Japanese Constellation

Exposições sobre arquitetos Japoneses já fazem parte da longa história do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, tendo sua primeira exposição em 1932 sobre a arquitetura moderna internacional e o Central Telegraph Office em Tokyo do arquiteto Mamoru Yamada construído em 1925 demonstrando a expansão do modernismo japonês.

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Logo em 1954 Junzo Yoshimura demonstra o uso de vigas e pilares no jardim do museu transformando o espaço em um modernismo inquietante para os americanos.

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E o mais impactante; o arquiteto Yoshio Taniguchi que em 2004 reinventou o MoMA com sua adição de mais uma fachada que preserva as outras como uma recordação de suas formas.

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Assim, a exposição Japanese Constellation não é uma grande surpresa, depois de 10 anos uma exposição dedicada à arquitetos de uma nação só com exemplos de arquitetos contemporâneos que entre si se interligam.

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Ao entrar na exposição monocromática branca, já se sente a presença de um jeito diferente de construir espaços. Divisórias feitas com 3 tecidos de linho branco, todas as plantas em um tipo de vinílico branco grudadas nas paredes cinza claro. As janelas cobertas com o mesmo tecido de linho criando uma iluminação natural difusa, junto com iluminação artificial porem com um parecer natural.

Tudo pra criar um clima único para falar sobre a arquitetura japonesa e seus contemporâneos. Uma parede cinza mais escuro ampara o espectador com uma única imagem e a direção que a exposição começa.

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A primeira parede é certamente dedicada ao trabalho do Toyo Ito, e quando você navega pelos os espaços percebe que não tem uma divisão modular clara; mas nas divisões que existem, cada arquiteto ganha seu lugar.

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A arquitetura Japonesa sempre teve um olhar estético diferente do lado oeste do mundo; sempre olhando para as tendências urbanas e estéticas baseadas em qualidades espaciais ao contrário dos ‘star architects’ que priorizavam a estética sem considerar o fator social e o entorno em que se locavam os seus projetos [Museu de Bilbao de Frank Gehry por exemplo].

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Um ponto crítico e talvez mais importante nas obras de Toyo Ito até hoje, e da onde parece partir a exposição [já que é o primeiro projeto a ser apresentado], é o projeto de 2001 Sendai Mediatheque aonde a estrutura é transformada em um vazio e a leveza permeia uma arquitetura desenhada para aqueles que vão habitar o espaço.

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Ito se impressionou ao ver que a reação dos arquitetos, do público e daqueles que iriam habitar o prédio foram boas; e percebeu que tinha um espaço para uma arquitetura sem rótulo e radical.

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“Arquitetura que é moderna somente no estilo, não tem o poder de mudar a sociedade. Arquitetura que é reconhecida somente por arquitetos e não pelo público, não tem futuro. Eu acredito que uma arquitetura que verdadeiramente tem o poder de reformar a sociedade de hoje tem que focar seu poder crítico em uma outra forma de proposta.” [TOYO ITO]

Os arquitetos contemporâneos japoneses respondem à mudança urbana de uma forma imediata, permitindo que ao momento que a sociedade vai mudando, a arquitetura dança junto com ela. A mudança é rápida.

Assim se moldou uma constelação japonesa; arquitetos com interesses a partir do social, do espaço, da função; sem ter uma arquitetura rotulada e um reconhecimento do radical em uma escala mundial sempre com uma resposta espontânea para as mudanças constantes da sociedade.

Ito, em 1976, projetou o White U, um edifício aonde o intocado era preservado: “uma fuga da intensidade urbana” que se estendeu até 1991 quando Sejima criou um universo universitário que era um dormitório para mulheres rejeitando o urbano caótico de eventos. Ela rejeitou qualquer padrão hierárquico dentro da arquitetura para criar essa cidade nova fora do espaço de viver, provocando os limites entre o privado e público, o pessoal, a identidade e sociedade.

 

Ito então percebeu que a arquitetura não devia se virar para dentro de si como seu projeto de 1976. O que ele herdou do moderno avant-garde é que a arquitetura deveria servir como uma rejeição das formas que hoje definem a estrutura do sistema social e uma maneira de criticar a sociedade. O que levou Ito a projetar o Sendai [citado acima].

