Campo de Refugiados

Uma situação Provisória com Traços de Permanência

Texto por Talita Carrasco Carneiro

Apesar de se caracterizar como a era mais pacífica para a espécie humana, o conflito entre diferentes frentes de pensamento ainda é presente na atualidade, gerando guerras e desastres. Milhares de pessoas se tornam vítimas, mesmo que indiretamente, de confrontos que podem destruir países inteiros, deixando muitos sem lar. É essa a realidade de um refugiado, que se vê obrigado a deixar seu país de origem para salvar sua própria vida, e a de seus familiares.

Os campos criados para as pessoas que sofrem com esses incessantes conflitos tem caráter efêmero, ou seja, possui uma identidade emergencial e, como o nome sugere, passageira. Trata-se uma solução temporária para um problema teoricamente temporário; um local onde o refugiado se instala até que seja aceito dentro do país ao qual ele escolhe pedir asilo. Diferentemente de abrigos emergenciais para desastres naturais – onde as vítimas também perdem seu lar, mas não seu país, sua segurança ou seu direito de moradia – o campo de refugiados é criado para essa parcela que se vê obrigada a deixar seu país de origem, querendo ou não.

Aprofundamento nas questões que envolvem o homem e o lugar é essencial para a construção da ideia de abrigo e lar, e da capacidade de diferenciar o mesmo de uma ocupação provisória, de caráter efêmero. Afinal, como se identificar com uma situação de moradia aparente e tecnicamente passageira?  Como criar o vínculo habitacional que uma cidade natal oferece em um ambiente vazio de laços fraternais? O campo de refugiados é criado para funcionar de uma maneira específica, quase que autodidata. A influência cultural do refugiado acaba se tornando parte importante desse cenário, esse caráter neutro de raízes se modifica com o tempo.

A efemeridade, ou transitoriedade no sentido de ser um local de passagem, de um campo de refugiados tem se tornado uma importante questão na arquitetura. Tópicos como a disposição de um local de caráter tão passageiro pode ser capaz de dar o mínimo de segurança e conforto à uma pessoa que se encontra em momento de dificuldade. Programas, organizações e arquitetos de todo o mundo discutem sobre o tipo de abrigo que um refugiado deve receber. Qual sua tipologia? Como ele poderia deixar de ser tão neutro, mas ao mesmo tempo, como não ser o lar a longo prazo que um refugiado busca. Seria esse o novo lar do povo que perdeu sua terra? Questões essas, emergenciais atualmente, onde um espaço de tanta aglomeração pode não soar como seguro, saudável, confortável.

A maior parte dos campos de refugiados encontra-se na Europa e serve de asilo para habitantes do Oriente Médio, que se veem sempre em momentos de conflito em seus países, sejam eles políticos ou religiosos. É sabido que o povo do Oriente Médio é um dos que mais valoriza a sua terra, sua cultura e sua origem. A saída de seu país é algo que traz conflitos internos para essas pessoas, deixando-as mais desamparadas do que já se encontram, por não se identificarem com esse novo lar que lhes é oferecido.

Christian Norberg-Schulz diz em seu texto “O fenômeno do lugar” que a palavra habitar serve para nos referirmos às relações entre homem e lugar. Quando um homem “habita”, está simultaneamente localizado no espaço e exposto a uma série de características ambientais. O homem deve então orientar-se por esse local, reconhecê-lo e encontrar-se nele, para que possa “habitar” de forma plena.

A partir dessa reflexão, devemos nos perguntar quais são os desafios físicos e psicológicos que um refugiado enfrenta ao se deparar em um acampamento de abrigos provisórios, com outras milhares de pessoas que se encontram na mesma situação que ele. Qual o seu sentimento inicial? Como ela vai desenvolver seus laços afetivos com o lugar, com outros refugiados, com os voluntários, com os responsáveis pelo seu próprio conforto. Quando qualquer ser humano se vê em novo espaço, é comum que tome um certo tempo até que ele se torne familiar. As experiências de ambiente são diferentes, a temperatura, a brisa e até mesmo os raios de sol que batem naquela terra são encarados de forma diferente por  esse indivíduo.

