Um novo paradigma para a arquitetura ocidental

Texto por Guilherme Seror.

Um novo paradigma para a arquitetura ocidental 
A Prática de Lacaton & Vassal

Introdução

Os arquitetos franceses Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, que fundaram juntos em 1987 o escritório Lacaton & Vassal, ficaram conhecidos em 2021 como os grandes vencedores do prêmio Pritzker de arquitetura. Essa revelação acabou pegando algumas pessoas de surpresa, visto que a prática da dupla se destoa dos starchitects (arquitetos-estrelas) que comumente são laureados pela premiação. É verdade que alguns vencedores também possuíam uma prática distinta e sem grandes extravagâncias ou projetos monumentais – como as vencedoras do ano passado, Yvonne Farrell e Shelley McNamara. No entanto, um dos aspectos mais intrigantes quanto à premiação da dupla francesa se deve ao momento em que ocorre: na maior crise sanitária do século XXI e em um período onde diversos hábitos de produção e de consumo tem sido revistos, buscando minimizar seus impactos em um meio-ambiente que já sofre as sequelas de décadas de práticas irresponsáveis.

Lacaton & Vassal são adeptos de uma arquitetura que respeita a pré-existência, ou seja, o valor do construído, do já edificado, é exaltado. Os projetos que pousam sobre suas pranchetas são minuciosamente estudados e, quando se trata de uma intervenção em um edifício existente, aspectos positivos são enaltecidos e as deficiências buscam ser sanadas.

Assim, a tabula rasa tão frequente na prática de diversos arquitetos[1] é veementemente contestada pela dupla. Obviamente, colocar uma edificação existente abaixo e projetar uma nova a partir do zero, é uma tarefa muito mais simples do que analisar a fundo a construção e identificar suas qualidades e potencialidades. Segundo eles, qualquer edificação possui seu valor intrínseco e, por mais que muitos discutam a ausência de qualidade de uma dada edificação, as pessoas que o habitam ou o frequentam possuem, muitas vezes, relações de afeto com a obra construída.

Além do respeito à pré-existência, Lacaton & Vassal frequentemente realizam intervenções pontuais em edificações que são capazes de dar um novo significado a elas. Um conjunto habitacional popular com 530 unidades habitacionais, Cité du Grand Parc, localizado em Bordeux, é um exemplo dessa prática. Além de reformas no interior das unidades habitacionais – em especial nas instalações elétricas e hidráulicas – foram adicionadas varandas que avançam quatro metros para fora em todos os apartamentos. Esta simples intervenção foi capaz de adicionar um cômodo a mais nas unidades habitacionais que, durante o verão, funciona como uma sacada, possibilitando a permanência em um ambiente mais arejado e com vistas para o exterior. Já durante o inverno, atua como uma estufa, garantindo o conforto térmico a partir do fechamento da caixilharia. Em certos casos, essa adição do novo cômodo praticamente dobrou a área de alguns apartamentos e, ainda mais impressionante: todas essas adaptações foram realizadas sem precisar desalojar os moradores. 

Essa postura mais consciente quanto ao papel da arquitetura soa como música para o momento em que vivemos, onde temos uma iminente crise ambiental e climática. Torna-se imprescindível, portanto, que repensemos nossos hábitos de consumo e de produção, em especial no que concerne ao setor da construção civil, que é um dos que mais impactam o meio-ambiente.

Apesar dessa atuação de Lacaton & Vassal ser de grande importância para o cenário relativo à prática arquitetônica contemporânea, o aspecto que será abordado neste texto diz respeito às semelhanças e associações existentes entre as obras da dupla e os conceitos japoneses referentes ao tratamento do espaço – ou vazio – , assim como a valorização do pré-existente. Deste modo, serão abordados os conceitos do Ma e do Wabi Sabi e de que modo se relacionam com as obras da Casa Latapie e do conjunto habitacional Cité du Grand Parc, de Lacaton & Vassal. 


[1]A prática da tabula rasa foi amplamente defendida e utilizada entre os adeptos do Modernismo. Le Corbusier, por exemplo, chegou a propor para a cidade de Paris o Plan Voisin, onde grande parte do centro da cidade seria posto abaixo, dando lugar a torres verticais padronizadas, grandes avenidas para os automóveis e áreas arborizadas. Atualmente, entretanto, essa prática vai além da decisão do arquiteto. Muitos incorporadores veem essa ação como uma possibilidade de maximizar seus lucros, apesar da inerente destruição do tecido urbano pré-existente.

A dupla Lacaton & Vassal

Anne Lacaton e Jean-Phillippe Vassal. Imagem: El Croquis.

Anne Lacaton (1955, Saint-Pardoux, França) e Jean-Philippe Vassal (1954, Casablanca, Marrocos) se conheceram no final dos anos 1970 durante a graduação em arquitetura na 

École Nationale Supérieure d’Architecture et de Paysage de Bordeaux. Lacaton fez mestrado em Planejamento Urbano na Universidade de Bordeaux Montaigne (1984), enquanto Vassal se mudou para o Níger, na África Ocidental, para praticar o planejamento urbano. Lacaton visitava Vassal com frequência, e foi lá que começou a gênese de suas doutrinas arquitetônicas, pois foram profundamente influenciados pela beleza e pela capacidade de poupar recursos nas paisagens desérticas do país.

