EXPOSIÇÃO CONTEMPORÂNEA – A arquitetura como limite da privacidade

INTRODUÇÃO

A pesquisa tem como objetivo estabelecer as devidas conexões entre o modo de vida atual e a forma de se fazer arquitetura, a partir do estudo de evolução das janelas e de como a sociedade formou o movimento arquitetônico antecedente – o modernismo –  e o comparando com a sociedade atual.

 Demonstrando, assim, a necessidade da formação de uma nova arquitetura, a qual se adeque à nova realidade das interações humanas, as quais possuem a influência das sensações corporais, o meio virtual e o espaço que o envolve.

1. A janela através dos tempos

Antes de se entender os tempos atuais é necessário dissecar o passado. Passado esse de milhares de anos de construções e o relacionamento com as aberturas. Esses elementos primordiais foram modificados ao longo dos tempos por conta de aspectos diversos como: evolução dos materiais, dos sistemas construtivos, questões estéticas e até sociais.

A origem da palavra janela é no latim vulgar como januella, diminutivo de janua que significava porta, passagem, entrada, acesso – de acordo com Luís Antonio Jorge em Desenho da janela.

Os fatores de formação da janela em seus primórdios são: variação da porta, necessidade social e construção espacial. A funcionalidade chegou ao seu nível mais extremo quando o ser humano teve a necessidade de revelar seu ambiente e permitir a entrada de iluminação e ventilação naturais, alterando as condições térmicas dos ambientes internos, salubridade e visualidade da paisagem (Jorge, 1995).

As primeiras habitações de ocupação permanente ocorreram no período neolítico, há aproximadamente 15 mil anos atrás. Correspondendo a um único ambiente e apenas uma abertura, a de acesso. A descoberta do fogo trouxe a necessidade de outras aberturas para saída de fumaça e renovação do ar interno, ao mesmo temo que fossem protegidas das intempéries e de animais por folhagens (Jorge,1995).

Isso se altera para a civilização egípcia a qual relaciona a pouca iluminação a crenças religiosas e a um sistema construtivo que permitia poucas aberturas, onde as frestas alocadas sobre as vigas já poderiam ser denominadas de janelas (Beckett & Godfrey 1978, Jorge 1995).

Janela no Templo egípcio. FONTE: Arquitetura do Mundo.

Já na Grécia Antiga é quando ocorrem as primeiras modificações importantes das janelas, passando de fato a serem priorizadas as questões de ventilação e iluminação de ambientes internos por meio de pátio central ou peristilo, se afastando, assim, do meio público.

Ruínas do Peristylium: Casa dei Vettii em Pompéia, Itália. FONTE: The Archeology.

Na Roma Antiga, o sistema construtivo possibilitou alterações nas aberturas, em especial nas edificações religiosas e salas termais, com maiores dimensões tornando maior a iluminação natural. Outras questões que influenciaram nesse processo foram as condições climáticas e a participação social que exigiam maior iluminação dos ambientes (Beckett & Godfrey 1978).

Já na Idade Média, as janelas se voltaram aos espaços públicos em usos residenciais, só que para manter a privacidade dos ambientes foram estabelecidos peitoris mais elevados de forma que ainda permitisse o acesso da luz natural.

O movimento renascentista provocou mudanças na organização dos ambientes internos das edificações onde estes determinariam os usos e fixou o ideal de contemplação externa com as janelas de fato. Por conseguinte, surgindo um conceito arquitetônico estético para as janelas permitindo maior diversidade de modelos (Jorge 1995).

Palazzo Medici Riccardi. FONTE: Instituto Ling.

No barroco houve a alteração da percepção e domínio do espaço tornando as janelas fundamentais na linguagem projetual, incluída na dinâmica arquitetônica proposta.

Igreja Católica, Espanha. FONTE: História da arte.

Com as inovações tecnológicas trazidas pela Revolução Industrial o resultado se deu em estruturas que possibilitavam e favoreciam o uso de janelas maiores, como o uso do ferro (Beckett & Godfrey 1978).

Palacio de Cristal, Madrid. FONTE: Es Madrid

2. O modernismo e a conexão com o meio externo 

A arquitetura modernista foi a produzida durante grande parte do século XX, e suas características podem ser encontradas em origens diversas como a Bauhaus na Alemanha, em Le Corbusier na França, em Frank Lloyd Wright nos Estados Unidos ou nos construtivistas russos, alguns ligados à escola Vuthemas, entre muitos outros. 

Tal movimento nasce em um contexto de mudanças técnicas, sociais e culturais ligadas à revolução industrial e à transição gradual do campo para a cidade, e  o ponto crucial do processo de desenvolvimento da arquitetura moderna foi alcançado a partir de 1919, quando Walter Gropius funda a Bauhaus em Weimar, na Alemanha.

