Paisagens urbanas pós-industriais: exercícios de projeto

por Camila Lino e Giulia Montone
17.11.2020

“Como pode atuar a arquitetura no terrain vague para não se converter num agressivo instrumento dos poderes e das razões abstratas? Sem dúvidas, através da atenção à continuidade. Mas não da continuidade da cidade planejada, eficaz e legitimada, mas, todo o contrário, através da escuta atenta dos fluxos, das energias, dos ritmos que o passar do tempo e a perda dos limites têm estabelecido.” – Ignasi de Solà-Morales

Para o mundo ocidental, um grande marco na história da humanidade foi a Primeira Revolução Industrial. No final do século XVIII, com a invenção das máquinas a vapor e de novos meios de transporte, a relação entre ser humano, natureza, tempo e espaço foi profundamente alterada. Neste artigo será analisada a relação entre as paisagens pós industriais e projetos de intervenção em terrain vagues. Para isto, serão utilizados os conceitos de Terrain Vague e Terceira Paisagem de Ignasi de Solà-Morales e Gilles Clément, respectivamente, para analisar as paisagens contidas no filme soviético Stalker (1979) e o projeto do High Line (2014), em Nova Iorque. 

Imagem 01: Frame retirado do filme Stalker (1979).

A mecanização do trabalho trouxe uma queda drástica no tempo de produção de bens de consumo, aliada aos processos de alienação do trabalhador através da exaustão. Neste texto, será analisada a era pós industrial, que teve início na segunda metade do século XX, durante o período de recessão após o final da Segunda Guerra Mundial. A lógica da produção transformou-se em reprodução, e a alienação deu lugar à fragmentação do sujeito. As bases dos processos industriais já estavam consolidadas: consumismo, produção de lixo e reciclagem.

Segundo Fredric Jameson, a pós-modernidade é marcada pelo pastiche e pela esquizofrenia. Jameson apoia-se em interpretações das definições de Jacques Lacan, para descrever a condição pós moderna:

ESQUIZOFRENIA é caracterizada pela quebra de relacionamento entre significantes, atrelada à incapacidade de acesso ao campo Simbólico.

PASTICHE denota a supressão de limites e separações essenciais, o desgaste das distinções, por fim, corroborando em uma estética de citações e imitações de um passado desconexo.

Jameson aponta que na condição pós-moderna, o tempo é esquizofrênico, fragmentado, enquanto o espaço é caracterizado pelo pastiche. O espaço pós-moderno, e sobretudo sua arquitetura, denota a busca por uma história não vivida, recuperando estilos mortos que em nada condizem com a identidade do sujeito pós-moderno.

No artigo “Ramble City: Postmodernism and ‘Blade Runner’” (The MIT Press, 1987), Giuliana Bruno defende que o filme Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) pode ser considerado uma metáfora para a condição pós-moderna, ao atribuir o pastiche ao espaço do filme e a esquizofrenia como essência da temporalidade dos replicantes e da própria cidade de Los Angeles.

Conforme aponta Bruno, o espaço em Blade Runner não se apresenta de maneira idealizada, ocupando edifícios ultramodernos e tecnológicos. O cenário em que a trama se desenvolve representa um desenvolvimento do que já existia, e este futuro indica a decadência das estruturas industriais e modernas. A cidade chama-se Los Angeles, mas se assemelha a Nova Iorque, Hong Kong ou Tóquio. “OU” no lugar de “E”. Tanto faz o nome e a localização geográfica da cidade onde vive o Blade Runner. As referências arquitetônicas multiculturais indicam a globalização intensa que caracterizou o período dos anos 1980, e os figurantes denunciam os intensos fluxos migratórios do oriente para o ocidente. Quanto maior a velocidade de (re)produção de imagens e ideias, menores as distâncias a serem percorridas entre o locutor e o interlocutor, e isto vale tanto para o mundo virtual quanto o real. O tempo torna-se fragmentado a medida que não se conhece o espaço existente entre o início e o final dos percursos.

No campo da arquitetura, o pós-modernismo consiste no resgate de arquétipos de estilos mortos para a construção de imagens e comunicação de ideias. Deste modo, a  narrativa de Blade Runner se utiliza da construção de cenário para revelar os desejos dos replicantes, e , sobretudo, de Rachel, a personagem principal. O que diferencia os replicantes dos seres humanos é a ausência de uma história que justifique sua identidade. Assim, os replicantes estão sempre buscando, mesmo que inconscientemente, construir uma narrativa a partir de memórias que lhes foram implantadas de maneira fragmentada e descontínua.

Os elementos da arquitetura greco-romana, egípcia e chinesa que sustentam e adornam os edifícios no filme são sintomáticos da busca por esta construção identitária, tanto para os replicantes quanto para esta Los Angeles sem tempo ou espaço definidos.