Em Niamey, Níger, Lacaton e Vassal construíram seu primeiro projeto conjunto, uma cabana de palha, construída com galhos de arbustos de origem local, que produziu uma impermanência surpreendente, cedendo ao vento dois anos após a conclusão. Eles juraram nunca demolir o que poderia ser resgatado e, em vez disso, tornar sustentável o que já existe, respeitando o luxo da simplicidade e propondo novas possibilidades.

Eles estabeleceram o escritório Lacaton & Vassal em Paris no ano de 1987 e, desde então, demonstraram ousadia por meio do design de novos edifícios e projetos transformadores. Por mais de três décadas, projetaram habitações privadas e sociais, instituições culturais e acadêmicas, espaços públicos e estratégias urbanas. A arquitetura da dupla reflete sua defesa da justiça social e da sustentabilidade, priorizando a generosidade do espaço e a liberdade de uso por meio de materiais econômicos e ecológicos.

Proporcionar bem-estar físico e emocional também tem sido intencional em seu trabalho. A aplicação de tecnologias de estufa para criar condições bioclimáticas começou com a Casa Latapie em Floirac, França (1993). Usando o sol, em harmonia com a ventilação natural, proteção solar e isolamento, eles criaram microclimas ajustáveis e desejáveis. 

Por meio de novas construções e da transformação de edifícios, honrar o pré-existente é autêntico em seu trabalho. Segundo Lacaton: 

O pré-existente tem valor se você dedicar tempo e esforço para examiná-lo cuidadosamente. Na verdade, é uma questão de observação, de abordar um lugar com olhos novos, atenção e precisão (…) para entender os valores e as carências, e ver como podemos mudar a situação mantendo todos os valores do que já está lá.

EL CROQUIS (2015)

Sua seleção habilidosa de materiais modestos permite que os arquitetos construam espaços maiores de forma acessível. Ao longo de suas carreiras, os arquitetos rejeitaram os planos urbanos que previam a demolição de habitações sociais, concentrando-se em projetar de dentro para fora para priorizar o bem-estar dos habitantes de um edifício e seus desejos unânimes por espaços maiores. Lacaton diz que “nunca vemos o existente como um problema. Olhamos com olhos positivos porque existe a oportunidade de fazer mais com o que já temos”, complementada por Vassal que retrata suas experiências anteriores: “Fomos a lugares onde prédios teriam sido demolidos e encontramos pessoas, famílias apegadas à moradia, mesmo que a situação não fosse a melhor. Na maioria das vezes, eles se opunham à demolição porque desejavam permanecer em sua vizinhança. É uma questão de gentileza.” (PRIZTKERPRIZE.COM)

Atualmente a dupla reside e trabalha em Paris, França.

Relação com a pré-existência

A obra de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal reflete o espírito democrático da arquitetura. Por meio de suas ideias, abordagem à profissão e os edifícios resultantes, eles provaram que um compromisso com uma arquitetura restauradora, que é ao mesmo tempo tecnológica, inovadora e ecologicamente responsiva, pode ser perseguido sem nostalgia. Assim, eles não apenas definiram uma abordagem arquitetônica que renova o legado do modernismo, mas também propuseram uma definição adequada da própria profissão de arquitetura. 

De acordo com o site da premiação Pritzker:

As esperanças e sonhos modernistas de melhorar a vida de muitos são revigorados por meio de seu trabalho que responde às emergências climáticas e ecológicas de nosso tempo, bem como às urgências sociais, particularmente no domínio da habitação urbana. A dupla consegue isso por meio de um apurado senso de espaço e uma materialidade que cria uma arquitetura tão forte em suas formas quanto em suas convicções, tão transparente em sua estética quanto em sua ética. São recusadas qualquer oposição entre qualidade arquitetônica, responsabilidade ambiental e a busca por uma sociedade ética. 

PRITZKERPRIZE.COM

Assim, a noção de pertencer e ser responsável por um todo maior, envolve não apenas outros seres humanos, mas o planeta em geral. Desde muito cedo, Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal têm expandido consistentemente a noção de sustentabilidade para ser entendida como um equilíbrio real entre seus pilares econômico, ambiental e social. O extenso trabalho dos arquitetos contém uma variedade de projetos que abordam ativamente a responsabilidade nessas três dimensões. Segundo Vassal:

É claro para nós que você pode fazer mais com menos usando o que já existe. Se você demolir, um se perde, e depois disso, outro é reconstruído, então no final ainda é apenas um. Por um lado, custa muita energia, tempo e dinheiro para obter apenas um, e por outro lado, apenas adicionando a metade, você obtém um e meio. Ao mesmo tempo, atende à preocupação geral com a sustentabilidade (…) Estamos interessados ​​na habitação social, mas ao mesmo tempo pensamos que a habitação social não deve existir como categoria. Deve haver apenas moradias, moradias de boa qualidade, em todos os lugares.

