A Superfície na Arquitetura

Texto por Cecilia Lancellotti e Julia Gonzalez.

A Superfície na Arquitetura 
Christo e Jeanne Claude

Introdução

Quem nunca apreciou a arte? Quem nunca pensou sobre a influência da arte na sociedade em que vivemos? Este texto aborda relações, mais especificamente aquela que coloca em debate os vínculos entre arte e arquitetura. Uma história que começa seus relatos no período neolítico, a arquitetura hoje é uma das 7 artes clássicas e talvez seja a primeira manifestação artística do ser humano. A construção de um ambiente físico para se abrigar e/ou adaptá-lo internamente para poder morar. 

A necessidade do homem em organizar espaços forma as civilizações e a arquitetura entra como a arte de definir esses espaços urbanos e cria desde o príncipio sua conexão direta com a vida. O ponto chave que iremos tratar sobre a relação de arte é arquitetura é como as superfícies dos edifícios são tratadas através dos olhos dos artistas.  Muitas vezes identificamos superfícies de edifícios abandonadas, maltratadas, descascadas e sobre elas identificamos expressões artísticas das mais diversas formas. Esses espaços esquecidos são reapropriados por artistas como Christo e Jeanne-Claude, que redefinem as possibilidades da arte pública.

A arquitetura pode ser camuflada de múltiplas formas e os artistas expressam suas críticas rompendo com o caminho tradicional da arquitetura. A arquitetura é arte, assim como se faz arte na arquitetura, a arte pública faz com que “toda interpretação seja legítima”, não são pinturas normais, não são esculturas normais, não é uma arquitetura normal. Difícil usar tantas vezes a palavra normal, tratando-se de um mundo que não existem mais padrões. Mas sem dúvidas as expressões artísticas nas envoltórias da arquitetura, que vão além do projeto inicial, inibem esses espaços a passarem despercebidos, a ser mais um destino ignorado por aqueles que passam no local. Esses muros se redescobrem como arte, com significado e crítica, trazem novos olhares para os “cantos” antes invisíveis ou pouco percebidos em seu real significado. 

Queremos aqui criar a discussão entre toda essa relação através de como são tratadas as superfícies de revestimento do espaço contemporâneo. Iremos focar nas obras de revestimento artístico de Christo e Jeanne-Claude, mas sem nos esquecer dos que os precederam (ex: Giotto) e os que os sucederam (visual mapping). Como as superfícies arquitetônicas são tratadas nos dias de hoje e como grandes autores debateram sobre o assunto, Hal Foster fala sobre as relações evanescentes da arquitetura e o que reveste o espaço, Bernard Tschumi sobre o envelopamento dos espaços como superfícies e fundamenta de fato o conceito do envelopamento. 

2.0 – Arte Viva: Christo e Jeanne Claude

Fonte: Archdaily

O meio ambiente sempre serviu de inspiração para a arte, podemos notar como nas últimas décadas a natureza volta a fazer parte da composição artística, criando novos ambientes através do contato com a composição inalterada. Um forte exemplo disso é o projeto The Floating Piers, de Christo e Jeanne-Claude, que será tratado no capítulo 2.3. 

Para melhorar o entendimento de nossos leitores, iremos apresentar o casal: Christo nasceu em 13 de junho de 1935 em Gabrovo, Bulgária, deixa a Bulgária em 1956, vai primeiro para Praga, Tchecoslováquia, e depois foge para Viena, Áustria, em 1957, depois mudou-se para Genebra, na Suíça. Em 1958, Christo foi para Paris, onde conheceu Jeanne-Claude, que se tornou não apenas sua esposa, mas também parceira vitalícia na criação de monumentais obras de arte. Jeanne-Claude faleceu em 18 de novembro de 2009. Christo faleceu em 31 de maio de 2020 em sua casa na cidade de Nova York, onde morou por 56 anos. 

A arte do casal permanece viva até os dias de hoje, fotografias e filmes são feitos de cada um de seus projetos, cada processo da arte é documentada e preservada para futuras exposições em museus. Alguns desenhos antigos de Christo, por exemplo, são vendidos para ajudar no financiamento de suas obras multimilionárias. Chega quase a ser irônico tratar sobre este assunto sem comentar o tempo de apresentação de seus projetos, que duram alguns dias ou quem sabe algumas semanas, e logo são desmontados. 

Aprofundando ainda mais em relação a arte viva dos 2, tivemos neste ano (2021) no Arco do Triunfo em Paris na França uma incrível apresentação artística. O envelopamento do Arco (aprofundaremos no capítulo 2.1), uma obra gigantesca e póstuma. Que deu muito o que falar, graças às tecnologias de hoje em dia e aos celulares na bolsa/o de cada um de nós. Muito se criticou, mas lendo as críticas de forma geral nos pareceu que muitos não conhecem a história dos dois e qual o trabalho que eles vêm realizando no último século. 

