PÓS – TU – MODERNISMO

Onde procurar alternativas para se desenvolver a vida semi-pública com as condições impostas pela pandemia do Corona vírus?

POR ANA CLARA GURGEL

Diversas vezes ao longo da história foi dito que a cidade reflete aqueles que a ocupam, e de certa forma essa premissa se faz verdadeira se reduzirmos a complexidade de uma sociedade, seu sistema e infra estruturas subsequentes ao máximo, ou se a tratássemos como um objeto de estudo linear. Portanto, para o âmbito desta análise, digamos que ela é verdadeira.

O que temos como ambientes urbanos hoje, são resultantes de um pensamento originado pelas revoluções científica e industrial, séculos XV e XVIII, determinado como moderno. O termo em si já circulava desde século XII, período de Carlos o grande, denominando tudo aquilo que se mostrava como novo em relação a consciência consolidada europeia e se popularizou, a partir destes conceitos, indicando aquilo que está à frente do tempo em que foi produzido e assim é utilizado até hoje.

Contudo, a quebra proposta pela civilização moderna era acompanhada pela descrença religiosa e racionalização de rotinas, profissões, relacionamentos, arte e arquitetura. Como maior exemplo delas temos os movimentos de vanguarda na Europa, no início do século XX,  dos quais originaram movimentos políticos, como o futurismo, outros disseminados para outras linguagens que se perpetuaram, como o cinema. O movimento moderno preconiza, como consequência da novidade, a substituição da memória histórica pela afinidade com o presente, rebelando-se contra as normas e tradições reinventando padrões de utilidade e função por meio da estética.

No âmbito das relações humanas a modernidade causou grande impacto com a aceitação da ciência como verdade absoluta e a diminuição do misticismo relacionado à própria existência humana, religião e cultura, o que levou à um descontentamento constante e, futuramente, à decadência dos modelos econômicos na qual esta sociedade foi baseada. Este desconforto causado por esta cisão, juntamente com uma infraestrutura comunicativa deficiente e sensacionalista, resultou em discursos perpetuados por oposicionistas à evolução deste modelo que não foi, em sua totalidade, efetivo por conta de suas deficiências.

Nas construções pode-se ver estes conflitos e discussões ocorrerem de forma mais clara, devido a própria materialização destes conceitos é possível entendê-los melhor. Temos como exemplares o planejamento e replanejamento de cidades, distritos e bairros inteiros sempre com a racionalização estrutural e dos espaços, o zoneamento, funcionalidade em mente como Brasília e o conjunto habitacional Pruitt Igoe, em Saint Louis, o Palácio de Cristal, em Paris, e o edifício do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro.

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Com a dinamização das jornadas de trabalho, por conta da grande capacidade de produção das indústrias, surgiu a necessidade de um novo modelo econômico que promovesse o consumo cada vez mais rápido, tanto por necessidade de oferta quanto de procura. Consequentemente estes mesmos itens a disposição dos públicos se tornaram cada vez mais ligados ao apelo visual do que sua qualidade e seu significado, ou seja, gradualmente mais vazios. Por meio da caracterização feita, descrevemos um dos elementos pós-modernistas de forma curta.

O Pós-Modernismo nasceu de uma necessidade de reafirmação histórica e principalmente de memória, portanto esse movimento trouxe consigo vontades provenientes de falhas presentes no período anterior. Delas nasceram novas discussões sobre como abordar as soluções de problemas tanto pré-modernos quanto modernos, ocorreram neste intervalo de tempo os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) e também começaram a ser desenvolvidas as cartas patrimoniais, tendo como ponto de partida a Magna Carta de Le Corbusier de 1931, por exemplo.

Contudo a discussão sobre o desenho da pós-modernidade tornou-se possível a partir de junho 1952, em um CIAM ocorrido na Suécia, devido a massiva participação de jovens membros do congresso pressionando os membros mais velhos a oficializar sua presença e validar suas subsequentes contribuições teóricas, muitos dos quais se tornaram membros do Team X, organizadores do décimo e último CIAM. A ausência de alguns destes membros anciãos, como Walter Gropius e Le Corbusier, facilitou a contabilização dos mais jovens.

O Team X contava com dez arquitetos, entre eles Aldo Van Eyck, Blanche Lemco, Hill e Gill Howell por exemplo, que fizeram parte deste grupo mais jovem de arquitetos e passaram a ter um papel mais ativo desde o nono congresso, no qual tiveram mais sucesso. No CIAM IX criticou-se fortemente A Carta do Habitat, iniciativa da própria instituição organizadora dos CIAMs em favor da velha-guarda, e por meio das mesmas foi sugerido que ambos os grupos produzissem tal documento separadamente e que o mesmo fosse avaliado na próxima conferência.