“ A sociedade está em um processo de alterações que são muito mais pragmáticas e radicais do que possamos imaginar, então não guardo nenhuma frustração em relação ao empreendimento, nem me desespero sobre o mesmo. Eu tenho somente um interesse: a questão se a arquitetura como arquitetura é praticável nesses tempos” [TOYO ITO]

A centralidade da estrutura no trabalho de Ito é expressada em Sendai, seja em seu uso de exoesqueletos para definir a imagem de uma edificação ou o seu interesse em interiores derivados de geometrias complexas. Logo foi acompanhado por Sejima e, mais tarde profundamente questionado por SANAA, as funcionalidades estabelecidas, a sua organização inovadora das necessidades dos clientes, e seu uso sofisticado de materiais como vidro e metal.

New art museum_SANAA_Nova York

Apesar de termos como kawaii (bonito) têm sido utilizados em análises de arquitetura japonesa contemporânea, tais descrições, com características fundadas na aparente simplicidade das estruturas, são profundamente enganosa quando se considera as construções de SANAA. Além de sua leveza na definição e mínimo esforço, têm sido descritas como “inclusiva” e “democrático”, devido à sua inovadora, concepção de inovação espacial, Ito ofereceu que a liberdade conceitual de Sejima “libertado das convenções sociais e restrições” deu-lhe “um maior conhecimento sobre as realidades sociais.”

Century Museum_SANAA_Kanazawa

Arquitetos como Fujimoto e Ishigami têm sido igualmente elogiado por seu compromisso arquitetural para a estética radicais e a produção de mudança social. O trabalho de Fujimoto tem sido descrito como tendo “os elementos da arquitetura para além”, apenas para montá-las em um comentário de lazer ainda crítica sobre privacidade na sociedade contemporânea. E enquanto missões arquitetônicas de Ishigami pode parecer obsessivo e focado quase que exclusivamente em questões disciplinares abstratos, ele conta com os usuários e seu senso de maravilha para tornar significativa seus esforços artísticos.

House NA_Sou Fujimoto_Tokyo

Kanagawa Institute of Technology_Junya Ishigami_Japão

Na esteira do desastre, arquitetos no Japão desenvolveram uma nova consciência, reconhecendo que o seu trabalho deve estender-se para além do contexto urbano imediata e apoiar as necessidades sociais emergentes. Como Ito descreveu, arquitetura deve mover-se “para além de prazer”, “abster-se de críticas,” e procurar “auto-pagamento.”

Serpentine Gallery_Sou Fujimoto_Londres 2013

A diferença de potencial entre um sistema de estrelas e uma constelação é que as estrelas principais e emergentes estão ligadas por forças gravitacionais que tornam a sua agregação de interesses reconhecível, parcialmente imaginado. Em contraste com as estrelas cadentes, entidades únicas condenadas a desvanecer-se espetacularmente, constelações evocam uma imagem bem diferente: cada estrela individual , é claro, carrega seu próprio significado, mas o mesmo acontece com o acordo coletivo das estrelas; suas proximidades relativas e distâncias, e seu brilho combinado, sugerem mais do que uma soma de partes. Desde os tempos antigos, constelações têm oferecido direção para aqueles que olham para o céu em busca de orientação.

Juliana Valle e Giovana Belinello

Arquitetando a Interação Social | Landscape Architecture Magazine

Fabiana Curi e Fernanda Giansante

A Revista – LAM

A partir da de três edições (volumes 105 – N12 dezembro de 2015; 106 – N2 fevereiro de 2016; 106 – N1 janeiro de 2016) da revista Landscape Architecture Magazine (Lam) – publicação americana que aborda reportagens diversificadas com destaque para arquitetura paisagística –, percebemos que a maneira como se pode atribuir valor aos ambientes públicos e coletivos através da forma que é feita sua interação – de acordo com o que é instalado no espaço útil, seja um mobiliário urbano ou uma escultura, para que os mesmos passem novas experiências – é um tema bastante abordado.

