PÓS – TU – MODERNISMO

Onde procurar alternativas para se desenvolver a vida semi-pública com as condições impostas pela pandemia do Corona vírus?

POR ANA CLARA GURGEL

Diversas vezes ao longo da história foi dito que a cidade reflete aqueles que a ocupam, e de certa forma essa premissa se faz verdadeira se reduzirmos a complexidade de uma sociedade, seu sistema e infra estruturas subsequentes ao máximo, ou se a tratássemos como um objeto de estudo linear. Portanto, para o âmbito desta análise, digamos que ela é verdadeira.

O que temos como ambientes urbanos hoje, são resultantes de um pensamento originado pelas revoluções científica e industrial, séculos XV e XVIII, determinado como moderno. O termo em si já circulava desde século XII, período de Carlos o grande, denominando tudo aquilo que se mostrava como novo em relação a consciência consolidada europeia e se popularizou, a partir destes conceitos, indicando aquilo que está à frente do tempo em que foi produzido e assim é utilizado até hoje.

Contudo, a quebra proposta pela civilização moderna era acompanhada pela descrença religiosa e racionalização de rotinas, profissões, relacionamentos, arte e arquitetura. Como maior exemplo delas temos os movimentos de vanguarda na Europa, no início do século XX,  dos quais originaram movimentos políticos, como o futurismo, outros disseminados para outras linguagens que se perpetuaram, como o cinema. O movimento moderno preconiza, como consequência da novidade, a substituição da memória histórica pela afinidade com o presente, rebelando-se contra as normas e tradições reinventando padrões de utilidade e função por meio da estética.

No âmbito das relações humanas a modernidade causou grande impacto com a aceitação da ciência como verdade absoluta e a diminuição do misticismo relacionado à própria existência humana, religião e cultura, o que levou à um descontentamento constante e, futuramente, à decadência dos modelos econômicos na qual esta sociedade foi baseada. Este desconforto causado por esta cisão, juntamente com uma infraestrutura comunicativa deficiente e sensacionalista, resultou em discursos perpetuados por oposicionistas à evolução deste modelo que não foi, em sua totalidade, efetivo por conta de suas deficiências.

Nas construções pode-se ver estes conflitos e discussões ocorrerem de forma mais clara, devido a própria materialização destes conceitos é possível entendê-los melhor. Temos como exemplares o planejamento e replanejamento de cidades, distritos e bairros inteiros sempre com a racionalização estrutural e dos espaços, o zoneamento, funcionalidade em mente como Brasília e o conjunto habitacional Pruitt Igoe, em Saint Louis, o Palácio de Cristal, em Paris, e o edifício do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro.

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Com a dinamização das jornadas de trabalho, por conta da grande capacidade de produção das indústrias, surgiu a necessidade de um novo modelo econômico que promovesse o consumo cada vez mais rápido, tanto por necessidade de oferta quanto de procura. Consequentemente estes mesmos itens a disposição dos públicos se tornaram cada vez mais ligados ao apelo visual do que sua qualidade e seu significado, ou seja, gradualmente mais vazios. Por meio da caracterização feita, descrevemos um dos elementos pós-modernistas de forma curta.

O Pós-Modernismo nasceu de uma necessidade de reafirmação histórica e principalmente de memória, portanto esse movimento trouxe consigo vontades provenientes de falhas presentes no período anterior. Delas nasceram novas discussões sobre como abordar as soluções de problemas tanto pré-modernos quanto modernos, ocorreram neste intervalo de tempo os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) e também começaram a ser desenvolvidas as cartas patrimoniais, tendo como ponto de partida a Magna Carta de Le Corbusier de 1931, por exemplo.

Contudo a discussão sobre o desenho da pós-modernidade tornou-se possível a partir de junho 1952, em um CIAM ocorrido na Suécia, devido a massiva participação de jovens membros do congresso pressionando os membros mais velhos a oficializar sua presença e validar suas subsequentes contribuições teóricas, muitos dos quais se tornaram membros do Team X, organizadores do décimo e último CIAM. A ausência de alguns destes membros anciãos, como Walter Gropius e Le Corbusier, facilitou a contabilização dos mais jovens.

