De Pedra à Concreto

Bernardo Collet & Bettina Nahum

Pré História

Não importa quão longe possamos ir no passado, o quão distante possamos voltar o tempo, os vestígios do homem na Terra, são “atestados por armas, por utensílios ou pelo resultado da ação do fogo” (DUCASSÉ, 1987: 13). Os primeiros seres humanos do planeta, os hominídeos, utilizavam objetos achados na natureza como instrumento que serviam de extensão do corpo, entretanto, ainda não tinham a malícia e muito menos a habilidade de alterar seu formato.

Há cerca de dois milhões de anos, os Australopitecus desceram das árvores e se viram com dois problemas. O primeiro, ligado à uma necessidade vital do ser humano, sua alimentação; e o segundo ligado a ordem social, uma vez  que se viram na necessidade de defender seu território. O filme “2001, Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick reconstrói/ simula os primórdios da humanidade, exibindo uma descoberta muito significativa: a elaboração da primeira ferramenta. Após se deparar com um esqueleto de um herbívoro, o personagem toma para si um de seus maiores ossos e ataca os outros com golpes dos restos esqueléticos. Visto o poder que, agora, aquele pedaço de osso tinha, os primatas começam a utilizar do mesmo como instrumento de caça e de defesa. Uma das cenas mais marcantes que representa o progresso e o desenvolvimento científico e tecnológico é a cena em que o osso jogado para cima se transforma em uma espaçonave que ganhava os confins do universo.

https://pt.wikipedia.org/wiki/2001:_A_Space_Odyssey#/media/Ficheiro:2001-Sat%C3%A9lite-Osso.jpg

Apenas através do emprego de sua capacidade intelectual primitiva é que se foi capaz de determinar relações fundamentais que ajudaram a transformar o meio, uma técnica até então inexistente. Pode-se afirmar que o ser humano surgiu no exato momento em que o pensamento estava alinhado à capacidade de transformação. O aproveitamento deste primeiro instrumento não apenas dava início a modificação dos materiais, como também iniciava um processo de transformação do grupo em si. Alterando o papel do osso, o homem modificava para sempre as relações sociais que seriam estabelecidas a partir de então. Devido a utilização destes “materiais”, os seres primitivos foram capazes de garantir sua sobrevivência e lutar sem desvantagem, uma vez que não possuíam dentes afiados e muito menos tinham a velocidade dos animais existentes naquela época. 

Foram estes seres humanos os responsáveis por utilizar a pedra como ferramenta. Ao que dizem os livros históricos, foi um ato do acaso que os fez perceber que ao se chocar duas pedras estas poderiam ser lascadas, dando origem a peças mais afiadas e personalizadas se assim podemos dizer. As ferramentas eram então moldadas a partir de fortes golpes e afiadas por processos de amolação, claro que de maneira primitiva, mas que já demonstravam o surgimento de todo o potencial criador através de práticas técnicas e “tecnológicas”. Tal ato foi tão significativo que não sofreu alterações por milhares de anos.

Posteriormente às pirâmides do Egito, aproximadamente 11,5 mil anos, Göbekli Tepe, localizado na província de Sanliurfa no sudoeste da Turquia, estava sendo erguido, trilhando assim o caminho da arquitetura e da engenharia. Este monumento é formado por grandes blocos de pedras organizados em círculos e pontuados por grandes pilares de aproximadamente 5,5 metros de altura. Acredita-se que este não foi erguido por apenas um povo, mas sim por diversas populações de diferentes eras.

Após diversos estudos e pesquisas, foi notado que o conjunto arquitetônico que compõe o santuário está disposto de maneira que conjuntamente formam um triângulo equilátero quase perfeito, o que nos indica que houve sim um planejamento projetual. Entretanto, o que mais chamou a atenção dos pesquisadores foram os relevos e as gravuras incrustadas nas pedras.