Além disso, quando o casal decide embrulhar uma obra histórica ou uma paisagem belíssima, a história e a arquitetura voltam à vida novamente. Quantos turistas não vão à Paris e não sabem o porque o Arco do Triunfo se encontra ali? Porque ele está implantado naquele local? Quantas pessoas não vão à Berlim e mal sabem a história que o Reichstag carrega consigo? Esconder a beleza de sua arquitetura e oferecer ao edifício uma nova maneira de vê-lo também traz a tona sua história esquecida, que muitas vezes é carregada de lutas políticas, sangue de batalhas e desavenças populares.

2.1 Além do tecido – “Arco do Triunfo”

Christo vai embrulhar o Arco do Triunfo em 2020 | Artes | PÚBLICO
Fonte: Revista Público

A instalação do Arco do Triunfo  ocorreu em 18 de Setembro de 2021 durante 18 dias em Paris, com mais de 25 mil metros quadrados de tecido reciclável prateado e 7 mil metros de corda vermelha. A Instalação ocorreu após o falecimento dos artistas Christo e Jeanne-Claude. Antes de seu falecimento Christo afirmou que o material escolhido para o envolvimento do Arco do Triunfo é maleável com o vento e reflete a luz, transformando a paisagem do Arco do Triunfo em uma edificação “viva” despertando o interesse daqueles que a visitam trazendo curiosidade para tocar no material e interagir com a instalação.   

Após a vitória de Napoleão Bonaparte na Batalha de Austerlitz em 1806 o arc de 50 metros de altura foi projetado pelo arquiteto francês Jean Chalgrin, com a saída do pode de Bonaparte a sua construção foi concluída somente em 1836, representando um marco histórico para a capital francesa.

Paris volta a deslumbrar o mundo ao vestir o arco do Triunfo - A Crítica de  Campo Grande Mobile
Fonte: Jornal A Crítica

A instalação do Arco do Triunfo e trata de um dos maiores sonhos do casal de aristas, o projeto foi conceituado em 1961 mas foi somente em 2017, 7 anos após o falecimento de Jeanne-Claude que Christo concluiu o projeto como um todo, por conta do falecimento de Christo em 2020, seu time ficou responsavel junto com o Centre des Monuments Nationaux, Centre Pompidou e a Cidade de Paris para a relização do projeto. Igua suas outras obras, o financiamento foi feito soemnte pela venda de obras de arte do casala, garantindo sua total liberdade artistica.

A instalação do Arco do Triunfo, além de chamar atenção para a paisagem e volumetria do edifício por conta do material envolvendo-o, também é um símbolo para a importância do casal e suas obras no mundo da Arte, que mesmo após sua morte, suas ideias permanecem marcantes e suas obras permanecem vivas. O projeto restabelece a relação da arquitetura com a paisagem, tornando a arquitetura histórica em uma obra viva, livre para interpretação de cada um que a visita, como já foi afirmado por Christo, muitos dos visitantes têm dificuldade em ler suas obras, porém toda interpretação é válida.

O material escolhido para o envelopamento da edificação além de reciclável e prateado por fora, possui seu interior azul, as cordas utilizadas são vermelhas, por conta da possibilidade de interação dos visitantes com a obra, sendo permitido tocá-la, e visitar o interior do Arco e seu terraço, com a interação dos espectadores com o tecido da obra pode se ocasionar o possível desgaste e aparecimento do lado interior do tecido remetendo às cores da bandeira francesa, vermelho, azul e branco.

Fotografias por Andre Casali (estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Lisboa)

2.2 A experiência a estética – “Reichstag”

Fonte: Archdaily

Lutaram durante 23 anos para permissão de “embrulhar” o Parlamento alemão, o edifício Reichstag, se torna cada vez mais claro que a maior dificuldade em seus projetos, não se trata de sua execução e sim sua permissão. O casal solicitou a permissão do projeto 3 vezes antes de receber a resposta para um possível negociação, foi somente após a execução do projeto Umbrellas na Califórnia, USA e Ibaraki, Japão que o Parlamento alemão se pronunciou para uma negociação do projeto. A permissão para a execução do mesmo foi dada em Fevereiro de 1994 e sua execução utilizando mais de 100 mil m2 de tecido e 15km de corda em Junho / Julho 1995. A exposição ocorreu durante 3 semanas com mais de 5 milhões de visitantes.