Desta forma, os interesses e desejos do que conhecemos como parâmetros de integração da cidade surgiram. Não se falava mais sobre o zoneamento isolados de áreas com diferentes funções, mas da mescla entre elas de maneira que se pudesse criar novos ambientes urbanos com maior diversidade de articulação de formas e interação entre as habitações e seus equipamentos locais, compondo assim o habitat. A própria utilização do termo já mostrava uma mudança de posicionamento daqueles que participavam das discussões, os quais não conseguiram identificar precisamente o que gostariam que fosse feito mas sabiam que o habitat deveria comportar a satisfação total por meio da harmoniosidade do espírito e da forma.

No CIAM X foi apresentado o principal objeto de estudo deste artigo, o diagrama correspondente aos Círculos de Otterlo,  produzido por Van Eyck . O quadro demonstra o desejo de harmonização entre princípios previamente considerados como opostos, agora interpretados como complementares e aplicáveis. Nele há duas circunferências afirmando a memória de que sempre houve a convivência em algum tipo de acordo social entre crianças, mulheres e homens, ainda reconhecendo a importância histórica e a tradição arquitetônica até a atualidade. Outrossim, esses dois formatos representaram a contraposição entre a beleza do pensamento Euclidiano e a presença da fenomenologia nos espaços.

otterlo

Há algumas frases colocadas no diagrama, sendo as principais “par nous” (para nós) e “pour nous” (por nós) e também “ Man still breathes in and out, will architecture do the same?” (O homem inspira e expira, a arquitetura fará o mesmo?). Ao colocar estas frases, o arquiteto propôs uma indagação constante durante o exercício de projeto, referindo-se diretamente as possibilidades e impossibilidades produzidas pelo espaço, conforme pode ser visto a seguir.

“Man breathes in and out. There is no man on Earth who can breath[e] either in or out… You go out and you go in – … Somehow we have seen in modern architecture a certain desire to open up a house in such a way that it only breathes out and never gets the chance of breathing in.”

(EYCK, 1961 apud LAMMER, 2007)

Ainda sim deve-se respeitar a natureza humana a frente de diferentes culturas, de modo que se entenda a história natural para que se possa produzir uma arquitetura humana solucionando, assim, problemáticas contemporâneas.

In each culture, as a result of geographic, climatic, cultural or religious circumstances, certain aspects of man are exaggerated. In other countries aspects of man are expressed more clearly, but they are all aspects which are universally human.”

(EYCK, 1961 apud LAMMER 2007)

A teoria desenvolvida pelo arquiteto consiste na colocação de três conceitos abstratos para que se possa compreender o contexto social, com a devida complexidade que o abrange, adotando-o como práxis de desenho para o andamento e implantação de projeto, sendo estes os princípios de twin-phenomena (fenômeno de dualidade), interiorização e o in-between realm (estar entre), todos derivados a partir da relatividade sócio-cultural.

diagrama 1

O fenômeno de dualidade coloca-se de forma parecida com o fenômeno de paralelo surgido no De Stijl, vanguarda holandesa neoplasticista,  iniciando-se como uma reflexão entre a coletividade e a individualidade gerando conclusões posteriores sobre a compreensão da ambivalência da existência em sua totalidade, de forma que se entenda que não é possível a sobrevivência de uma entidade isolada sem seu oposto, o que a tornaria sem propósito e não recíproca.

twin phenomena

A teoria de interiorização consiste na compreensão humana sobre os espaços, identificando-se como o lado epistemológico do fenômeno de dualidade, ontológico. O termo representa os esforços do arquiteto para borrar as fronteiras entre sujeito e objeto, tentando enxergar a interação humana com seu habitat como mais uma relação de dualidade, logo, o espaço não tem sentido sem o indivíduo e o indivíduo não tem sentido sem o espaço.

Já o princípio de estar entre se origina da transição entre os espaços internos e externos, a partir da soleira de uma porta. Van Eyck amplia sua compreensão deste conceito, com a colaboração de seus colegas Rolff Gutmann e Theo Manz, que também faziam presença nos últimos três CIAMs como parte da nova geração,  a ponto de que sua compreensão ultrapassa a barreira da materialização e passa a considerar culturas e convivência em sociedade, por exemplo.

“I have been mulling over it, expanding the meaning as far as I could stre[t}ch it. I have even gone so far as to identify it as a symbol with what architecture means as such and should accomplish. To establish the ‘inbetween’ is to reconcile conflicting polarities. Provide the place where they can interchange and you re-establish the original dual phenomena. I called this 1a plus grande realite du seuil’ in Dubrovnic [ClAM 10, 1956]” 

(EYCK, 1956 apud LAMMER, 2007)

A partir destes temas abordados por Harm Lammers em sua tese de mestrado, a teoria de Van Eyck se torna mais clara para ser possivelmente materializada, concluindo que apesar de abstratos as reciprocidades descritas pelo arquiteto ainda existem e ainda não solucionam os problemas modernos em sua totalidade.Curiosamente, Lammers aponta em sua obra outra compreensão da interação humano vs. espaço, utilizando como base Foucault e Latour, de forma que o indivíduo não é  mais dissociado da tecnologia que também expressa reciprocidade por meio do aprendizado empírico.