EL CROQUIS (2015)

O reconhecimento – Pritzker 2021 

“Por acreditarem que a arquitetura é mais do que apenas edifícios, pelas questões que abordam e pelas propostas que realizam, por traçar um caminho responsável e às vezes solitário, ilustrando que a melhor arquitetura pode ser humilde e sempre atenciosa, respeitosa e responsável, eles têm mostrado que a arquitetura pode ter um grande impacto em nossas comunidades e contribuir para a consciência de que não estamos sós. Por seu trabalho realizado e do futuro, Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal são nomeados os laureados com o Prêmio Pritzker de 2021.” 

PRITZKERPRIZE.COM

Lançado há 42 anos, o Prêmio Pritzker tem como objetivo inicial estimular uma maior consciência de como percebemos e interagimos com o que nos cerca. No entanto, a premiação privilegiou principalmente o que hoje conhecemos como arquitetos-estrelas (starchitects): quase sempre homens – Zaha Hadid foi a primeira mulher a vencer, em 2004; Lacaton é apenas a sexta – cuja marca pessoal é tão importante quanto qualquer edifício extraordinário que possam projetar.

À medida que a indústria mais ampla muda para responder a emergências sociais, climáticas e ambientais, no entanto, parece que o Pritzker também está mudando de marcha. Em 2020, as arquitetas irlandesas Yvonne Farrell e Shelley McNamara venceram por seu serviço consistente à humanidade. Segundo o júri da premiação, seus edifícios eram “bons vizinhos” e ambientalmente responsáveis.

Atualmente, tem-se verificado que a consciência ecológica na arquitetura contemporânea tem sido reconhecida por meio de certificação e não prêmios. E os edifícios, não os arquitetos que os projetam, foram os destinatários. Certificar um edifício faz sentido porque é um produto único de um processo, além disso, pode ser julgado com precisão. Existem duas certificações reconhecidas internacionalmente – BREEAM e LEED [1] – que são projetadas para avaliar a sustentabilidade (da eficiência energética e hídrica às emissões de CO2) de qualquer projeto.

Por outro lado, julgar todo o processo de um arquiteto é mais complicado. O arquiteto alemão Thomas Herzog, por exemplo, é amplamente considerado o pioneiro da arquitetura sustentável[2]. Todavia, poucos podem provar suas credenciais de sustentabilidade para tudo o que empreendem.

Um fato interessante é que não há muita sobreposição entre esses dois marcadores de excelência – os arquitetos premiados com um Pritzker versus os arquitetos que projetam edifícios com certificação BREEAM ou LEED . Isso levanta uma questão importante sobre o que realmente valorizamos na arquitetura. Uma conexão direta foi feita até agora entre a icônica “arquitetura de estrelas” e o capitalismo global. A prática de Lacaton e Vassal oferece uma alternativa ousada. O lema da dupla francesa é “nunca demolir”. Este princípio, de valorizar o que existe acaba indo em contramão à predominante prática capitalista de produzir cada vez mais, mesmo que para isso seja preciso destruir o antigo. Deste modo, pode-se afirmar que a forma como a dupla francesa concebe sua arquitetura está muito mais alinhada com práticas sustentáveis, do que a partir do acúmulo de inúmeros selos e pontuações que uma edificação pode receber, seja ela BREEAM ou LEED. 

Quando a dupla encontra árvores em um local, por exemplo, ela constroi ao redor delas (Casa Cap Ferret, Arcachon). Quando contratada para demolir e reconstruir (a torre Bois-le-Prêtre dos anos 1960 em Paris), ela recusa ou sugere intervenções mais leves. Ao renovar a habitação social (as torres do Cité du Grand Parc, em Bordeaux), fazem-no sem deslocar a comunidade que aí vive.

A arquitetura de Lacaton & Vassal é baseada em uma consciência política profundamente arraigada que impede a beleza pela beleza. Em vez disso, a beleza vem da maneira como a arquitetura é concebida, projetada e construída com as pessoas e o planeta em mente.

Deste modo, o júri do Pritzker analisou a forma como os projetos de habitação urbana da dupla francesa, em particular, respondem às crises que enfrentamos. Assim, com o reconhecimento da premiação, é lançada luz sobre uma prática arquitetônica ainda pouco divulgada e enaltecida pelo público geral. Uma arquitetura responsável, que zele pela sustentabilidade e pela pré-existência, se mostra essencial em um cenário global onde os recursos são tratados como finitos. Resta a dúvida se essa importante prática arquitetônica continuará sendo laureada por grandes premiações ou se trata de apenas um ponto fora da curva.


[1] O BREEAM é um sistema de avaliação internacional desenvolvido pelo BRE (Building Research Establishment) no Reino Unido em 1990, cujo propósito é medir o grau de sustentabilidade ambiental dos edifícios. O LEED, que funciona por um sistema de pontos, também é uma certificação que visa medir o grau de sustentabilidade de um edifício. Há diferentes selos que as edificações podem receber: LEED certified, LEED Silver, LEED Gold e, por último, o LEED Platinum.

