COMO VIVEMOS JUNTOS? ESPAÇO PÚBLICO

Como olhamos para os espaços vazios que nos cercam da nossa cidade? Vemos neles oportunidades de interações sociais, trocas de ideia e manifestos culturais? Ou quando olhamos para estes espaços nos deparamos com um sentimento de medo e insegurança? Porque alguns lugares são enormemente persuasivos as pessoas e outros repugnantes? Tais perguntas nos levam a refletir acerca da cidade como uma obra de construção coletiva. Através da arquitetura tem-se um instrumento para lidar com os problemas da sociedade contemporânea e sobretudo problemas que a vida na cidade grande impõe sobre seus habitantes. A arquitetura é capaz de propiciar espaços que transmitam sentimentos e sensações em seus usuários.

Para Milton Santos (1996) o espaço é entendido como um híbrido entre materialidade e sociedade, forma e conteúdo, fixos e fluxos, sistema de objetos e sistema de ações. Quando abordamos o tema espaço público é impossível analisa-lo de maneira isolada como um mero objeto, devemos levar em pauta tudo aquilo que cerca o assunto e aonde está inserido, devemos olhar para esses ambientes em diferentes escalas, procurar entender os processos de desenvolvimento metropolitano e como estes reagem a estes processos, para então chegarmos no momento presente e procurar entender a situação atual da cidade em que este espaço está inserido, e pontuar os problemas e crises em que tal cidade enfrenta. Os problemas e crises afetam diretamente estes locais, seja de maneira negativa ou positiva, que acabam sendo ótimos indicadores destes problemas, neles se manifestam os problemas e também florescem meios de superá-los.

São Paulo se apresenta como uma cidade rica de pluralidades, cheias de contradições e muito fragmentada, essa diversidade de conflitos é o que a torna a cidade tão complexa e instigante. Os espaços públicos também absorvem tais complexidades, fazendo com que sejam tão únicos, proporcionando diferente emoções, sentimentos e vivências tão singulares. Os espaços públicos possuem seu próprio “Genius loci” que por definição significa o espírito próprio de cada lugar, que carrega toda essência e cicatrizes de sua história, esses espaços levam consigo todo o peso de manifestos, intervenções e tipos de vida que por ali passaram. A história e o tempo desses lugares acabam se tornando grandes professores para a cidade e seus cidadãos, uma vez que podem nos servir muito bem de exemplos, para podermos seguir para um futuro em que queremos atingir.

 

 

Quando nos deparamos com os espaços públicos do centro da cidade se torna mais fácil perceber o “genius loci”, quanto mais velhos/antigos esses lugares forem, mais carregados de lembranças, história, e significados, podendo então avaliar e sentir o espírito desse lugar com mais clareza. O Zeitgeist, termo alemão que significa espírito da época, é capaz de medir a vida humana, quando nos deparamos com o tempo e história daquele local podemos ver quantos acontecimentos já passaram por ali, todas as épocas que já se passaram, quantas pessoas já passaram por ali, até então nós percebemos que assim como nossos antepassados nós também vamos passar, mas que estes lugares vão continuar a transmitir toda a história, e que o atual presente em um futuro breve acabará se tornando parte da história daquele local, por isso sempre quando olharmos para estes espaços devemos olhar com enorme respeito, como se estivéssemos olhando para os nosso antepassados.

As cidades contam histórias em suas ruas, no seu traçado, em seus prédios e espaços públicos. A história de alguns espaços públicos na atualidade encontra-se mais como um autorretrato da sociedade, do que como uma história propriamente falando. A “fuga” destes por certas camadas da sociedade, em preferência por se isolarem em seus enclaves fortificados denuncia que a cidade adoece. Se a cidade é uma construção coletiva por parte daqueles que a habitam, como essa construção poderia dar certo em um cenário onde o isolamento e o individualismo se acentuam? O medo aparece como aspecto fundamental relacionado ao afastamento dos espaços públicos.

 

Atualmente vivemos em um cenário de pandemia, onde medidas de isolamento social foram necessárias para evitar a proliferação da doença, desta forma espaços públicos encontram-se interditados. Um espaço que sempre esteve ali, que muitas vezes até poderia passar desapercebido, nos últimos meses de isolamento social não passou. Olhar da janela de casa aquela praça nunca foi tão interessante, olhar e entender que os espaços públicos alimentam nossas vidas, e nos fazem sentir vivos. Não pelo seu espaço em si, mas por todo um conjunto de significados que ele possui, as relações humanas de troca, conversa, eventos, esportes, cultura, um simples passeio com o cachorro, ou até mesmo admirar o pôr-do-sol, estes ambientes nos lembram as coisas boas da vida e sobretudo, eles oferecem qualidade de vida para os habitantes da cidade. Precisamos de uma pandemia para olhar pela janela e lembrar que nossa qualidade de vida está diretamente relacionada com a forma como construímos nossas cidades e nossos espaços públicos? Precisamos de tudo isso para entender que a solução de nos isolarmos em shoppings, prédios e clubes privados não é uma solução, e sim um afastamento de cidades mais democráticas e agradáveis?

Fortalecer espaços de convivência coletiva afeta diretamente a qualidade de vidas nas cidades, nos usos das ruas, na socialização e na pluralidade. Enquanto criarmos espaços “doentes” teremos sociedades “doentes” de preconceitos, de violência

A antiga praça Roosevelt, projeto concebido com ideais modernos possuía uma dinâmica diferente da atual, segundo o arquiteto Marcos de Souza Dias, “A Roosevelt era mais que uma praça. Era um sistema viário, edifício e viaduto” (4). Com esse conceito e a expectativa de representar a força modernizadora da cidade, os cinco andares da praça abrigariam estacionamento subterrâneo, centro esportivo, centro educacionais, polícia, lojas de souvenir, um centro cultural  (que não foi executado), um mercado distrital (trocado posteriormente por um supermercado. Antes do projeto de revitalização o espaço da praça atraia aspectos negativos da cidade como assaltos frequentes, usuários de drogas sendo um local perigoso, sujo, mal visto e mal cuidado, causando o fechamento de lojas, bares e restaurantes no seu entorno. Em 2012 após o projeto de revitalização a praça reabriu ao público com um espaço reestruturado e revitalizado. Atualmente ao caminhar pela Praça Roosevelt em São Paulo sinto o que é pertencer a uma cidade tão plural. Naquele espaço skatistas andam em meio a grupos de músicos, artistas do teatro, vendedores ambulantes, moradores de ruas, policiais, pessoas bebendo nos bares ao redor. A vida na praça e a vida na cidade acontecem cada vez que uma daquelas pessoas escolhe estar no espaço coletivo, vivendo, existindo e resistindo ao afastamento dos espaços públicos. Vale ressaltar que o desenho do projeto pode então fragmentar o espaço e as pessoas, ou então uni-los. A antiga praça Roosevelt era uma praça fragmentada em diferentes níveis e ambientes, ela não estabelecia uma conexão com a rua e a cidade. O projeto atual é o oposto do que foi proposto anteriormente, ela é dividida em poucos níveis e as pessoas compartilham do mesmo espaço. Desta forma a mudança em um único nível possibilitou a aproximação das pessoas, que agora dividem todas o mesmo nível da praça, compartilhando o espaço e interagindo mesmo que fazendo coisas diferentes. A intenção projetual em criar apenas um grande nível onde todas as pessoas compartilham esse espaço fez com que a praça atraísse o que São Paulo tem de melhor, a mais rica diversidade da grande metrópole. Para Jan Gehl (1), “a cidade vista de cima não faz sentido para as pessoas, que andam a cinco quilômetros por hora”. Assim, podemos dizer que a praça humanizou-se: ela oferece mais integração com as ruas e calçadas do entorno, eliminou as barreiras visuais, diminuiu o número de espaços fechados, tem mais árvores, bancos e mais acessibilidade.