Essa nova interpretação, e adição da tecnologia a complexidade da vida em sociedade, faz com que o autor compare a teoria de Van Eyck com a abordagem de mediação que se aproxima do entendimento do arquiteto sobre os espaços e seu papel sobre a vida humana, sendo ela uma possível extensão da abordagem, dos filósofos citados no parágrafo anterior em relação a sociedade moderna e uma possível saída, para o campo da arquitetura e planejamento urbano.

A teoria de mediação consiste na interlocução entre duas entidades para que possa se obter o melhor resultado. Neste caso os mediados fazem parte de diferentes campos que trabalham para que, de acordo com Don Ihde, a vida urbana seja mediada para com o mundo, complementando os pensamentos de “ready-at-hand” (pronto a mãos) e “present-at-hand” (presente em mãos) de Heidegger, de forma que o usuário só possui novas experiências por meio de artefatos – óculos, aparelhos de audição ou cadeira de rodas, por exemplo.

A mediação pode ser considerada distinta a partir dos termos “mediação de percepção” e mediação de ação”, porém complementares. Se analisadas no âmbito espacial, ambas podem ser observadas nos preceitos de Van Eyck pela relação de lugar e ocasião, fazendo parte do twin phenomena. A aplicabilidade das mesmas são dependentes das condições pré estabelecidas pelo contexto urbano e costumes da população na qual ela seria proposta, para que ela seja possível a prática de projeto deve ser correspondente as intenções e inibições dos espaços, sendo o mesmo baseado na experiência para que se possa ocorrer a ação.

Complementar a estas premissas se faz necessária também a ética mediada, estudada principalmente por Foucault nos anos de 1980,  descrita pelo mesmo como as artes da existência ele introduz uma nova modalidade de mediação a ser considerada ao monte. Ela se baseia no conceito de subjetivação, de modo que a percepção de liberdade se constitui pelas amarras do espaço construído, significando que o indivíduo se sentirá seguro e livre apenas quando há algum tipo de identificação com o ambiente. Normalmente esta identidade é feita a partir de memória, neste momento o filósofo indica a raiz de uma falsa premissa criada pela modernidade, dizendo que é impossível a criação de uma nova forma de viver sem experiência suficiente para que se possa se sentir livre.

Eyck expressa o mesmo conceito com o sentido de “homecoming” (chegada ao lar), onde o espaço tem uma forte conexão com o usuário por meio da memória, experiência, demonstrando que o indivíduo deverá se unir com o local para que haja identificação.

Com o homecoming, Eyck se utiliza de dois conceitos, tempo e espaço, provocando ambos para a formação de um novo, ocasião. Unindo as noções de princípios da relatividade de espaço-tempo de Einstein,  interpretando-a como um twin phenomena, e sua tradução de duração espacial de Bergson para a interiorização, de maneira que essas premissas pudessem ser humanizadas e transcritas no ambiente.

“Space has no room, time not a moment for man

He is excluded.

 In order to ‘include’ him – help his homecoming – he must be gathered into their meaning.

(man is the subject as well as the object of architecture).

Whatever space and time mean place and occasion mean more.

For space in image of man is place and time in the image of man is occasion.

Today space home with

what it should coincide with in order to become ‘space’ man at lost. Both search for the same place, but cannot it.

1-‘ .. “”,1/110 that place.

Is man able to penetrate the material he organizes into hard shape between one man and another, between what is what is and a moment? Is he able to a find the right for the right occasion?

No – so start with this: make

a welcome of each door a face of each window

Make of each a place, a bunch of places city, a city a huge house}.

Get closer to the centre of human and all men, since they no longer

[ .. .]” 

(EYCK, 1960 apud LAMMER, 2007)

Associada a teoria de mediação e seus aspectos subsequentes, o trabalho teórico de Van Eyck se mostra promissor ao levar em conta sua principal mensagem de que deve-se fazer uma edificação baseada na identidade ou na materialidade, mas na potencialidade dos ambientes e de identidade. Isto posto, qual o verdadeiro nível de identificação dos indivíduos com os grandes centros urbanos em que habitam? Qual o potencial encontrado no mesmo e qual o papel  da habitação no momento atual?

Como legado dos modelos descritos no início deste texto, na maioria dos centros urbanos, por algum tempo, observou-se uma atividade predatória exercida pelo mercado imobiliário por meio da especulação. Logo, acumula-se grande quantidade de terrenos subutilizados, ou que não cumprem sua razão social, a espera da valorização do mesmo muitas vezes resultando em edificações padronizadas e isoladas do contexto urbano.

