NOVOS CAMINHOS – Como vivemos e como podemos viver

Desenvolvimento da arquitetura

          Arquitetos, além do encargo de criar projetos funcionalistas e amparar a questão básica de moradia, sempre se viram no dever de projetar levando em conta os fatores externos de sua época, sendo esses fatores a política, economia, questões sociais, entre outros. Uma profissão que se desenvolveu por meio de manifestos e movimentos demonstrando diferentes possibilidades de expressar seus pontos de vista, com certa abstração artística, relacionando às formas de se viver. Movimentos esses que, por apresentar um campo aberto de inúmeras reflexões, foram alvos sujeitos às críticas e desaprovações de qualquer um que se julgava apto a criticar esteticamente projetos arquitetônicos.

Complexo residencial Bellavista em Klampenborg.

Projeto funcionalista de Arne Jacbsen, em 1934, complexo residencial Bellavista em Klampenborg.

            Analisar os conceitos e sensações de um projeto desenvolveu um campo importante de estudo às reflexões relacionadas ao que permeia sobre os pensamentos e propostas dos arquitetos, campo esse chamado fenomenologia¹. Tal assunto passou a analisar as situações vivenciadas, de modo além da forma estética, construtiva e útil, se inserindo também, nas questões metafísicas do seu tempo e criando uma gama mais ampla de definições.

          Sempre foi sabido que este ofício abrangia diversos campos pluridisciplinares, onde a fala de Marcos Vitruvius, no relato mais antigo sobre arquitetura, aponta com propriedade.

“A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes.”

O campo ampliado da arquitetura

          Estudando as interrelações com diversos outros campos, foi possível aplicar esse ideal de pensamento voltado à arquitetura, a fim de investigar as tendências que viriam a ser apresentadas no século 21.

          Esses reconhecimentos se desenvolveram durante a exploração do uso de diagramas, uma técnica com possibilidade expressar e descrever os projetos, através de grafias visuais, apresentando inúmeros dados com a síntese das imagens, tendo como finalidade melhor entendimento dos conceitos.

Esquemas

Desenhos de concepção de Fraser & Henmi, (1994). Imagem da Tese “Diagrama como discurso visual: uma velha técnica para novos desafios”, do arquiteto José Barki, doutor em urbanismo FAU UFRJ

          Segundo o historiador e crítico de arquitetura, Anthony Vindler, foram criadas conexões com nosso campo de estudo e desenvolvendo assim quatro paradigmas de comparações, sendo eles à relação de arquitetura e paisagem, arquitetura e biologia, arquitetura e seu programa e arquitetura em consenso com arquitetura.

          Nesse meio, Vindler também aponta que a maneira de se ver a arquitetura, discussão entre forma e a função, precisava ser desprendida e entendida separadamente, somente assim seria mais claro pontuar as questões que deveriam ser melhoradas. Exemplo que cita do movimento modernista, pelo fato de ter sido desenvolvido para uma necessidade imediatista e criada de modo automático, reflexo da forma realista de se morar. Dessa forma, muitas questões foram levantadas, porém não sanadas por completo.

          Por esse motivo, quando esses problemas são inseridos nos estudos de combinação dos paradigmas, abre-se novas possibilidades e conhecimentos voltados às questões já antigas. Esses novos ângulos de vista são formas mais sensoriais e ampliadas de se reconhecer na arquitetura.

          Quando comparamos a arquitetura e as artes, um ótimo exemplo, citado no texto “O campo ampliado da arquitetura”, é o de Richard Serra quando quebra a questão do ‘uso tradicional’ em sua experiência espacial, no projeto Tilted Arc, onde sua escultura, uma placa longa e alta de aço, foi inserida em uma praça.

Federal Plaza com o Tilted Arc

Vista do Federal Plaza com o Tilted Arc visto de lado. Fotografia de Susan Swider.

          Entramos no questionamento das ambiências e sensações, pois a praça já não tem mais sua função anterior, e nem a escultura. Juntas elas criaram uma novidade para as vivências, onde a funcionalidade e a estética permeiam pela característica que os críticos chamam de arquitetura e a não arquitetura.

