica, o problema que isso se deu tardiamente, onde não se da mais pra remodular uma cidade consolidada, em algo totalmente novo, desqualificando a atual situação da cidade.

               As fotos mostram o uso da cidade, de como ela flui no sentido de estar sempre em transição. Por exemplo, a muito de ruína e construção: as edificações, o Memorial em chamas, o Templo de Salomão. Como o MASP que traz o sentido de uma cidade quase ocupada, aonde o vão de certa maneira pertence a quem estiver lá, desde os moradores de rua há as ocupações espontâneas.

         O mundo tende a ficar sem o urbanismo, pelo simples fato da população dar somente importância para a arquitetura, e deixar por sua vez o urbanismo de lado, ao invés de pensar em uma interação entre ambas. Ao invés de pensar em uma arquitetura para o povo atualmente existe uma preocupação com o plano de massas.

             Uma Arquitetura limpa, é o que a deixa esteticamente bonita para o conceito do publico, essa limpeza se dar por uma arquitetura que define, exclui, limita, separa do “resto” e que ao mesmo tempo consome o que esta em sua volta. Tornando –se assim um ‘Espaço-lixo’ onde setoriza e subdivide o público do privado

            Essa por sua vez explora e esgota os potenciais que só podem ser gerados pelo urbanismo. Limitando assim possíveis inovações e principalmente transformações, para uma cidade melhor.

               Nas fotografias de Restiffe a cidade é habitada, pode-se ver a figura humana – mas ela é engolida pela cidade, pelo entorno, fazendo parte e, ao mesmo tempo, sendo consumida.

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Foto: Mauro Restiffe

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Foto: Mauro Restiffe

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Foto: Mauro Restiffe

                          Analisando com mais precisão as fotografias de Mauro Restiffe, percebe-se que todas são a partir da visão do pedestre, nunca de outro observador, as imagens são feitas, atravessando a ruas, passarelas, calçadas, etc.

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Foto: Mauro Restiffe

               Pensando nessa visão do pedestre e em uma cidade que engloba a junção do urbano com a arquitetura, há a necessidade de um urbanismo que funcione e que não seja egocêntrico, para que haja um “novo urbanismo”, ele deve:

  • Deixar de se preocupar com o arranjo de objetos, ou seja, a preocupação de se inserir na arquitetura, e focar na implementação de territórios com potencial;

  • Deixar de apontar para configurações fixas, mas focar para a criação de campos de ativação que acomodam processos que se recusam a ser cristalizados em forma definitiva; que sejam mutáveis.

  • Deixar de ser uma imposição de limites, mas sobre expandir noções, negar limites, não separar e identificar entidades, mas sobre a criação de híbridos que juntem usos, tipologias e funções;

  • Focar na infraestrutura para infinitas intensificações e diversificações, atalhos e redistribuições – a reinvenção de espaço.

Que sensações a arquitetura pode causar?

Ao adentrar a 14a edição do sp-arte que ocorreu em março desse ano no pasmoso Pavilhão da Bienal o texto curatorial já provocava com o tema dessa montagem:

“Que sensações uma obra de arte pode causar?”

Pouco distante dali, no centro da cidade, entende-se a indagação de Fernanda Feitosa.

Situado no icônico edificio de Oscar Niemeyer, o pivô não é uma galeria de arte, é muito mais do que isso. É um espaço de experimentações, troca entre artistas, curadores e o público em geral sem nenhum fim lucrativo e que nos presenteia a cada temporada com exposições independentes excepcionais num espaço que ficou abandonado por mais de 20 anos.

No projeto imannan (que fica em cartaz até dia 02/06), vemos o diálogo entre as obras de Anna Maria Maiolino, Ana Linnemann e Laura Lima, esta que é tema dessa resenha.

“ imannam surge da opção das artistas pela subversão da ideia da arquitetura como um local comum entre o eu e o outro, em busca de outras lógicas de relação através da proposição de situações que convidam a um acontecimento – um revés – no mundo.”

Utilizando a arquitetura singular do Pivô como ponto de partida, as artistas apresentam propostas de experimentação nas diversas áreas do espaço com instalações, intervenções arquitetônicas, trabalhos sonoros e filmes concebidos ou adaptados especialmente para este projeto.

“A instalação, ocorra ou não em um local específico, surgiu como um idioma flexivel”

David Deitcher

Embora os trabalhos de instalação só viessem a ser reconhecidos a partir da década de 60 com os trabalhos de Lygia Pape, Cildo Meireles, Dan Flavin e Olafur Eliasson, poucos sabem que o pai da “ambientação” como era chamada foi o dadaísta Marcel Duchamp.