Estas edificações não contribuem para o senso de memória coletiva além de um local de trabalho ou habitação, ainda que se saiba dessas condições, pois elas estão distantes para criar laços mais fortes por não atingir seu potencial como espaço comum. O que não possibilita portanto, qualquer relação de identidade de seus habitantes com o local. Como exemplo, pode-se citar o processo de degradação e gentrificação de bairros históricos como o Bixiga, em São Paulo, e o Brooklyn, em Nova Iorque, onde a descaracterização se torna constante e a atividade predatória ocorre a favor do novo – novo esse que é vazio, sem interesse de se conectar.

Com a situação atual de isolamento social durante a pandemia, nos tornamos reclusos em nossa própria liberdade a favor do convívio público seguro. Contudo, a própria condição em que se encontra parte da população mundial, mostra que a vida em comum não ocorre apenas pelos espaços coletivos,  mas que também ele é possível através dos espaços externos às residências, suas varandas.

Em diversos países a convivência por meio das varandas se tornou possível até mesmo entre vizinhos que residem em torres isoladas, devido a proximidade das torres. O que havia um papel mais funcional, em edifícios mais altos, volta a ter seu lugar de interação – volta por conta das relações que havia nas varandas das casas, como costume dos mais antigos – valorizando-o ainda mais.

Alguns escritórios de arquitetura também enxergam o espaço externo com uma maior variedade de articulações, desenvolvendo melhor o potencial destes pequenos terraços individuais considerando aspectos como o direito ao sol, melhor ventilação e iluminação das residências, possíveis espaços de convívio comum e direito a vista. O que resultou em materializações únicas de edificação e potenciais interações.

BIG – The Mountain Dwellings

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Julien de Smedt – Terrassenhaus

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Peter e Alice Smithson – Complexo habitacional de Geneva

ODA Architects – 251 First Street

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Vale notar que os exemplos não possuem as mesmas condições, tendo térreos com utilidades diferentes, público distinto, dimensões diversas. Porém eles se utilizam da habitação como um fator primordial para a vivência urbana destacando-as, formalmente através das sacadas, colocando estes espaços no conceito do estar entre e usando-os como transição para um momento privado, parte interna da residência.

O uso coletivo, também pautado pelos projetos, pontua a mediação colocada anteriormente no texto, no sentido de que a segurança e o pertencimento é desenvolvido por meio da vida semi-pública entre vizinhos, explicado por Jacobs como redes de confiança na qual você pode escolher o nível de privacidade própria em relação aos outros, e maior ainda quando tem-se o térreo com algum uso público efetivo.

Apesar de, futuramente, os densos centros urbanos não contarem com grande disponibilidade de espaço para construção, os projetos demonstram alternativas aplicadas da teoria de Van Eyck conjuntamente com as mediações propostas por Foucault e Latour, assim como outros filósofos que analisam a relação humana com a tecnologia. De certa forma consegue-se sair da abstração para a materialização do que pode ser uma das formas potenciais de como conviver juntos.

 

NOVOS CAMINHOS – Como vivemos e como podemos viver

Desenvolvimento da arquitetura

          Arquitetos, além do encargo de criar projetos funcionalistas e amparar a questão básica de moradia, sempre se viram no dever de projetar levando em conta os fatores externos de sua época, sendo esses fatores a política, economia, questões sociais, entre outros. Uma profissão que se desenvolveu por meio de manifestos e movimentos demonstrando diferentes possibilidades de expressar seus pontos de vista, com certa abstração artística, relacionando às formas de se viver. Movimentos esses que, por apresentar um campo aberto de inúmeras reflexões, foram alvos sujeitos às críticas e desaprovações de qualquer um que se julgava apto a criticar esteticamente projetos arquitetônicos.

Complexo residencial Bellavista em Klampenborg.

Projeto funcionalista de Arne Jacbsen, em 1934, complexo residencial Bellavista em Klampenborg.

            Analisar os conceitos e sensações de um projeto desenvolveu um campo importante de estudo às reflexões relacionadas ao que permeia sobre os pensamentos e propostas dos arquitetos, campo esse chamado fenomenologia¹. Tal assunto passou a analisar as situações vivenciadas, de modo além da forma estética, construtiva e útil, se inserindo também, nas questões metafísicas do seu tempo e criando uma gama mais ampla de definições.

          Sempre foi sabido que este ofício abrangia diversos campos pluridisciplinares, onde a fala de Marcos Vitruvius, no relato mais antigo sobre arquitetura, aponta com propriedade.

“A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes.”

O campo ampliado da arquitetura

          Estudando as interrelações com diversos outros campos, foi possível aplicar esse ideal de pensamento voltado à arquitetura, a fim de investigar as tendências que viriam a ser apresentadas no século 21.

          Esses reconhecimentos se desenvolveram durante a exploração do uso de diagramas, uma técnica com possibilidade expressar e descrever os projetos, através de grafias visuais, apresentando inúmeros dados com a síntese das imagens, tendo como finalidade melhor entendimento dos conceitos.

