Abrigos emergenciais para refugiados – Uma situação provisória com traços de permanência

TEXTO POR TALITA CARRASCO CARNEIRO

 

Dois pesquisadores de ciências políticas e desastres da Universidade de Londres, Elizabeth Babister and Ilan Kelman falam em sua tese sobre a importância dos abrigos emergenciais para refugiados, como a necessidade por abrigos se torna fundamental em uma situação de emergência:

“O abrigo pode ser a chave para salvar uma vida ou prolongar a sobrevivência. Olhar para o abrigo como um direito fundamental humano é olhar para situações desesperadoras, porque quando pessoas perdem as suas casas, elas perdem o único lugar que é essencialmente seguro. Portanto, quando um indivíduo não tem abrigo, a situação pode ser considerada uma crise” (BABISTER, E e KELMAN, I O processo de abrigos emergênciais aplicados em casos na Macedônia e Afeganistão em tradução livre. 2002.)

 

Na tese, os autores deixam claro a importância da conexão pessoa-lar, e como o meio a sua volta pode influenciar na sua saúde e bem-estar. Quando imaginamos um campo de refugiados não nos vem na mente um lugar confortável onde pessoas vivem calmamente suas vidas. Nos vem na mente um local de passagem onde alguém se demorou demais a sair, e acabou se instalando alí. Um lugar que caracteriza a sua efemeridade pelas suas construções baratas e tendas espalhadas pela paisagem a perder de vista. Um local que não recebe a atenção necessária quanto a qualidade de vida.

Quais são as relações interpessoais das pessoas que se veem obrigadas a se instalar em um campo de refugiados? O que os traz paz de espírito e conforto? O rompimento do relacionamento pessoa-lar pode trazer uma série de consequências traumatizantes para pessoas que sempre se viram muito ligadas ao lugar onde vivem. O espaço tem uma influência grande na formação de uma pessoa, e se ver obrigado a sair do seu local de criação a força pode se tornar traumatizante.

Por ser (infelizmente) uma tendência mundial, a arquitetura emergencial tem gerado interesse entre arquitetos e designers que simpatizam com a arquitetura efêmera e eficiente. O número de entidades focadas na oferta de abrigos à refugiados no mundo é grande, e a maioria delas tem como objetivo prover uma espécie de lar mais acolhedor a essas pessoas, além de mudar a paisagem desoladora dos campos.

A empresa IKEA por exemplo criou um tipo de casa de montagem rápida e barata com o objetivo de atender locais onde não há abrigo suficiente para todos. O nome do projeto é Better Shelter e o mesmo foi vencedor de um concurso de arquitetura efêmera para refugiados em 2014. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados tem parceria com a empresa, possibilitando o fácil acesso do módulo àqueles que precisam.

A iniciativa da IKEA tem parceria com as Nações Unidas

O arquiteto Shigeru Ban é um dos simpatizantes da arquitetura efêmera e de caráter emergencial para refugiados ou vítimas de catástrofes. São vários os projeto dele pelo globo, onde tenta desenvolver um tipo mais acolhedor de abrigo aos ocupantes dos campos. Um exemplo é a Casa Paper Log, que pode ser encontrada tanto na Índia quanto no Japão. São casas provisórias produzidas com o material que a própria região do assentamento pode oferecer.

 

Casa Paper Log no Japão

       Casa Paper Log na India

Ainda porém existem aqueles que acreditam que a construção de lares temporários pode se tornar uma espécie de perda de tempo e dinheiro. Na teoria, campos de refugiados são lares provisórios àqueles que fogem de guerras, epidemias ou crises. Mas, na prática, existem campos com mais de 25 anos de existência, maiores que cidades inteiras, como por exemplo Zaatari, um campo na Jordânia fundado em 2012, que caminha lentamente para o status de assentamento permanente.

Em entrevista ao periódico Dezeen, o arquiteto Alejandro Aravena diz que seria mais eficiente oferecer um tipo de estrutura básica, mas durável, que possa ser completa pelo próprio residente como lhe for melhor. Isso dá um caráter mais pessoal à construção, gerando uma ligação maior entre pessoa e lar. Ainda apoiando essa ideia, o empresário alemão,  ex-funcionário do ACNUR e ex-diretor do campo de Zaatari, Kilian Kleinschmidt diz que hoje, a pessoa em situação de refugiado recebe uma resposta automática militarizada sobre onde deve se abrigar, sob a ideia de que logo voltaria ao seu país de origem, que é raramente o que acaba acontecendo.

O principal objetivo de um campo de refugiados é acolher essas pessoas sem lar e abrigo, como foi citado no inicio desse texto, mas será que esse caráter provisório é tão necessário? Um abrigo deve trazer mais do que sobrevivência, mas a sensação de pertencimento a um lugar, a um sistema de convívio com mais milhares de outras pessoas estão passando pelas mesmas situações difíceis. A sensação de pertencimento a um lugar pode trazer benefícios e gerar uma ideia de cuidado pelo local ao qual está alocado, mesmo que seja provisório.

 

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