Apesar de todas as estranhezas, um abrigo pode se tornar o limiar entre a vida e a morte no caso de refugiados. Dois pesquisadores de ciências políticas e desastres da Universidade de Londres, Elizabeth Babister and Ilan Kelman citam em sua tese a importância dos abrigos emergenciais para refugiados, como a necessidade por abrigos se torna fundamental em uma situação de emergência:

“O abrigo pode ser a chave para salvar uma vida ou prolongar a sobrevivência. Olhar para o abrigo como um direito fundamental humano é olhar para situações desesperadoras, porque quando pessoas perdem as suas casas, elas perdem o único lugar que é essencialmente seguro. Portanto, quando um indivíduo não tem abrigo, a situação pode ser considerada uma crise” (BABISTER, E e KELMAN, I O processo de abrigos emergênciais aplicados em casos na Macedônia e Afeganistão em tradução livre. 2002.)

Na tese, ambos deixam claro a importância da conexão pessoa-lar, e como o meio a sua volta pode influenciar na sua saúde e bem-estar dos desabrigados. A partir dessa premissa, o refugiado cria daquele local neutro de laços, um lar. Apesar de ser um espaço temporário de refúgio, seus moradores o ocupam, erguendo bandeiras de sua terra natal, criando lugares familiares a si mesmos. Essa conexão é essencial para a sobrevivência de uma pessoa tão ligada à sua terra, pela necessidade de chamar o local que ocupa de lar. Mas então, por que um campo de refugiados possui essa imagem de desolação e esquecimento quando buscados em nossas mentes?

Quando imaginamos um campo de refugiados não nos vem na mente um lugar confortável onde pessoas vivem calmamente suas vidas. Mas sim um local de passagem onde alguém se demorou demais a sair, e acabou se instalando ali. Um lugar que caracteriza a sua efemeridade pelas suas construções baratas e tendas espalhadas pela paisagem a perder de vista. Um local que não recebe a atenção necessária quanto a qualidade de vida, salubridade, regularidade de oferta de recursos e sofre de superlotação.

Onde fica então a questão de habitar levantada por Schulz? Quais são as relações interpessoais dos que se veem obrigados a se instalar em um campo de refugiados? O que os traz paz de espírito e conforto? O rompimento do relacionamento pessoa-lar pode trazer uma série de consequências na vida de pessoas que sempre se viram ligadas ao lugar onde vivem. O espaço tem uma influência grande na formação mental e psicológica, e se ver obrigado a sair do seu local de criação a força pode se tornar traumatizante.

Olharemos aqui para o caso do campo de refugiados de Zaatari, localizado na Jordânia. É um dos maiores campos, com população de 80.000 refugiados (2019), prioritariamente vindos da Síria. O caso de Zaatari acaba sendo particular por conta de do relacionamento dos refugiados com os responsáveis pela organização do campo. A urbanização no sentido de ocupação do território por parte dos refugiados tornou-se questão política para com a organização que mantém o campo em funcionamento.

Explicando melhor: todo campo de refugiados possui uma equipe de centenas de pessoas que fazem com que o espaço funcione, com normas e deveres para com os ocupantes dele. Esse sistema funciona e faz com que o campo se mantenha, com os insumos que lhe são oferecidos por partes de organizações maiores que financiam esses espaços. Quando a população de um campo de refugiados, vindoura em sua maioria do mesmo país, com os mesmos costumes e tradições, começa a se assentar nesse espaço, instaurar sua cultura e, de certa maneira, “urbanizar” o campo, para torna-lo algo além de um simples abrigo emergencial, as chances de todo o sistema no qual ele funciona quebrar é alto, pois a equipe que possui o papel de autoridade deixa de controlar a maior parte das transações.

Até que ponto a organização dos campos de refugiados, nesse caso de Zaatari, é capaz de influenciar na ocupação e no relacionamento do refugiado com o espaço que ele habita? Alayn Dalal, em seu artigo, cita os problemas nas questões de urbanização desse campo como sociopolíticas. Urbanização aqui no sentido de ocupação do território como algo além de um espaço de apenas passagem, mas sim de habitar, no sentido fenomenológico da palavra, na sua essência.