Para analisar o assunto, os projetos escolhidos são: Soundwave, Square Dance e Superkilen.

 

SOUNDWAVE | Xiangyang, China

Composta por 500 aletas de aço de diferentes alturas, Soundwave é uma instalação que homenageia a subida e descida das barras de um visualizador de som digital. Feita por Penda Architects, a ideia principal do projeto é mostrar a relação existente entre música, arte, natureza e arquitetura. Pensando nisso, o projeto ultrapassou o conhecimento sobre paisagem e foi além, criando um espaço interativo entre a cidade e o Myrtle Tree Garden.

 

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A inspiração surgiu da citação “A música é a arquitetura líquida; arquitetura é música congelada”, e o mecanismo da instalação funciona através da imaginação. Ou seja, oferece a possibilidade de o visitante escapar dos transtornos diários da cidade e entrar em um mundo de experiência sensorial – basta apostar na criatividade e se deixar levar e sentir pelo contexto.

Além disso, os movimentos de luzes e cores das aletas criam uma espécie de transição e interação entre a cidade e a paisagem, caracterizando o local pela grandeza e particularidade de remeter a uma skyline – panorama geral do horizonte de uma cidade, onde a superfície da terra e o céu se encontram.

 

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“Música, ritmo e dança em combinação com a paisagem circundante foram os principais parâmetros para moldar o Soundwave” – Chris Precht & Dayong Sun.

 

Em relação aos materiais das aletas, são painéis perfurados de aço inox (em tons de roxo). Eles são coloridos através da passivação eletrolítica, processo necessário quando é feito tratamento mecânico ou soldagem em peças de aço inoxidável para manter as principais características do material intactas e resistentes à corrosão.

 

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Durante o dia, o reflexo do sol atinge as aletas, refletindo em seu entorno e deixando a aparência da escultura versátil. Ou seja, os painéis ficam propensos a mudar de acordo com a posição solar. Outro ponto interessante é o fato das aletas estarem localizadas em quatro lagoas diferentes, produzindo o reflexo do metal cintilante na água e proporcionando um lindo jogo de luz. Já durante a noite, a escultura tem uma transformação de imagem constante que reage diretamente aos movimentos dos visitantes da praça.

 

 

Feita com cuidado e projetada nos mínimos detalhes, a escultura é circundada de colinas e vales, e suas cores vibrantes criam uma referência visual para a área. Sobre os tons de roxo, é importante citar que foram escolhidos de forma que remetessem ao tom das árvores do Jardim Myrtle. E a partir desta referência, a ideia é transmitir aos visitantes a sensação de estar em um bosque, cercados pelos troncos das árvores.

 

 

 

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Quanto maior o número de pessoas circulando no local, mais vida, movimento, brilho e iluminação. A natureza tem suas próprias características e som, mas em Soundwave esses conceitos e detalhes são potencializado através das vibrações e luzes, ativadas no momento em que os indivíduos exploram o ambiente. O projeto pode parecer complexo e até mesmo equivocado, mas faz sentido quando se entende que paisagem não é apenas árvores, arbustos e plantações. Paisagem é tudo aquilo que a mente é capaz de imaginar, sem limites. Portanto, passa a ser um ambiente diferenciado pelo fato de não ser apenas um espaço construído, mas um espaço que oferece diferentes sensações, experiências e imaginações.

 

Fonte:

http://landarchs.com/the-nature-of-the-soundwave-brought-out-in-a-landscape/

http://www.dezeen.com/2015/03/27/penda-purple-pillars-motion-activated-light-sound-soundwave-installation-park-xiangyang-city-china/

 

 

FICHA TÉCNICA

Arquiteto: Penda

Localização: Xiangyang, Hubei, China

Área: 5000.0 metros quadrados

Ano: 2015

Fotografias: Xia Zhi

Equipe de Design: Dayong Sun, Chris Precht, Fei Tang Precht, Yongjian Huang, Zhonghua Tang, Chunlei Zhu, Junfeng Li, Runxin Tang

 

SUNDANCE SQUARE | Fort Worth, Texas

Square Dance é considerado um dos mais conceituados distritos comercial, residencial e de entretenimento de Fort Worth. Repleto de opções de hotéis, condomínios, museus, clubes, cinemas, lojas, restaurantes, casas noturnas e galerias de arte, o local se transformou na grande “sala de estar” da cidade.