[2] Ao longo de sua carreira, Thomas Herzog desenvolveu novos materiais e tecnologias que tornaram possível a criação de edifícios cada vez mais eficientes em termos de energia e recursos. Sua prática, ao promover o desenvolvimento da arquitetura sustentável, contribui para que seu trabalho seja, cada vez mais, reconhecido internacionalmente nessa área.

Associações da prática de Lacaton & Vassal com conceitos japoneses 

Lacaton & Vassal possuem uma prática razoavelmente distinta dos grandes arquitetos ocidentais. Alguns de seus princípios quanto à prática arquitetônica podem ser relacionados com alguns conceitos japoneses que dizem respeito à percepção do espaço, à materialidade e ao respeito à pré-existência.

A análise de algumas obras da dupla nos permite observar a interessante relação que elas possuem com o espaço, seja criando cômodos sem uso definido (Casa Latapie), seja a partir da incorporação do vazio ao bem edificado (conjunto habitacional Bois-le-Prêtre). A sensibilidade quanto à materialidade, ao território e às práticas locais também é algo que pode ser identificado já no princípio da prática arquitetônica dos dois, em especial de Jean-Phillipe Vassal que, logo após sua graduação, mudou-se para o Níger, onde ficou por cinco anos, e lá iniciou uma série de projetos e experimentos que refletem até hoje em suas obras.

Em entrevista à revista espanhola El Croquis, Vassal conta sobre o tempo em que atuou como planejador urbano no Níger:

Eles propuseram que eu trabalhasse com planejamento urbano, mas na verdade eu estava fazendo, digamos, planejamento de aldeias. Foi muito interessante porque era imediatamente possível ir a qualquer lugar, em todo o país, incluindo o deserto do Saara. Este planejamento urbano lidou com os assentamentos temporários de nômades na estação seca em torno das aldeias, tentando organizá-los e tornar as coisas mais confortáveis. Houve um confronto de duas populações, pessoas sedentárias e grupos nômades com seu gado circulando pelas aldeias, porque não havia nada para os animais comerem no deserto. Portanto, tivemos que planejar um desenvolvimento rápido e temporário para as aldeias. Não tínhamos nada para trabalhar, nem vistas aéreas (do território), nem plantas, nem desenhos, por isso trabalhamos diretamente no local, tentando definir acessos, ruas e a disposição de alguns terrenos, cuidando das poucas árvores existentes e discutindo com os anciãos da aldeia para descobrir alguns fatos básicos, incluindo o clima. 

EL CROQUIS (2015)

Essa experiência acabou fazendo com que Vassal se dedicasse à análise do território in loco, visto que não dispunha de materiais de levantamento para iniciar a execução dos projetos. Essa vivência possivelmente contribuiu para um dos aspectos mais característicos da dupla, referente à relação da edificação com o seu entorno, visto que a ambiência desempenha um papel crucial nos projetos que desenvolve.

Quanto ao estudo do território e às condições climáticas, o período no Níger também foi crucial, visto que a própria tipologia das edificações desenvolvidas por ele durante o período de intercâmbio, era bastante distinta do que ele era familiarizado: “A ideia de uma casa ali não é realmente definida por suas paredes. Também é definida pela geografia, pelas correntes de ar, pelo movimento da areia e pela posição em relação à aldeia.” (El Croquis).

Essa atenção ao ambiente, ao clima e às estações também é algo muito caro à arquitetura japonesa. A iluminação, o uso e a materialidade definida para os espaços são frequentemente pensados tendo-se em mente as variações resultantes dos fenômenos naturais. Junichiro Tanizaki, em sua obra Em Louvor da Sombra, aborda de forma interessante essa relação ao explorar as diferenças entre um telhado ocidental e um japonês:

Casas ocidentais também tem telhado, claro, mas este serve muito mais para proteger da chuva e do sereno que do sol: uma análise externa das construções ocidentais é suficiente para evidenciar o esforço despendido no sentido de insolar o interior e evitar a formação de áreas sombrias. Se o telhado japonês é guarda-sol, o ocidental é apenas chapéu. Aliás, chapéu de aba bem estreita, um boné. que possibilita o acesso dos raios solares à área sob o beiral. Mas a amplitude dos telhados japoneses talvez se relacione com o nosso clima, com o material de construção de que dispúnhamos e com mais alguns fatores. 

TANIZAKI (2017)

Ainda sobre referências quanto à arquitetura e à conceitos japoneses, uma importante fonte para a pesquisa deste trabalho foi o livro da autora Beth Kempton, Wabi Sabi: Japanese Wisdom for a Perfectly Imperfect Life, que aborda o conceito do Wabi Wabi e como ele se reflete na vida cotidiana dos japoneses. No que concerne à arquitetura, segundo ela, podemos notar, quase sempre, alguns elementos particulares nos lares japoneses:

Embora o japonês médio não more em uma casa projetada por arquitetos, há lições valiosas a serem aprendidas com os princípios da arquitetura japonesa para inspirar nossos próprios espaços. Para descobrir mais sobre isso, procurei o Dr. Teruaki Matsuzaki, um dos mais importantes historiadores da arquitetura do Japão, que descreveu as principais características da arquitetura japonesa da seguinte forma: Ma; natureza e a conexão entre dentro e fora; uma sensação de beleza; uma compreensão de luz e sombra; a seleção cuidadosa de materiais (qualidade, origem, textura, cheiro); o conceito de ‘menos é mais’.

