(re)Construir,habitar,isolar

ANÁLISE DO TEXTO “CONSTRUIR,HABITAR,PENSAR” RELACIONANDO HABITAR AO PÓS-PANDEMIA

Texto por Luiza Pezzo e Mariana Calenta

INTRODUÇÃO

Frente a atual condição de pandemia na qual as populações dos grandes centros urbanos de todo planeta se viram forçadas a praticar o isolamento social, este trabalho pretende fazer uma reflexão sobre a atual situação e suas possíveis consequências futuras tendo como base o pensamento de Martin Heidegger. Nos aproximamos do pensamento de Heidegger através de uma análise de seu texto Construir, habitar, pensar que tanto influenciou o pensamento de alguns importante e influentes arquitetos. Como base para esta investigação iremos nos aprofundar nas leituras que Christian Norberg-Schulz e Ligia Saramago fazem da obra de Heidegger trazendo o pensamento do filósofo para o campo da arquitetura e urbanismo. Em seguida iremos confrontar a atual situação do habitar dentro do contexto da pandemia que forçou uma todas a uma reflexão sobre a relação da morada com o ser questionando por fim o caminho tortuoso que caminhamos com a relação do ser com o espaço em que habita.

Inicia-se o ensaio contemplando as lembranças de um mundo pré-pandêmico cujo as relações humanas e arquitetônicas conversavam em contexto fora do âmbito doméstico residencial. Trazendo breve recapitulação do funcionamento para a sociedade de 2 anos atrás, recordamos que o “lar” seria em algumas situações apenas espaço para repouso, portanto, um apartamento de até 15m² que os ambientes funcionavam de forma efêmera com melhor aproveitamento dos espaços mínimos através da sobreposição de tarefas/funções seria o ideal tanto para o mercado imobiliário quanto para o indivíduo que habita este espaço apenas como forma de repouso. Ressaltamos que o problema não são espaços pequenos, uma vez que espaços flexíveis podem ser incorporados em lugares grandes e não estamos entrando no quesito se espaços maiores proporcionam mais conforto ou não, o ponto a nos questionarmos sobre se o adensamento nos destoa da nossa forma mais “humana”?

Os primórdios já mostravam que o ser humano é formado e composto com o intuito de conviver/prosperar em sociedade mas isso não é um mérito apenas em forma física, nota-se a conexão com espaços e a evolução para habitar até a sua última forma, a do Lar.

“HOME” – CINTA VIDAL, diferentes formatos em habitar

Para a compreensão do Habitar, voltamos nossos olhos ao texto de Martin Heidegger “Construir, habitar, pensar”  que afirma sobre como a linguagem molda o pensar, uma vez que molda a forma como pensamos e conectamos com o espaço interior e exterior, determinando ainda mais a conexão humana com o morar – que deixa de ser apenas um espaço como forma de repouso, transformando em laços moldando a conexão do indivíduo com o espaço desenvolvendo entendimento/poética/princípios, Heidegger usa da fenomenologia para explicar o papel do ser humano – que não pensa na consciência de forma “passiva” mas sim questionadora – com a relação ao mundo exterior.

Através da leitura/debate de Heidegger, iniciamos o debate interno sobre os fundamentos entre o habitar e o morar, para as autoras, o habitar seria apenas um local de repouso no meio ao cotidiano, porém, apesar deste espaço estar entrelaçado com as vidas por quem passa, nunca deixe de ser apenas um espaço, não ensina ou acrescenta na formação a jornada ou questionamentos sobre os propósitos existenciais que mantém a vida por prosseguir, sendo apenas um espaço.

Enquanto o morar agrega a formação de “raízes”, ultrapassando a barreira entre espaço composto por 4 paredes, moldando a estrutura interior, criando conexões/memórias/ trazendo vida. Para compreendermos e chegarmos a esses questionamentos no âmbito da arquitetura, buscamos por Christian Norberg-Schulz.

“Um edifício, um templo grego não representa nada, simplesmente estar ali, elegido no meio de um vale rochoso e escapado. O edifício encerra a figura de Deus, e nesse abrigo oculto deixa que ele se projete em todo recinto sagrado através do pórtico aberto.”

– Christian Norberg-Schulz

Compreendemos o templo como obra de arte (uma obra que não é figurativa) o edifício como obra de arte preserva o desvelamento. O templo faz o que faz por estar “ali”, são erigidos em locais especiais e proeminentes, recebe o Deus, age sobre as pessoas e torna presente as verdades do lugar.

Porém, apesar de conectarmos Heidegger ao espaço, Ligia Saramago coloca em ênfase que Heidegger nunca toma o espaço especificamente como tema prioritário de suas reflexões. As discussões que ele proporciona são com a relação do espaço inserido no diversas ocasiões em que ele discute o problema do espaço se inserem, sempre, no âmbito do habitar humano, da tecnociência, das relações entre obras de arte e seus lugares de origem, etc. Sendo assim “o espaço” um tema impossível “isolá-lo” do resto, tanto de forma concreta quanto imaterial.