O Team X contava com dez arquitetos, entre eles Aldo Van Eyck, Blanche Lemco, Hill e Gill Howell por exemplo, que fizeram parte deste grupo mais jovem de arquitetos e passaram a ter um papel mais ativo desde o nono congresso, no qual tiveram mais sucesso. No CIAM IX criticou-se fortemente A Carta do Habitat, iniciativa da própria instituição organizadora dos CIAMs em favor da velha-guarda, e por meio das mesmas foi sugerido que ambos os grupos produzissem tal documento separadamente e que o mesmo fosse avaliado na próxima conferência.

Desta forma, os interesses e desejos do que conhecemos como parâmetros de integração da cidade surgiram. Não se falava mais sobre o zoneamento isolados de áreas com diferentes funções, mas da mescla entre elas de maneira que se pudesse criar novos ambientes urbanos com maior diversidade de articulação de formas e interação entre as habitações e seus equipamentos locais, compondo assim o habitat. A própria utilização do termo já mostrava uma mudança de posicionamento daqueles que participavam das discussões, os quais não conseguiram identificar precisamente o que gostariam que fosse feito mas sabiam que o habitat deveria comportar a satisfação total por meio da harmoniosidade do espírito e da forma.

No CIAM X foi apresentado o principal objeto de estudo deste artigo, o diagrama correspondente aos Círculos de Otterlo,  produzido por Van Eyck . O quadro demonstra o desejo de harmonização entre princípios previamente considerados como opostos, agora interpretados como complementares e aplicáveis. Nele há duas circunferências afirmando a memória de que sempre houve a convivência em algum tipo de acordo social entre crianças, mulheres e homens, ainda reconhecendo a importância histórica e a tradição arquitetônica até a atualidade. Outrossim, esses dois formatos representaram a contraposição entre a beleza do pensamento Euclidiano e a presença da fenomenologia nos espaços.

otterlo

Há algumas frases colocadas no diagrama, sendo as principais “par nous” (para nós) e “pour nous” (por nós) e também “ Man still breathes in and out, will architecture do the same?” (O homem inspira e expira, a arquitetura fará o mesmo?). Ao colocar estas frases, o arquiteto propôs uma indagação constante durante o exercício de projeto, referindo-se diretamente as possibilidades e impossibilidades produzidas pelo espaço, conforme pode ser visto a seguir.

“Man breathes in and out. There is no man on Earth who can breath[e] either in or out… You go out and you go in – … Somehow we have seen in modern architecture a certain desire to open up a house in such a way that it only breathes out and never gets the chance of breathing in.”

(EYCK, 1961 apud LAMMER, 2007)

Ainda sim deve-se respeitar a natureza humana a frente de diferentes culturas, de modo que se entenda a história natural para que se possa produzir uma arquitetura humana solucionando, assim, problemáticas contemporâneas.

In each culture, as a result of geographic, climatic, cultural or religious circumstances, certain aspects of man are exaggerated. In other countries aspects of man are expressed more clearly, but they are all aspects which are universally human.”

(EYCK, 1961 apud LAMMER 2007)

A teoria desenvolvida pelo arquiteto consiste na colocação de três conceitos abstratos para que se possa compreender o contexto social, com a devida complexidade que o abrange, adotando-o como práxis de desenho para o andamento e implantação de projeto, sendo estes os princípios de twin-phenomena (fenômeno de dualidade), interiorização e o in-between realm (estar entre), todos derivados a partir da relatividade sócio-cultural.

diagrama 1

O fenômeno de dualidade coloca-se de forma parecida com o fenômeno de paralelo surgido no De Stijl, vanguarda holandesa neoplasticista,  iniciando-se como uma reflexão entre a coletividade e a individualidade gerando conclusões posteriores sobre a compreensão da ambivalência da existência em sua totalidade, de forma que se entenda que não é possível a sobrevivência de uma entidade isolada sem seu oposto, o que a tornaria sem propósito e não recíproca.

twin phenomena

A teoria de interiorização consiste na compreensão humana sobre os espaços, identificando-se como o lado epistemológico do fenômeno de dualidade, ontológico. O termo representa os esforços do arquiteto para borrar as fronteiras entre sujeito e objeto, tentando enxergar a interação humana com seu habitat como mais uma relação de dualidade, logo, o espaço não tem sentido sem o indivíduo e o indivíduo não tem sentido sem o espaço.

Já o princípio de estar entre se origina da transição entre os espaços internos e externos, a partir da soleira de uma porta. Van Eyck amplia sua compreensão deste conceito, com a colaboração de seus colegas Rolff Gutmann e Theo Manz, que também faziam presença nos últimos três CIAMs como parte da nova geração,  a ponto de que sua compreensão ultrapassa a barreira da materialização e passa a considerar culturas e convivência em sociedade, por exemplo.

