Elementos da Arquitetura Tradicional e Contemporânea Japonesa na obra de Toyo Ito

Texto por Martina Vieten

O presente trabalho tem como finalidade estudar os elementos da arquitetura tradicional e contemporânea japonesa no projeto Casa White U do Toyo Ito. Com isso, foi analisado todo um contexto histórico da arquitetura tradicional japonesa, para que fosse entendido o surgimento da arquitetura contemporânea japonesa. Ao fim, foi estudado a vida do Arquiteto Toyo Ito e como ele interligava, no seu projeto Casa White U, o contemporâneo com o tradicional.

Figura 1: Arquitetura Tradicional Japonesa Fonte: https://www.tuacasa.com.br/casa-japonesa/

Surgimento do Contemporâneo a partir do Tradicional.

A arquitetura tradicional Japonesa, é marcada pela sua sensibilidade com a natureza (pela integração com o entorno, uso de materiais, como a madeira e a arquitetura orgânica), os conceitos de suavidade, fluidez, flexibilidade, ausência de limites e hierarquias, permeiam até os dias atuais e se tornou um grande ícone desse estilo arquitetônico japonês.

Em questões tradicionais que edificam a arquitetura japonesa, podemos citar que no começo dos anos 1850, o Japão era completamente isolado do mundo, extremo protecionismo da cultura e da economia e sistema feudal. E logo após, começa um processo de ocidentalização, decorrente da Revolução Meji, com isso veio uma grande influência inglesa (Le Corbusier e Mies Van Der Rohe). O marco grande desse acontecimento seria que alguns japoneses tradicionais marcam esse fato como algo que era renegado entre a população japonesa, essa grande evolução tecnológica, o que podemos ver claramente relatado no livro Em louvor da sombra, publicado em 1933, por Junichiro Tanizaki, onde basicamente é relatado essa passagem em que a estética japonesa tradicional ameaçava desaparecer com a modernização do país. 

“Resumindo, o Ocidente veio trilhando seu caminho natural rumo ao que é hoje, enquanto o Oriente, confrontado com uma civilização superior, absorveu­‑a mas, em troca, desviou­‑se da própria rota de progresso que percorria havia alguns milênios e buscou novos rumos, o que no meu entender originou inúmeros desacertos e inconveniências.” (citação retirado do livro Em louvor da sombra, pág. 27, 1 parágrafo)

Dois conceitos que marcam essa transição e traz claramente essa cultura japonesa, seriam o Conceito MA, que trata de um conceito da pausa, o vazio que não é vazio, vazio cheio de possibilidades (minimalismo) e o Conceito Basara, conceito do exagero, do entretenimento, de cores vibrantes. Onde percebemos nitidamente que o antigo está presente no atual moderno, o MA pode estar contido hoje em dia no Basara, mas o Basara não estava presente e nem contido na época do MA, uma divergência entre arquitetura tradicional e contemporânea japonesa.

Os metabolistas japoneses, nascem desse movimento de arquitetos diretamente influenciados com o modernismo, liderado pelo arquiteto Kenzo Tange, Kisho Kurokawa, Fumihiko Maki, Kiyonori Kikutake, Masato Otaka, Toyo Ito e Noboru Kawazoe levam a proposta que resulta em uma fusão do design tradicional japonês com a arquitetura pop e o modernismo corbusiano. A junção entre a arquitetura moderna e a tradicional japonesa deu-se com certa facilidade pois os japoneses mantiveram elementos culturais próprios em sua arquitetura contemporânea.

“A tradição japonesa tem um uso limitado de materiais, mas eu tento evoluir um passo e combinar os muito contemporâneos com a madeira. Isso traz um novo tipo de suavidade e calor para as pessoas. A arquitetura do século 20 é sólida demais, rígida demais, pesada demais.” (Kengo Kuma para Casa vogue, “Concreto e aço não fazem o corpo feliz” publicado em 2014)

Toyo Ito

Figura 2 Toyo Ito Fonte:www.vivadecora.com.br

Tokyo Ito nasceu em Seul, na Coreia do Sul, no dia 1 de junho de 1941, e se mudou para o Japão quando tinha apenas dois anos de idade. Aos 12 anos, após o falecimento de seu pai, Ito passou a trabalhar na empresa da família, produzindo miso (uma massa para sopa bastante tradicional no país). (POR EQUIPE VIVA DECORA PRO, JANEIRO 13, 2018)

Graduou-se na Universidade de Tóquio nos anos 1960, onde o momento que marca o auge do Movimento Metabolista. Onde, Japão se divide em duas regiões a de Tóquio e de Quioto (Kyoto) e como consequência: Tóquio é muito mais aberta a questão ocidental, questão modernistas e Quioto é um estudo mais voltado ao tradicional, técnicas tradicionais.

Toyo Ito entra na graduação em contato com esses arquitetos modernos, estuda principalmente o pavilhão de Barcelona do Mies Van Der Rohe e o sistema domino do Ler Corbusier. Trabalhou com Kiyonori Kikutake por quatro anos e teve grande influência na sua carreira. Em 1971, ele abre seu escritório próprio, conclui sua primeira obra arquitetônica – Aluminum House – e publica seu primeiro ensaio em uma revista – The logic of uselessness.

