DESENVOLVIMENTO DO DESIGN MOBILIÁRIO E A ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA NO HABITAR 

ESTUDO DA RELAÇÃO DO DESIGN MOBILIÁRIO NA ARQUITETURA E SUA RELAÇÃO COM O HABITAR

texto de Fernanda Barbara e Marina Bittar

O objetivo deste trabalho é apresentar e analisar o design mobiliário e o móvel como objeto e sua essencialidade para um espaço. Para o desenvolvimento do trabalho, foram feitas pesquisas sobre o surgimento dos móveis e sua importância através da funcionalidade e capacidade de promover a otimização do espaço, criando um ambiente para se viver. Iniciamos este trabalho relacionando a arquitetura e design mobiliário com o habitar para destacar a importância dos objetos em um lugar que se reside, e como esses objetos compõem o cotidiano do ser humano.

Destacamos ao longo desta monografia referências sobre a história do design moveleiro no Brasil e no mundo para justificar a importância, não apenas do móvel como objeto, mas também as suas intenções. Além de referências, trouxemos dados da história da indústria moveleira e os avanços na tecnologia que possibilitaram a produção em massa do mobiliário no mundo, possibilitando-nos a efetivamente comprovar nossas intenções de trabalho e como essa discussão é importante.

HABITAR
A arquitetura como espaço para habitar-se

Em um artigo da revista Vitruvius, escrita por Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, o autor cita a seguinte frase de Louis Kahn (1901 – 1974), um arquiteto influente do século XX: “Na natureza do espaço estão o espírito e a vontade de existir de uma certa maneira”. Essa frase ressoa diversas determinações relacionadas à natureza da arquitetura, seu destino e suas várias vicissitudes. Preliminarmente, constrói-se uma definição muito comum; a arquitetura como espaço na qual sua função vive no preenchimento de seu interior, que por sua vez, é um espaço oco, vazio, que o homem há de preencher ao se habitar.

Contudo, pode se afirmar que o espaço apenas existe se há vontade de ser habitado, e a maneira pela qual o espaço quer existir. Sendo assim, é possível concluir que seu uso lhe traz vida, pois a partir do momento em que o espaço se preenche, ele cria vida. Assim surgem as características espaciais; as dimensões, texturas, objetos, superfícies. Logicamente, é possível concluir da frase de Louis Kahn que habitar um espaço é, de certa maneira, realizar o ser da arquitetura.

Seguindo essa lógica, partimos do fato de que habitar é um conceito coletivo, que se constitui de um conjunto de atos que estão relacionados a práticas cotidianas, em outros termos, pode-se dizer que habitar significa abrigar-se. São inúmeras atividades que o humano pratica para habitar, como dormir, comer, se banhar, cozinhar, ou apenas refletir. São através dessas possíveis atividades que o humano se habita, e esses atos repetidamente, se tornam hábitos.

Logo, uma residência torna-se habitável sendo preenchida com artefatos que se tornam prestativos no cotidiano como um sofá, uma cama, uma poltrona e assim por diante. Cada móvel locado em uma residência tem uma importante funcionalidade no cotidiano do humano, por isso existe uma preocupação referente à adequação do mobiliário.

ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA
Conceito, características, nomes notáveis

Consideradas extremamente abrangentes, as obras da arquitetura contemporânea tiveram início no final da década de 1980, com o declínio da arquitetura moderna, que consistia na simplificação das formas e no aproveitamento de matérias-primas e materiais sempre em desenhos simples e geométricos, e em suas formas mais puras.

É o estilo que predomina até os dias de hoje, e serviu como contraponto à rigidez do modernismo, priorizando a funcionalidade dos espaços, com grande foco na sustentabilidade e preocupação com o meio-ambiente.

No Brasil, o contemporâneo busca assimilar os estilos do passado, criando essa releitura de épocas antigas. Suas principais características são a forte presença de luz natural, através de iluminação zenital e aberturas amplas, o reaproveitamento de materiais de origem natural e sua reciclagem, de forma sustentável.