Esquemas

Desenhos de concepção de Fraser & Henmi, (1994). Imagem da Tese “Diagrama como discurso visual: uma velha técnica para novos desafios”, do arquiteto José Barki, doutor em urbanismo FAU UFRJ

          Segundo o historiador e crítico de arquitetura, Anthony Vindler, foram criadas conexões com nosso campo de estudo e desenvolvendo assim quatro paradigmas de comparações, sendo eles à relação de arquitetura e paisagem, arquitetura e biologia, arquitetura e seu programa e arquitetura em consenso com arquitetura.

          Nesse meio, Vindler também aponta que a maneira de se ver a arquitetura, discussão entre forma e a função, precisava ser desprendida e entendida separadamente, somente assim seria mais claro pontuar as questões que deveriam ser melhoradas. Exemplo que cita do movimento modernista, pelo fato de ter sido desenvolvido para uma necessidade imediatista e criada de modo automático, reflexo da forma realista de se morar. Dessa forma, muitas questões foram levantadas, porém não sanadas por completo.

          Por esse motivo, quando esses problemas são inseridos nos estudos de combinação dos paradigmas, abre-se novas possibilidades e conhecimentos voltados às questões já antigas. Esses novos ângulos de vista são formas mais sensoriais e ampliadas de se reconhecer na arquitetura.

          Quando comparamos a arquitetura e as artes, um ótimo exemplo, citado no texto “O campo ampliado da arquitetura”, é o de Richard Serra quando quebra a questão do ‘uso tradicional’ em sua experiência espacial, no projeto Tilted Arc, onde sua escultura, uma placa longa e alta de aço, foi inserida em uma praça.

Federal Plaza com o Tilted Arc

Vista do Federal Plaza com o Tilted Arc visto de lado. Fotografia de Susan Swider.

          Entramos no questionamento das ambiências e sensações, pois a praça já não tem mais sua função anterior, e nem a escultura. Juntas elas criaram uma novidade para as vivências, onde a funcionalidade e a estética permeiam pela característica que os críticos chamam de arquitetura e a não arquitetura.

          Essas metáforas e fundamentos foram criadas para alongar a nova visão sobre a arquitetura, de maneira a mostrar o que permeia no limite incerto da arquitetura e que também foi possível com a criação das novas tecnologias.

          Durante o século 19, o princípio relacionado às questões biológicas ganhou uma certa atenção e continuou a se desenvolver por muitos anos, até que na metade do século 20 ganhou possibilidade de se desenvolver melhor através da engenharia e seus softwares, possibilitando dar às construções os formatos orgânicos e ‘desconstruídos’ que permeavam a imaginação dos arquitetos (como forma de escapar do funcionalismo moderno).

Como viver junto e papel do arquiteto

          Um dos conceitos discutidos por arquitetos sempre foram baseadas no princípio de como podemos projetar para se viver bem. Mas será que sempre pensamos na questão de como viver bem conjuntamente?

          Na atualidade, é raro vemos os projetos se harmonizando com as escalas urbanas. É necessário pensar nas relações e concordâncias entre os diferentes projetos, posto o fato de que as cidades carregam construções de diferentes épocas e estilos, é válido gerar mais discussões sobre as relações de concordâncias arquitetônicas e criar cidades menos desagregadas e desiguais.

Projeto FRAC Dunkerque,  Lacaton & Vassal

Projeto FRAC Dunkerque, dos arquitetos de Lacaton & Vassal (2013), que tem como característica a harmonização do antigo e do novo, mesmo que utilizando materiais diversos.

          Refletindo sobre as formas de analisar a arquitetura e de acordo com o momento contemporâneo, como podemos propor novos meios para amenizar as questões urbanísticas das cidades, e torná-las menos segregadas? Será que não é necessário repensar nosso modo de projetar, como também as relações de trabalhos? Talvez reconsiderar as materialidades insustentáveis impostas a nossa profissão e reexaminar a lógica e nossas propostas para um bom projeto.

          Como uma profissão que abrange diversos campos, é necessário ampliar e explorar as várias combinações, como também incentivar um contrato espacial entre pessoas das múltiplas áreas e pontos de vistas diferentes, a fim de ampliar as possibilidades de resolução dos problemas e discutir e desenvolver variedades de novas propostas e formas de se viver na contemporaneidade.

 

Professora do MIT e sua visão às novas formas de projetar

          Porventura, uma convenção com a natureza também seja bem apropriada, para o atual momento, já que continuar utilizando recursos esgotáveis na arquitetura, não parece seguir para nenhum avanço. A utilização de materiais, que em um tempo já foram inovadores para a arquitetura, agora não se apresenta tão apropriada. Essa estagnação se dá pelas políticas econômicas impostas à arquitetura, onde o investimento de recursos renováveis ainda se mostra carentes no Brasil.