Giuliana Bruno aponta também para a presença da ruína no cenário de Blade Runner. Na realidade, todo o cenário é uma grande ruína. A estética pós moderna consiste na ruína pós industrial, no desgaste dos modos de produção e do reaproveitamento destas estruturas para outros usos. O ciclo de consumismo, descarte e reciclagem vale também para a arquitetura e infraestrutura urbana.

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Desde o final do século XX, as grandes cidades, que foram palco para a Revolução Industrial, lutam para combater as cicatrizes deixadas por este período. Os desafios consistem na recuperação de solo e água contaminados, projetos de desenho urbano e, principalmente, a integração de territórios abandonados no momento pós industrial. Grandes glebas industriais desativadas e lugares onde havia infraestruturas de transporte ou geração de energia cortam bairros e cidades inteiros, criando os terrain vagues.

Segundo Ignasi de Solà-Morales, o terrain vague é a porção de terra urbana vazia ou abandonada, que outrora abrigou algum uso e que, atualmente, por seu esvaziamento de função, contém infinitas possibilidades de transformação. Geralmente são áreas industriais abandonadas, áreas de linhas férreas desativadas ou subutilizadas ou espaços residuais. O terrain vague remete à memória de um passado de progresso industrial e econômico, revela um presente incerto e permite a imaginação de diversos futuros possíveis. O terrain vague simboliza o conflito e a estranheza da vida social contemporânea.

Na concepção de Gilles Clément, paisagem é tudo aquilo que se estende pelo seu campo visual, portanto, tudo pode ser uma paisagem, ao passo que é um conceito de interpretação subjetiva e perceptiva, que difere de uma cultura para outra. Para ele, o território, e consequentemente a paisagem, pode ser classificado(a) como:

• Antropizado: resultado da ocupação e ação humana.

• Conjuntos Primários e Reserva: o lugar inexplorado, o meio natural.

• Resíduo: território abandonado, anteriormente explorado por atividades industriais, agrícolas, urbanas.

• Terceira Paisagem: resultado da ação biológica sobre o território, sem ação antrópica.

A definição de Resíduo de Clément se assemelha ao terrain vague descrito por Solà-Morales. Entretanto, destaca-se aqui a definição de Terceira Paisagem, que inclui o processo natural biológico como agente transformador da paisagem. Clément propõe que territórios abandonados podem ser vistos como refúgios para biodiversidade. Esta teoria compreende uma ideia de recuperação dos territórios abandonados pela indústria, de maneira completamente passiva e sujeita ao tempo natural, recusando a intervenção antrópica como solução para problemas que a própria humanidade causou, tais como a poluição de rios, lagos, lençóis freáticos e a perda de vegetação nativa, por exemplo.

Imagem 02: Tanques de guerra abandonados em um campo coberto por vegetação.
Frame retirado do filme Stalker (1979).

No filme Stalker (1979), Andrei Tarkovski, traz reflexões acerca da paisagem pós-industrial. Nesta obra de ficção científica, os personagens principais contratam um guia (o Stalker) para acompanhá-los na travessia da Zona, uma área restrita da cidade, para chegar à Sala, conhecida por realizar o maior desejo de quem a acessa.

É importante frisar que, no momento de lançamento do filme, o mundo todo estava polarizado por conta da Guerra Fria. Era bastante simbólico que o cinema soviético se opusesse ao cinema norte americano em técnica e conteúdo. Entretanto, ambos os filmes citados aqui, Blade Runner e Stalker, se apoiam na estética da decadência e da ruína para contar suas histórias. De certo modo, existia um consenso sobre a falência dos modos de produção pós industriais, ao perceber as consequências que estes estavam produzindo socialmente e ambientalmente.

Em Stalker, não há o pastiche espacial, tampouco a fragmentação esquizofrênica do tempo. Ao contrário, o ritmo da narrativa se assemelha ao tempo da natureza, em contraposição ao tempo industrial e, sobretudo, ao tempo pós industrial. Ao optar por uma montagem mais estática, com planos longos, transições graduais e cenários monótonos, o diretor estabelece uma crítica à velocidade de consumo, descarte e reciclagem pós industriais. Tarkovski recusa a velocidade de reprodução sistemática de imagens e ideias preestabelecidas.

Os enquadramentos em Stalker revelam uma paisagem pós industrial abandonada, arruinada e perigosa. A Zona representa um território misterioso e pouco conhecido, com um caráter mitológico. O filme explicita a complementaridade entre os conceitos de terrain vague e de Terceira Paisagem. As ruínas pós industriais produzidas pela ação antrópica, aqui, são consumidas por uma natureza indomada.

O avanço da natureza sobre a infraestrutura abandonada pode ter duas interpretações possíveis. Primeiro, uma visão otimista de recuperação dos territórios degradados pela indústria, através da passagem do tempo, da abstenção do homem e da plena ação biológica e meteorológica sobre o território. A segunda reside no caráter misterioso e perigoso da natureza. É nesta segunda interpretação que os personagens de Stalker se apoiam, atribuindo um caráter mitológico e divino ao espaço desconhecido. É nos terrain vagues, deixados pela infraestrutura das linhas férreas, que caminham em busca de uma sala arruinada que lhes trará paz e a realização de seus desejos.