 

“Fora da sua casa (o homem urbano) se abre ao espaço público e à experiência da pluralidade humana”
Olivier Mongin 2

 

Campo de Refugiados

Uma situação Provisória com Traços de Permanência

Texto por Talita Carrasco Carneiro

Apesar de se caracterizar como a era mais pacífica para a espécie humana, o conflito entre diferentes frentes de pensamento ainda é presente na atualidade, gerando guerras e desastres. Milhares de pessoas se tornam vítimas, mesmo que indiretamente, de confrontos que podem destruir países inteiros, deixando muitos sem lar. É essa a realidade de um refugiado, que se vê obrigado a deixar seu país de origem para salvar sua própria vida, e a de seus familiares.

Os campos criados para as pessoas que sofrem com esses incessantes conflitos tem caráter efêmero, ou seja, possui uma identidade emergencial e, como o nome sugere, passageira. Trata-se uma solução temporária para um problema teoricamente temporário; um local onde o refugiado se instala até que seja aceito dentro do país ao qual ele escolhe pedir asilo. Diferentemente de abrigos emergenciais para desastres naturais – onde as vítimas também perdem seu lar, mas não seu país, sua segurança ou seu direito de moradia – o campo de refugiados é criado para essa parcela que se vê obrigada a deixar seu país de origem, querendo ou não.

Aprofundamento nas questões que envolvem o homem e o lugar é essencial para a construção da ideia de abrigo e lar, e da capacidade de diferenciar o mesmo de uma ocupação provisória, de caráter efêmero. Afinal, como se identificar com uma situação de moradia aparente e tecnicamente passageira?  Como criar o vínculo habitacional que uma cidade natal oferece em um ambiente vazio de laços fraternais? O campo de refugiados é criado para funcionar de uma maneira específica, quase que autodidata. A influência cultural do refugiado acaba se tornando parte importante desse cenário, esse caráter neutro de raízes se modifica com o tempo.

A efemeridade, ou transitoriedade no sentido de ser um local de passagem, de um campo de refugiados tem se tornado uma importante questão na arquitetura. Tópicos como a disposição de um local de caráter tão passageiro pode ser capaz de dar o mínimo de segurança e conforto à uma pessoa que se encontra em momento de dificuldade. Programas, organizações e arquitetos de todo o mundo discutem sobre o tipo de abrigo que um refugiado deve receber. Qual sua tipologia? Como ele poderia deixar de ser tão neutro, mas ao mesmo tempo, como não ser o lar a longo prazo que um refugiado busca. Seria esse o novo lar do povo que perdeu sua terra? Questões essas, emergenciais atualmente, onde um espaço de tanta aglomeração pode não soar como seguro, saudável, confortável.

A maior parte dos campos de refugiados encontra-se na Europa e serve de asilo para habitantes do Oriente Médio, que se veem sempre em momentos de conflito em seus países, sejam eles políticos ou religiosos. É sabido que o povo do Oriente Médio é um dos que mais valoriza a sua terra, sua cultura e sua origem. A saída de seu país é algo que traz conflitos internos para essas pessoas, deixando-as mais desamparadas do que já se encontram, por não se identificarem com esse novo lar que lhes é oferecido.

Christian Norberg-Schulz diz em seu texto “O fenômeno do lugar” que a palavra habitar serve para nos referirmos às relações entre homem e lugar. Quando um homem “habita”, está simultaneamente localizado no espaço e exposto a uma série de características ambientais. O homem deve então orientar-se por esse local, reconhecê-lo e encontrar-se nele, para que possa “habitar” de forma plena.

A partir dessa reflexão, devemos nos perguntar quais são os desafios físicos e psicológicos que um refugiado enfrenta ao se deparar em um acampamento de abrigos provisórios, com outras milhares de pessoas que se encontram na mesma situação que ele. Qual o seu sentimento inicial? Como ela vai desenvolver seus laços afetivos com o lugar, com outros refugiados, com os voluntários, com os responsáveis pelo seu próprio conforto. Quando qualquer ser humano se vê em novo espaço, é comum que tome um certo tempo até que ele se torne familiar. As experiências de ambiente são diferentes, a temperatura, a brisa e até mesmo os raios de sol que batem naquela terra são encarados de forma diferente por  esse indivíduo.

Apesar de todas as estranhezas, um abrigo pode se tornar o limiar entre a vida e a morte no caso de refugiados. Dois pesquisadores de ciências políticas e desastres da Universidade de Londres, Elizabeth Babister and Ilan Kelman citam em sua tese a importância dos abrigos emergenciais para refugiados, como a necessidade por abrigos se torna fundamental em uma situação de emergência:

“O abrigo pode ser a chave para salvar uma vida ou prolongar a sobrevivência. Olhar para o abrigo como um direito fundamental humano é olhar para situações desesperadoras, porque quando pessoas perdem as suas casas, elas perdem o único lugar que é essencialmente seguro. Portanto, quando um indivíduo não tem abrigo, a situação pode ser considerada uma crise” (BABISTER, E e KELMAN, I O processo de abrigos emergênciais aplicados em casos na Macedônia e Afeganistão em tradução livre. 2002.)

Na tese, ambos deixam claro a importância da conexão pessoa-lar, e como o meio a sua volta pode influenciar na sua saúde e bem-estar dos desabrigados. A partir dessa premissa, o refugiado cria daquele local neutro de laços, um lar. Apesar de ser um espaço temporário de refúgio, seus moradores o ocupam, erguendo bandeiras de sua terra natal, criando lugares familiares a si mesmos. Essa conexão é essencial para a sobrevivência de uma pessoa tão ligada à sua terra, pela necessidade de chamar o local que ocupa de lar. Mas então, por que um campo de refugiados possui essa imagem de desolação e esquecimento quando buscados em nossas mentes?

Quando imaginamos um campo de refugiados não nos vem na mente um lugar confortável onde pessoas vivem calmamente suas vidas. Mas sim um local de passagem onde alguém se demorou demais a sair, e acabou se instalando ali. Um lugar que caracteriza a sua efemeridade pelas suas construções baratas e tendas espalhadas pela paisagem a perder de vista. Um local que não recebe a atenção necessária quanto a qualidade de vida, salubridade, regularidade de oferta de recursos e sofre de superlotação.