Com ênfase no minimalismo, a nova proposta de arquitetura valoriza o vazio dos espaços, a simplicidade e a sofisticação, com foco na personalidade de cada projeto, através da funcionalidade e formas reduzidas. O material reciclado é explorado como uma estética única e singular, com destaque na sustentabilidade e preço acessível. Com o design orgânico em alta, a arquitetura busca maneiras de trazer a funcionalidade e ao mesmo tempo a sofisticação proporcionada pelo diferente.

O modernismo teve forte influência no contemporâneo, e o grande desafio foi ajustar essa arquitetura às novas demandas do século XX e XXI, à integração da tecnologia nos meios construtivos em conjunto com a sustentabilidade e menos danos ao meio-ambiente. O conforto ambiental e os processos de racionalização da construção (geração de lixo e entulhos) demandam uma busca de ideias e novas soluções.

Na arquitetura contemporânea brasileira, podemos citar importantes nomes para o seu desenvolvimento, dentre eles Oscar Niemeyer (1907-2012), Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) e Lina Bo Bardi (1914-1992). 

UNIFICAÇÃO ENTRE DESIGN E ARQUITETURA NO PASSADO
Concepção, desenvolvimento, características e referências notáveis


A concepção e realização do mobiliário se dá através da análise de aspectos funcionais, estéticos e compatíveis com seu usuário final. Sua criação é um processo dinâmico que envolve desde o desenvolvimento de croquis e protótipos até peças finais e acabadas, combinando tecnologias de produção e sentido entre cores e formas.

Em meio às mudanças políticas e o crescimento econômico da década de 40, surgiu um novo estilo de design de mobiliário moderno, através da junção de fortes influências europeias com os elementos que trouxeram certa “brasilidade” ao mercado, desenvolvendo um estilo de design inovador. Estilo este que se apropriou de referências destaques do colonialismo. Anteriormente a esse período, a produção nacional de mobiliários era marcada principalmente pela importação de móveis e decoração.

Mesmo não sendo totalmente desprendido do ecletismo europeu, há uma forte presença da materialidade brasileira, marcada pela utilização de materiais existentes no Brasil, em concordância com as condições climáticas e costumes do povo brasileiro, como por exemplo o parecer de Lina Bo Bardi em sua busca pela essência desse povo em sua realidade que em 1948, em parceria com Giancarlo Palanti, fundou o Studio de Arte Palma, para produzir o mobiliário que ela havia desenhado para seus projetos. Lina teve como justificativa para seus desenhos de mobiliários, a mudança econômico-política e a cultura popular, dessa forma ela daria enfoque à produção brasileira sem a necessidade de total abastecimento da importação. A iniciativa iria de encontro com uma classe média que vem de uma classe de artistas, que eram ligados às artes plásticas, à arquitetura ou design. O Studio Palma tinha uma grande dedicação ao mobiliário moderno, sempre com uma preocupação com o clima, o povo e os costumes do material. 

” […] se dedicando ao desenho industrial, abrangia uma seção de planejamento com oficina de produção: uma marcenaria equipada com moderníssimo maquinário e uma oficina mecânica. Buscou ali criar tipos de móveis, adaptados ao clima e à terra, eliminando estofamento exagerado. […]”.             Lina Bo Bardi

Os móveis tinham uma estrutura muito simples, aproveitando a materialidade da madeira e sua resistência. Um de seus mobiliários que ganharam mais destaques foi a cadeira Girafa, que originalmente foi criada para ser uma cadeira de restaurante. Seguindo a linha da simplicidade, essa cadeira permite o empilhamento em espiral e é feita com madeira de Pinheiro.

O avanço da industrialização pelo país só aumentava a necessidade de trazer essa “brasilidade” ao mobiliário nacional. As décadas de 1950 e 1960 são grandes marcos na história do mobiliário brasileiro devido ao enaltecimento das características nacionais, provenientes da mesclagem da influência europeia com a miscigenação brasileira. Marcada pelo uso de materiais como a madeira e o couro, muito presentes no Brasil, em conjunto com o metal, de forte influência europeia, a década de 1950 também teve foco na produção de móveis seriados e placas de compensado.

