COMO VIVEMOS JUNTOS? ESPAÇO PÚBLICO

Como olhamos para os espaços vazios que nos cercam da nossa cidade? Vemos neles oportunidades de interações sociais, trocas de ideia e manifestos culturais? Ou quando olhamos para estes espaços nos deparamos com um sentimento de medo e insegurança? Porque alguns lugares são enormemente persuasivos as pessoas e outros repugnantes? Tais perguntas nos levam a refletir acerca da cidade como uma obra de construção coletiva. Através da arquitetura tem-se um instrumento para lidar com os problemas da sociedade contemporânea e sobretudo problemas que a vida na cidade grande impõe sobre seus habitantes. A arquitetura é capaz de propiciar espaços que transmitam sentimentos e sensações em seus usuários.

Para Milton Santos (1996) o espaço é entendido como um híbrido entre materialidade e sociedade, forma e conteúdo, fixos e fluxos, sistema de objetos e sistema de ações. Quando abordamos o tema espaço público é impossível analisa-lo de maneira isolada como um mero objeto, devemos levar em pauta tudo aquilo que cerca o assunto e aonde está inserido, devemos olhar para esses ambientes em diferentes escalas, procurar entender os processos de desenvolvimento metropolitano e como estes reagem a estes processos, para então chegarmos no momento presente e procurar entender a situação atual da cidade em que este espaço está inserido, e pontuar os problemas e crises em que tal cidade enfrenta. Os problemas e crises afetam diretamente estes locais, seja de maneira negativa ou positiva, que acabam sendo ótimos indicadores destes problemas, neles se manifestam os problemas e também florescem meios de superá-los.

São Paulo se apresenta como uma cidade rica de pluralidades, cheias de contradições e muito fragmentada, essa diversidade de conflitos é o que a torna a cidade tão complexa e instigante. Os espaços públicos também absorvem tais complexidades, fazendo com que sejam tão únicos, proporcionando diferente emoções, sentimentos e vivências tão singulares. Os espaços públicos possuem seu próprio “Genius loci” que por definição significa o espírito próprio de cada lugar, que carrega toda essência e cicatrizes de sua história, esses espaços levam consigo todo o peso de manifestos, intervenções e tipos de vida que por ali passaram. A história e o tempo desses lugares acabam se tornando grandes professores para a cidade e seus cidadãos, uma vez que podem nos servir muito bem de exemplos, para podermos seguir para um futuro em que queremos atingir.

 

 

Quando nos deparamos com os espaços públicos do centro da cidade se torna mais fácil perceber o “genius loci”, quanto mais velhos/antigos esses lugares forem, mais carregados de lembranças, história, e significados, podendo então avaliar e sentir o espírito desse lugar com mais clareza. O Zeitgeist, termo alemão que significa espírito da época, é capaz de medir a vida humana, quando nos deparamos com o tempo e história daquele local podemos ver quantos acontecimentos já passaram por ali, todas as épocas que já se passaram, quantas pessoas já passaram por ali, até então nós percebemos que assim como nossos antepassados nós também vamos passar, mas que estes lugares vão continuar a transmitir toda a história, e que o atual presente em um futuro breve acabará se tornando parte da história daquele local, por isso sempre quando olharmos para estes espaços devemos olhar com enorme respeito, como se estivéssemos olhando para os nosso antepassados.

As cidades contam histórias em suas ruas, no seu traçado, em seus prédios e espaços públicos. A história de alguns espaços públicos na atualidade encontra-se mais como um autorretrato da sociedade, do que como uma história propriamente falando. A “fuga” destes por certas camadas da sociedade, em preferência por se isolarem em seus enclaves fortificados denuncia que a cidade adoece. Se a cidade é uma construção coletiva por parte daqueles que a habitam, como essa construção poderia dar certo em um cenário onde o isolamento e o individualismo se acentuam? O medo aparece como aspecto fundamental relacionado ao afastamento dos espaços públicos.