Figura 3 Esquema de Arquitetos Contemporâneos que se interligam Fonte:https://arquiteturascontemporaneas.wordpress.com/2016/05/17/japanese-constellation/

Tem como grande característica a Arquitetura Fluida que consiste em:

Cidade: possibilita relações com o lugar.

Natureza: se assemelha a uma floresta = assimetria.

Corpo: deve ser capaz de integrar os corpos.

Eletrônico: é construída por camadas.

E as características de seus projetos são:

  • Uso do alumínio.
  • Uso do vidro: mistura de vidros translúcidos ou transparentes.
  • Colunas: colunas desencontradas, assimetria presente na cultura japonesa: a beleza está na simetria e não na assimetria.
  • Peles:  Como a luz vai entrar dentro dos espaços, espaço curvilíneos, inserção de algumas tecnologias.
  • Explora as escalas.
  • Mobiliário: ativadores do espaço, forma que ele começa a projetar é por questão de mobiliário e não definindo paredes.
  • Procura criar essa relação entre natureza e objetos, encontros.

Conceitos da Arquitetura Tradicional Japonesa na Casa White U

Casa White U foi projetada para a irmã de Ito, após perder o seu marido. Nesse projeto, Toyo Ito relaciona a questão do luto, com o fechamento para a cidade, um espaço vazio no meio (conceito MA) mas também ao mesmo tempo inserida na cidade.

Além do MA, outro conceito muito forte nesse projeto que remete a tradicional arquitetura japonesa, é a Arquitetura chã, onde tudo te leva para o chão, (elementos internos baixo, moveis baixos, se alimentar no chão, o andar descalço) onde esse grande vazio central seria de terra batida, muito comum em antigas casas japonesas.

Busca não criar espaços muito compartimentados, layout da Casa White U consiste nesse grande corredor curvo que termina em cada extremidade em corredores mais estreitos que levam aos quartos de um lado e à cozinha e banheiros do outro.

Conceito da Arquitetura Contemporânea Japonesa na Casa White U

A edificação é de concreto aparente, sendo que as superfícies internas são todas pintadas de branco. A entrada de luz Natural, uso do vidro e a questão dos pilares escondidos trazendo a impressão de um grande anel linear, são grandes marcos dessa modernidade.

Conclusão

A arquitetura japonesa pode-se dizer que não passa apenas de uma simples arte de construir, mas sim o construir que vem derivado de uma longa história de um povo em que a tradição, costumes e cultura está enraizado dentro de cada um. Mesmo com a modernidade e o passar dos anos, percebemos o quanto o tradicional segue sendo bonito e presente no contemporâneo.

O uso da madeira, passa para ser uma das construções mais bonitas no mundo atual, junto com as suas grandes técnicas de encaixes elaboradas pelos japoneses e usadas pelo mundo todo.

A questão minimalista, do uso do branco, uso da transparência em que podemos estar no ambiente interno e no externo ao mesmo tempo.

A construção sem separação, onde a parede acaba perdendo espaço para a construção mais limpa, em que os espaços se interligam.

Pode -se dizer que Toyo Ito, faz essa junção arquitetônica perfeitamente, em todos os seus projetos sentimos a tradição japonesa enaltecida em uma obra contemporânea.

Bibliografia

VALLE, Juliana; BELINELLO Giovana. Japanese Constellation. Arquiteturas Contemporâneas, 2016. Disponível em: (https://arquiteturascontemporaneas.wordpress.com/2016/05/17/japanese-constellation/).   Acesso em: 28/11/2021

SOUTO LOUREIRO, Mar. La Presencia de La Tradición em La Arquitetura Japonesa Contemporánea: Arquitectura de Limites Difusos. 2020. 68 páginas. Escuela Técnica Superior de Arquitectura, Universidade de Corunã.

TANIZAKI, Junichiro. Em Louvor da Sombra. Editora SchaWarcz S.A, 2017.

Hollar, Sherman. “Toyo Ito”. Enciclopédia Britânica , 12 de setembro de 2021, https://www.britannica.com/biography/Toyo-Ito. Acessado em 28 de novembro de 2021.

KOGAN, Gabriel. Do luto à arquitetura port mortem no Japão: A White U de Toyo Ito. Vitruvius, 2020. Disponível em: (https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.240/7781) Acesso em: 28/11/2021

BELOGOLOVSKY, Vladimir. Toyo Ito deseja que as pessoas sejam capazes de se comportar tão livremente quanto os animais se comportam na natureza. StirWorld, 2021. Disponível em: (https://www.stirworld.com/think-columns-toyo-ito-wants-people-to-be-able-to-behave-as-freely-as-animals-behave-in-nature) Acesso em: 28/11/2021

OLIVEIRA, Andressa. Casa Japonesa: surpreenda-se com o estilo oriental de viver. TuaCasa, 2020. Disponível em: (https://www.tuacasa.com.br/casa-japonesa/) Acesso em: 28/11/2021

KOGAN, Gabriel . Cultura Contemporânea Japonesa. Youtube, 9 de maio de 2019. Disponível em (https://www.youtube.com/watch?v=ht63V6bHUCg)

LACERDA, Marina. Uma análise gráfica das midiatecas de Toyo Ito. Youtube, 9 de maio de 2019. Disponível em (https://www.youtube.com/watch?v=ilbiw-FcLL4)

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