Localizado no Texas, numa área em que se encontrava um estacionamento de aproximadamente 800 m2, o espaço se tornou público e amplo para sediar eventos culturais e outras diversas atividades da cidade.

A concepção da praça foi definida 1981 e é um lugar onde passado e futuro se cruzam, já que a arquitetura moderna de David Schwarz está alinhada com sua característica estética antiga, o art-deco.

 

 

A instalação tem capacidade para 498 pessoas, e sua distribuição funciona da seguinte maneira: 279 cadeiras, 79 mesas estilo café, 24 bancos, 392 pés lineares de seatwalls e 1 palco. Além disso, possui um adicional de 214 cadeiras ao ar livre e 82 mesas nos cafés, restaurantes e bares com fachadas na praça.

 

 

 

Outro fator importante é que a praça conta um bosque permeável com arvores nativas que possuem bases estruturais com drenos de escoamento – importantes para função de drenar água das chuvas. E mais: 4 guarda-chuvas estruturais fornecem áreas de sombreamento.

Além da beleza, também proporcionada pelas lâmpadas de LED instaladas no local e que fazem com que a praça fique colorida e ofereça um espetáculo de luzes para quem passa, o espaço é confortável e funcional durante todas as estações do ano.

 

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É uma ótima referência de reabilitação de um espaço público que se tornou extremamente eficiente para a vida cotidiana. O que antes era um espaço sem relevância e mal projetado, hoje foi requalificado e se transformou em um ponto acolhedor, convidativo e repleto de interação.

 

Fonte: http://landscapeperformance.org/case-study-briefs/sundance-square-plaza

FICHA TÉCNICA

 

Localização: Sundance Square Plaza – Fort Worth, Texas, Estados Unidos

Ano: 2013

Área: 555m2

Projeto: Designer Michael Vergason Landscape Architects

 

SUPERKILEN | Copenhagen, Dinamarca

Superkilen é um parque multidisciplinar localizado na capital Dinamarquesa. Suas características refletem a fusão da arquitetura com paisagens e artes criativas. Localizado no bairro com maior diversidade étnica e social da Dinamarca, o local tem como objetivo ser um ponto de referência da cidade e servir de elemento unificador para os diferentes povos da região.

Pode ser considerado uma exposição permanente de móveis e objetos do mundo todo, como postes, bancos, iluminação e plantas.
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A divisão do parque é feita em 3 zonas de cores diferentes – verde, preto e vermelho – que se integram e formam ambientes dinâmicos em um só conjunto excepcional. Além disso, conta com pequenas ilhas de diversos tipos de vegetações, que conferem ainda mais vida e natureza ao local.

 

 

Praça ou Zona Vermelha. Essa área é caracterizada por elementos contemporâneos e urbano, com instalações culturais e desportivas. São elas: áreas fitness, parque infantil, abundância de bancos, carrinhos de bicicletas, estacionamento, entre outros.

 

 

 

Mimers Plads – Zona ou Mercado preto. É o coração do Superkilen. Com conceito mais clássico, o local conta com bancos e chafariz para promover o encontro das pessoas. Em dias de semana, as instalações servem como uma sala de estar urbana para jogadores de gamão, xadrez e outros jogos.

 

 

Green Park ou Zona Verde. Essa área foi criada com a intenção de proporcionar paz e lazer. As atividades possíveis vão desde passeios com animais de estimação até pic-nics com a família e amigos.

 

 

 

 

O espaço coletivo é uma mistura do ambiente social com a sofisticação da arquitetura. E, além de agradável, integra a população e traz harmonia para a cidade.