Com os avanços das tecnologias dos materiais, neste momento foi possível projetar a estrutura totalmente individual do resto do edifício, permitindo grandes aberturas a serem tomadas como partido arquitetônico, juntamente com um térreo composto somente por pilotis para glorificar a chegada do automóvel, colocando os pedestres em segundo plano. Assim, certos projetos, como a Casa de Vidro da Lina Bo Bardi e a casa Farnsworth de Mies van der Rohe, foram grandes exemplos de uma arquitetura que não se preocupava em esconder as atividades que estariam sendo realizadas dentro das residências. Isso ocorre, pois a noção de um local “privado” não era contestada, fazendo com que as aberturas fossem ficando cada vez maiores para a integração do interno com o externo. Entretanto hoje em dia, vemos que a tendência é que, cada vez mais queremos uma separação entre o interno e externo, pois vivemos em cidades, e isto significa que existe uma densidade muito grande de pessoas em uma mesma área, e assim, o que era para ser uma integração favorável, se torna algo que aborrece o homem atual.

No capítulo Hopper’s Windows do livro Space Matters: Exploring Spatial Theory and Practice Today, o autor diz muito sobre a curiosidade trazida pelas aberturas com a possibilidade de um novo padrão de construção vindo com o movimento modernista. Assim, ele nos conta como este período mudou o modo de viver do ser humano para sempre, pois assim, cada vez mais se fazem aberturas de janelas maiores e possibilitando maior exposição íntima. Diz que antes da possibilidade de se fazer grandes aberturas nas construções, as aberturas eram modestas e serviam apenas para algum tipo de iluminação e ventilação natural, porém não roubavam a atenção do edifício e nem eram mais importantes que a própria arquitetura das sólidas paredes de pedra. 

FONTE: Archdaily.com.br                            FONTE:Casavogue.globo.com

3. Janela real X Janela Virtual

A janela física vem mudando através dos tempos de acordo com a necessidade e modernidade de cada época, essas janelas são meios de transição entre o público e o privado mesmo que translúcidas e convidativas. 

Por quê convidativas? A curiosidade humana da vida privada tem aumentado cada vez mais, antes tudo que era feito na rua (exemplo: banco, restaurante, mercado e etc.) hoje pode ser feito dentro da própria residência.

Mas antes de chegar nessa modernidade deve-se olhar para alguns anos no passado, onde as janelas também refletiam uma curiosidade mas ao invés de ser pra dentro da residência era para fora dela.

A contraposição de interesses entre as gerações ficou clara, em 1961 quando Jane Jacobs disserta em seu livro – Morte e vida de grandes cidades – sobre os olhos da rua, que eram as pessoas que ficavam nas janelas observando a vida acontecer no ambiente público simplesmente porque era nesse palco onde as melhores atuações ocorriam.

A reviravolta no século XXI foi tão intensa que os olhos da rua entraram em extinção simplesmente por conta de um aparelho que se tornou a outra janela da curiosidade, a janela virtual.

Nada parece ser páreo para competir com o entretenimento dessa nova janela que é muito mais dinâmica e personalizada de acordo com os interesses do usuário. Essa janela é o smatphone. Onde as cores são mais vibrantes do que as cores reais, onde tudo é possível e aceitável, até parece até não ter regras e aberta 24h para quem quiser entrar, curtir, comentar e compartilhar.

E é justamente por essa ausência de regras e privacidade que a necessidade pela mesma no ambiente construído é desejada. Imagine uma exposição contínua da vida pessoal e profissional aberta para o mundo por um simples aparelho mostrando o que se comeu no almoço, a visitinha feita pra comer um cafezinho na casa dos avós e até o happy hour com os amigos.

Em tempos de pandemia a exposição não diminuiu, os vídeos com treinos em casa e receitas na cozinha aumentaram, demonstrações de opinião se tornaram mais intensas. Somando tudo que estava escancarado para quem quisesse ver  o ambiente da casa e do apartamento clamava por paz, sossego e aconchego.

As janelas que serviam para ventilação e integração com o mundo externo, hoje nos tiram o pouco de privacidade restante. 

No capítulo Hopper’s Windows do livro Space Matters: Exploring Spatial Theory and Practice Today, Hopper conta sobre suas experiências como artista, onde utiliza da “vida dentro das janelas” para criar suas obras, pois justamente essas grandes aberturas que despertam a curiosidade das pessoas em saber detalhes da vida íntima alheia, que é o que acontece hoje com a exposição das nossas vidas nas redes sociais, pois a internet é vista como janela para a exposição das nossas vidas, e por já termos essa constante exposição, as janelas estão se tornando cada vez menores e menos convidativas a olhares alheios. 

4. Internet sem barreiras: uma nova moralidade

Na última década o estilo de vida foi alterado drasticamente, tornando o que era conhecido como privacidade algo mais fluido e mutável. Isso ocorreu pela exposição sem precedentes da vida particular.

Invadimos constantemente a vida alheia por meio de telas, sabemos de detalhes amorosos, familiares e acadêmicos de pessoas que nem sequer conhecemos e mesmo assim julgamos conhecer simplesmente por termos esse acesso. A realidade é alterada e o senso moral sofre mutação ao mesmo tempo.