KEMPTON (2018)

O conceito de Ma, de difícil tradução, pode ser interpretado, de acordo com o arquiteto Matthew Claudel, como um sinônimo de “espaço”. No entanto, ele vai além do conceito ocidental de espaço físico, referindo-se, por sua vez, à distância natural entre duas ou mais coisas existentes em uma continuidade, a pausa natural ou intervalo entre dois ou mais fenômenos ocorrendo continuamente.

Ainda referindo-se à estética japonesa e à obra de Kempton, um outro elemento de grande relevância é a incompletude. Deixar espaço para a imaginação, onde seja possível criarmos a nossa própria “versão da história” é algo que tem forte apelo aos japoneses:

Matsuzaki-sensei disse que a chave para a genialidade estética é deixar algo inacabado para atrair o espectador. Uma bela escrita deixa algo por dizer, para que o leitor possa terminar em sua imaginação. A bela arte deixa algo sem explicação, então o espectador participa com sua curiosidade. É o mesmo com arquitetura e interiores. Perfeição e integridade não são ideais, mesmo que a arquitetura pareça “perfeita” nas revistas de design. Matsuzaki-sensei disse: ‘Os espaços são criados para serem vividos e usados, e se não funcionam bem, não são considerados bem-sucedidos’. 

KEMPTON (2018)

Deste modo, o conceito de Ma e do conceito de Wabi Sabi serão melhor explicados a seguir para que possam fornecer uma base para compreendermos melhor algumas obras de Lacaton & Vassal.

Ma

A dissertação de mestrado de Juan Pablo Rosenberg, A construção do território – Abstração e natureza nas obras de Luis Barragán, Álvaro Siza e Tadao Ando, foi de grande utilidade para permitir um melhor entendimento deste importante e, muitas vezes difícil de compreender, conceito japonês. Em sua dissertação, Juan Pablio diz:

No ideário japonês, o Ma tem o sentido de um “vazio” de ligação que incorpora essa relação “espaço-tempo”. Se no Ocidente o vazio traz a ideia de vacuidade ou nulidade – desprezado pela perspectiva renascentista –, em oposição hierárquica à plenitude da forma, no pensamento budista o vazio é entendido como uma não-forma que coexiste com a forma, o que gera o sentido de impermanência das coisas. 

Assim, a forma e a não-forma – o vazio – têm o mesmo peso na estrutura do pensamento e do espaço. Ao representar o espaço-tempo desse vazio, o Ma se coloca como um vazio não estático que ao mesmo tempo separa e une dois elementos numa zona de coexistência, devendo portanto ser compreendido como um intervalo radicalmente disponível.

(…) Para os japoneses, o Ma, mais que um conceito, é um modus operandi vivo em seu cotidiano, o qual se apresenta em todos os aspectos de sua cultura, de maneira que a construção do conhecimento a seu respeito se faz mais pela percepção do que pela razão, sem ser possível encontrar uma tradução direta ou explicação lógica para o termo. (OKANO, 2012, p. 40). 

ROSENBERG (2016)
Imagem: Medium.com

A criação desse não-espaço pode ser verificada na primeira obra de Lacaton & Vassal, a Casa Latapie, onde um novo espaço – ou não-espaço – foi incorporado à residência e tornando-se, simultaneamente, um entreposto entre o externo e interno, o privado e o público. Veremos mais sobre o projeto da residência mais à frente.

Wabi Sabi

A palavra wabi significa “gosto moderado”. Originalmente, tinha conexões linguísticas com pobreza, insuficiência e desespero, do verbo wabiru (preocupar-se ou perder) e o adjetivo relacionado wabishii (miserável, solitário, pobre). Como um termo estético, a beleza do wabi está em seu tom de escuridão subjacente. 

É uma beleza sublime em meio às duras realidades da vida. Como escreveu o sacerdote budista Kenkō, sete séculos atrás: ‘Devemos olhar para as flores da primavera apenas em plena floração, ou a lua apenas quando sem nuvens e clara?’ A beleza não é apenas evidente na alegria, no alto ou no óbvio. Wabi implica uma quietude, com um ar de elevação acima do mundano. É uma aceitação da realidade e do que vem com ela. Isso nos permite perceber que, seja qual for a situação vivenciada, há sempre uma beleza escondida em algum lugar. 

KEMPTON (2018)

Wabi pode descrever o sentimento gerado pelo reconhecimento da beleza encontrada na simplicidade. É uma sensação de contentamento silencioso encontrado longe das armadilhas de um mundo materialista. Assim, wabi é uma mentalidade que valoriza a humildade, a simplicidade e a frugalidade como caminhos para a tranquilidade e o contentamento. O espírito do wabi está profundamente ligado à ideia de aceitar que nossas verdadeiras necessidades são simples e de ser humilde e grato pela beleza que já existe onde estamos.