“I have been mulling over it, expanding the meaning as far as I could stre[t}ch it. I have even gone so far as to identify it as a symbol with what architecture means as such and should accomplish. To establish the ‘inbetween’ is to reconcile conflicting polarities. Provide the place where they can interchange and you re-establish the original dual phenomena. I called this 1a plus grande realite du seuil’ in Dubrovnic [ClAM 10, 1956]” 

(EYCK, 1956 apud LAMMER, 2007)

A partir destes temas abordados por Harm Lammers em sua tese de mestrado, a teoria de Van Eyck se torna mais clara para ser possivelmente materializada, concluindo que apesar de abstratos as reciprocidades descritas pelo arquiteto ainda existem e ainda não solucionam os problemas modernos em sua totalidade.Curiosamente, Lammers aponta em sua obra outra compreensão da interação humano vs. espaço, utilizando como base Foucault e Latour, de forma que o indivíduo não é  mais dissociado da tecnologia que também expressa reciprocidade por meio do aprendizado empírico.

Essa nova interpretação, e adição da tecnologia a complexidade da vida em sociedade, faz com que o autor compare a teoria de Van Eyck com a abordagem de mediação que se aproxima do entendimento do arquiteto sobre os espaços e seu papel sobre a vida humana, sendo ela uma possível extensão da abordagem, dos filósofos citados no parágrafo anterior em relação a sociedade moderna e uma possível saída, para o campo da arquitetura e planejamento urbano.

A teoria de mediação consiste na interlocução entre duas entidades para que possa se obter o melhor resultado. Neste caso os mediados fazem parte de diferentes campos que trabalham para que, de acordo com Don Ihde, a vida urbana seja mediada para com o mundo, complementando os pensamentos de “ready-at-hand” (pronto a mãos) e “present-at-hand” (presente em mãos) de Heidegger, de forma que o usuário só possui novas experiências por meio de artefatos – óculos, aparelhos de audição ou cadeira de rodas, por exemplo.

A mediação pode ser considerada distinta a partir dos termos “mediação de percepção” e mediação de ação”, porém complementares. Se analisadas no âmbito espacial, ambas podem ser observadas nos preceitos de Van Eyck pela relação de lugar e ocasião, fazendo parte do twin phenomena. A aplicabilidade das mesmas são dependentes das condições pré estabelecidas pelo contexto urbano e costumes da população na qual ela seria proposta, para que ela seja possível a prática de projeto deve ser correspondente as intenções e inibições dos espaços, sendo o mesmo baseado na experiência para que se possa ocorrer a ação.

Complementar a estas premissas se faz necessária também a ética mediada, estudada principalmente por Foucault nos anos de 1980,  descrita pelo mesmo como as artes da existência ele introduz uma nova modalidade de mediação a ser considerada ao monte. Ela se baseia no conceito de subjetivação, de modo que a percepção de liberdade se constitui pelas amarras do espaço construído, significando que o indivíduo se sentirá seguro e livre apenas quando há algum tipo de identificação com o ambiente. Normalmente esta identidade é feita a partir de memória, neste momento o filósofo indica a raiz de uma falsa premissa criada pela modernidade, dizendo que é impossível a criação de uma nova forma de viver sem experiência suficiente para que se possa se sentir livre.

Eyck expressa o mesmo conceito com o sentido de “homecoming” (chegada ao lar), onde o espaço tem uma forte conexão com o usuário por meio da memória, experiência, demonstrando que o indivíduo deverá se unir com o local para que haja identificação.

Com o homecoming, Eyck se utiliza de dois conceitos, tempo e espaço, provocando ambos para a formação de um novo, ocasião. Unindo as noções de princípios da relatividade de espaço-tempo de Einstein,  interpretando-a como um twin phenomena, e sua tradução de duração espacial de Bergson para a interiorização, de maneira que essas premissas pudessem ser humanizadas e transcritas no ambiente.

“Space has no room, time not a moment for man

He is excluded.

 In order to ‘include’ him – help his homecoming – he must be gathered into their meaning.

(man is the subject as well as the object of architecture).

Whatever space and time mean place and occasion mean more.

For space in image of man is place and time in the image of man is occasion.