Assim, cada vez mais se tem a dificuldade de gerar limites por conta da ausência de se definição do que é considerado público ou privado, por conta disso há a necessidade de apresentar um novo paradigma arquitetônico em que se garanta a liberdade individual de acordo com o balanceamento justamente dessa exposição virtual.

5. Importância da neuroarquitetura e da biofilia nos dias atuais

A neuroarquitetura se trata da aplicação da neurociência nos espaços construídos, refletindo na apropriação dos mesmos e está presente em todo espaço que nos rodeia. Sendo a arquitetura modeladora de sensações de acordo com sua iluminação, ventilação, acústica, texturas, aromas, formas e cores, demonstrando que as percepções e experiências determinam a vivência desses espaços influenciando nos padrões primitivos cerebrais. 

Assim, o modo do ser humano pensar está diretamente ligado com o que o corpo sente, que por sua vez é influenciado pelo ambiente que o cerca mostrando nossa conexão com o externo muito maior do que controlamos conscientemente. 

A partir desses estudos deve-se voltar aos primórdios da civilização, em que a natureza fôra o habitat de maior fornecimento de abrigo e alimentação. Os tempos modernos remodelaram a forma de interação com essa natureza promovendo sua desconexão e para que ocorra esse resgate deve se aplicar a biofilia, que nada mais é do que o “amor às coisas vivas”.

A arquitetura biofílica integra a natureza no projeto estimulando a conexão com a natureza, com elementos como água, vegetação, luz natural e elementos em seu estado natural com construções em madeira, pedra e terra. Elementos somados à desenhos e formas orgânicas que proporcionam maior sensação de segurança e adequação ao ambiente. 

No design biofílico, a madeira proporciona o relaxamento do sistema nervoso autônomo se tornando um ponto extremamente positivo visto o problema de estresse da sociedade, conecta visualmente com a natureza. Combinando a madeira com vegetação e luz natural promove bem estar.

Outra forma de se conectar com a natureza também ocorre a partir da utilização de terra, onde se resgata o primitivo, retoma o contato e conexão com a matéria. No Brasil essa utilização vem ocorrendo desde as primeiras ocupações e há registros que se bem empregadas as construções em terra podem durar milhares de anos utilizando técnicas simples como taipa de pilão, pau a pique, terra ensacada, BTC e adobe. 

FAZENDA CAPITUVA - Materia Base
FONTE: MATERIABASE, Fazenda Capituva

Visto isso pode-se aplicar a biofilia como fator imprescindível para uma nova arquitetura, o resgate do primitivo e o contato direto com a matéria trazem aspectos extremamente positivos tratando-se do bem estar físico e mental.

CONCLUSÃO

As janelas sempre estiveram diretamente ligadas com as necessidades da humanidade, que por sua vez está em constante mudança. Assim, vemos qual o papel desenvolvido pelas aberturas ao longo dos anos e como elas influenciam muito na vida das pessoas, pois como discorrido ao longo do trabalho, as janelas só passaram a cumprir um papel de visor e “tela” quando isso foi possível em métodos construtivos com o movimento modernista, mudando completamente o comportamento do homem, que antes só se beneficiava das janelas por conta da luz e ventilação natural, sendo a vida mais secreta e menos exposta. 

Durante o modernismo, ainda não haviam aparelhos tecnológicos acessíveis, como computadores, televisões e principalmente os celulares de hoje em dia. Assim, as aberturas naquela época eram extremamente exageradas e não davam privacidade alguma para o morador da residência, porém era o que se considerava como “espionagem da vida alheia” daquela época. Hoje em dia, estas aberturas definitivamente não são tão avantajadas justamente por estarmos em constante exposição na internet, sem qualquer pausa dessa realidade compartilhada, fazendo com que as pessoas necessitem de privacidade total em suas casas, onde é um momento onde você consegue não ser observado e analisado em sua vida íntima, e por isso, as aberturas estão se tornando cada vez menores. 

BIBLIOGRAFIA

Beckett, H.E.& Godfrey, J.A. 1978. Ventanas – función, diseño e instalación. Barcelona: Gustavo Gili, S. A

Fell, DR (2010). Madeira no ambiente humano: propriedades restauradoras da madeira no ambiente interno construído (T). University of British Columbia.

Jorge, L.A. 1995. O Desenho da Janela. São Paulo: AnnabluͲME.

LEITE, Henrique Specian. A Importância da Privacidade na Internet. 2016. 61 f. TCC (Graduação) – Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Departamento de Tecnologia da Informação, Faculdade de Tecnologia de São Paulo, São Paulo, 2016.

Goldhagen, S. Welcome to Your World: How the Built Environment Shapes Our Lives. HarperCollins Publishers.

Viana, L., & Rheingantz, P. (2012). ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA: ABORDANDO COLETIVAMENTE LUGAR, PROCESSO DE PROJETO E MATERIALIDADE. Gestão & Tecnologia De Projetos, 7(1), 20-37.

https://www.archdaily.com.br/br/927908/os-beneficios-da-biofilia-para-a-arquitetura-e-os-espacos-interiores

https://materiabase.com.br/FAZENDA-CAPITUVA

Livro Space Matters: Exploring Spatial Theory and Practice Today

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