A palavra sabi, por sua vez, significa “pátina, aparência antiga, simplicidade elegante”. O mesmo ideograma também pode ser traduzido como “tranquilidade”. O adjetivo sabishii significa “solitário” ou “isolado”. Significa enferrujar, declínio ou mostrar sinais de envelhecimento. Com o tempo, a palavra sabi passou a comunicar uma beleza profunda e calma que surge com o passar do tempo. Segundo Kempton:

Visualmente, reconhecemos isso como a pátina de certos materiais, desgaste, manchas e sinais de antiguidade. Sabi é uma condição criada pelo tempo, não pela mão humana, embora muitas vezes surja em objetos que foram originalmente feitos com zelo. É a beleza revelada nos processos de uso e degradação, como o brilho opaco na textura gasta de uma mesa de cozinha de uma casa de fazenda muito apreciada. 

KEMPTON (2016)

A já mencionada obra de Junichiro Tanizaki, Em Louvor da Sombra, também nos permite observar como os japoneses encontram beleza em sabi

De modo geral, nós, os japoneses, sentimos desassossego diante de objetos cintilantes. No ocidente, prata, ferro ou cobre são usados na fabricação de aparelhos de jantar e talheres, os quais são polidos até brilhar, coisa que não apreciamos. Às vezes, fazemos chaleiras, taças e frascos de saquê de prata, mas não os lustramos. Ao contrário, apraz-nos observar o tempo marcar sua passagem esmaecendo o brilho do metal, queimando e esfumaçando sua superfície. (…) Isso não significa que todo brilho nos desgoste, mas ao superficial e faiscante, preferimos o profundo e sombrio. Seja em pedras ou em utensílios, nosso gosto é pelo brilho mortiço que remete ao lustro dos anos.

TANIZAKI (2017)

Embora sabi se preocupe com a forma como a passagem do tempo se manifesta fisicamente nos objetos, como acontece com grande parte da estética japonesa, seu significado mais profundo sugere o que está escondido por baixo da superfície do que vemos. É uma representação de como todas as coisas evoluem e perecem e podem nos evocar uma resposta emocional, muitas vezes tingida de tristeza, quando refletimos sobre a impermanência da vida. A beleza do sabi nos lembra de nossa própria conexão com o passado, do ciclo natural da vida e de nossa própria mortalidade. 

Ao relacionarmos o conceito de Wabi Sabi com a prática da dupla francesa, as experiências proporcionadas pelo intercâmbio realizado por Vassal no Níger apresentam grande compatibilidade com os aspectos relacionados à beleza encontrada na simplicidade, à efemeridade e às marcas da passagem do tempo. Durante o tempo que trabalhou no país, Vassal teve de se adaptar a uma realidade bastante distinta da francesa, como ele menciona a seguir:

A situação era completamente nova para mim, e foi muito bom descobrir como essas pessoas, apesar de não terem literalmente nada, podiam ser tão inventivas ao desenvolver casas e objetos pela montagem de coisas encontradas. Também aprendi muito sobre como lidar com as condições climáticas extremas e o que realmente é uma casa nesse clima, ou o que significa estar dentro ou fora de casa dependendo das condições climáticas (…) O que eu gostei foi a inventividade total em o uso de materiais, como eles usaram a palha e galhos, mas também um painel ondulado ou até mesmo uma porta de geladeira pode servir como uma porta. 

EL CROQUIS (2015)

Relações com as obras

Assim, após a exposição dos conceitos japoneses e das associações com a prática de Lacaton & Vassal, analisaremos duas obras da dupla que, de certa forma, incorporam alguns destes elementos orientais em sua concepção. São elas a Casa Latapie, que foi o primeiro projeto realizado pela dupla e a reforma do conjunto habitacional Cité du Grand Parc.

Casa Latapie

Na edição especial sobre Lacaton & Vassal da revista espanhola de arquiteturaEl Croquis, publicada em 2015, o projeto da Casa Latapie é apresentado da seguinte maneira:

A casa está situada em uma área residencial aberta na periferia de Bordeaux. Com seu formato simples e retangular, se integra bem ao perfil das casas da região ao longo da estrada. Os clientes – um casal com dois filhos – tinham um orçamento bastante limitado, o que tornava o projeto mais complicado, mas ao mesmo tempo mais emocionante. O lado da edificação voltado para a rua, construído em fibrocimento ondulado, proporciona privacidade visual, enquanto a parte voltada para o jardim é composta por uma estufa com painéis de policarbonato transparente. Um cubo de madeira integrado à construção de aço por trás do revestimento de cimento, serve como um espaço isolado durante o inverno, que também pode se tornar aquecido. Devido a sua orientação oriental, a estufa anexa à área de estar capta o sol da manhã e também pode ser aquecida, enquanto as grandes abas de ventilação garantem uma temperatura ambiente agradável. Ambas as fachadas leste e oeste da casa podem ser modificadas por meio de portas de correr e dobrar. Dependendo das necessidades e desejos de luminosidade e transparência, por um lado, ou intimidade e privacidade, por outro, o edifício pode ser transformado de um estado totalmente fechado, para um estado muito aberto. Além disso, a área de estar pode ter seu uso adaptado conforme as estações. A Casa Latapie é o primeiro projeto de uma série consecutiva em que o fascínio de ambos os arquitetos pelo sistema simples, inteligente e barato de estufas e pela criação de um espaço protegido e, portanto, habitável, encontrou sua expressão. 