Quando pensamos no período da pré história, naturalmente assimilamos os seres humanos como seres primitivos, mas Göbekli Tepe nos provou o contrário: a capacidade cerebral era similar à de hoje. Esculpir e transportar monólitos de mais de dez toneladas exigia planejamento e coordenação, as quais são admiráveis se consideradas a escala do projeto e a época em que foi executada.

Podemos comparar Göbekli Tepe ao monólito de Kubrick, ambos parecem construções de outras épocas ou mesmo a representação da possibilidade da vida alienígena na terra. O monólito teria sido enviado para acompanhar a evolução da vida ao redor, mas acabam gerando mudanças no comportamento dos primatas. Já o santuário nos mostra a capacidade do ser humano na época, a possibilidade de processar e assimilar os pensamentos.

https://www.enuygun.com/bilgi/gobeklitepe-ye-nasil-gidilir

Antiguidade Oriental

A civilização do Egito antigo durou por volta de três milênios. Em seus primórdios, a arquitetura egípcia não se diferenciava das práticas das sociedades primitivas, pois também tiravam proveito dos materiais locais mais abundantes (neste cenário a madeira, o papiro e o junco, utilizado para tecer). 

Os egípcios dominavam a manufatura dos tijolos rígidos, secos diante o sol e feitos com o barro micáceo do delta do rio Nilo, misturado com areia e palha. Entretanto, o reconhecimento da arquitetura desta época se deve às suas construções monumentais (como pirâmides, palácios, templos e esfinges). As condições no Egito eram ideais para grandes projetos, havia muita pedra e areia, além do transporte através do rio ser fácil. 

O predomínio da pedra chegou ao Egito com o complexo da pirâmide escalonada, desenvolvida pelo primeiro arquiteto e engenheiro, Imhotep, que foi construída em Saqqara em 2630 a.C. Apesar de possuir um perfil em degraus, serviu como base para outras obras, como a pirâmide de Gizé, nos arredores do Cairo.  A pirâmide de Saqqara é considerada o primeiro edifício monumental de pedra já construído. Ela foi feita para servir de túmulo ao rei Djoser, com seis pavimentos (60m).

http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/10/01/possivel-destruicao-da-piramide-de-saqqara-entenda-o-caso/

A maior destas pirâmides, foram a construída para Quéops em 2550 a.C, com 146 metros de altura e mais de dois milhões de blocos de pedra, cada qual pesando entre 2 e 15 toneladas. Foi a edificação mais alta construída pelo homem até 1311,quando a Catedral Lincoln foi executada na Inglaterra com 160 metros de altura.

Embora os túmulos variassem de tamanho, a arquitetura religiosa parece ter crescido tanto em sua escala quanto em sua ambição. Durante o médio império deu-se a petrificação dos templos, ou seja, a  maioria das construções religiosas foi transformada em pedra. A função principal do templo egípcio era ser a morada do Deus, ele representava o “cosmo” em pedra, cópia da montanha da criação do alto da qual o Deus podia renovar a si mesmo e ao mundo.

Um surto de construção de templos se deu com os últimos faraós nativos do Egito, que governaram sucessivamente de 380 a 342 a.C. Embora feitos de pedras resistentes como o granito e o basalto, os templos construídos no Delta (norte) foram quase destruídos por completo. Os templos ptolomaicos e romanos no vale do Nilo continuaram a fazer uso  dos componentes faraônicos tradicionais com sutilezas ornamentais, como por exemplo diversos desenhos de capitéis de colunas. Entretanto, outros motivos mais antigos só foram preservados nas versões greco-romanas.

Antiguidade Clássica

A arquitetura clássica grega para nós do século XXI é muito familiar, pois muitas de suas características foram retomadas e reinventadas em fachadas de edifícios públicos das cidades ocidentais. A principal inspiração para tamanha grandiosidade, é a colunata coberta, além de teatro (espaço côncavo constituído de degraus e assentos), hipódromo e o mausoléu. A arquitetura clássica grega é arquitravada, ou seja, construída de elementos verticais (colunas) que dão suporte aos horizontais (vigas). Originalmente, esses elementos básicos eram feitos de madeira, entretanto, na transição do uso da pedra, eles se tornaram mais formalizados e decorados. Tomamos como exemplo os tipos de colunas gregas: dórica, jônica e coríntia, uma com um grau de detalhamento mais desenvolvido que a outra. Os gregos se preocupavam muito com a aparência de suas construções, por isso, não haviam elementos retos nos templos gregos, assim eles aplicavam técnicas de detalhamentos e formas nos materiais. 