Fonte: http://www.archdaily.com/286223/superkilen-topotek-1-big-architects-superflexFICHA

 

FICHA TÉCNICA

Arquiteto: BIG Architects, Topotek 1, Superflex

Localização: Copenhagen, Dinamarca

Ano: 2012

 

CONCLUSÃO GERAL

Ao analisar o tema, conclui-se que espaços públicos e coletivos são importantes para a sociedade. Mas mais importante ainda é, antes de suas construções, entender e estudar a cidade, a área em questão e as pessoas que podem vir a visitar o local. A partir disso, fica cada vez mais fácil entregar uma instalação rica em valores e com maior identificação com os grupos sociais que a produz, habita ou usufrui. Esses três fatores ajudam a criar um espaço interativo e ativado por um público envolvido, que preza pela circulação entre os espaços e suas experiências possíveis.

A formação destas intervenções mostra-se de grande importância dentro do contexto urbano porque, além de patrimônio histórico e cultural, oferece possibilidades para o desenvolvimento de projetos nas cidades contemporâneas. E, além de possibilitar inúmeros benefícios comerciais e até de paisagens, proporciona o principal: o encontro e interação de pessoas que vivem em um mesmo lugar.

 

                                 FABIANA CURI E FERNANDA GIANSANTE

 

Jeito de morar… 生き方… ikikata

Considerando as abordagens das ultimas edições da revista japonesa JA foi possível encontrar o partido para uma analise cultural e estética diante o modo de morar contemporâneo que será contemplado a seguir frente às configurações brasileira e japonesa.

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Partindo do fato de que as edições publicadas buscaram abranger a metrópole diante da natureza centrada sobre a arquitetura, foi no projeto típico de moradias sociais japonesas que encontramos inspiração para aperfeiçoar o tema e compara-lo ao modo de morar de favelas brasileiras.

Analisaremos a seguir projetos de habitação de pequeno porte, tomando como parâmetro soluções utilizadas na arquitetura contemporânea japonesa. Para isso, situaremos os dois países no espaço e no tempo para conectar culturas e estética.

O Japão é uma península, enquanto Brasil ocupa quase que sozinho, um continente.

O Japão tem um histórico de recorrência de habitações de pequeno porte em sua arquitetura por questões de restrição espacial e cultural. Para entendermos melhor a habitação japonesa, primeiro fizemos um panorama da evolução arquitetônica até os dias atuais, onde foi possível perceber que a arquitetura japonesa ficou praticamente inalterada por um largo período até a abertura dos portos e imigração da cultura ocidental em seus costumes. A propagação da habitação de pequeno porte ocorreu, portanto, após o grande terremoto de 1923, a leste do Japão, que estabeleceu uma rápida reação do governo para realocar as pessoas desalojadas.

Percebemos enfim, pela posição geográfica, que o território vem sofrendo por desastres naturais e não tem como escapar.  Ou seja, a natureza impõe a forma e dita os valores culturais. O japonês se adapta frente um caráter preventivo, pragmático, racional, regulado e rigoroso que transparece no seu jeito de viver e nas suas obras arquitetônicas.

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Para exemplificar, escolhemos a obra da arquiteta Kazuyo Sejima apresentada na revista. Trata-se de uma habitação multifamiliar de interesse social que fica no Japão, em Gifu, e que foi realizada entre 1994 e 2000. Previamente, a arquiteta realizou uma pesquisa a qual foi nomeada “Housing and community” retratando a característica dos apartamentos urbanos, onde projetou protótipos para cinco tipos de apartamentos.  Naquela época o padrão de moradia para apartamentos públicos era de 120 unidades repartidas em 1 ha, cada unidade tendo uma área de 60m2 ou 70 m2  . O estudo consistiu também em uma analise da proporção existente entre o edifício e o lote na periferia, no centro da cidade e nas áreas estritamente residenciais. Após a elaboração de varias estruturas e volumes para diferentes padrões de altura surgiu a proposta para o projeto do HIS localizado em Gifu.

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O projeto consiste em 430 unidades no total, onde Kazuyo Sejima projetou apenas 107 das unidades de 70m2. As unidades têm uma configuração flexível, apresentando cinco tipologias (solteiro, casal, casal+1, casal+2, casal+3). A arquiteta queria criar um espaço coletivo, evocando uma relação entre vida e cidade, onde o volume foi concebido através do modo de viver. A partir desse jeito de projetar minimalista, com uso de figuras codificadas foi possível enxergar como volume se encaixaria na cidade, para isso a arquiteta também passeou dentro de um trem onde tinha a vista global do terreno.