          Essas metáforas e fundamentos foram criadas para alongar a nova visão sobre a arquitetura, de maneira a mostrar o que permeia no limite incerto da arquitetura e que também foi possível com a criação das novas tecnologias.

          Durante o século 19, o princípio relacionado às questões biológicas ganhou uma certa atenção e continuou a se desenvolver por muitos anos, até que na metade do século 20 ganhou possibilidade de se desenvolver melhor através da engenharia e seus softwares, possibilitando dar às construções os formatos orgânicos e ‘desconstruídos’ que permeavam a imaginação dos arquitetos (como forma de escapar do funcionalismo moderno).

Como viver junto e papel do arquiteto

          Um dos conceitos discutidos por arquitetos sempre foram baseadas no princípio de como podemos projetar para se viver bem. Mas será que sempre pensamos na questão de como viver bem conjuntamente?

          Na atualidade, é raro vemos os projetos se harmonizando com as escalas urbanas. É necessário pensar nas relações e concordâncias entre os diferentes projetos, posto o fato de que as cidades carregam construções de diferentes épocas e estilos, é válido gerar mais discussões sobre as relações de concordâncias arquitetônicas e criar cidades menos desagregadas e desiguais.

Projeto FRAC Dunkerque,  Lacaton & Vassal

Projeto FRAC Dunkerque, dos arquitetos de Lacaton & Vassal (2013), que tem como característica a harmonização do antigo e do novo, mesmo que utilizando materiais diversos.

          Refletindo sobre as formas de analisar a arquitetura e de acordo com o momento contemporâneo, como podemos propor novos meios para amenizar as questões urbanísticas das cidades, e torná-las menos segregadas? Será que não é necessário repensar nosso modo de projetar, como também as relações de trabalhos? Talvez reconsiderar as materialidades insustentáveis impostas a nossa profissão e reexaminar a lógica e nossas propostas para um bom projeto.

          Como uma profissão que abrange diversos campos, é necessário ampliar e explorar as várias combinações, como também incentivar um contrato espacial entre pessoas das múltiplas áreas e pontos de vistas diferentes, a fim de ampliar as possibilidades de resolução dos problemas e discutir e desenvolver variedades de novas propostas e formas de se viver na contemporaneidade.

 

Professora do MIT e sua visão às novas formas de projetar

          Porventura, uma convenção com a natureza também seja bem apropriada, para o atual momento, já que continuar utilizando recursos esgotáveis na arquitetura, não parece seguir para nenhum avanço. A utilização de materiais, que em um tempo já foram inovadores para a arquitetura, agora não se apresenta tão apropriada. Essa estagnação se dá pelas políticas econômicas impostas à arquitetura, onde o investimento de recursos renováveis ainda se mostra carentes no Brasil.

          A arquiteta israelense e professora do MIT, Neri Oxman, apresenta um novo conceito que questiona o significado de projetar, através da materialidade, e a partir daí, estuda as possibilidades de reinterpretar o mundo natural (biodegradável) para ser utilizar em suas propostas.

          Nos desenvolvimentos dos projetos, com seu grupo Mediated Matter, do MIT, Neri procurou ressignificar a matéria viva, utilizando a tecnologia e apresentando estudos onde os produtos biológicos combinados a diferentes microrganismos que foram aplicados através de máquinas adaptadas para montagem de estruturas com os materiais naturais.

          O questionamento sobre utilizar diferentes materialidades surgiu do interesse de Neri em observar o corpo humano, de modo que, em sua fala, ela compara projetos de arquitetura com a conformação de um corpo, onde este último é composto células iguais de mesma configuração, porém apresentam diferentes resistências de acordo com sua localização e função no corpo; o que, diferente as estruturas de uma casa, a qual normalmente é construída por outras materialidades, como chão, paredes, vigas e telhado.

imagem E

Imagem da pele humana, formada de células e referência a fala de Neri no parágrafo anterior.

        Então ela procurou em seu trabalho e grupo de pesquisa apontar para novos meios de colaborações multidisciplinares, também inovando com novas maneiras de questionar as materialidades de construção já existentes, demonstrando assim uma forma de manifesto em relação as maneiras habituais de se morar.