A arquitetura com pedra na Grécia antiga empregava um sistema de colunas verticais e arquitraves horizontais. Este tipo de estrutura teve origem em construções simples de madeira e não permitia grandes vãos, o que limitava a imaginação dos arquitetos. Entretanto, com o desenvolvimento dos primeiros arcos, tornou-se possível construir estruturas de alvenaria muito maiores, como por exemplo pontes e aquedutos. Com isso, novas técnicas foram aprendidas e utilizadas para produzir formas diferentes nas pedras podendo ser um detalhamento ou até um elemento estrutural.

https://www.apaixonadosporhistoria.com.br/artigo/205/introducao-a-arquitetura-na-grecia-antiga

Os romanos adotaram elementos arquitetônicos desenvolvidos pelos gregos no período clássico, entretanto, fizeram grandes avanços na engenharia estrutural de 200 a.C. a 300 d.C, introduzindo o arco, a abóbada e a cúpula, além de um novo  material: o concreto.

O concreto é um material de construção desenvolvido pelo homem, similar à uma pedra. Sua composição é formada de cimento e água. A água é o elemento chave para que se possa fixar e unir os materiais. Consistiam de cascalho e areia grossa misturados com cal quente e água. Apesar de se ter registros que outras civilizações já utilizavam o concreto como material construtivo, os romanos foram conhecidos por terem feito uso amplo do concreto para construir estradas. Há evidências de que os romanos também faziam uso de pozolana, gordura animal, leite e sangue como aditivos em construções de concreto. Atualmente a produção de concreto é de aproximadamente 1,6 km3. Se ainda estivéssemos utilizando a pedra, seu valor seria cerca de um quarto desse volume.

O primeiro uso registrado do material aponta para o ano 1756, quando John Smeatlon fez concreto misturando agregado graúdo e cimento. Em 1793, construiu o Eddystone Lighthouse in Cornwall, na Inglaterra, com o uso de cimento hidráulico. Outro grande avanço aconteceu no ano de 1824, onde o inventor Joseph Aspdin desenvolveu o cimento portland. Na Alemanha, em 1836, o primeiro teste sistemático de concreto foi realizado. O teste media a resistência à tração e à compressão do material. Outros ingredientes agregados ao material foram a areia, brita, argila, cascalho, escolha e xisto. O concreto que faz uso do metal e/ou do aço é chamado de concreto armado, descoberto por Joseph Monier em 1849. 

Mas seria o concreto o material mais vantajoso nas construções? Enquanto o aço e o concreto demandam uma grande quantidade de energia para serem produzidos, a pedra por exemplo já está pronta para ser utilizada, além de ter uma duração muito maior , ser mais rígida e resistente se comparado a outros materiais.

Após a revolução industrial, a pedra foi sendo cada vez mais esquecida por engenheiros e arquitetos, pois neste período foi incentivado o ramo das pesquisas, as quais desenvolveram novos materiais como o vidro e ferro que substituíram uma grande gama de materiais que eram comuns nas construções da época. 

Uma grande característica da Revolução Industrial foi a substituição do trabalho artesanal pelo uso das máquinas. Esta troca fez com que todos os processos de fabricação (de todos os tipos de produtos) acabasse sendo muito mais rápida e volumosa. Uma das vantagens para a arquitetura, foi a aceleração das construções, tornando-as modulares, além de criar um padrão das peças (pilares, lajes, parafusos e etc) facilitando no desenvolvimento de plantas.