Onde fica então a questão de habitar levantada por Schulz? Quais são as relações interpessoais dos que se veem obrigados a se instalar em um campo de refugiados? O que os traz paz de espírito e conforto? O rompimento do relacionamento pessoa-lar pode trazer uma série de consequências na vida de pessoas que sempre se viram ligadas ao lugar onde vivem. O espaço tem uma influência grande na formação mental e psicológica, e se ver obrigado a sair do seu local de criação a força pode se tornar traumatizante.

Olharemos aqui para o caso do campo de refugiados de Zaatari, localizado na Jordânia. É um dos maiores campos, com população de 80.000 refugiados (2019), prioritariamente vindos da Síria. O caso de Zaatari acaba sendo particular por conta de do relacionamento dos refugiados com os responsáveis pela organização do campo. A urbanização no sentido de ocupação do território por parte dos refugiados tornou-se questão política para com a organização que mantém o campo em funcionamento.

Explicando melhor: todo campo de refugiados possui uma equipe de centenas de pessoas que fazem com que o espaço funcione, com normas e deveres para com os ocupantes dele. Esse sistema funciona e faz com que o campo se mantenha, com os insumos que lhe são oferecidos por partes de organizações maiores que financiam esses espaços. Quando a população de um campo de refugiados, vindoura em sua maioria do mesmo país, com os mesmos costumes e tradições, começa a se assentar nesse espaço, instaurar sua cultura e, de certa maneira, “urbanizar” o campo, para torna-lo algo além de um simples abrigo emergencial, as chances de todo o sistema no qual ele funciona quebrar é alto, pois a equipe que possui o papel de autoridade deixa de controlar a maior parte das transações.

Até que ponto a organização dos campos de refugiados, nesse caso de Zaatari, é capaz de influenciar na ocupação e no relacionamento do refugiado com o espaço que ele habita? Alayn Dalal, em seu artigo, cita os problemas nas questões de urbanização desse campo como sociopolíticas. Urbanização aqui no sentido de ocupação do território como algo além de um espaço de apenas passagem, mas sim de habitar, no sentido fenomenológico da palavra, na sua essência.

“A ideologia humanitária foi traduzida no terreno como uma distribuição padronizada de unidades e políticas de abrigo. Como também se pode argumentar que isso se relaciona diretamente com a necessidade de fornecimento rápido de serviços durante emergências, as estratégias implantadas estão levando a criar uma face homogênea que é frequentemente criticada por camuflar a diversidade, a cultura e o caráter dos refugiados.”(DALAL, A. Camp Cities Between Planning and Practice. Maping the Urbanisation of Zaatari Camp. Em tradução livre. Pg. 78)

O caráter de abrigos emergenciais tem gerado interesse entre arquitetos e designers que acreditam na arquitetura efêmera e eficiente. O número de entidades focadas na oferta de abrigos à refugiados no mundo é grande, e a maioria delas tem como objetivo prover uma espécie de lar mais acolhedor a essas pessoas, além de mudar a paisagem desoladora dos campos. Uma ideia de lar, mesmo que efêmero, para que refugiados tenham a oportunidade de se ver seguros e confortáveis e possam, de alguma maneira, mesmo que rasa, habitar.

A empresa IKEA projetou um tipo de casa de montagem rápida e barata com o objetivo de atender locais onde não há abrigo suficiente para todos. O nome do projeto é Better Shelter e o mesmo foi vencedor de um concurso de arquitetura efêmera para refugiados em 2014. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) tem parceria com a empresa, facilitando a rápida distribuição para a população refugiada. Esse é um exemplo prático e simples de arquitetura efêmera que busca de certa maneira, melhorar a condição de ocupação de um refugiado visando a economia de materiais e investimentos, pela parte dele

Ainda, porém existem aqueles que acreditam que a construção de lares temporários pode se tornar uma espécie de perda de tempo e dinheiro. Na teoria, campos de refugiados são lares provisórios àqueles que fogem de guerras, epidemias ou crises. Mas, na prática, existem campos com mais de 25 anos de existência, maiores que cidades inteiras. Mais uma vez a situação em Zaatari pode ser encaixada aqui que apesar das dificuldades, vem caminhando lentamente para o status de assentamento permanente, principalmente devido ao seu tamanho e influência.

Em entrevista ao periódico Dezeen, o arquiteto Alejandro Aravena diz que seria mais eficiente oferecer um tipo de estrutura básica, mas durável, que possa ser completa pelo próprio residente como lhe for melhor. O arquiteto é conhecido pelos seus projetos sociais, que visam subsidiar moradia à parte mais carente da sociedade, que não possui capital suficiente para a compra de uma casa ou de um terreno. Quinta Monroy é um de seus projetos mais importantes e referenciais. O projeto possuía capacidade baixa de investimento por parte da população, permitindo que cada unidade habitacional tivesse apenas 30m². A partir dessa área, Aravena “reserva” um espaço para expansão de cada unidade, de acordo com a prosperidade de cada família.

Oferecendo essa estrutura básica, com possibilidade de expansão, Aravena permite a cada ocupante a chance de se conectar com o espaço, gerando valores para com o ambiente, o reconhecendo e o habitando de maneira consciente. Kilian Kleinschmidt, ex-diretor do campo de Zaatari e funcionário do ACNUR apoia a ideia de urbanização desse campo. Em entrevista ao periódico Dezeen, ele explica que o refugiado, ao chegar no campo, recebe uma resposta automática militarizada, sobre onde deve se abrigar, sob a ideia de que logo sua situação se regularizaria, o que acaba levando mais tempo que o esperado.

Azraq é um campo de refugiados próximo de Zaatari, com população de 40.000 habitantes que vem sido foco de estudos em projetos de reurbanização, principalmente por seu caráter militarista. Em seu artigo, Ruba Bdair cita soluções passíveis ao campo, menos provisórias e mais solucionadoras da questão do abrigo temporário:

 

Um estudo de caso muito interessante localizado em uma zona de clima quente e seco semelhante é a vila de New Gourna, em Luxor, Egito, que foi projetada e construída pelo arquiteto egípcio Hassan Fathy. Aquela vila ganhou atenção e interesse desde que Hassan Fathy aplicou princípios e estratégias de arquitetura passiva para criar um microclima confortável no projeto de uma habitação multi familiar de baixo custo para os moradores da região. O contexto rural da vila e o clima quente e árido são semelhantes ao contexto e clima do campo de refugiados do Azraq. Além disso, as principais características da vila de New Gourna de repetir os ambientes urbanos e arquitetônicos tradicionais e o uso efetivo dos materiais e técnicas de construção locais, bem como sua extraordinária sensibilidade aos problemas climáticos, tornam um ótimo estudo de caso no campo da sustentabilidade humana. assentamento, que orientou grandemente a tomada de decisão no redesenho da vila do campo de Azraq. (BDAIR, R. Rethinking The Design Models of Refugee Camps, em tradução livre. Pg. 19)

Se pensarmos na ideia de assentamentos permanentes, como devemos enfrentar a imagem que nos vem a cabeça? Philip Bess, em seu texto “Comunitarismo emotivo: duas visões antagônicas sobre ética e arquitetura” comenta que a comunidade mais importante ao homem é a cidade. Sua finalidade principal seria proporcionar a melhor condição de vida possível para seus cidadãos. A partir desse ponto de vista, se um campo como Zaatari se urbanizar e passar a status de cidade, se deve levar em conta a sua população, as suas culturas, seus costumes e tradições, assim como Fathy fez em New Gourna, no Egito. As normas sociais e éticas partem do costume da população atreladas ao espaço que ocupariam agora de maneira mais plena.

