Descartes Construtivos

Apesar de sermos constantemente lembrados por diversas organizações mundiais de que nosso sistema de exploração atual é incompatível com a capacidade do nosso planeta de gerir e repor tais recursos. A conversa e o questionamento sobre nossos padrões de consumo ou também sobre como nos relacionamos com nossos resíduos, ainda é uma preocupação de uma parcela pequena da nossa população.

Myriam Glatt em “Descartes”, que nos traz em forma de arte um importante lembrete da nossa desatenção em relação a nossos recursos. A exposição composta majoritariamente por esculturas que muito se assemelham à montagens, a motivação da artista em utilizar papelão na maioria de suas composições, é oriunda do encontro excessivo do material espalhado pelo meio urbano

              Fonte imagens: fotos autorais tiradas na exposição

Contudo, encontrar novos usos para esse material tanto usado e pouco reciclado, é uma preocupação que tange o japonês Shigeru Ban, vencedor do premio pritzker de 2014, conquistando-o, sobretudo pela sua pesquisa e realização de trabalhos que adotassem materiais simples como componentes de suas obras e até mesmo de seus sistemas estruturais. Vale lembrar a importância da iniciativa do arquiteto tendo em vista que o ramo da construção civil é sozinha responsável pelo consumo de mais de 50% dos recursos mundiais, além de ser também a maior responsável pela produção de resíduos sólidos.

Desde 1989, o arquiteto têm empregado em escalas diferentes de obras o tubo de papelão como sistema estrutural de seus projetos. O resultado desse partido são construções mais econômicas e executadas mais rapidamente quando comparamos aos sistemas convencionais.

Um forte exemplo disso, é a igreja de papel montada em 1995, em Kobe, no Japão após um terremoto destruir boa parte das estruturas da cidade. Composta por 58 pilares de tubo de papelão disposto em uma forma elíptica e contem seus exterior envidraçado para criar um espaço contínuo entre os ambientes internos e seu entorno. Com a ajuda de 160 voluntários, em apenas 6 semanas a capela já estava pronta para uso e se manteve intacta até 2005, quando foi desmontada de kobe e reerguida no Taiwan.

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Fonte imagens: site do arquiteto

Mais recentemente em 2016, o escritório holandês Fiction Factory divulgou a Wikkelhouse, uma estrutura composta por módulos que pode receber os mais diversos usos além de ter a facilidade de ser montada em apenas um dia. Sua estrutura é composta por 24 camadas de papelão unidas por uma cola sustentável e revestida por uma camada de alumínio e madeira que garantem a proteção contra fenômenos meteorológicos. A combinação resulta em uma estrutura que tem previsão de resistir pelo menos 100 anos além de ter a possibilidade de mover a estrutura para uma nova localização. Além disso, o escritório garante que a casa pode ser 100% reciclada.

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Fonte imagens: site do arquiteto

Cada módulo tem 5 m² e pode ser combinado de acordo com a necessidade do usuário. O preço para 3 módulos (compondo 15m²) é de 25 mil euros, se aproximando a um valor de 8 mil reais o metro quadrado, tal valor se assemelha ao preço de venda encontrado por um imóvel novo em grandes cidades como São Paulo, provando mais uma vez que uma construção sustentável não é sinônimo de gastos extras.

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Fonte imagem: site do arquiteto

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Fonte imagem: Archdaily Brasil – Yvonne Witte

Com um simples passeio na internet, conseguimos buscar e ver que não é apenas do papelão que pode ser reaproveitado na construção civil, como por exemplo o uso de garrafas pet junto com taipa de pilão na construção de habitações. E que as soluções podem ser mais baratas do que aquelas que empregam o sistema construtivo tradicional de concreto e aço. As possibilidades são inifinitas para o que podemos fazer com o que consideramos lixo, mas sabemos que as pesquisas pouco serão incentivadas enquanto for prejudicial à indústria do consumo desenfreado. Por isso, cada dia mais, trabalhos que relembrem e nos convidem a reflexão como o de Myriam Glatt se tornam essenciais.

Isadora Saad e Paula Becker

Cheios e Vazios – Arquitetura de Galeria

Branco, cinza, concreto, gesso e minimalismo. Parece até mesmo uma obra arquitetônica portuguesa. Mas não, esta é apenas a concepção de um projeto para uma galeria. A neutralidade arquitetônica tem que ser a máxima possível, ela não pode interferir na arte a ser exposta, ela tem que ser suporte para tal. Quanto mais superfícies brancas para exposição, melhor. A escolha do branco se da por não interfere em nenhuma  obra, e muito menos se destacar mais do que ela. Concepção nomeada como cubo branco na maioria dos projetos de galeria.

Como o branco, a arquitetura também não deve se destacar-se mais do que a arte. Ela tem que ser minimalista, e funcional e muito bem detalhada. A obra de arte tem que ser o foco do ambiente e não ser o segundo plano. Para ser funcional ela tem que expor o máximo de obra de arte possível, e isso não implica somente em quadros, mas também em esculturas.

Os detalhes surgiram para esconder toda a infraestrutura do projeto.  Ar condicionado, elétrica, corrimão, circulação vertical etc. Tudo o mínimo visível possível. A concepção sempre de deixar a arte ser o principal ponto de atração do local.

Grande peça desta arquitetura é o curador da galeria. O pensamento deve vir junto, trabalhado de forma harmônica, onde os eixos devem estar alinhados. Nenhum pode ser mais arrogante que o outro. O curador não é arquiteto, mas é ele é quem sabe como será as exposições futuras, e isso é muito importante.

Como exemplo, somando 500m2 de área construída, o projeto da nova Casa Triângulo  abriga um terreno escolhido não só pela localização mas também pelo seu potencial de ocupação enquanto espaço expositivo.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Sendo similar ao edifício da Bienal, a Casa Triângulo é um dos poucos espaços em são Paulo que possui 5 metros de parede expositiva, trazendo uma proporção única para galeria.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Projetado com piso de concreto e paredes brancas, o arquiteto além de trazer o conceito do cubo branco para dentro da construção, insere um plano translucido em policarbonato que configura todo o perímetro durante o dia trazendo luz natural e pela noite o efeito contrario.

Em geral os materiais foram escolhidos visando uma obra rápida e minimalista, para também facilitar a transição entre uma exposição e outra.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Trazendo duas exposições de caráter diferentes, a exposição Filhxs do Fim de Daniel Lie mostra pra gente como o cubo branco pode ser desconstruído a partir da mudança de cor das paredes e da arte suspensa sem usar qualquer parede como suporte de arte. Já a Pinturas e Relevos Recentes do artista Valdirlei Dias Nunes, utiliza o cubo branco como suporte e linha de amostra.

 

(Filhxs do Fim – Daniel Lie)

(Filhxs do Fim – Daniel Lie)

 

( Pinturas e Relevos Recentes – Valdirlei Dias Nunes)

( Pinturas e Relevos Recentes – Valdirlei Dias Nunes)