Essa busca incessante pela identidade nacional é o foco da nova fase do design modernista, iniciada nessa ruptura do conceito do design brasileiro. O crescimento dessa indústria recém-chegada fomentou a produção industrial de mobiliários que visavam a produção em massa, com custos mais baixos.

Na década seguinte, 1970, é notada uma diminuição dessa produção em massa de móveis modernos, direcionando o mercado para o desenvolvimento de mobiliários de escritório.

Já nos anos 1980, há a volta da confecção artesanal de móveis de madeira, atraindo uma nova geração de designers. A inovação consistiu na forte presença de matérias-primas inusitadas como borracha, lona, fibra de cimento e laminados estampados, e também influenciou o pós-moderno italiano. Nesse sentido, surge a presença de formas mais orgânicas que proporcionam mais conforto ao usuário.

O design de mobiliário brasileiro reflete a mesclagem das influências de âmbito nacional com materiais e referências estrangeiras até hoje, transitando entre as diferentes visões de culturas do regionalismo e produções artesanais e a valorização da matéria-prima brasileira, integrando manifestações culturais e tradicionais.

O design contemporâneo é um conciliador entre os aspectos técnicos, estéticos e conceituais anteriores ao período moderno e as inovações e tecnológicas oriundas da pós-modernidade, com destaques para sustentabilidade, relações comerciais facilitadas, forte demanda de compra online e à pronta entrega e uso de materiais alternativos.

Atualmente, pode-se dizer que o Brasil é visto como um protagonista na área do Design, trazendo inovações e soluções ao mercado, com sua linguagem e conceitos destacados pela diversidade. Sua produção hoje é marcada pela presença de meios totalmente industriais, totalmente artesanais e grandes nuances entre os dois.

Frank Lloyd Wright: Unificação do design e arquitetura

O arquiteto americano Frank Lloyd Wright contribuiu para a integração da arquitetura com o mobiliário em seu trabalho nos Estados Unidos. Wright propunha, como conceito em seus projetos, a definição dos móveis como parte integrante, funcional e decorativa da arquitetura. Wright acreditava no mobiliário como componente integrante do espaço dos edifícios. Wright também possibilitou uma transformação no mobiliário, um padrão e a substituição de certos materiais, que em seu caso foi o a madeira pelo aço.

Bauhaus: influências na moradia

Em 1919, a Alemanha se caracterizava como um país falido que se abalava pelas crises econômicas e políticas, e pela primeira vez, um grupo de arquitetos se reuniu com um único objetivo: repensar a vida moderna, fundando a escola Bauhaus. A escola unia a arte e a produção industrial, estendendo o pensamento do aprimoramento dos móveis domésticos até a reformulação da malha urbana europeia. Esse movimento se atentou ao surgimento de diversas possibilidades para um futuro baseado na praticidade e estética, e assim mudaram o jeito como a sociedade se relaciona com a arte, possibilitando a aplicação dos princípios racionais do design. A Bauhaus desejava fortalecer a contemporaneidade da moradia e o objeto ao edifício como um todo. Certo de que a  residência e o mobiliário deveriam se relacionar entre si, era considerado que apenas o papel do objeto poderia determinar sua forma. Posto isso, para desenhar um móvel como uma poltrona, por exemplo, era necessário estudar antes sua essência para servir seu propósito, levando em consideração sua estética, conforto e materialidade para garantir durabilidade. O objetivo principal sempre seguia a mesma linha, sendo a produção em massa das peças mantendo a acessibilidade.

A professora e pesquisadora Renata Proença, associada ao Núcleo de Sociologia da Cultura (NUSC) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que os participantes da Bauhaus possuíam uma visão otimista do mundo moderno, onde acreditavam que a tecnologia e os avanços não deveriam ser utilizados apenas para aumentar lucros no sistema capitalista, que se dominava pela classe alta. O pensamento da Bauhaus visava uma nova maneira de ser no mundo moderno, mudando todo o espaço, tanto da cidade, como dos prédios e dos móveis. Além da arquitetura, design e indústria, a Bauhaus mudou a maneira como a sociedade se relaciona com a arte.