Fonte: Archdaily

O projeto não se trata apenas da transformação do edifício por meio de seu embrulhamento, mas também retornar a atenção para seu real significado, indo além de seus ornamentos e características arquitetônicas e estéticas, a sua história. Sua construção foi concluída em 1894, sofreu um incêndio em 1933, um mês após a nomeação de Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha, utilizado para fins militares durante a Segunda Guerra Mundial sendo um dos principais alvos durante a Batalha em Berlim em 1945, deixado em ruínas ficou sem uso até 1956 quando foi decidida sua restauração. Já durante a Guerra Fria o edifício permaneceu na Berlim Ocidental à alguns metros do muro com a Berlin Oriental, sendo cenário para protestos e utilizado para contar a história alemã, foi um marco para história também por conta da cerimônia oficial de Reunificação da Alemanha ter ocorrido no edifício, em 3 de Outubro de 1990. Retornou à função de sede do Parlamento apenas em 1999.

Fonte: Archdaily

 O edifício Reichstag não se trata apenas de uma obra monumental mas sim um símbolo para história alemã, a luta pela democracia, sendo cenário de diversos momentos políticos do país, a intervenção dos artistas relembra sua verdadeira essência por meio da alteração em sua paisagem, a sua volumetria e seu símbolo para a Alemanha, trazendo ao foco sua silhueta e sedução monumental.

Fonte: Archdaily

2.3 Experimentando a arquitetura através dos sentidos – “The Floating Piers”

Fonte: Archdaily

Inaugurada em Junho de 2016, a obra Floating Piers ficou exposta durante 16 dias, o projeto se baseia numa ideia desenvolvida pelo casal em 1970, permitindo com que os visitantes do Lago Iseo, Itália, “caminhem sobre a água” ressignificando a idéia de arte, como algo que se pode ser tocado, vivido e experienciado, não apenas visto. O projeto foi construído com 100 mil metros quadrados de tecido amarelo alaranjado, sustentado por um sistema modular flutuante de 200 mil cubos de polietileno, permitindo com que a instalação se ondule conforme o movimento do lago.

Fonte: Archdaily

The Floating Piers é uma obra que não se limita apenas ao seu local principal de implantação, como é possível notar na foto acima, seus tecidos passam pela cidade que lidam até o caminho central da obra no meio do lado.

Fonte: Archdaily

A obra permite não só uma ressignificação de como experienciar uma obra de Arte mas também a natureza e a paisagem em que ela está inserida, trazendo a reflexão para seus visitantes sobre a linha tênue que existe separando a Arte, Arquitetura, paisagem e natureza, garantindo um experiência sensorial alterando a percepção de seus visitantes com a paisagem, reforçando a ideia de que a Arquitetura e Arte é um meio para nossa interpretação do mundo e da paisagem, alterando e ditando nossas experiências com os ambientes que viemos e visitamos.

3.0 – Acumular, Envolver, Estender e Ocultar

A produção artística de Christo e Jeanne-Claude é geralmente classificada como “land-art”. Da mesma forma, muito de seu trabalho é identificado com o conceito de “wrap”. No entanto, a realidade é muito mais complexa. Seu trabalho é diversificado o suficiente para considerar errado reduzi-lo à ideia de embrulho. Sua identidade como artistas não está tanto no resultado de “algo envolvido”, mas na própria ação. É nesta transformação que reside o seu maior interesse. Em como a percepção daquele objeto, elemento urbano ou paisagem é alterada; e isso nos é apresentado com uma volumetria ou uma espacialidade renovada. 

Em parte, o sucesso de sua arte se deve ao fato de que, apesar de sua proposta ser uma ação transformadora, eles foram capazes de impressionar todas as suas obras com uma identidade, estética poderosa e única que torna sua autoria reconhecível. Falar de Christo e Jeanne-Claude, em termos puramente estéticos, significa falar da influência do epitelial: o envelope, a sua materialidade e a sua textura.A realidade é que a sua produção artística é menos unitária do que parece. Wraps são apenas uma das quatro categorias de projetos com as quais podemos classificar seu trabalho. Ao longo de sua trajetória, podemos identificar diversos recursos de design que eles utilizam como verdadeiros princípios transformadores. Semelhante à forma como Richard Serra sintetizou uma lista de verbos que definiram sua intenção artística, entendemos que a obra de Christo e Jeanne-Claude é produzida. com as ações de: Acumular, Enrolar, Estender e Ocultar.