EL CROQUIS (2015)
Imagem: El Croquis

A partir da apresentação do projeto, podemos notar alguns aspectos ligados à sensibilidade quanto à ambiência para realizar a implantação da casa e também à liberdade de usos e ocupação do espaço que o usuário adquire com o projeto. A relação entre o interno e o externo, ou seja, a paisagem construída e a paisagem natural, se dá de forma extremamente sofisticada e econômica neste projeto. De acordo com as diferentes estações – do rigoroso inverno, ao intenso verão – o espaço compreendido como estufa, pode servir a diferentes propósitos e, assim, garantir maior liberdade quanto a sua configuração. 

A mudança das estações e os impactos que resultam no uso dos espaços é algo que pode ser associado ao conceito de estesia, que é abordado amplamente ao longo da obra de Junichiro Tanizaki. Como já foi dito anteriormente, as construções japonesas buscam tirar proveito das variações de temperatura – e de luz e sombra – ao conceberem seus espaços. A atenção à materialidade, com suas texturas e cores, também desempenham um papel crucial para criar a atmosfera do espaço, visto que a forma como visualizamos um certo material se altera dependendo destas alterações sazonais. Ao falar sobre os banheiros japoneses, Tanizaki nos oferece uma visão sobre a estesia que esses ambientes proporcionam:

Segundo dizem, o escritor Soseki Natsume contava as idas matinais ao banheiro entre os prazeres de sua vida, e delas auferia o êxtase fisiológico. E para experimentar tal êxtase não há em minha opinião lugar mais adequado que uma latrina em estilo japonês, onde, cercado por sóbrias paredes de madeira de requintado veio, pode-se contemplar tanto o céu azul como o verdejante frescor das plantas. Além disso, volto a dizer, é imprescindível que o ambiente seja sombrio e absolutamente limpo, e esteja imerso em silêncio tão profundo que torne audível até o fino zumbido de um pernilongo (…) Com efeito, são lugares propícios para se ouvir o cricrilar de grilos e o gorjeio de pássaros, propícios também para apreciar o luar: neles se sente com penetrante intensidade a passagem das estações e a transitoriedade das coisas terrenas (…) 

TANIZAKI (2017)

O ambiente semelhante a uma estufa, projetado por Lacaton & Vassal, acaba por proporcionar aos seus usuários uma estesia semelhante à descrita por Tanizaki. Neste espaço, pode-se observar a passagem do dia, as variações de temperatura e os impactos que acabam resultando na maneira como o uso do espaço se dá. A própria materialidade, composta por paineis ondulados de policarbonato transparente, proporcionam uma maior integração entre o ambiente externo e o interno, elemento este também bastante caro à arquitetura japonesa. 

A forma como a dupla lançou mão de materiais baratos – visto que os clientes não dispunham de muitos recursos – para criar um ambiente cheio de poesia, se relaciona com o conceito de Wabi Sabi que foi abordado previamente. Em uma das imagens do projeto presente neste trabalho, é possível identificar uma cobertura de palha localizada dentro da sala-estufa, que se assemelha muito, por sua vez, com a arquitetura efêmera desenvolvida por Vassal no Níger. Quanto ao Ma, a própria volumetria e, novamente, a materialidade do ambiente, contribuem para criar essa sensação de espaço-não espaço. O pé direito duplo, a transparência e a possibilidade de abrir o ambiente para o exterior a partir das grandes esquadrias, dão a sensação de continuidade entre os diferentes espaços, interno e externo, a partir do vazio.

Em sentido horário: Aberturas da esquadria conectando a estufa ao jardim; detalhe construtivo das esquadrias de policarbonato transparente e imagem interna do ambiente. Imagem: El Croquis.

Cité du Grand Parc

Implantação Cité du Grand Parc, antes e depois do projeto de Lacaton & Vassal. Imagem: El Croquis (2015)

O projeto consiste na transformação de três edifícios de habitação social, compreendendo a primeira fase de um programa de renovação da Cité du Grand Parc em Bordeux. Construída no início dos anos 1960, esta habitação urbana conta com mais de 4.000 unidades habitacionais. Os três edifícios, G, H e I, que possuem de 10 a 15 pavimentos, reúnem 530 habitações e foram encarados pela dupla como possuindo um alto potencial de transformação. Um dos objetivos dos arquitetos foi convertê-las em moradias confortáveis e amplas.

Cité du Grand Parc, antes e depois do projeto de Lacaton & Vassal. Imagem: El Croquis.