 

Atualmente vivemos em um cenário de pandemia, onde medidas de isolamento social foram necessárias para evitar a proliferação da doença, desta forma espaços públicos encontram-se interditados. Um espaço que sempre esteve ali, que muitas vezes até poderia passar desapercebido, nos últimos meses de isolamento social não passou. Olhar da janela de casa aquela praça nunca foi tão interessante, olhar e entender que os espaços públicos alimentam nossas vidas, e nos fazem sentir vivos. Não pelo seu espaço em si, mas por todo um conjunto de significados que ele possui, as relações humanas de troca, conversa, eventos, esportes, cultura, um simples passeio com o cachorro, ou até mesmo admirar o pôr-do-sol, estes ambientes nos lembram as coisas boas da vida e sobretudo, eles oferecem qualidade de vida para os habitantes da cidade. Precisamos de uma pandemia para olhar pela janela e lembrar que nossa qualidade de vida está diretamente relacionada com a forma como construímos nossas cidades e nossos espaços públicos? Precisamos de tudo isso para entender que a solução de nos isolarmos em shoppings, prédios e clubes privados não é uma solução, e sim um afastamento de cidades mais democráticas e agradáveis?

Fortalecer espaços de convivência coletiva afeta diretamente a qualidade de vidas nas cidades, nos usos das ruas, na socialização e na pluralidade. Enquanto criarmos espaços “doentes” teremos sociedades “doentes” de preconceitos, de violência

A antiga praça Roosevelt, projeto concebido com ideais modernos possuía uma dinâmica diferente da atual, segundo o arquiteto Marcos de Souza Dias, “A Roosevelt era mais que uma praça. Era um sistema viário, edifício e viaduto” (4). Com esse conceito e a expectativa de representar a força modernizadora da cidade, os cinco andares da praça abrigariam estacionamento subterrâneo, centro esportivo, centro educacionais, polícia, lojas de souvenir, um centro cultural  (que não foi executado), um mercado distrital (trocado posteriormente por um supermercado. Antes do projeto de revitalização o espaço da praça atraia aspectos negativos da cidade como assaltos frequentes, usuários de drogas sendo um local perigoso, sujo, mal visto e mal cuidado, causando o fechamento de lojas, bares e restaurantes no seu entorno. Em 2012 após o projeto de revitalização a praça reabriu ao público com um espaço reestruturado e revitalizado. Atualmente ao caminhar pela Praça Roosevelt em São Paulo sinto o que é pertencer a uma cidade tão plural. Naquele espaço skatistas andam em meio a grupos de músicos, artistas do teatro, vendedores ambulantes, moradores de ruas, policiais, pessoas bebendo nos bares ao redor. A vida na praça e a vida na cidade acontecem cada vez que uma daquelas pessoas escolhe estar no espaço coletivo, vivendo, existindo e resistindo ao afastamento dos espaços públicos. Vale ressaltar que o desenho do projeto pode então fragmentar o espaço e as pessoas, ou então uni-los. A antiga praça Roosevelt era uma praça fragmentada em diferentes níveis e ambientes, ela não estabelecia uma conexão com a rua e a cidade. O projeto atual é o oposto do que foi proposto anteriormente, ela é dividida em poucos níveis e as pessoas compartilham do mesmo espaço. Desta forma a mudança em um único nível possibilitou a aproximação das pessoas, que agora dividem todas o mesmo nível da praça, compartilhando o espaço e interagindo mesmo que fazendo coisas diferentes. A intenção projetual em criar apenas um grande nível onde todas as pessoas compartilham esse espaço fez com que a praça atraísse o que São Paulo tem de melhor, a mais rica diversidade da grande metrópole. Para Jan Gehl (1), “a cidade vista de cima não faz sentido para as pessoas, que andam a cinco quilômetros por hora”. Assim, podemos dizer que a praça humanizou-se: ela oferece mais integração com as ruas e calçadas do entorno, eliminou as barreiras visuais, diminuiu o número de espaços fechados, tem mais árvores, bancos e mais acessibilidade.

 

“Fora da sua casa (o homem urbano) se abre ao espaço público e à experiência da pluralidade humana”
Olivier Mongin 2

 

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