Today space home with

what it should coincide with in order to become ‘space’ man at lost. Both search for the same place, but cannot it.

1-‘ .. “”,1/110 that place.

Is man able to penetrate the material he organizes into hard shape between one man and another, between what is what is and a moment? Is he able to a find the right for the right occasion?

No – so start with this: make

a welcome of each door a face of each window

Make of each a place, a bunch of places city, a city a huge house}.

Get closer to the centre of human and all men, since they no longer

[ .. .]” 

(EYCK, 1960 apud LAMMER, 2007)

Associada a teoria de mediação e seus aspectos subsequentes, o trabalho teórico de Van Eyck se mostra promissor ao levar em conta sua principal mensagem de que deve-se fazer uma edificação baseada na identidade ou na materialidade, mas na potencialidade dos ambientes e de identidade. Isto posto, qual o verdadeiro nível de identificação dos indivíduos com os grandes centros urbanos em que habitam? Qual o potencial encontrado no mesmo e qual o papel  da habitação no momento atual?

Como legado dos modelos descritos no início deste texto, na maioria dos centros urbanos, por algum tempo, observou-se uma atividade predatória exercida pelo mercado imobiliário por meio da especulação. Logo, acumula-se grande quantidade de terrenos subutilizados, ou que não cumprem sua razão social, a espera da valorização do mesmo muitas vezes resultando em edificações padronizadas e isoladas do contexto urbano.

Estas edificações não contribuem para o senso de memória coletiva além de um local de trabalho ou habitação, ainda que se saiba dessas condições, pois elas estão distantes para criar laços mais fortes por não atingir seu potencial como espaço comum. O que não possibilita portanto, qualquer relação de identidade de seus habitantes com o local. Como exemplo, pode-se citar o processo de degradação e gentrificação de bairros históricos como o Bixiga, em São Paulo, e o Brooklyn, em Nova Iorque, onde a descaracterização se torna constante e a atividade predatória ocorre a favor do novo – novo esse que é vazio, sem interesse de se conectar.

Com a situação atual de isolamento social durante a pandemia, nos tornamos reclusos em nossa própria liberdade a favor do convívio público seguro. Contudo, a própria condição em que se encontra parte da população mundial, mostra que a vida em comum não ocorre apenas pelos espaços coletivos,  mas que também ele é possível através dos espaços externos às residências, suas varandas.

Em diversos países a convivência por meio das varandas se tornou possível até mesmo entre vizinhos que residem em torres isoladas, devido a proximidade das torres. O que havia um papel mais funcional, em edifícios mais altos, volta a ter seu lugar de interação – volta por conta das relações que havia nas varandas das casas, como costume dos mais antigos – valorizando-o ainda mais.

Alguns escritórios de arquitetura também enxergam o espaço externo com uma maior variedade de articulações, desenvolvendo melhor o potencial destes pequenos terraços individuais considerando aspectos como o direito ao sol, melhor ventilação e iluminação das residências, possíveis espaços de convívio comum e direito a vista. O que resultou em materializações únicas de edificação e potenciais interações.

BIG – The Mountain Dwellings

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Julien de Smedt – Terrassenhaus

terrassen

Peter e Alice Smithson – Complexo habitacional de Geneva

ODA Architects – 251 First Street

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Vale notar que os exemplos não possuem as mesmas condições, tendo térreos com utilidades diferentes, público distinto, dimensões diversas. Porém eles se utilizam da habitação como um fator primordial para a vivência urbana destacando-as, formalmente através das sacadas, colocando estes espaços no conceito do estar entre e usando-os como transição para um momento privado, parte interna da residência.

O uso coletivo, também pautado pelos projetos, pontua a mediação colocada anteriormente no texto, no sentido de que a segurança e o pertencimento é desenvolvido por meio da vida semi-pública entre vizinhos, explicado por Jacobs como redes de confiança na qual você pode escolher o nível de privacidade própria em relação aos outros, e maior ainda quando tem-se o térreo com algum uso público efetivo.

Apesar de, futuramente, os densos centros urbanos não contarem com grande disponibilidade de espaço para construção, os projetos demonstram alternativas aplicadas da teoria de Van Eyck conjuntamente com as mediações propostas por Foucault e Latour, assim como outros filósofos que analisam a relação humana com a tecnologia. De certa forma consegue-se sair da abstração para a materialização do que pode ser uma das formas potenciais de como conviver juntos.

 

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