O principal objetivo de um campo de refugiados é acolher essas pessoas sem lar e abrigo, como foi citado no início desse texto, mas será que esse caráter provisório é tão necessário? Um abrigo deve trazer mais do que sobrevivência, mas inclusive, gerar uma a sensação de pertencimento a um lugar, a um sistema de convivio com milhares de outras pessoas nas mesmas situações difíceis. A sensação de pertencimento a um lugar pode trazer benefícios e gerar uma ideia de cuidado pelo local ao qual está alocado, mesmo que seja provisório.

Esse relacionamento com o lugar, de identificar-se com o meio, criar raízes e memórias com as pessoas com as quais se convive é capaz de criar uma sensação de pertencimento. Algo que foi retirado do refugiado quando se viu obrigado a deixar seu lar. A cidade, como diz Bess, se torna então a comunidade mais importante para o homem. Um sistema de vida em conjunto onde todos partilham da sede de ocupar e reconhecer-se em determinado local, de maneira livre e segura.

Referências:

https://www.dezeen.com/2015/11/30/alejandro-aravena-humanitarian-architecture-refugee-tents-waste-money-emergency-shelter-disaster-relief/

https://www.dezeen.com/2017/12/18/dont-design-shelter-refugees-kilian-kleinschmidt-rene-boer-good-design-bad-world/

https://www.archdaily.com.br/br/804366/better-shelter-da-ikea-recebe-premio-de-design-of-the-year-2016

 

BABISTER, Elizabeth; KELMAN, Ilan. The emergency shelter process with application to case studies in Macedonia and Afghanistan. Journal of Humanitarian Assistance, v. 2002, p. 1-65, 2002.

DALAL, A. Camp Cities Between Planning and Practice. Maping the Urbanisation of Zaatari Camp. Em tradução livre.

BDAIR, R. Rethinking The Design Models of Refugee Camps, em tradução livre.

BESS, P. Comunitarismo emotivo: duas visões antagônicas sobre ética e arquitetura. RETIRADO DE Nesbitt, K. (2008). Uma Nova Agenda Para A Arquitetura. Editora Cosac Naify.

NORBERG-SCHULZ. O Fenômeno do Lugar. RETIRADO DE Nesbitt, K. (2008). Uma Nova Agenda Para A Arquitetura. Editora Cosac Naify.

Ma

“.”

As perguntas mais simples são as mais difíceis de se responder. Em todos os ramos do conhecimento é possível encontrar perguntas como esta: na filosofia, “Quem somos?”, na arte, “O que é arte?”, na antropologia, “Da onde viemos?”, e para a Bienal de Veneza de 2020, “Como viver juntos?”

Ao pensarmos na atual situação que o mundo se encontra devido à pandemia do Covid 19, onde milhares de pessoas estão presas em suas casas de quarentena, sem contato social ou até mesmo com os recentes protestos do “Black Lives Matter”, ocorridos em consequência à morte de um homem negro devido à truculência policial e ao racismo, o tema “Como viver juntos” se torna irônico.  

Entretanto, esse tema é muito mais profundo do que aparenta. Ele não especifica os sujeitos da ação. Quem ou o que está convivendo com o que? Sendo assim, uma discussão mais profunda não apenas de como nos relacionamos com o próximo, mas, por exemplo, como a arquitetura se relaciona com a paisagem? Como a mesma se relaciona com o homem moderno? Como nós nos relacionamos com a paisagem que nos cercam? E também, como vivemos com nós mesmos?

A resposta, talvez, seja Ma. 

Para tentar introduzir ao conceito do Ma, o exemplo mais ilustrativos são os filmes de Hayao Miyazaki. Além da animação e das histórias fantasiosas, uma de suas marcas são às cenas de pura contemplação, geralmente situadas no meio do filme. O crítico de cinema Robert Ebert entrevistou o diretor japonês em 2002, onde em certo ponto da conversa, o crítico elogiou o “movimento gratuito” nas obras de Miyaki. Ou seja, quando em certos momentos da animação, toda a ação se cessa e mostra-se momentos em que não acontece nada de especial, tal como o personagem apenas sentando e comendo, pegando um trem, observando um córrego ou simplesmente suspirando. Ebert ainda continua: “Em vez de todo momento ser ditado pela história, às vezes os personagens vão apenas sentar por um momento ou fazer algo extra… Não para avançar a história mas apenas para dar uma sensação de tempo, espaço e de quem eles são”.  Uma das cenas mais famosas que nos vem a cabeça quando refletimos sobre esse comentário, é a do filme “A viagem de Chihiro” quando a personagem simplesmente pega um trem e mostra-a apenas sentada ao lado de seus companheiros, sem fazer qualquer coisa de especial. Tal cena é puramente contemplativa ao espectador, e o nome dessa contemplação, ou melhor, desse vazio de informações, é Ma. 

 

Ma.

Desde a revolução Neolítica, há cerca de dez mil anos atrás, quando a humanidade passou a ter um estilo de vida agrícola e sedentário, possibilitou assim, o aumento da população e consequentemente o surgimento das primeiras aglomerações urbanas, sendo Úruk considerada a primeira cidade do mundo.

A aglomeração urbana, seja ela qual escala for, é o grande sol por onde giram todas as ações necessárias para o funcionamento de uma sociedade. Trabalho, entretenimento, saúde, comércio, alimentação… Tudo se junta, formando uma aglomeração urbana, seja ela um castelo, uma praça, uma avenida, a sede de uma fazenda ou o centro de uma cidade. 

Seguindo esse raciocínio, espaços ao mesmo tempo que são formados por essa sociedade, eles também formam a sociedade. Consequentemente, através dessa simbiose, surgem os dogmas, às tradições, os ritos as crenças, a linguagem e por fim, a arquitetura. Ainda por esse raciocínio, arquitetura nada mais é do que uma linguagem utilizada por essa sociedade a fim de entender o abstrato, no caso, o espaço em si. 