“A ideologia humanitária foi traduzida no terreno como uma distribuição padronizada de unidades e políticas de abrigo. Como também se pode argumentar que isso se relaciona diretamente com a necessidade de fornecimento rápido de serviços durante emergências, as estratégias implantadas estão levando a criar uma face homogênea que é frequentemente criticada por camuflar a diversidade, a cultura e o caráter dos refugiados.”(DALAL, A. Camp Cities Between Planning and Practice. Maping the Urbanisation of Zaatari Camp. Em tradução livre. Pg. 78)

O caráter de abrigos emergenciais tem gerado interesse entre arquitetos e designers que acreditam na arquitetura efêmera e eficiente. O número de entidades focadas na oferta de abrigos à refugiados no mundo é grande, e a maioria delas tem como objetivo prover uma espécie de lar mais acolhedor a essas pessoas, além de mudar a paisagem desoladora dos campos. Uma ideia de lar, mesmo que efêmero, para que refugiados tenham a oportunidade de se ver seguros e confortáveis e possam, de alguma maneira, mesmo que rasa, habitar.

A empresa IKEA projetou um tipo de casa de montagem rápida e barata com o objetivo de atender locais onde não há abrigo suficiente para todos. O nome do projeto é Better Shelter e o mesmo foi vencedor de um concurso de arquitetura efêmera para refugiados em 2014. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) tem parceria com a empresa, facilitando a rápida distribuição para a população refugiada. Esse é um exemplo prático e simples de arquitetura efêmera que busca de certa maneira, melhorar a condição de ocupação de um refugiado visando a economia de materiais e investimentos, pela parte dele

Ainda, porém existem aqueles que acreditam que a construção de lares temporários pode se tornar uma espécie de perda de tempo e dinheiro. Na teoria, campos de refugiados são lares provisórios àqueles que fogem de guerras, epidemias ou crises. Mas, na prática, existem campos com mais de 25 anos de existência, maiores que cidades inteiras. Mais uma vez a situação em Zaatari pode ser encaixada aqui que apesar das dificuldades, vem caminhando lentamente para o status de assentamento permanente, principalmente devido ao seu tamanho e influência.

Em entrevista ao periódico Dezeen, o arquiteto Alejandro Aravena diz que seria mais eficiente oferecer um tipo de estrutura básica, mas durável, que possa ser completa pelo próprio residente como lhe for melhor. O arquiteto é conhecido pelos seus projetos sociais, que visam subsidiar moradia à parte mais carente da sociedade, que não possui capital suficiente para a compra de uma casa ou de um terreno. Quinta Monroy é um de seus projetos mais importantes e referenciais. O projeto possuía capacidade baixa de investimento por parte da população, permitindo que cada unidade habitacional tivesse apenas 30m². A partir dessa área, Aravena “reserva” um espaço para expansão de cada unidade, de acordo com a prosperidade de cada família.

Oferecendo essa estrutura básica, com possibilidade de expansão, Aravena permite a cada ocupante a chance de se conectar com o espaço, gerando valores para com o ambiente, o reconhecendo e o habitando de maneira consciente. Kilian Kleinschmidt, ex-diretor do campo de Zaatari e funcionário do ACNUR apoia a ideia de urbanização desse campo. Em entrevista ao periódico Dezeen, ele explica que o refugiado, ao chegar no campo, recebe uma resposta automática militarizada, sobre onde deve se abrigar, sob a ideia de que logo sua situação se regularizaria, o que acaba levando mais tempo que o esperado.