Industria Moveleira

Os móveis de estilo industrial receberam o nome de sua finalidade original, de apoiar a indústria de manufatura. A Revolução Industrial começou na Grã-Bretanha em 1760 e eventualmente se espalhou para outras partes do mundo. Durante este tempo, a invenção de novas máquinas levou à criação de fábricas e à produção em massa. Os trabalhadores deixaram de usar ferramentas manuais para operar máquinas e começaram a precisar de peças como mesas de desenho, bancos e carrinhos de manuseio de materiais. A mobília industrial era simples, prática, fácil de produzir em massa e feita para resistir a condições adversas. Era apenas parte do trabalho diário e não era considerado elegante.

RELAÇÃO ENTRE DESIGN MOBILIÁRIO E A ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA NO HABITAR

Relação, cruzamento de ideias e conceitos e conclusões finais

Ao analisarmos a história do design de mobiliários e compararmos com a trajetória da Arquitetura Contemporânea no Brasil é possível observar algumas semelhanças em seus processos criativos. Com grande influência europeia, ambas as áreas transitaram do moderno e internacional para o brasileiro, local e sustentável, através de uma incessável busca por identidade nacional, explorando conceitos de “brasilidade”.

Atualmente, o conceito de espaços internos está sendo transformado pela inserção do design de mobiliário na delimitação dos ambientes. Além da sua funcionalidade essencial, estantes, bancadas, sofás e outros móveis têm a capacidade de definir estes locais e configurá-los, de maneiras facilmente adaptáveis e efêmeras.

Hoje em dia, a arquitetura contemporânea passa por mudanças significativas no que diz respeito ao aproveitamento de seus espaços, em um cenário urbano impactado pela produção de moradias em massa, com interferência constante da tecnologia em nossos modos de habitar. Tais mudanças estão contribuindo decisivamente para a utilização do mobiliário como recurso arquitetônico, sendo reflexo direto da demanda por flexibilidade e adaptação dos espaços que habitamos hoje.

A distinção entre arquitetura e design de mobiliário está cada vez menor. Sendo uma arquitetura em pequena escala ou um design em grande escala, essa transição é capaz de redefinir nossos conceitos sobre espaços e moldá-los de forma dinâmica e interativa.

Assim como Frank Lloyd Wright e a escola Bauhaus, que já visavam a importância da unificação da arquitetura com o mobiliário, acreditamos que existe uma relação importante entre ambos e que deveriam sempre estar interligados, principalmente a arquitetura contemporânea e o design mobiliário, pois trazem os mesmos princípios e características.

CONCLUSÃO

Após essa grande pesquisa sobre design mobiliário e a arquitetura contemporânea, conseguimos concluir que a relação entre eles é maior do que se imagina. Com trajetórias similares, um complementa o outro ao longo da história e nos dias de hoje. Tanto em pequena, como em grande escala, é cada vez mais difícil criar um projeto de arquitetura contemporânea sem o conectar com o mobiliário. 

Com a nossa pesquisa, conseguimos nos aprofundar na história e criação de cada um deles, e observamos que, mesmo com linhas do tempo diferentes, o design e a arquitetura se encontram nos dias de hoje. Ao analisarmos grandes nomes que contribuíram para a  arquitetura contemporânea brasileira, como Lina Bo Bardi, e a Escola Bauhaus e Frank Lloyd Wright que contribuíram para os avanços da indústria moveleira,  foi possível perceber a necessidade da produção de móveis para complementar ainda mais cada projeto.

 Espaços flexíveis, genéricos e integrados são características que se vê no contemporâneo, e o uso dos mobiliários como forma de distingui-los sem segregá-los nos proporciona a criação destes elementos espaciais que nos permitem acolher diversas funcionalidades em um mesmo ambiente. Em suma, sem o mobiliário não há arquitetura contemporânea e vice-versa, os dois fenômenos se complementam de uma maneira incrível que resulta em projetos e criações memoráveis. 

Fernanda Barbara e Marina Bittar

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