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Foi feita então uma seleção dos diferentes modos de viver, a fim de selecionar os que resultariam o projeto. O que resultou em múltiplas entradas que expressam a existência de diferentes maneiras de interagir com a sociedade. A partir de uma abertura panorâmica pelo corredor do fluxo coletivo e inserção de varanda privada nas habitações, descreveu-se a relação com a natureza. Assim, o espaço deve ter continuidade com o ambiente circundante (tema recorrente em todos os projetos da arquiteta) e deve expressar sua relação com o entorno. O objetivo final foi, portanto, criar simultaneamente um lugar onde as pessoas passam tempo juntos como um grupo, não perdendo a característica individual, onde se pode confortavelmente ter seu próprio tempo e espaço.

Em contrapartida, o Brasil sofreu colonização e passou por vários cenários de mudança ao longo de seu desenvolvimento, resultando uma miscigenação de diversas culturas. O país passou por varias fases históricas e isso refletiu em sua arquitetura eclética a situação sociopolítica econômica.  A diversidade de recursos naturais e o clima tropical característico brasileiro remetem a um caráter diversificado que, ao contrario da homogeneidade nipônica, desenvolveu um caráter emocional, flexível e moldável.

Sendo assim, encontramos um paralelo nas favelas brasileiras, que é resultado de um processo arquitetônico e urbanístico vernáculo singular, de estética própria e que reflete o contexto econômico no qual se encontra o país. Questões culturais, imateriais e principalmente estética das favelas (samba, carnaval, festas populares, religiosas, diversas etnias, cores e saudade) possuem ligação direta com esses espaços.

Para exemplificar, analisamos a favela paulistana Paraisópolis que tem um perfil multifamiliar, onde 100.000 habitantes compõem as moradias despadronizadas em um local de topografia em declive. Ao invés de se desenvolver na periferia, como a maioria das favelas típicas brasileiras, Paraisópolis está localizada no antigo centro urbano de fábricas, onde antigamente era um terreno privado com lotes delimitados. Dessa forma, as habitações cresceram sem limites dos blocos, respeitando apenas os maiores eixos de fluxo viário.

Nesse caso, o volume constrói a paisagem e concebe o modo de viver. Causando um desenvolvimento de conjuntos de moradias desalinhadas que vão se autoconstruindo.

Por se tratar de um projeto urbano, onde uma cidade cresceu dentro de outra cidade, observamos que as moradias não tem proporção e as vias estruturadoras se dão à medida que as habitações nascem. Isso tem como consequência uma sobra mínima de vazios, onde não se há regras nem limites. Assim, a cidade parece ser enterrada embaixo de uma massa de edificações sem fim. As unidades habitacionais, diferente das unidades japonesas de Kasuyo Sejima, não apresentam caráter individual e as janelas são na maioria das vezes abertas para a vizinhança. As pessoas se vêem privadas da sua privacidade.

Diante um cenário contemporâneo, não existe certo ou errado, mas sim diferentes modos de viver. No Japão observamos um desenvolvimento regrado enquanto no Brasil houve um autodesenvolvimento. Logo podemos concluir que a questão escala faz toda a diferença quando comparamos um ao outro. As favelas são muito mais densas diversificadas e geram maiores fluxos e conexões, enquanto a habitação coletiva japonesa abrange um publico especifico e uma sociedade muito mais laçada ás regras.