       A imagem abaixo é um diagrama utilizado pela professora para desenvolver seu pensamento em função da criação de um projeto realmente eficiente onde ela compara o ciclo de Krebs, propriamente dito, com diferentes áreas profissionais.²

imagem F

Imagem do desenvolvimento de Neri Oxman. The Krebs Cycle of creativity I (Domains),2016.

          Para a biologia o ciclo é uma via metabólica composta por reações químicas em cadeia que, após um primeiro componente realizar sua função imposta, todos os outros organismos passam a existir devido a essa ação e funcionar de maneira independente.

          Essa analogia com o ciclo, pode ser apresentada como uma digestão intelectual, onde é exigindo uma mudança de perspectivas e que as trocas de conhecimento e reações em cadeia, provavelmente vão enriquecê-lo intelectualmente. Então, são apresentados os quatro campos profissionais, que podem se tornar interdependentes em relação a questão de como se viver, estes são: a ciência, engenharia, design e arte, compostos que servem como moeda de troca de conhecimento.

          Dessa forma a ciência tem função de converter informação em conhecimento, a engenharia à transforma em utilidade, o papel do design é aumentar a experiência humana e assim fazer se tornar um comportamento e então a arte serve como questionador do comportamento humano, focando na consciência e em novas percepções de mundo.

          A imagem se apresenta intencionalmente de forma incerta, com intuito de provocar reflexões e dar a possibilidade de ser lido de diversas formas. Alguns exemplos ainda são apresentados como comparação como a interpretação de um relógio, lido em uma direção, podendo estar parado, dobrar o tempo ou até mesmo retroceder; Se assemelhando à um microscópio que utiliza diferentes lentes de acordo com o que queremos ver; Podendo ser visto como uma bússola, a qual a rosa dos ventos indica os eixos dos conhecimentos por onde podemos decidir qual ponto seguir primeiro; Ou também assemelhado à um giroscópio, dando uma projeção complexa e criativa. De tal forma que Neri demonstra as variáveis formas de interpretar, como também, por ser um esquema, existe a possibilidade de apresentar falhas.

Projetos desenvolvidos por Neri e sua equipe

Projeto 1– AGUAHOJA I   

          Utilizando estratégias de modelagem estrutural com materiais derivados de maçã, exoesqueleto de insetos e casca de árvores, o projeto foi realizado através da fabricação robótica produzindo diversos graus de rigidez para estrutura de acordo com a composição com água. O sistema criado se apresentou bastante resistente e o fato de ser biodegradável dá a opção de um ciclo de vida variável e fácil descarte, assim quando não mais for útil estruturalmente, pode ter outros fins sem gerar entulhos.

imagem G2

Imagem da revista de arquitetura DEZEEN, dos produtos testes para concepção do projeto Aguahoja I

          Sendo válido lembrar que os Biopolímeros utilizados são produzidos na casca de camarões, caranguejos, borboletas e escorpiões, que são ‘descartados’ em torno de 100 milhões de toneladas por ano e que foram utilizadas, já depois da vida dos animais, com a sua forma triturada e moldada, criando diversas estruturas multifuncionais e, quando aplicadas pelo sistema robótico, formaram as ‘peles’ do Aguahoja.

           Por meio de arranjos artificiais, que possibilitaram, assim como as células da pele de um corpo humano, uma disposição natural cujas bactérias utilizadas absorviam o carbono da atmosfera e produziram esse sistema de açúcar.

imagem H2

Imagem do site MIT MEDIA LAB. Projeto Aguahoja I  finalizado em seu pavilhão de exposição.

          Durante seu Ted Talk, Oxman, aponta uma questão, ao apresentar o desenvolvimento desse trabalho, sobre o porquê ainda estamos produzimos plástico em grande escala, sendo que ele muitas vezes se torna rapidamente inútil e demora anos para se decompor, e que existem milhares de formas e combinações naturais que podem gerar inúmeras .