Se o espaço é um objeto abstrato e cada sociedade o traduz levando em consideração sua própria cultura, não é de se estranhar às diversas reações do mundo em relação à quarentena. Como dito antes, no ocidente, a cultura tende a ser mais focada nas relações interpessoais, nos fazendo olhar mais para o mundo exterior, sempre pensando no verbo “possuir”, para só então “ser”. Baseado nisso, a relação que temos com o espaço, ou melhor dizendo, nosso “Genius Loci”, não poderia fugir muito desse conceito: criado a partir da noção da perspectiva renascentista, a natureza deve dobrar-se perante o homem, consideração derivada a partir da noção antropocentrista, quando o espaço eo tempo são apenas formas de se explicar um mundo racional, controlado pela noção humana. Tal conceito também é enraizado principalmente pelo cristianismo o qual prega que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Seguindo esse fio, é como se nos colocássemos como os seres mais próximos ao divino, portanto todos os outros seres e a própria natureza se tornam inferiores, devendo portanto, se submeter à nós. Resumidamente, a perspectiva, ou a noção do espaço ocidental, é uma uma forma submetida a geometria, ou a razão, através do eixo de visão único e centralizado do observador, sendo o vazio, algo desprezado e indesejado do espaço. 

Entretanto, eis que chega um vírus, um ser invisível à olho nú e infinitamente menor que um ser humano, para mostrar que definitivamente nós não somos tão divinos assim. No Brasil e também nos EUA, foram organizados diversos protestos anti quarentena, geralmente feitas por grupos conservadores, alegando que esta medida está tirando seus direitos de ir e vir, assim como o livre arbítrio. Além desses grupos, às pessoas que ficaram em casa estão lentamente enlouquecendo, angustiados ao não terem perspectivas a respeito de seus trabalhos, seus projetos e afins. Porém, no mais íntimo de todas essas angústias, no sublime dessas pessoas, o pensamento mais enlouquecedor é a quebra do nosso espaço antropocêntrico, ou seja, nossa impotência perante esse abstrato que chamamos de espaço.

Dentro de nossas casas, somos obrigados a perceber a quebra do nosso paradigma do espaço ocidental, nossa impotência perante os outros seres e a natureza/espaço em si, e também somos obrigados a olhar para dentro de nós mesmos e perceber um determinado elemento, o qual como dito anteriormente, é desprezado pelo espaço ocidental: o vazio. Desde o aprendizado na pré escola, observa-se já desde cedo, a dificuldade de um professor ao explicar o que é o número 0 para os alunos. Ao ensinar matemática, o professor faz os alunos contar balinhas, contar os dedinhos, ao ensinar soma e subtração, a mesma estratégia, acrescentam-se maçãs, tiram-se lápis, tudo explicado com objetos, coisas concretas e palpáveis e principalmente, visíveis. Mas e o zero? Se o zero é a total ausência de balinhas, ou seja, algo que não podemos apalpar ou até mesmo ver, assim como um vírus, então como ele existe? Como a nossa razão cartesiana e iluminista  explica algo que não conseguimos tatear ou ver, apenas sentir, utilizando a nossa intuição?

 É interessante perceber como a nossa noção de espaço ocidental, ou sendo mais técnica, nosso Genius Loci, influência não somente o campo da arquitetura mas também o nosso íntimo. Até mesmo a fé do ocidente, sendo em maioria a fé cristã, ensinada desde cedo que é algo invisível e apenas sentido, quando na verdade, os fiéis precisam ver para crer: ao construir uma igreja, é necessário colocar o altar com a imagem de cristo ou ao menos um crucifixo, geralmente no final do corredor central, sendo rodeado pelas imagens do trajeto de cristo, a Via Sacra, de santos (no caso da católica), para que os fiéis olhem para essas imagens para só então sentir. É necessário termos uma bíblia e um crucifixo no pescoço para tocarmos e então conseguir raciocinar a nossa fé, para assim, sentirmos. A arquitetura de uma igreja, assim como a fé em si é a melhor tradução do Genius Loci Ocidental. 

Em contrapartida, do outro lado do Pacífico, o significado da palavra “Espaço” é outro. O Genius Loci oriental, em especial o japonês, se baseia justamente no conceito que é desprezado pelo ocidente: o vazio. Existe um ditado, dito pelo arquiteto Kawazoe Noboru o qual tenta definir em poucas palavras o conceito do vazio japonês : “Se tentar conceituar o Ma (間/ vazio), o único destino é o Ma (魔/ inferno) e não alcançará o Ma (真/ verdade).” Traduzindo, a frase alerta para o fato de que ao tentar conceituar o Ma pela lógica ocidental, perde-se o caminho que leva a atingir a sua verdadeira essência. Ainda segundo Noboru, o Ma é algo o qual não se permite definir, chegando ao ponto de que nem os próprios japoneses sabem explicar exatamente o que ele é, pois afinal, o Ma é algo que nem chegou a ganhar uma existência e palpável, como nós ocidentais conhecemos, ele é uma simples possibilidade.  

Logo, ao tentar começar a explicar o Ma, deve-se primeiramente abandonar quaisquer conceitos cartesianos, deixar a razão de lado para simplesmente sentir. A espacialidade Ma é um entre espaço o qual se pressupõe uma espécie de ação onde pode-se manifestar como um intervalo, passagem, pausa, silêncio e etc. A própria existência do Ma pressupõe uma divisão e intermediação, mas também é uma relação e conexão, onde às noções de fronteiras se tornam uma constante. Segundo o semiótico Iuri Lotman, a fronteira é uma interface sígnica, onde há uma passagem tradutória de uma linguagem para a outra, se tornando desse modo um lugar de coexistência dos elementos internos e externos da semiosfera. Seguindo esse raciocínio, o Ma pode-se entender como uma fronteira, separando e ao mesmo tempo atando ambos elementos que intermedeia, criando assim uma zona de coexistência.  

Para entender melhor, analisaremos um conceito budista denominado “Kû”. Respectivamente, o “Kû” é a principal teoria da Escola Madhyamika a qual defende que o mundo é formado por Kû e Shiki (vazio e forma). Dessa forma, para que a forma exista, deve haver a não forma, levando assim à impermanência das coisas, dando à forma e a não forma o mesmo peso. Resumidamente, o “Kû” é a coexistência dos opostos, tanto da forma como do vazio, sendo eles às partes que constroem o mundo em si. Trazendo isso de uma forma mais “terrena”, podemos dizer que o Ma espacial é o “Kû” traduzido de forma “arquitetônica”, por assim dizer: como dito antes, o Ma é um espaço de transição, coexistindo nele quatro contrapostos, de um lado o vazio/ o invisível e do outro a forma/a poesia, a qual apesar de não vermos, nós sentimos.  

 

Ma Transitório 

Dessa forma, concluímos que  o espaço cartesiano, racional e estéril está inserido na sociedade ocidental, influenciando não somente em sua forma de pensar, mas também em sua arquitetura, sendo mostrada nos frontões gregos, nas igrejas, nos jardins palacianos e posteriormente, consagrado na arquitetura moderna. 

Por outro lado, também concluímos que o espaço oriental é formado por conceitos mais abstratos, como uma poesia, tal como a sombra, o vazio, o intervalo… Conceitos os quais arquitetonicamente falando se traduzem tanto na arquitetura de um Templo Xintoísta como na própria arquitetura vernacular nipônica. Para ilustrar, primeiramente a espacialidade Ma como “Transição”, iremos analisar o Templo Xintoísta de Isé.