A adição de jardins de inverno extensos e largas varandas dão a oportunidade, a cada apartamento, de usufruir de mais luz natural, mais fluidez de uso e mais vistas. De dentro dos apartamentos, a vista de Bordeux é panorâmica, devido à baixa topografia da cidade. A economia que o projeto representa se baseia na premissa de conservar o edifício existente sem fazer grandes intervenções na estrutura, nas escadas ou nas lajes. Esta abordagem de economia permitiu concentrar os esforços em extensões generosas que são, segundo os arquitetos, a chave para valorizar de forma duradoura a qualidade e a dimensão das habitações. Estas extensões alargam o espaço de utilização e dão a oportunidade, como numa casa, de viver fora. Os apartamentos, com as intervenções realizadas pela dupla, passaram a se abrir para grandes jardins de inverno e varandas, oferecendo agradáveis ​​espaços exteriores, de dimensões generosas: 3,80 m de profundidade nas fachadas sul dos edifícios H e I e nas duas fachadas do edifício G.

Através deste projeto, a habitação social, muitas vezes criticada, mostra o exemplo de uma transformação econômica relevante que produz – a partir de um existente julgado como carente de qualidades e visto de forma negativa – habitações generosas, agradáveis ​​e com bom desempenho, que renovam as tipologias e as condições de vida, conforto e prazer, e melhoraram a imagem da habitação urbana

EL CROQUIS (2015)
Diagramas arquitetônicos com as intervenções realizadas nos blocos G,H e I. Imagem: El Croquis.

Com o projeto de reforma do conjunto habitacional Cité du Grand Parc, notamos o cuidado da dupla francesa e a sua defesa em preservar o que já havia sido edificado. A busca por novas soluções e a abordagem projetual de Lacaton & Vassal, revela a preocupação social, ambiental e econômica que adotam em sua prática arquitetônica. Ao tentar sanar os aspectos considerados negativos da edificação, eles conseguiram transformar de forma engenhosa o que era visto como incompatível com o novo padrão de habitação social francês. O respeito pela relação que os moradores possuíam com suas próprias residências, bem como a atenção à pré-existência e ao papel sustentável que uma nova construção atualmente demanda, revelam uma postura anti-descarte, que preza pelo uso consciente dos materiais, bem como um respeito ao tecido urbano já consolidado.

O conceito de Wabi Sabi se explicita neste projeto a partir da revalorização de algo que era visto como decrépito. Lacaton & Vassal, a partir de um olhar apurado e uma prática sustentável, permitiram a transformação e requalificação de uma edificação que estava com seus dias contados. Esta sutileza no olhar, de conseguir vislumbrar um potencial de transformação onde a maioria das pessoas não o enxerga, se mostra como algo de extrema importância para a prática arquitetônica atual, visto que ela será pautada, com cada vez mais frequência, no uso consciente dos materiais e no impacto mínimo no meio-ambiente. Como vimos anteriormente neste trabalho ao abordar o conceito de Wabi Sabi, a valorização das coisas que já possuímos e a sensibilidade para enxergar beleza onde muitos não a veem, são de grande relevância. Este projeto, deste modo, sintetiza estas atitudes ao propor a manutenção da edificação, em oposição a sua demolição. As intervenções pontuais acabaram também, por sua vez, revelando a “beleza oculta” presente no edifício.

As varandas adicionadas ao projeto, semelhante à Casa Latapie, permitiram a conquista de um não-espaço, como se o Ma houvesse sido conquistado e adicionado às habitações. Algo que era externo às unidades habitacionais foi, a partir de um simples gesto, trazido para dentro das residências, fazendo a conexão entre a habitação – privada – e a cidade – pública -, que por sua vez gera um importante sentimento de pertencimento em relação à urbe. Deste modo, os moradores desses conjuntos habitacionais populares que, possivelmente, antes se viam como alijados da dinâmica urbana contemporânea, agora se sentem como uma parte ativa deste contexto.

A arquitetura mostra-se assim, como um importante elemento para a democratização do espaço, tendo um papel social de enorme importância, visto que os resultados gerados por um projeto arquitetônico de qualidade são capazes de catalizar importantes alterações, sejam elas econômicas, sociais ou de ocupação do espaço.

CIté-du-Grand-Parc durante as obras. Imagem: El Croquis.

Bibliografia

KEMPTON, Beth. Wabi Sabi: Japanese Wisdom for a Perfectly Imperfect Life. 1ª edição. Londres: Hachette, 2018;

MORENO, Cristina Díaz; GRINDA, Efrén García. Placeres Cotidianos – Una conversa com Anne Lacaton y Jean Philippe Vassal. El Croquis, Madrid, v. 177/178, 2015;

PRITZKER. The Pritzker Architecture Prize, 2021. Laureates. Disponível em: https://www.pritzkerprize.com/laureates/anne-lacaton-and-jean-philippe-vassal. Acesso em: 03 de maio de 2021;

ROSENBERG, Juan Pablo. A construção do território. Abstração e natureza nas obras de Luis Barragán, Álvaro Siza e Tadao Ando. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2016. Dissertação de Mestrado em Projeto de Arquitetura;

TANIZAKI, Junichiro. Em Louvor da Sombra. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.