Idade Contemporânea/ Modernismo

No início do século XX, as construções com concreto eram tão comuns quanto as de aço. O uso estruturalmente expressivo deste material de construção em diferentes formas foi dotado em especial para edifícios religiosos como a Sagrada Família, em Barcelona (1882). O uso do concreto em locais de oração teve seu auge durante as décadas entre as guerras mundiais, principalmente por arquitetos alemães, que se beneficiaram de sua plasticidade para criar formas curvilíneas, arqueadas e angulares.

O pós-guerra se beneficiou dos primeiros experimentos do século XX em projetos, estimulando a criatividade dos arquitetos em relação à sua plasticidade e à sua textura. Além de vários outros arquitetos, Le Corbusier foi e ainda é reconhecido pela beleza de suas formas em concreto, que deixavam à mostra as listras das fôrmas em madeira. O uso cada vez maior de formas arrojadas combinadas com concreto jateado sob paredes de reboco ásperas pode ser visto na capela de Notre Dame Du Haut em Ronchamp na França.

https://por.architecturaldesignschool.com/light-matters-le-corbusier-53757

Este aspecto texturizado dos padrões de fôrmas de madeira no concreto, normalmente é associado ao brutalismo, pois o termo remete ao áspero, agressivo, sem delicadeza nem restrições. O brutalismo é uma filosofia arquitetônica desenvolvida por arquitetos britânicos em 1953. Foi um dos produtos principais da reconstrução pós Segunda Guerra Mundial, pois era uma forma de construção rápida e pragmática (no sentido das formas geométricas como quadrados e retângulos). A nova forma arquitetônica costumava deixar visível o funcionamento do edifício, deixando em destaque os aspectos da engenharia industrial, assim como o projeto de superfície e estrutura. 

O “novo brutalismo”, segundo Smithsons, era inicialmente intercambiável com o que eles chamavam de “estética do armazém”, que tinha como objetivo capturar a qualidade bruta dos materiais.

“O brutalismo não se preocupa com o material como tal, mas sim com a qualidade do material, ou seja, com a pergunta: o que pode fazer? E por analogia: existe uma maneira de lidar como o ouro de forma brutalista e não significa bruto e barato, significa: qual é a sua qualidade bruta?”  Peter Smithson: Conversations with Students, Princeton Architectural Press, 2004.

“O brutalismo tenta enfrentar uma sociedade de produção em massa e arrancar uma poesia áspera das forças confusas e poderosas que estão em ação. Até agora o brutalismo tem sido discutido estilisticamente, enquanto sua essência é ética” Alison & Peter Smithson, “The New Brutalism”, Architectural Design  abril de 1957.

Um dos defensores  pioneiros do brutalismo foi Reyner Banham, que publicou um ensaio resumindo as características definidoras deste novo estilo. “1, Legibilidade formal do plano; 2, exposição clara da estrutura, e 3, avaliação dos materiais por suas qualidades inerentes ‘como encontrados’ ”.  E ainda adicionou: “Em última instância, o que caracteriza o Novo Brutalismo na arquitetura […] é precisamente sua brutalidade, seu je-m’en-foutisme , sua mentalidade sangrenta.” [Banham, “The New Brutalism”, Architectural Review  (dezembro de 1955).

Entretanto, Baham deixou de listar diversos edifícios que hoje são considerados brutalistas, como Paul Rudolph, Marcel Breuer e Boston City Hall, de Louis Kahn.

Universalmente reconhecível por suas geometrias abstratas severas e o uso monolítico de concreto, bloco e tijolo – esta atitude chamada brutalismo tornou-se uma abordagem consensual para a monumentalização da arquitetura moderna.

https://criticundertheinfluence.wordpress.com/category/brutalism/

“Universalmente reconhecível por suas geometrias abstratas severas e o uso monolítico de concreto, bloco e tijolo – esta atitude chamada brutalismo tornou-se uma abordagem consensual para a monumentalização da arquitetura moderna.” Michael Brahamson, 20 de novembro de 2011

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