Imagem 03: Frame retirado do filme Stalker (1979).

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Para Gilles Clément, paisagem é um conceito de interpretação subjetiva e perceptiva, que depende do repertório cultural do sujeito que a observa. Já o meio ambiente é um sistema objetivo, que descreve cientificamente o espaço. Sendo assim, o jardim é onde ambos os aspectos subjetivo e objetivo se encontram, permitindo a criação de um espaço de imaginação e sonho em que humano e natureza se reconectam.

Em uma leitura das teorias de Clément, pode-se concluir que o espaço pós industrial, em específico, a Terceira Paisagem, é o cenário perfeito para a criação deste espaço para o encontro entre humano e natureza. O terrain vague contém a necessidade e expectativa de transformação, enquanto a Terceira Paisagem já demonstra os fluxos e energias naturais aos quais a transformação deve acompanhar, para não se tornar colonizadora e autoritária. 

Atualmente, alguns projetos de arquitetura nas mais diversas escalas, apontam para esta tendência de recuperar a paisagem urbana através do uso de estruturas pré-existentes. A necessidade de preservar a paisagem urbana, reaproveitar os edifícios e infraestrutura construídos e pensar na drenagem urbana como condicionantes de projeto se tornou latente.

O High Line Park (2014) é um projeto de recuperação e transformação de uma ferrovia elevada desativada em Nova Iorque. Os arquitetos Diller Scofidio + Renfro tiveram como premissa a criação de espaços públicos que permitissem a caminhada, a contemplação e o encontro.

Assim como o Minhocão, em São Paulo, desde os anos 1980, havia um debate acerca da demolição completa do High Line, mas após a assinatura da ordem de demolição pelo prefeito Rudy Giuliani (1994-2001), foi criada a associação de “Amigos do High Line”, que solicitou a criação de um parque público.

O sistema participativo permitiu que fosse criado um parque que atendesse às necessidades da população, ao entender que atividades já eram realizadas no entorno do High Line e as demais possibilidades que os fluxos e fixos locais já indicavam. 

Ao longo dos 2,3 quilômetros de parque linear, foram previstos diversos canteiros com plantas que nasceram e se desenvolveram espontaneamente nos trilhos dos trens, desde a desativação da linha até a concessão do projeto (2000). Outras espécies escolhidas também são nativas da região. Além de respeitar a passagem do tempo e as transformações decorrentes disso na estrutura, a utilização destas espécies colaborou para a redução da necessidade de manutenção do parque.

O High Line Park pode ser considerado uma boa intervenção na Terceira Paisagem ao constituir um espaço que fomenta relações interpessoais e aproxima as pessoas da natureza. É um projeto que escuta atentamente aos fluxos e energias locais, respeita a passagem do tempo e estabelece conexões no espaço urbano, vencendo as barreiras criadas pelas ruínas do espaço pós industrial.

Imagem 04: High Line Park. Fotografia de Timothy Schenck. FONTE: thehighline.org

REFERÊNCIAS

– BRUNO, Giuliana. Ramble City: Postmodernism and “Blade Runner”. October, Cambridge, v. 41, p. 61-74, 10 out. 1987. JSTOR. http://dx.doi.org/10.2307/778330. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/778330. Acesso em: 09 nov. 2020.

– GILLES Clement – From the Garden in Motion to the Third Landscape. Londres: Architectural Association School Of Architecture, 2007. Color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=6r7memtAMZo&t=89s. Acesso em: 10 nov. 2020.

– DA SILVA, Tiago Brito. ÁREAS DE ABANDONO ANÁLISE COM BASE NOS FUNDAMENTOS DO DESENHO AMBIENTAL SOBRE PROJETOS QUE VISAM A RECUPERAÇÃO DE TERRITÓRIOS DEGRADADOS. Revista LABVERDE, São Paulo, v. 11, p. 76-102, 05 abr. 2016. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revistalabverde/article/view/107461. Acesso em: 16 nov. 2020.

– SOLÀ-MORALES, Ignasi de. Terrain Vague. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-35561/terrain-vague-ignasi-de-sola-morales. Acesso em: 28 set. 2020.

– STALKER. Direção de Andrei Tarkovsky. Moscou: Mosfilm, 1979. Color.

– MADSON, Ryan. POST-STALKER: NOTES ON POST-INDUSTRIAL ENVIRONMENTS AND AESTHETICS. 2019. Disponível em: https://strelkamag.com/en/article/post-stalker-notes-on-post-industrial-environments-and-aesthetics. Acesso em: 28 set. 2020.

– DILLER SCOFIDIO + RENFRO. The High Line. Disponível em: https://dsrny.com/project/the-high-line. Acesso em: 15 nov. 2020.

– FRIENDS OF THE HIGH LINE. History | The High Line. Disponível em: https://www.thehighline.org/history/. Acesso em: 15 nov. 2020.

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