 Toda a cenografia de um templo xintoísta, tem como principal conceito o ato de “preparar” de forma progressiva o visitante para algo novo, para o divino. Neste caso, a espacialidade Ma pode se encaixar como um tempo de transição onde o espaço percorrido corresponde ao tempo que se leva para o deslocamento de um ponto A para um ponto B, criando assim, uma tensão entre o espaço e o tempo. Essa mesma tensão, consequentemente, gera um estado de espírito propício para o estabelecimento do rito, como ocorre em Ise. 

O Santuário de Ise se localiza na província de Mie, em meio a uma vasta floresta de ciprestes japoneses (kinoki) denominada como Ise Jingu. A primeira notícia que se tem deste templo se dá no ano 4 a.C e o segredo de sua longevidade é a destruição e reconstrução dos dois templos principais, Geku e Naiku, além da Ponte que dá acesso ao templo, fazendo deste ato um grande ritual denominado  “Shikinen Sengu”, sendo o último realizado em 2013. Esse ritual remete principalmente ao ciclo de vida, morte e renascimento, como uma espécie de caminho cíclico entre esses pontos. Uma transição, fazendo uma breve alusão ao Ma. 

Nos atendo mais ao aspecto arquitetônico, o santuário se utiliza de uma construção fenomênica como uma compreensão única do espaço tempo, sendo muito exemplificada no Sandô (espaço de peregrinação que vai desde a entrada do Torii até a frente do santuário principal). O templo, como já dito antes, é composto por duas partes: Naiku (santuário interno) onde se venera a Kami do Sol, Amaterasu Omikami, e Gekû ( santuário externo), onde se venera o Kami dos cereais, Toyouke no Omikami. 

Ao chegar em Naiku, o visitante atravessa o primeiro Ma espacial, sendo representado por um portal Torii, o qual introduz logo em seguida ao segundo Ma, uma ponte curvilínea de madeira (chamada de Ponte Uji) medindo aproximadamente 100m a qual cruza o rio Isuzu. Esses três elementos, o portal, a ponte e a água, são fronteiras iniciais entre a zona terrena e a zona divina. Ao passar pelo Torii e passar pela ponte, o transeunte passa por uma transição ao deixar a cidade, a estrada e o carro para trás da ponte e logo a frente, avista um vasto bosque, quase que etéreo, enquanto escuta o som da correnteza do Rio Isuzu, logo abaixo. 

Após a travessia da ponte, encontra-se um caminho de pedregulhos onde os passos são denunciados através do barulho das pedras, além de notar-se uma dificuldade ao caminhar sobre o novo território. Essa dificuldade é uma estratégia para enfatizar a mudança e a diferença de território, sendo a mesma, reforçada quando o transeunte se depara com uma Fonte de Ablução, onde se lavam a mãos e a boca como mais uma camada de purificação, para se adentrar ainda mais em território divino, indicando cada vez mais a proximidade do mesmo e assim, criando cada vez mais uma “tensão”. Por fim, no final da caminhada, existe uma escada de pedra para alcançar o santuário, propriamente dito.  

Para explicar toda a poesia do “galpão” do santuário, deve-se entender que para a fé xintoísta, a palavra “Deus” e “Kami” não são exatamente sinônimos. Para os fiéis os kamis são forças da natureza os quais podem se manifestar em qualquer lugar e em qualquer objeto. No interior deste “galpão”, existe nada mais nada menos do que o vazio puro, e é neste vazio (ou seja neste espaço Ma) que a divindade se manifesta. Ao chegar no santuário em si, o visitante não é permitido entrar na construção, pois este é um objeto para ser visto de longe, entre diversas camadas de cercas, denominadas Kekkai, às quais funcionam como barreiras físicas e visuais, delimitando o espaço do divino. 

Resumindo, a espacialidade Ma neste local, é o próprio caminho até o santuário em si (chamado de Sandô), sendo este composto por diversas camadas: o portal Torii, a ponte Uji, os caminhos tortuosos de pedregulhos, a zona da ablução, as escadas e por fim os Kekkai, que estabelecem a última fronteira entre o peregrino e o Kami. O Ma neste caso, determina uma estética estrutural dos objetos existentes em reação ao seu entorno ao mesmo tempo que prepara, ou melhor transmuta, o visitante para que este possa alcançar um estado determinado de serenidade para enfim, encontrar o sagrado. 

Toda a experiência que se vivencia no templo, leva o visitante a descobrir por si próprio a espacialidade existente no local e assim, transforma o espaço físico em espaço perceptível. Isto é, a espacialidade é estabelecida através da contato entre o corpo e o “lugar”, sendo a palavra lugar um espaço qualificado que se constrói através da confluência entre a ação do homem e a funcionalidade da arquitetura. Segundo o geógrafo Milton Santos, “A ação qualifica o espaço e o transforma em lugar”. 

 

Se aprofundando um pouco mais, esse tipo de espacialidade Ma transitória, pode ser melhor explicada através dos estudos do arquiteto Maki Fumihiko a respeito do conceito do Oku. Segundo Fumihiko, Oku, é mais do que simples simples peculiaridade na cultura japonesa, é uma profundidade oculta a qual é alcançada através da sobreposição de dobras espaciais, tal como uma cebola, ou um labirinto por exemplo: o ato de se deslocar por várias camadas até por fim chegar-se ao centro (Oku). O arquiteto ressalta que os japoneses em geral tendem a sentir atraídos não somente pelos espaços labirínticos, mas também pelo o que se esconde no centro. O galpão do santuário de Ise, por exemplo é cercado por quatro camadas de muros (os Kekkai) tendo eles a altura do ombro de um ser humano, indicando assim o nível de importância do objeto no centro (no caso, o Kami) e o quão profundo esse Oku é. O arquiteto finaliza, alegando que para os japoneses o clímax não é o ponto de chegada, mas sim a busca, o ritual e o drama que levam à esse ponto de chegada.  A espacialidade Ma, portanto, é a jornada até o Oku, a qual, como toda jornada, transforma quem esteja passando por ela. 

 

 

Ma intervalar

Segundo o crítico Kojiro Yuichiro, o Ma na arquitetura tradicional japonesa, tem três significados: Espaçamento linear entre dois pilares, área formada por quatro pilares, recinto.  Através desses significados, nota-se que o Ma significa simultaneamente um espaço unidimensional, bidimensional e tridimensional. Mais especificamente, um Hitoma (traduzindo, 1 Ma) é o espaço localizado entre quatro pilares, já um Futama (2 Ma) é o espaço entre seis pilares (correspondendo a 2 Hitoma), Mima (3 Ma) corresponde a oito pilares, e assim por diante. Tais medidas espaciais são bastante antigas, sendo o Futama, por exemplo, muito encontrado na arquitetura do Palácio Imperial de Kyoto, construído na era Heian (794- 1192 dC). Entretanto, elas só foram realmente padronizadas com a introdução do Tatami, sendo suas dimensões de 1,8 m X 0,9m aproximadamente. 