          A arquiteta israelense e professora do MIT, Neri Oxman, apresenta um novo conceito que questiona o significado de projetar, através da materialidade, e a partir daí, estuda as possibilidades de reinterpretar o mundo natural (biodegradável) para ser utilizar em suas propostas.

          Nos desenvolvimentos dos projetos, com seu grupo Mediated Matter, do MIT, Neri procurou ressignificar a matéria viva, utilizando a tecnologia e apresentando estudos onde os produtos biológicos combinados a diferentes microrganismos que foram aplicados através de máquinas adaptadas para montagem de estruturas com os materiais naturais.

          O questionamento sobre utilizar diferentes materialidades surgiu do interesse de Neri em observar o corpo humano, de modo que, em sua fala, ela compara projetos de arquitetura com a conformação de um corpo, onde este último é composto células iguais de mesma configuração, porém apresentam diferentes resistências de acordo com sua localização e função no corpo; o que, diferente as estruturas de uma casa, a qual normalmente é construída por outras materialidades, como chão, paredes, vigas e telhado.

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Imagem da pele humana, formada de células e referência a fala de Neri no parágrafo anterior.

        Então ela procurou em seu trabalho e grupo de pesquisa apontar para novos meios de colaborações multidisciplinares, também inovando com novas maneiras de questionar as materialidades de construção já existentes, demonstrando assim uma forma de manifesto em relação as maneiras habituais de se morar.

       A imagem abaixo é um diagrama utilizado pela professora para desenvolver seu pensamento em função da criação de um projeto realmente eficiente onde ela compara o ciclo de Krebs, propriamente dito, com diferentes áreas profissionais.²

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Imagem do desenvolvimento de Neri Oxman. The Krebs Cycle of creativity I (Domains),2016.

          Para a biologia o ciclo é uma via metabólica composta por reações químicas em cadeia que, após um primeiro componente realizar sua função imposta, todos os outros organismos passam a existir devido a essa ação e funcionar de maneira independente.

          Essa analogia com o ciclo, pode ser apresentada como uma digestão intelectual, onde é exigindo uma mudança de perspectivas e que as trocas de conhecimento e reações em cadeia, provavelmente vão enriquecê-lo intelectualmente. Então, são apresentados os quatro campos profissionais, que podem se tornar interdependentes em relação a questão de como se viver, estes são: a ciência, engenharia, design e arte, compostos que servem como moeda de troca de conhecimento.

          Dessa forma a ciência tem função de converter informação em conhecimento, a engenharia à transforma em utilidade, o papel do design é aumentar a experiência humana e assim fazer se tornar um comportamento e então a arte serve como questionador do comportamento humano, focando na consciência e em novas percepções de mundo.

          A imagem se apresenta intencionalmente de forma incerta, com intuito de provocar reflexões e dar a possibilidade de ser lido de diversas formas. Alguns exemplos ainda são apresentados como comparação como a interpretação de um relógio, lido em uma direção, podendo estar parado, dobrar o tempo ou até mesmo retroceder; Se assemelhando à um microscópio que utiliza diferentes lentes de acordo com o que queremos ver; Podendo ser visto como uma bússola, a qual a rosa dos ventos indica os eixos dos conhecimentos por onde podemos decidir qual ponto seguir primeiro; Ou também assemelhado à um giroscópio, dando uma projeção complexa e criativa. De tal forma que Neri demonstra as variáveis formas de interpretar, como também, por ser um esquema, existe a possibilidade de apresentar falhas.

Projetos desenvolvidos por Neri e sua equipe

Projeto 1– AGUAHOJA I   

          Utilizando estratégias de modelagem estrutural com materiais derivados de maçã, exoesqueleto de insetos e casca de árvores, o projeto foi realizado através da fabricação robótica produzindo diversos graus de rigidez para estrutura de acordo com a composição com água. O sistema criado se apresentou bastante resistente e o fato de ser biodegradável dá a opção de um ciclo de vida variável e fácil descarte, assim quando não mais for útil estruturalmente, pode ter outros fins sem gerar entulhos.

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Imagem da revista de arquitetura DEZEEN, dos produtos testes para concepção do projeto Aguahoja I

          Sendo válido lembrar que os Biopolímeros utilizados são produzidos na casca de camarões, caranguejos, borboletas e escorpiões, que são ‘descartados’ em torno de 100 milhões de toneladas por ano e que foram utilizadas, já depois da vida dos animais, com a sua forma triturada e moldada, criando diversas estruturas multifuncionais e, quando aplicadas pelo sistema robótico, formaram as ‘peles’ do Aguahoja.

           Por meio de arranjos artificiais, que possibilitaram, assim como as células da pele de um corpo humano, uma disposição natural cujas bactérias utilizadas absorviam o carbono da atmosfera e produziram esse sistema de açúcar.

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Imagem do site MIT MEDIA LAB. Projeto Aguahoja I  finalizado em seu pavilhão de exposição.