Na ocasião da exposição surrealista de 1942 em Nova York, na qual fora convidado para ser o curador, Duchamp enfureceu os artistas expostos com a ideia do que veio a chamar de “Uma Milha de Barbante”, sua obra que constituía num labirinto de fios amarados em torno das telas em que estavam instaladas, o que exigia uma postura ativa do espectador enquanto as contemplava.

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Marcel Duchamp – Uma Milha de Barbante 

Vamos voltar a pergunta inicial. Que sensações uma obra de arte pode causar?

O desconforto? Ou será que desviando dos barbantes seria a única maneira de criar uma narrativa para que a exposição fosse vista por completo?

Longe de Nova York, no edifício Copan, Laura Lima distorce o espaço expositivo do pivô rebaixando o teto para uma cota que força o espectador a se abaixar para que possa visitar a próxima galeria.

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Danilo Dueñas no espaço do pivô com poucas interferências na arquitetura (note o adesivo vermelho no vidro em referência a Mondrian e o neoplasticismo)

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No meio desse vão uma surpresa. Ela também distorce a ideia de alicerce do edifício quando “copia” um dos pilares da galeria e faz com que ele apareça girando, junto com outros elementos da arquitetura como tomadas e interruptores de luz.

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Mais uma vez, que sensação uma obra de arte pode causar?

A tontura? A vertigem?

Motivados por esses questionamentos, pensamos em mais um: Que sensações a arquitetura pode causar?

Do centro de São Paulo fomos para Berlim, onde Daniel Libeskind com seu Jewish Museum responde a quase todas as nossas perguntas.

Daniel Libeskind – Jewish Museum 

A começar pela sua implantação, que não nos incita um eixo, uma linearidade, uma entrada ou uma saída. A entrada é feita pelo edifício existente ao lado, o Kollegienhaus, um antigo museu barroco. E ao descer três níveis há “escolhas” distintas de eixos a serem feitas pelo espectador. Cada uma delas com sua narrativa representa uma experiência dos judeus na Alemanha. Há o eixo do exílio, o da continuidade e o do holocausto, cada qual com as suas sensações. O eixo do exílio que oferece um ponto de escape até o exterior, conectando o museu ao “Jardim do Exílio”, um grande quadrado composto por 49 pilares de seção quadrada dispostos em uma quadrícula. O da continuidade é conduzido por uma escadaria que emerge e leva até a coleção permanente, desenvolve-se de forma linear seguindo a fachada do edifício, outorgando nos descansos acesso aos diferentes níveis do museu. Essa escada apresenta-se como um jogo de escalas e luzes, conduzindo o visitante através de espaços estreitos e obscuros até espaços amplos e luminosos.

o eixo da continuidade

 Quanto ao “eixo do holocausto”, surge um passeio sem saída no qual o solo inclina-se até o teto culminando na “Torre do Holocausto”. Um espaço vazio de concreto de 24 metros de altura cuja única iluminação é a luz natural que entra por uma pequena fresta no teto e não contam com calefação ou condicionamento de ar. Em grande parte, não têm luz artificial. Evidenciam-se como elementos independentes do restante do edifício. Somente pode-se acessar fisicamente o último dos “vazios”, o “Vazio da Memória”, onde se encontra a instalação Shalechet de Menashe Kadishman.

o eixo do holocausto

a instalação de Menashe Kadishman, um “mix” de emoções

Por muito tempo o museu de Daniel Libeskind ficou sem nenhuma exposição itnerante justamente pelo fato do próprio museu já ser uma obra que causava estranhamento naqueles que passavam. As sensações causadas com a elevação do piso, o jogo dos vazios, na presença de luz (e na falta dela também) geravam a curiosidade. Há inclusive aqueles que relatam se sentir mal ao sair do museu.

o espaço expositivo com piso irregular

Sensações a parte, é inegável que o trabalho de Libeskind é uma obra arquitetônica que conseguiu personificar esse desconforto e provocar para contar a história do que foi o holocausto. E detalhe, embora fosse inagurado em 2001, o projeto do museu já estava pronto desde antes da queda do muro de Berlim, em 1989.

E você? Que sensação você sente ao visitar uma obra de arte? Qual foi a última obra arquitetônica que te arrancou um sorriso? Que te despertou um arrepio?

Gabriel Contreira e Isabela Rincon