Ao procurar Ma no Google, a primeira definição que se encontra é a de que Ma é um espaço de um Tatami, em geral desprovido de móveis, portando um “vazio” no espaço físico o qual possui a possibilidade de se transformar em vários ambientes, tal como a pesquisadora Lucrécia D´Alessio Ferrrara em seu livro, a estratégia dos signos : “O espaço contínuo é aquele não distintivo e heterogêneo e é, por isso, capaz de abrigar inúmeras funções.” Logo, o espaço do Ma Intervalar, se trata simplesmente de um espaço neutro, com possibilidade de transformação, como um espaço em fluxo. 

Na arquitetura de uma casa japonesa, por exemplo, as divisórias de um espaço são extremamente variáveis, possibilitando essa flexibilização do ambiente, entre os elementos dessas divisórias estão: biombos, cortinas de bambu e painéis de correr podendo ser opacos (chamados de fusuma) ou translúcidos (chamados de shôji). A partir destes elementos, a espacialidade Ma pode se transformar em diversas formas a partir de um espaço tempo intervalar de disponibilidade para mutação. Por exemplo, um mesmo espaço medindo cerca de quatro Tatami e meio, (aproximadamente 2,7m X 2,7m) pode se transformar tanto em um dormitório ao estender um Futon, como em uma sala de estar e de jantar, simplesmente ao arranjar um Ozen (uma mesa baixa e dobrável) e ajeitar as almofadas zabuton. 

Ao contrário do ocidente, onde todas às funções já são pré estabelecidas desde o papel, na arquitetura no leste da Ásia no geral, não existe uma delimitação ou funções pré estabelecidas para o espaço privado, principalmente na arquitetura tradicional residencial. Ao colocar por exemplo, um biombo em um ambiente, entendia-se como um sinal muito sutil de que o território por trás deste era privado, portanto apesar do biombo funcionar muito bem como barreira visual, não se pode dizer o mesmo de seu isolamento acústico, entretanto era questão de educação respeitar a privacidade e fingir que nada se escutava. Um fato parecido ocorre também com os painéis translúcidos (Shôji) os quais filtram a luz, deixando- se perceber apenas às silhuetas, fazendo com que os observadores do lado oposto interpretem a situação de N maneiras. Repleta de dúvidas e interpretações, a cultura japonesa (logo, sua arquitetura) exibe um louvor à sombra oculto em seu cotidiano. 

 Outros elementos arquitetônicos presentes na concepção de uma casa japonesa também são personificações puras do Ma intervalar. Entre eles, o Engawa. Primeiramente, o Engawa é o espaço que se forma abaixo do Hisashi, ou seja, do prolongamento da cobertura. Tal espaço tem uma profunda importância não apenas na arquitetura nipônica, mas também em todo o Sudeste Asiático, pois serve como aparato de controle climático impedindo a entrada direta dos raios solares e das chuvas fortes durante o verão. O Hisashi, juntamente com o Genkan, são aparatos produzidos para que se produza a penumbra no interior da residência. 

Na maioria das vezes, o Engawa é diferenciado pelo uso de pilares mais finos e geralmente quadrados, contratando com os dos ambientes internos, que eram grossos e circulares. Esse espaço funciona basicamente como um corredor, construindo um espaço intervalar (logo, um Ma) entre o ambiente externo e interno. Seguindo esse raciocínio, cria-se portanto, uma espacialidade ambígua, pois o Engawa pode ser considerado como um ambiente interno, já que possui uma cobertura, mas também pode ser externo, pois além de possuir uma vedação fronteiriça (o Shôji), se distingue também pelo seu piso de madeira em contraste com o Tatami, dos ambientes internos. 

Entretanto, essa ambiguidade característica do próprio Ma, se estende para além da discussão de ambiente interno ou externo. Seu uso, por exemplo, é misto, podendo ser usado para acomodar visitas, um espaço para as crianças brincarem, um lugar para os idosos tomarem sol ou ainda onde uma família se refresca durante uma noite de verão. O Engawa, portanto, é uma espécie de ambiente interno mas invadido por elementos externos, tais como o sol, vento e a paisagem exterior. Neste mesmo lugar, cria-se portanto, uma zona de conexão, um terreno rico de possibilidades de ações, sendo assim, um Ma. 

 

Ma coexistente

Por fim, se o Ma é um espaço o qual ao mesmo tempo que é intervalar, conector e transformador, podemos dizer, que o Ma, portanto, é um espaço de coexistência. Tendo em mente o tema da Bienal de Arquitetura de Veneza 2020, “Como viver juntos?”, de qual coexistência estamos discutindo? A resposta mais imediata seria a coexistência entre pessoas, é claro, mas em situações onde isso não é possível, como por exemplo a atual situação da pandemia do Covid 19, onde o mundo se encontra afastado em quarentena, é possível pensar que essa coexistência discutida não limite apenas à pessoas, mas também da coexistência entre cheios e vazios, interno e externo, arquitetura e paisagem, ou seja, Ma. 

Todos os exemplos de Ma citados anteriormente tratam-se de uma arquitetura extremamente típica e milenar japonesa, nos dando a impressão de que o Ma, é um tipo de espacialidade que se manifesta apenas na arquitetura do antigo Japão, portanto não possuindo um espaço para a mesma nos dias atuais. Mas a partir das obras do arquiteto nipônico Tadao Ando, é possível perceber que não apenas existe um espaço para o Ma, como existe na verdade, todo uma “assinatura arquitetônica” embasada no Ma. 

Ando traz a tona o Ma intervalar como o Engawa e o Ma transitório, tal como o Sandô como uma comunicação entre Construção e Natureza. Segundo o crítico de arquitetura Matsuba Kazukiyo, o conceito que reforça essa coexistência entre a arquitetura e a paisagem é o Kei.  Em seu livro, “Ando”, onde analisa as obras de Tadao Ando, Kazukiyo cita o Kei como um dos principais partidos do arquiteto, já que consiste na concepção da arquitetura em si como um provedor de aberturas e ângulos para que então, possa se contemplar a paisagem, ou seja, o Kei. Desse modo, a arquitetura se torna um meio que possibilita o estabelecimento de relações, ao invès de ser meramente material. Portanto, a pergunta “Como viver juntos?” ganha uma reposta a partir dessa ideia de se ter a arquitetura em si, não como apenas um suporte, mas como um sujeito da interação e formação de vínculos comunicativos em especial, entre a Arquitetura, a Arte e a Paisagem. 