Projeto 2– GEMINI ALPHA

          O principal ponto para o desenvolvimento dessa cadeira foi Neri relacionar uma gravidez e essa sensação de ecossistema. Então, ela criou uma cápsula que simulasse o estado de um bebê no ventre em seu mundo confortável e quieto.

imagem I2

Imagem do site DEZEEN, design final da concepção da cadeira Gemini Alpha

          O projeto da cadeira acústica desenvolvido junto com o professor W. Craig Carter, do Departamento de Ciência e Engenharia de Materiais do MIT, se realizou através da combinação de produtos naturais e sintéticos obtendo diferentes resultados e gerando em uma estrutura com 44 materiais diferentes, semelhante a uma borracha, porém de diversas cores, absorção e resistência, o qual sua superfície irregular explora um design diferente e de alta absorção dos sons.

imagem j2

Imagem do site DEZEEN. Material resultante do estudo dos biopolímeros para o projeto Gemini.

 

    É possível ver que a equipe de Neri não só cria um produto que reinventa a natureza, ademais cria algo que encanta os olhos por sua beleza do natural. Desse modo, ela acredita que os trabalhos híbridos, com uma base filosófica consistente, podem reinventar a forma de se morar e encontrar novas formas de desenvolvimentos e focos na economia, apontando um diverso rumo para a arquitetura.

Momentos da arquitetura e reflexão sobre formas de se projetar

          Em um tempo onde as construções eram realizadas com a mínima ornamentação possível, realizar projetos de uma forma funcional, direta e rápida, devido a demanda nos pós guerras, foi a melhor forma imediatista encontrada para obter uma resposta viável para a economia no momento.

     Pensando na situação do Brasil, local com um histórico arquitetônico muito movimentado, passado por cidades super adensadas e sem planejamentos, ‘testes” arquitetônicos em escala real, crises econômicas, diversidade de estilos adotados de referências de outros países e com o momento atual em circunstância de pandemia, nos aponta, mais uma vez, a necessidade de encontrar novas formas para tratar a moradia e situação urbana no país.

          Os questionamentos da forma como projetamos e como as profissões se relacionam é crucial para refletir sobre nosso momento atual. Vemos um caminho se abrindo com infinitas possibilidades de inovações para a arquitetura que pode andar lado a lado da tecnologia. Projetos como esses devem servir para abrir a cabeça e inspirar a procurar novas perspectivas para a arquitetura.

IMAGEM k

Comparação de imagens feita por Neri, onde na primeira é projeto para a natureza e na segunda a natureza é quem projeta para o meio, relações entre a máquina e o organismo.

“No meu grupo, acreditamos no futuro; não vamos construir nossos produtos e nossa arquitetura, mas sim aumentá-los.”, palavras ditas por Neri refletindo sobre seu pensamento de como lidar com o futuro, nos desenvolvimentos dos projetos, com seu grupo Mediated Matter.

O arquiteto dinamarquês Bjark Ingels muito conhecido por seus projetos com estratégias sustentáveis e conceitos sociológicos aposta no pensamento de que devemos nos reinventar e mudar o futuro da arquitetura para evoluções positivas : “Como designers e arquitetos, nós damos forma ao futuro. Ou damos forma ao futuro que gostaríamos de ver acontecer. É sobre a vida que queremos viver.” ³

¹ | A fenomenologia é um estudo que fundamenta o conhecimento nos fenômenos da consciência. Nessa perspectiva, todo conhecimento se dá a partir de como a consciência interpreta os fenômenos. Esse método foi desenvolvido inicialmente por Edmund Husserl (1859-1938) e, desde então, tem muitos adeptos na Filosofia e em diversas áreas do conhecimento.

² | Professora e PhD indica sua determinação com a análise do ciclo de Krabs quando diz que “Estabelecer uma cartografia experimental, ainda holística, da inter-relação entre esses domínios, onde um domínio pode incitar a (r)evolução dentro de outro; e onde um único indivíduo ou projeto pode residir em vários domínios”. (Oxman, Neri, em Journal of Design and Science– JoDS, em janeiro de 2016- Tradução livre)

³| Bjark Ingels, arquiteto dinamarquês. Atualmente, muito conhecido por seus conceitos de projetos inovadores e que ressignificam os ambientes, as interações entre as pessoas e as estruturas dos projetos em si.

Texto por Fabiny Helena Peres

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s