Que sensações a arquitetura pode causar?

Ao adentrar a 14a edição do sp-arte que ocorreu em março desse ano no pasmoso Pavilhão da Bienal o texto curatorial já provocava com o tema dessa montagem:

“Que sensações uma obra de arte pode causar?”

Pouco distante dali, no centro da cidade, entende-se a indagação de Fernanda Feitosa.

Situado no icônico edificio de Oscar Niemeyer, o pivô não é uma galeria de arte, é muito mais do que isso. É um espaço de experimentações, troca entre artistas, curadores e o público em geral sem nenhum fim lucrativo e que nos presenteia a cada temporada com exposições independentes excepcionais num espaço que ficou abandonado por mais de 20 anos.

No projeto imannan (que fica em cartaz até dia 02/06), vemos o diálogo entre as obras de Anna Maria Maiolino, Ana Linnemann e Laura Lima, esta que é tema dessa resenha.

“ imannam surge da opção das artistas pela subversão da ideia da arquitetura como um local comum entre o eu e o outro, em busca de outras lógicas de relação através da proposição de situações que convidam a um acontecimento – um revés – no mundo.”

Utilizando a arquitetura singular do Pivô como ponto de partida, as artistas apresentam propostas de experimentação nas diversas áreas do espaço com instalações, intervenções arquitetônicas, trabalhos sonoros e filmes concebidos ou adaptados especialmente para este projeto.

“A instalação, ocorra ou não em um local específico, surgiu como um idioma flexivel”

David Deitcher

Embora os trabalhos de instalação só viessem a ser reconhecidos a partir da década de 60 com os trabalhos de Lygia Pape, Cildo Meireles, Dan Flavin e Olafur Eliasson, poucos sabem que o pai da “ambientação” como era chamada foi o dadaísta Marcel Duchamp.

Na ocasião da exposição surrealista de 1942 em Nova York, na qual fora convidado para ser o curador, Duchamp enfureceu os artistas expostos com a ideia do que veio a chamar de “Uma Milha de Barbante”, sua obra que constituía num labirinto de fios amarados em torno das telas em que estavam instaladas, o que exigia uma postura ativa do espectador enquanto as contemplava.

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Marcel Duchamp – Uma Milha de Barbante 

Vamos voltar a pergunta inicial. Que sensações uma obra de arte pode causar?

O desconforto? Ou será que desviando dos barbantes seria a única maneira de criar uma narrativa para que a exposição fosse vista por completo?

Longe de Nova York, no edifício Copan, Laura Lima distorce o espaço expositivo do pivô rebaixando o teto para uma cota que força o espectador a se abaixar para que possa visitar a próxima galeria.

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Danilo Dueñas no espaço do pivô com poucas interferências na arquitetura (note o adesivo vermelho no vidro em referência a Mondrian e o neoplasticismo)

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No meio desse vão uma surpresa. Ela também distorce a ideia de alicerce do edifício quando “copia” um dos pilares da galeria e faz com que ele apareça girando, junto com outros elementos da arquitetura como tomadas e interruptores de luz.

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Mais uma vez, que sensação uma obra de arte pode causar?

A tontura? A vertigem?

Motivados por esses questionamentos, pensamos em mais um: Que sensações a arquitetura pode causar?

Do centro de São Paulo fomos para Berlim, onde Daniel Libeskind com seu Jewish Museum responde a quase todas as nossas perguntas.

Daniel Libeskind – Jewish Museum 

A começar pela sua implantação, que não nos incita um eixo, uma linearidade, uma entrada ou uma saída. A entrada é feita pelo edifício existente ao lado, o Kollegienhaus, um antigo museu barroco. E ao descer três níveis há “escolhas” distintas de eixos a serem feitas pelo espectador. Cada uma delas com sua narrativa representa uma experiência dos judeus na Alemanha. Há o eixo do exílio, o da continuidade e o do holocausto, cada qual com as suas sensações. O eixo do exílio que oferece um ponto de escape até o exterior, conectando o museu ao “Jardim do Exílio”, um grande quadrado composto por 49 pilares de seção quadrada dispostos em uma quadrícula. O da continuidade é conduzido por uma escadaria que emerge e leva até a coleção permanente, desenvolve-se de forma linear seguindo a fachada do edifício, outorgando nos descansos acesso aos diferentes níveis do museu. Essa escada apresenta-se como um jogo de escalas e luzes, conduzindo o visitante através de espaços estreitos e obscuros até espaços amplos e luminosos.

o eixo da continuidade

 Quanto ao “eixo do holocausto”, surge um passeio sem saída no qual o solo inclina-se até o teto culminando na “Torre do Holocausto”. Um espaço vazio de concreto de 24 metros de altura cuja única iluminação é a luz natural que entra por uma pequena fresta no teto e não contam com calefação ou condicionamento de ar. Em grande parte, não têm luz artificial. Evidenciam-se como elementos independentes do restante do edifício. Somente pode-se acessar fisicamente o último dos “vazios”, o “Vazio da Memória”, onde se encontra a instalação Shalechet de Menashe Kadishman.

o eixo do holocausto

a instalação de Menashe Kadishman, um “mix” de emoções

Por muito tempo o museu de Daniel Libeskind ficou sem nenhuma exposição itnerante justamente pelo fato do próprio museu já ser uma obra que causava estranhamento naqueles que passavam. As sensações causadas com a elevação do piso, o jogo dos vazios, na presença de luz (e na falta dela também) geravam a curiosidade. Há inclusive aqueles que relatam se sentir mal ao sair do museu.

o espaço expositivo com piso irregular

Sensações a parte, é inegável que o trabalho de Libeskind é uma obra arquitetônica que conseguiu personificar esse desconforto e provocar para contar a história do que foi o holocausto. E detalhe, embora fosse inagurado em 2001, o projeto do museu já estava pronto desde antes da queda do muro de Berlim, em 1989.

E você? Que sensação você sente ao visitar uma obra de arte? Qual foi a última obra arquitetônica que te arrancou um sorriso? Que te despertou um arrepio?

Gabriel Contreira e Isabela Rincon

 

 

 

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