          Durante seu Ted Talk, Oxman, aponta uma questão, ao apresentar o desenvolvimento desse trabalho, sobre o porquê ainda estamos produzimos plástico em grande escala, sendo que ele muitas vezes se torna rapidamente inútil e demora anos para se decompor, e que existem milhares de formas e combinações naturais que podem gerar inúmeras .

Projeto 2– GEMINI ALPHA

          O principal ponto para o desenvolvimento dessa cadeira foi Neri relacionar uma gravidez e essa sensação de ecossistema. Então, ela criou uma cápsula que simulasse o estado de um bebê no ventre em seu mundo confortável e quieto.

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Imagem do site DEZEEN, design final da concepção da cadeira Gemini Alpha

          O projeto da cadeira acústica desenvolvido junto com o professor W. Craig Carter, do Departamento de Ciência e Engenharia de Materiais do MIT, se realizou através da combinação de produtos naturais e sintéticos obtendo diferentes resultados e gerando em uma estrutura com 44 materiais diferentes, semelhante a uma borracha, porém de diversas cores, absorção e resistência, o qual sua superfície irregular explora um design diferente e de alta absorção dos sons.

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Imagem do site DEZEEN. Material resultante do estudo dos biopolímeros para o projeto Gemini.

 

    É possível ver que a equipe de Neri não só cria um produto que reinventa a natureza, ademais cria algo que encanta os olhos por sua beleza do natural. Desse modo, ela acredita que os trabalhos híbridos, com uma base filosófica consistente, podem reinventar a forma de se morar e encontrar novas formas de desenvolvimentos e focos na economia, apontando um diverso rumo para a arquitetura.

Momentos da arquitetura e reflexão sobre formas de se projetar

          Em um tempo onde as construções eram realizadas com a mínima ornamentação possível, realizar projetos de uma forma funcional, direta e rápida, devido a demanda nos pós guerras, foi a melhor forma imediatista encontrada para obter uma resposta viável para a economia no momento.

     Pensando na situação do Brasil, local com um histórico arquitetônico muito movimentado, passado por cidades super adensadas e sem planejamentos, ‘testes” arquitetônicos em escala real, crises econômicas, diversidade de estilos adotados de referências de outros países e com o momento atual em circunstância de pandemia, nos aponta, mais uma vez, a necessidade de encontrar novas formas para tratar a moradia e situação urbana no país.

          Os questionamentos da forma como projetamos e como as profissões se relacionam é crucial para refletir sobre nosso momento atual. Vemos um caminho se abrindo com infinitas possibilidades de inovações para a arquitetura que pode andar lado a lado da tecnologia. Projetos como esses devem servir para abrir a cabeça e inspirar a procurar novas perspectivas para a arquitetura.

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Comparação de imagens feita por Neri, onde na primeira é projeto para a natureza e na segunda a natureza é quem projeta para o meio, relações entre a máquina e o organismo.

“No meu grupo, acreditamos no futuro; não vamos construir nossos produtos e nossa arquitetura, mas sim aumentá-los.”, palavras ditas por Neri refletindo sobre seu pensamento de como lidar com o futuro, nos desenvolvimentos dos projetos, com seu grupo Mediated Matter.

O arquiteto dinamarquês Bjark Ingels muito conhecido por seus projetos com estratégias sustentáveis e conceitos sociológicos aposta no pensamento de que devemos nos reinventar e mudar o futuro da arquitetura para evoluções positivas : “Como designers e arquitetos, nós damos forma ao futuro. Ou damos forma ao futuro que gostaríamos de ver acontecer. É sobre a vida que queremos viver.” ³

¹ | A fenomenologia é um estudo que fundamenta o conhecimento nos fenômenos da consciência. Nessa perspectiva, todo conhecimento se dá a partir de como a consciência interpreta os fenômenos. Esse método foi desenvolvido inicialmente por Edmund Husserl (1859-1938) e, desde então, tem muitos adeptos na Filosofia e em diversas áreas do conhecimento.

² | Professora e PhD indica sua determinação com a análise do ciclo de Krabs quando diz que “Estabelecer uma cartografia experimental, ainda holística, da inter-relação entre esses domínios, onde um domínio pode incitar a (r)evolução dentro de outro; e onde um único indivíduo ou projeto pode residir em vários domínios”. (Oxman, Neri, em Journal of Design and Science– JoDS, em janeiro de 2016- Tradução livre)

³| Bjark Ingels, arquiteto dinamarquês. Atualmente, muito conhecido por seus conceitos de projetos inovadores e que ressignificam os ambientes, as interações entre as pessoas e as estruturas dos projetos em si.