É difícil definirmos o termo “habitar” – apesar de ser o grande centro deste ensaio – o habitar em si traz consigo ideias de proximidade e solo pátrio, de permanência junto à origem e a própria caráter do ser.

– Ligia Saramago, em “topologia do ser”

Esclarecendo ainda que Heidegger não estabelece um dialogo claro mas sim a provocação do espaço/habitar. A um fenômeno que “acontece” e deixa de existir, sempre em função da produção e doação destes pelos lugares concretos da existência, relação interior-exterior, atenuando a nitidez de seus contornos e pondo em questão a realidade das fronteiras humanas.

O questionamento que o leitor deste artigo deve estar pensando, seria o que afinal a filosofia de Heidegger sobre o espaço e as interpretações de Christian Norberg-Schulz e Ligia Saramago estão relacionadas no âmbito da arquitetura/adensamento/pandemia.

A arquitetura possui um caráter maior do que ser apenas uma mera edificação que forma um cubo, definindo personalidades de culturas diferentes e sua forma de expressão para com o mundo. A muito se discute no âmbito urbanístico se o adensamento é a melhor forma de vivermos como sociedade, enquanto para o mercado imobiliário a readequação/transformação de espaços é a resposta perfeita para a geração de lucros, como estudantes questionamos, como é o lado humano ao adensamento?

A anos observamos o crescimento nas soluções arquitetônicas para o melhor aproveitamento de espaços, são gerados espaços mínimos como locais apenas em formato de repouso enquanto o indivíduo realiza outras funções no espaço exterior ao residencial como algo normalizado ao cotidiano do mundo contemporâneo mas o que paramos de questionar é : O que ocorre quando este espaço torna-se o único ambiente a ser habitado por este individuo em quase 2 anos da disseminação de um vírus?

Embora pareça roteiro hollywoodiano, o questionamento surgiu no ano de 2020 com a epidemia da Covid-19, em que para muitos os seus habitantes exerceram a função de “solitária” uma vez que não questionamos na questão do adensamento a qualidade de vida e a forma como comunicamos o espaço com o ser, abandonando assim a “humanidade”.

Parece que nos arquitetos/urbanistas em formação estamos moldados para resolvermos questões surgidas no mercado imobiliário sobre como tirarmos melhor proveito de espaços, mas esquecemos de estar devidamente conectados.

Ocorrem estudos questionando o efeito da pandemia/isolamento na saúde mental/física dos humanos, espaços para repouso transformaram-se em locais áreas de lazer, entretenimento, dormitórios, espaços para alimentação e ambientes de trabalho, em que não havia mais disseminação entre horários e tarefas e o isolamento mostrando mais uma vez que não importa a evolução humana, no fundo, voltamos ao início dos primórdios que o importante para a “sobrevivência” são as conexões tanto com outros indivíduos como para com espaços.

FONTE: El Pais – “Fadiga da quarentena” leva até os defensores do isolamento a se arriscarem contra as regras

Então o que seria o habitar de forma “correta”? O adensamento é o grande inimigo da saúde mental? Qual seria a diretriz para o desenvolvimento da arquitetura pós-pandemia? O que seria o futuro da arquitetura?

Estes foram alguns dos questionamentos surgidos às autoras ao decorrer deste artigo, afinal, não estamos impondo o adensamento como vilão. Durante os estudos e pesquisas para este artigo, nos deparamos com o projeto Vienna’s Affordable Housing cujo o objetivo principal é que as pessoas tenham um espaço bom para moradia sem valores absurdos e injustos, possuindo qualidade e proporcionando a integração/compartilhamento da convivência entre moradores através de espaços compostos para áreas comuns de acesso geral além do contato com a natureza com espaços verde proporcionando a conexão com diferentes formas e apropriações do espaço. Apesar de parecer um projeto perfeito e a solução para todos os problemas gerados pelo crescimento populacional, os arquitetos em Vienna afirmaram que este formato de moradia é algo que funciona bem para eles por ser Vienna e que se fosse implantado em outros países, não teria funcionado, uma vez que a forma como se discute a conexão do ser para com o espaço, molda com diferentes perspectivas, prioridades funcione com diferentes moldes de acordo com cada vertente social.

Vienna's Affordable Housing Paradise | HuffPost Impact
FONTE: Huffpost – Vienna’s Affordable Housing Paradise

Não obtivemos uma conclusão de pronto modo com este ensaio, afinal, não há como apontarmos um culpado e propormos uma única e imutável solução, afinal, trazemos excelentes respostas de resoluções mas parece que abordamos para perguntas erradas, não encontrando em si uma solução com o pensamento futuro mas si buscamos a resolução em problemas momentâneos, deixando que as consequências futuras assumam o papel de problemas. Gostariamos de finalizar com o pensamento sobre o que seria a arquitetura pós isolamento e se de fato incluiria em outros formatos do habitar e adensar, não apenas seguindo a filosofia atual de maximização do espaço em menos metros quadrados.

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