Para ilustrar a maestria de Ando no diálogo entre arquitetura e paisagem (e ouso dizer, entre a arte também), analisaremos duas de suas obras onde esse diálogo é muito evidente. A primeira, chamada de Azuma House, localizada no bairro de Sumiyoshi em Osaka, trata-se de um lote de 64,7m² onde Ando substituiu uma das três casas geminadas existentes, chamadas de Nagaya, uma tipologia de casa popular do período Edo ocupada geralmente por comerciantes e artesãos, localizadas nas periferias e sendo muito estreitas e compridas. O Nagaya de Ando possui 3,6m de largura e 14,54 de profundidade e seu volume consiste basicamente em dois volumes concretados com um vazio entre eles. Tal vazio é o que Ando chama de “Pátio de Luz” , o qual separa a sala de estar , em uma ponta, da cozinha, sala de jantar e banheiro, na outra ponta. Esse intervalo entre os blocos é uma releitura de um elemento presente nas Nagaya tradicionais, chamados Tsuboniwa, os quais se tratam de pequenos jardins dentro das casas urbanas do período Edo. 

Segundo o próprio arquiteto, esse vazio “É uma estratégia para introduzir a natureza no interior da residência” e ao mesmo tempo, esperava que “esse espaço branco e recortado se tornasse um microcosmo com uma profundidade infinita, através da intervenção abstrata da natureza em forma de luz e vento”. Neste espaço existe uma escada a qual leva ao segundo pavimento e também se liga à uma passarela a qual conecta ambos volumes. Em contrapartida, essa intenção do arquiteto de levar a luz e o vento para a residência, acaba colocando o morador em certas situações desagradáveis, como por exemplo, para ir ao banheiro em um dia chuvoso, o morador deverá atravessar seu jardim usando um guarda chuva. Mas ainda, apesar dos inconvenientes, a Azuma House nos mostra a comunicação, ou melhor, a coexistência entre arquitetura, homem e natureza, fator o qual nos damos conta de sua importância sobretudo agora, durante a quarentena onde estamos trancados o dia todo em ambientes fechados e com temperaturas controladas mecanicamente, não tendo acesso nem ao menos ao tempo e ao clima do dia a dia. 

A segunda obra a ser analisada é o quarto do Hotel anexo ao Museu de Arte Contemporânea, em Naoshima. Localizado 45m acima do nível do museu existe um grande tanque de água central na forma de uma elipse. Esse tanque apresenta o céu emoldurado, na mesma elipse, sendo assim, a paisagem se une à arquitetura pois é criado a ilusão de dois céus, por cima da elipse e por debaixo dela. 

Logo após chegar ao quarto, a visão da união entre o céu e o mar acaba roubando a cena, pois essa paisagem ocupa inteiramente a janela, vista que esta é envidraçada do chão ao teto, como uma caixa de vidro. Nessa abertura, a vedação se torna invisível, portanto o limite entre interior e exterior desaparece, de forma que o quarto se torna uma extensão da paisagem, ou seja, se torna um Ma. 

 

“…”  

É interessante notar como o Ma, além de ser um espaço de convivência, ele também aguça nossos sentidos e principalmente, nos traz nossa própria memória átona, como é o caso do crítico de arquitetura, Igarashi Jun, em relação ao projeto de Tadao Ando em Naoshima. Jun conta que ao visitar o projeto, reviveu uma memória esquecida da infância, pois o arquiteto havia resgatado a memória coletiva dos moradores da área (sendo Jun, um deles) em relação ao rio, já que antigamente os moradores possuíam um contato mais íntimo com os rios da região, tudo através dessa relação que o projeto possui com a água. 

Entretanto, posteriormente, esse espaço acabou sendo ocupado parcialmente por um restaurante, o qual instalou cadeiras para fazer as refeições. Para matar um Ma, é relativamente simples: basta destinar um espaço vazio para uma função fixa e única, matando assim, todas as outras possibilidades de ações no local. Basta somente acabar com o efêmero. Foi o que aconteceu com esse projeto, ao se destinar uma parte desse vazio para fins puramente comerciais, todas as outras possibilidades de uso se cessam e consequentemente, o espaço deixa de ser um Ma. 

Por fim, toda a análise dessas obras e elementos arquitetônico, nos leva a delinear algumas características principais de uma espacialidade Ma. São elas: Ambiguidade, Memória, Montagem, Sublime, Alegoria, Continuidade, Efêmero e principalmente, Coexistência. O Ma, ao mesmo que tempo que separa e ata, também nos aponta a possibilidade da coexistência de opostos, como interno e externo, luz e sombra, privado e público e como dito anteriormente, arquitetura e paisagem. Dessa forma, dois ambientes a princípio, heterogêneos, podem formar uma espacialidade híbrida. Esse espaço dúbio demanda uma participação mais ativa do receptor, exigindo que este se utilize de metáforas e alegorias para complementar as informações recebidas no espaço, para que só então essas possibilidades que o Ma oferece, se concretizem.   

Talvez o porque do Ma ser algo tão inexplicável para nós do Ocidente, se deve ao fato de que para entendê-lo, é necessário uma habilidade a qual o ocidente aparentemente perdeu há tempos: a habilidade de sentir. Com todo o avanço tecnológico e econômico que trouxemos ao passar dos anos, o ocidente foi se tornando cada vez mais racional e menos sentimental, afinal para aguentar toda a pressão e agilidade que este novo mundo demanda, é necessário se livrar de nossos sentimentos e para de olhar para dentro de nós mesmos, pois este novo mundo não tem tempo para tais trivialidades. 

 

Não é de se impressionar portanto, que vivemos em meio há uma grande pandemia, e não estou me referindo ao Covid 19, refiro-me ao crescente número de pessoas com doenças psicológicas tais como depressão, ansiedade, bipolaridade e etc. Às pessoas se sentem cada vez mais pressionadas e principalmente, cada vez mais sufocadas e presas em seus minúsculos apartamentos, pois não há mais tempo para elas mesmas, ou melhor, não há mais espaço para descobrirem quem realmente são. Para se construir um Ma, não é preciso necessariamente um grande jardim japonês, um templo xintoísta, nem mesmo estar necessariamente no Japão. Ouso dizer, que nesses pequenos apartamentos, amontoados em faraônicos conjuntos residenciais, o Ma poderia ser uma simples varanda.  Quando digo varanda, não me refiro aos aquários/ Espaços Gourmet, onde envidraçam todo o espaço e enchem de coisas como churrasqueira, mesa, planta, caminha do cachorro, bicicleta e etc. Por varanda, entende- se como um espaço aberto, sujeito a chuva, vento e sol contendo no máximo uma cadeira. Nesse vazio, o morador pode fazer yoga, ler um livro, beber uma cerveja ou simplesmente se sentar, olhar a paisagem, sentir o vento batendo no rosto e apenas coexistir com si próprio. 

 

Talvez essa seja uma das respostas ao tema da Bienal de Veneza 2020. 

“Como viver juntos?”

Ma. 

Escrito por Amanda Tavernaro

 

Bibliografia

  • Okano, Michiko. Ma: Entre espaço da arte e comunicação no Japão. AnnaBlume, 2012
  • Tanizaki, Junichiro. Em louvor da sombra. Penguim Companhia, 1933
  • Kato, Shuichi. Tempo e espaço na cultura japonesa. Estação Liberdade, 2012