O morar contemporâneo é então, resultado do processo de desenvolvimento de suas cidades. Sendo assim, a cidade contemporânea pode ser entendida como uma “angelopolis”, que segundo Massimo Cacciare quer dizer “anjos que sobrevoam a terra sem nunca parar”. Portanto, uma cidade sem moradia resulta um homem contemporâneo vagueador, que nunca para num ponto fixo, como se fosse nômade. Podemos então nos perguntar se este fenômeno é causado por falta de moradia ou se a falta de moradia é a causa do “vagueamento” dos Homens. Assim, a cidade se tornou metrópole, pessoas se movimentam em alta velocidade e nunca estão em um lugar só. Pessoas vagueiam sem nunca parar e cidades são os lugares das possibilidades.8

Bruna MIRON e Louise S. CANUET

L’Architecture d’Aujourd’hui – Water as a Design tool

Por: Cássio Pereira e Bárbara Ginjas, 8AAQ

A revista L’Arvhitecture d’Aujoud’hui é uma revista de origem francesa que aborda temas internacionais da arquitetura e urbanismo contemporâneos, e os relaciona com a problemática social e a com os diversos campos da arte e expressão. Suas edições são bimestrais e o seu preço é de aproximadamente 25 euros e é uma leitura bilíngue, francês e inglês.

Uma das edições do ano de 2015 trata sobre o tema “Water and the City” (“A água e a cidade”), tratando-se sobre a agua enquanto uma ferramenta a ser utilizada no design, tendo em vista como esse elemento foi pensado até hoje e que tipos de soluções de projeto foram apresentadas e configuram nossos tecidos urbanos. Uma vez que grande parte das mudanças climáticas presenciadas atualmente são o produto da ação humana, que aceleraram o processo dos desastres naturais. Um exemplo desse tipo de situação é supressão em centros urbanos de áreas permeáveis em dimensões consideráveis para suprir a demanda de escoamento.

A problemática é abordada de maneira que a metodologia e visão utilizadas até os dias atuais é obsoleta na questão ambiental e precisa de uma remodelação, muitas vezes lenta, na percepção do que é a agua no tecido urbano e no projeto propriamente dito.

O uso da água de maneira mais consciente é muito abordado no campo da pesquisa urbana, podendo se dizer que acabou se tornando algo mecânico nos projetos e propostas. O grande desafio que tanto a revista como os próprios arquitetos abordam atualmente com mais atenção é o uso dos recursos hídricos de maneiras pontuais, porém não isoladas do entorno, em projetos com uma escala menor e para usos específicos, um bom exemplo disso é citado na edição da revista, numero 406 – Março, o Watersquare Benthemplein, do escritório Urbanisten. O projeto fica localizado em Rotterdam e foi encomendado pelo departamento de Iniciativas Climáticas de Rotterdam, foi concluído em 2013.

O projeto partiu da necessidade de tornar visível onde eram gastos os fundos investidos pelo governo nas facilidades de armazenamento de água. Para a realização da demanda foram escolhidos os miolos de quadra para instalar tais “quadrados de água” e isso acabou gerando uma nova identidade para o desenho publico da cidade assim como melhorando as condições ambientais da região e criando espaços de lazer. A interação com a água é estabelecida a partir do momento em que as águas pluviais são escoadas para essas áreas quadradas gerando espécies de espelhos d’água/lagos, e quando isso acabar por secar se torna um espaço de praticas esportivas e atividades livres de lazer para a população.

A discussão sobre a água e a urbe já foi abordada em diversos âmbitos e mídias, a revista brasileira Monolito, por exemplo, acabou se enganchando nas recentes discussões sobre a crise hídrica que o Brasil tem enfrentado e abriu o debate sobre a quantidade de água necessária para uma cidade funcionar, e de como o excesso pode ser tão prejudicial quando a falta e vice versa. Outro meio que acabou discutindo isso no Brasil foi o ArqFuturo de 2013, onde as palestras foram focadas nas severas estiagens das ultimas décadas e a postura dos países em relação a isso, e como as atitudes tomadas acabam não sendo as mais compatíveis com a sustentabilidade, outro termo que já virou algo mecânico ao se tratar de arquitetura e urbanismo, porém sem nenhuma reflexão. Isso pode se ver nos desperdícios gerados em linhas de produção dos mais diversos produtos, mas é bom termos em perspectiva que isso não é algo novo, e sim algo que foi se desenvolvendo com o tempo e com o aumento de demanda para suprir o grande numero de pessoas nas cidades.