Azraq é um campo de refugiados próximo de Zaatari, com população de 40.000 habitantes que vem sido foco de estudos em projetos de reurbanização, principalmente por seu caráter militarista. Em seu artigo, Ruba Bdair cita soluções passíveis ao campo, menos provisórias e mais solucionadoras da questão do abrigo temporário:

 

Um estudo de caso muito interessante localizado em uma zona de clima quente e seco semelhante é a vila de New Gourna, em Luxor, Egito, que foi projetada e construída pelo arquiteto egípcio Hassan Fathy. Aquela vila ganhou atenção e interesse desde que Hassan Fathy aplicou princípios e estratégias de arquitetura passiva para criar um microclima confortável no projeto de uma habitação multi familiar de baixo custo para os moradores da região. O contexto rural da vila e o clima quente e árido são semelhantes ao contexto e clima do campo de refugiados do Azraq. Além disso, as principais características da vila de New Gourna de repetir os ambientes urbanos e arquitetônicos tradicionais e o uso efetivo dos materiais e técnicas de construção locais, bem como sua extraordinária sensibilidade aos problemas climáticos, tornam um ótimo estudo de caso no campo da sustentabilidade humana. assentamento, que orientou grandemente a tomada de decisão no redesenho da vila do campo de Azraq. (BDAIR, R. Rethinking The Design Models of Refugee Camps, em tradução livre. Pg. 19)

Se pensarmos na ideia de assentamentos permanentes, como devemos enfrentar a imagem que nos vem a cabeça? Philip Bess, em seu texto “Comunitarismo emotivo: duas visões antagônicas sobre ética e arquitetura” comenta que a comunidade mais importante ao homem é a cidade. Sua finalidade principal seria proporcionar a melhor condição de vida possível para seus cidadãos. A partir desse ponto de vista, se um campo como Zaatari se urbanizar e passar a status de cidade, se deve levar em conta a sua população, as suas culturas, seus costumes e tradições, assim como Fathy fez em New Gourna, no Egito. As normas sociais e éticas partem do costume da população atreladas ao espaço que ocupariam agora de maneira mais plena.

O principal objetivo de um campo de refugiados é acolher essas pessoas sem lar e abrigo, como foi citado no início desse texto, mas será que esse caráter provisório é tão necessário? Um abrigo deve trazer mais do que sobrevivência, mas inclusive, gerar uma a sensação de pertencimento a um lugar, a um sistema de convivio com milhares de outras pessoas nas mesmas situações difíceis. A sensação de pertencimento a um lugar pode trazer benefícios e gerar uma ideia de cuidado pelo local ao qual está alocado, mesmo que seja provisório.

Esse relacionamento com o lugar, de identificar-se com o meio, criar raízes e memórias com as pessoas com as quais se convive é capaz de criar uma sensação de pertencimento. Algo que foi retirado do refugiado quando se viu obrigado a deixar seu lar. A cidade, como diz Bess, se torna então a comunidade mais importante para o homem. Um sistema de vida em conjunto onde todos partilham da sede de ocupar e reconhecer-se em determinado local, de maneira livre e segura.

Referências:

https://www.dezeen.com/2015/11/30/alejandro-aravena-humanitarian-architecture-refugee-tents-waste-money-emergency-shelter-disaster-relief/

https://www.dezeen.com/2017/12/18/dont-design-shelter-refugees-kilian-kleinschmidt-rene-boer-good-design-bad-world/

https://www.archdaily.com.br/br/804366/better-shelter-da-ikea-recebe-premio-de-design-of-the-year-2016

 

BABISTER, Elizabeth; KELMAN, Ilan. The emergency shelter process with application to case studies in Macedonia and Afghanistan. Journal of Humanitarian Assistance, v. 2002, p. 1-65, 2002.

DALAL, A. Camp Cities Between Planning and Practice. Maping the Urbanisation of Zaatari Camp. Em tradução livre.

BDAIR, R. Rethinking The Design Models of Refugee Camps, em tradução livre.

BESS, P. Comunitarismo emotivo: duas visões antagônicas sobre ética e arquitetura. RETIRADO DE Nesbitt, K. (2008). Uma Nova Agenda Para A Arquitetura. Editora Cosac Naify.

NORBERG-SCHULZ. O Fenômeno do Lugar. RETIRADO DE Nesbitt, K. (2008). Uma Nova Agenda Para A Arquitetura. Editora Cosac Naify.

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