Fonte: Archdaily

Deve-se notar que essas não são categorias unívocas ou estanques. Estamos nos movendo em um campo difuso e, embora encontremos obras paradigmáticas que podemos incluir claramente em uma única categoria, o normal será identificar obras que surgem a meio caminho de vários desses recursos criativos. Mas antes de nos aprofundarmos nisso, será essencial ter uma visão mais global de sua obra para entender de onde vêm esses princípios, quando são usados ​​e com que intenção. Como proposta metodológica, procuraremos compreender a sua evolução artística através da ideia de escala, destacando a relação direta que se estabelece entre este conceito e a ideia de arte que possuem, para finalmente compreender como ambos estão evoluindo na coerência.

O ato de acumular significa “reunir uma quantidade notável de algo”. Existe uma diferença de conceito entre acumular e repetir. Enquanto o segundo significa “recorrente” – pairando sobre a ideia de que esse “algo” repetido deve ser o mesmo, termo que se refere à série – acumular enfatiza perceber cada objeto do conjunto como um elemento individual e diferenciável. Na obra de Christo e Jeanne-Claude, o acúmulo será visto em acabamentos não perfeitos (cores diferentes no caso dos barris), em gravatas individuais com padrões de nós únicos, em embalagens de formas diversas e orgânicas, etc. É verdade que algumas obras estão mais próximas da definição que demos de repetição, mas, via de regra, Christo e Jeanne-Claude tinham a intenção de acumular: árvores, barris, balões, ilhas, lãs, latas, revistas …

Mais conhecido por seu termo em inglês, wraps são o símbolo com o qual Christo e Jeanne-Claude são identificados. É o primeiro recurso plástico que Christo utilizou e do qual derivaram os outros três que propomos neste texto10. Esta ideia foi uma revolução imediata e deu-lhes uma identidade artística dentro de um contexto muito diverso. Os críticos e artistas da época refletiram a importância que isso teve para sua geração; por exemplo, o artista pop George Segal, em poucas linhas consegue sintetizar a força que a ação de embrulhar adquiriu: “Christo pega um objeto encontrado que existe no mundo real, envolve-o com material e transforma totalmente a forma do objetos e sua reconhecibilidade. Sua intervenção desvia nossa atenção de todas as associações normais que temos com aquele objeto. ”(Chernow).

O conceito de extensão, em seus projetos, equivale a significar e / ou criar novos lugares para que as pessoas se sintam próprias e possam se mover livremente por eles. Esta não é uma licença poética que nos permitimos usar, mas é precisamente o cerne da personificação nestas obras. O facto de se estender “algo” através de um parque, uma paisagem ou mesmo um lago é que, ao instalar uma obra de grande extensão e indiscutivelmente artificial -produto do homem-, se desmistificou a natureza “intocável” da natureza e, pelo respeito , isso a aproxima do ser humano. Permitia que uma pessoa explorasse o lugar com a mesma liberdade com que o projeto se espalhou por ela. 

Christo e Jeanne-Claude trabalham constantemente em torno do tema do ocultamento da materialidade de suas obras, como promotor da imaginação e criador de mistério. É um conceito inseparável dos quatro princípios. A ação de embrulhar, acumulando quando usada como “barreira” e, em menor medida, estendendo-se. Mas, se percebermos, com essa abordagem, o que estamos definindo é o “encobrimento” como tema ou qualidade abstrata, isto é, como resultado: da soma de uma intenção artística, de um método de projeto – aqui chamado de princípio transformador – e de uma materialidade. Fisicamente, é o resultado da utilização de tecidos (têxteis ou plásticos) com diferentes níveis de transparência e acabamentos (brilho ou fosco, vinco ou liso, áspero ou macio …). É importante não confundir “ocultação” como tema com ocultação como princípio transformador; ou seja, como uma ação que gera a obra.

Considerações Finais

Podemos concluir que a relação objeto-pessoa-lugares-arquitetura é fundamental para compreender a intenção artística de Christo e Jeanne-Claude. Sua ideia de arte evolui em quatro etapas, que se refletem em suas obras com três escalas distintas. Em cada um, incorporando um novo fator: arquitetura e/ou paisagem + objeto + pessoa + lugar. 

As suas obras não são muito dispersas e, portanto, podemos identificar como quatro, os princípios transformadores que dão origem a toda a sua produção artística: Acumular, Envolver, Expandir e Esconder. Por fim, estes princípios são ferramentas criativas, que foram utilizadas de forma individual e complementar. Resultando, em muitas ocasiões, difuso reconhecer a influência de cada ação individualmente, havendo trabalhos a meio de várias delas. Os princípios por si só têm valor artístico. Mesmo sendo utilizados como recurso de design, são eles que produzem o resultado, tanto estético quanto conceitual. Em muitos casos, identificando a obra com um princípio próprio.

Bibliografia

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