Texto por Fabiny Helena Peres

Abrigos emergenciais para refugiados – Uma situação provisória com traços de permanência

TEXTO POR TALITA CARRASCO CARNEIRO

 

Dois pesquisadores de ciências políticas e desastres da Universidade de Londres, Elizabeth Babister and Ilan Kelman falam em sua tese sobre a importância dos abrigos emergenciais para refugiados, como a necessidade por abrigos se torna fundamental em uma situação de emergência:

“O abrigo pode ser a chave para salvar uma vida ou prolongar a sobrevivência. Olhar para o abrigo como um direito fundamental humano é olhar para situações desesperadoras, porque quando pessoas perdem as suas casas, elas perdem o único lugar que é essencialmente seguro. Portanto, quando um indivíduo não tem abrigo, a situação pode ser considerada uma crise” (BABISTER, E e KELMAN, I O processo de abrigos emergênciais aplicados em casos na Macedônia e Afeganistão em tradução livre. 2002.)

 

Na tese, os autores deixam claro a importância da conexão pessoa-lar, e como o meio a sua volta pode influenciar na sua saúde e bem-estar. Quando imaginamos um campo de refugiados não nos vem na mente um lugar confortável onde pessoas vivem calmamente suas vidas. Nos vem na mente um local de passagem onde alguém se demorou demais a sair, e acabou se instalando alí. Um lugar que caracteriza a sua efemeridade pelas suas construções baratas e tendas espalhadas pela paisagem a perder de vista. Um local que não recebe a atenção necessária quanto a qualidade de vida.

Quais são as relações interpessoais das pessoas que se veem obrigadas a se instalar em um campo de refugiados? O que os traz paz de espírito e conforto? O rompimento do relacionamento pessoa-lar pode trazer uma série de consequências traumatizantes para pessoas que sempre se viram muito ligadas ao lugar onde vivem. O espaço tem uma influência grande na formação de uma pessoa, e se ver obrigado a sair do seu local de criação a força pode se tornar traumatizante.

Por ser (infelizmente) uma tendência mundial, a arquitetura emergencial tem gerado interesse entre arquitetos e designers que simpatizam com a arquitetura efêmera e eficiente. O número de entidades focadas na oferta de abrigos à refugiados no mundo é grande, e a maioria delas tem como objetivo prover uma espécie de lar mais acolhedor a essas pessoas, além de mudar a paisagem desoladora dos campos.

A empresa IKEA por exemplo criou um tipo de casa de montagem rápida e barata com o objetivo de atender locais onde não há abrigo suficiente para todos. O nome do projeto é Better Shelter e o mesmo foi vencedor de um concurso de arquitetura efêmera para refugiados em 2014. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados tem parceria com a empresa, possibilitando o fácil acesso do módulo àqueles que precisam.

A iniciativa da IKEA tem parceria com as Nações Unidas

O arquiteto Shigeru Ban é um dos simpatizantes da arquitetura efêmera e de caráter emergencial para refugiados ou vítimas de catástrofes. São vários os projeto dele pelo globo, onde tenta desenvolver um tipo mais acolhedor de abrigo aos ocupantes dos campos. Um exemplo é a Casa Paper Log, que pode ser encontrada tanto na Índia quanto no Japão. São casas provisórias produzidas com o material que a própria região do assentamento pode oferecer.

 

Casa Paper Log no Japão

       Casa Paper Log na India

Ainda porém existem aqueles que acreditam que a construção de lares temporários pode se tornar uma espécie de perda de tempo e dinheiro. Na teoria, campos de refugiados são lares provisórios àqueles que fogem de guerras, epidemias ou crises. Mas, na prática, existem campos com mais de 25 anos de existência, maiores que cidades inteiras, como por exemplo Zaatari, um campo na Jordânia fundado em 2012, que caminha lentamente para o status de assentamento permanente.

Em entrevista ao periódico Dezeen, o arquiteto Alejandro Aravena diz que seria mais eficiente oferecer um tipo de estrutura básica, mas durável, que possa ser completa pelo próprio residente como lhe for melhor. Isso dá um caráter mais pessoal à construção, gerando uma ligação maior entre pessoa e lar. Ainda apoiando essa ideia, o empresário alemão,  ex-funcionário do ACNUR e ex-diretor do campo de Zaatari, Kilian Kleinschmidt diz que hoje, a pessoa em situação de refugiado recebe uma resposta automática militarizada sobre onde deve se abrigar, sob a ideia de que logo voltaria ao seu país de origem, que é raramente o que acaba acontecendo.

O principal objetivo de um campo de refugiados é acolher essas pessoas sem lar e abrigo, como foi citado no inicio desse texto, mas será que esse caráter provisório é tão necessário? Um abrigo deve trazer mais do que sobrevivência, mas a sensação de pertencimento a um lugar, a um sistema de convívio com mais milhares de outras pessoas estão passando pelas mesmas situações difíceis. A sensação de pertencimento a um lugar pode trazer benefícios e gerar uma ideia de cuidado pelo local ao qual está alocado, mesmo que seja provisório.