A dependência de qualquer malha urbana na água já se estabeleceu comprovada em todos os casos, isso é visto desde as primeiras formações de aglomerados sociais ate civilizações mais evoluídas, como por exemplo a civilização egípcia, que entre outras milhares, foi uma que se estabeleceu às margens de um rio, o Nilo, e com o tempo acabou domando o rio ao seu favor. A medida que a população aumentava foi imposta a necessidade de canalizar partes do rio e criar ramificações que atendessem áreas mais distantes da margem, tanto para o consumo imediato quanto para agricultura. Mas assim como o homem se mostrou capaz de “ampliar” os recursos naturais ao seu favor, também é muito recorrente termos que lidar com situações que nos forçam a conviver com os extremos, como é o caso de Veneza, onde as edificações são tangidas pelas águas e muitas vezes o acesso é exclusivamente por barcos.

Atualmente , principalmente no campo das artes, é possível perceber o quanto o ser humano busca a retomada desse contato com a natureza. Ao mesmo tempo que se fala muito sobre o “verde” e sobre a importância de ser eco, sustentável, verde, e etc acabamos passando pelo processo de Green Washing, ou seja, estamos buscando selos que não refletem a preocupação com o meio e sim a popularidade do projeto/produto, pode-se observar isso em grande parte das edificações que possuem uma cobertura verde, geralmente elas mantém a mesma tipologia de blocos de vidro que dependem de ventilação automatizada entre outras coisas mais, porem possuem o teto verde, logo se tornam um projeto com uma “cara” amigável para com o meio ambiente e assim se popularizam. Como dito antes a arte percebe isso e busca se contrapor a esse pensamento e faz isso se colocando no meio disso tudo. Ao olhar a obra de Olafur Eliasson, por exemplo, quando ele recria a percepção de um por do sol em pleno Tate Modern colocando o expectador de frente com a sensação que a luz amarela somada com espelhos e fumaça impactando as pessoas que provavelmente nunca presenciaram o por do sol real por conta de onde vivem e como vivem.

No ano de 2009 em sua palestra no TED, Olafur Eliasson apresentou seu trabalho mais recente na época que era a inserção digital de uma cachoeira em edificações altas dos grandes centros. Sua explicação para isso não foi menos genial que o trabalho em si, para ele essas quedas d’água representam a noção de distancia que nós possuímos instintivamente e que se perde em uma cidade grande, por exemplo, se você esta andando em uma área descampada na natureza e vê uma cachoeira é possível medir a distancia aproximadamente pela velocidade em que se vê a queda das águas e em um grande centro todo perfurado por prédios isso não é possível e essa relação acabou se perdendo.

A expressão artística tem refletido essa necessidade da volta da conexão com a natureza e outros artistas tem seguido essa corrente de pensamento, assim como Eliasson, outro artista que tem trabalhado nesse arquétipo na contemporaneidade é Berndnaut Smilde, sua técnica permite uma escultura que tem uma duração de aproximadamente 10 segundos e são completamente etéreas, ele reproduz nuvens. Geralmente suas instalações são feitas em locais extremamente controlados no sentido de que são museus, galpões, estúdios e similares, e isso por dois motivos, um é a necessidade de um ambiente controlado que é alcançado mais facilmente nessas locações, outro é a contraposição de trazer o céu para dentro do elemento construído pelo ser humano. Seu trabalho busca se relacionar com o público, pois para ele é um conceito universal, a nuvem possui algo que conversa com todos e as pessoas perderam isso cercadas por concreto vivendo nas cidades.

A edição da revista L’Arvhitecture d’Aujoud’hui que estamos abordando, alem de falar da água como componente do design também fala dessa esfera do natural que é a nuvem. Eles falam de projetos que usam do artifício da nevoa para criar ambientes e gerar sensações que somente com elementos construtivos não é possível alcançar.

Por fim, ao interseccionar todos esses assuntos e seus aspectos sociais é muito obvio o desejo que o ser humano possui em se conectar novamente com o natural. Seja na arquitetura, artes plásticas, cinema com filmes futuristas como Avatar, por exemplo, que acaba se tratando da reconexão do homem com o verde. O que é necessário mudar não são necessariamente as praticas construtivas ou como vive a sociedade e sim o porque de tomar tais ações e o porque de ser eco.