Descartes Construtivos

Apesar de sermos constantemente lembrados por diversas organizações mundiais de que nosso sistema de exploração atual é incompatível com a capacidade do nosso planeta de gerir e repor tais recursos. A conversa e o questionamento sobre nossos padrões de consumo ou também sobre como nos relacionamos com nossos resíduos, ainda é uma preocupação de uma parcela pequena da nossa população.

Myriam Glatt em “Descartes”, que nos traz em forma de arte um importante lembrete da nossa desatenção em relação a nossos recursos. A exposição composta majoritariamente por esculturas que muito se assemelham à montagens, a motivação da artista em utilizar papelão na maioria de suas composições, é oriunda do encontro excessivo do material espalhado pelo meio urbano

              Fonte imagens: fotos autorais tiradas na exposição

Contudo, encontrar novos usos para esse material tanto usado e pouco reciclado, é uma preocupação que tange o japonês Shigeru Ban, vencedor do premio pritzker de 2014, conquistando-o, sobretudo pela sua pesquisa e realização de trabalhos que adotassem materiais simples como componentes de suas obras e até mesmo de seus sistemas estruturais. Vale lembrar a importância da iniciativa do arquiteto tendo em vista que o ramo da construção civil é sozinha responsável pelo consumo de mais de 50% dos recursos mundiais, além de ser também a maior responsável pela produção de resíduos sólidos.

Desde 1989, o arquiteto têm empregado em escalas diferentes de obras o tubo de papelão como sistema estrutural de seus projetos. O resultado desse partido são construções mais econômicas e executadas mais rapidamente quando comparamos aos sistemas convencionais.

Um forte exemplo disso, é a igreja de papel montada em 1995, em Kobe, no Japão após um terremoto destruir boa parte das estruturas da cidade. Composta por 58 pilares de tubo de papelão disposto em uma forma elíptica e contem seus exterior envidraçado para criar um espaço contínuo entre os ambientes internos e seu entorno. Com a ajuda de 160 voluntários, em apenas 6 semanas a capela já estava pronta para uso e se manteve intacta até 2005, quando foi desmontada de kobe e reerguida no Taiwan.

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Fonte imagens: site do arquiteto

Mais recentemente em 2016, o escritório holandês Fiction Factory divulgou a Wikkelhouse, uma estrutura composta por módulos que pode receber os mais diversos usos além de ter a facilidade de ser montada em apenas um dia. Sua estrutura é composta por 24 camadas de papelão unidas por uma cola sustentável e revestida por uma camada de alumínio e madeira que garantem a proteção contra fenômenos meteorológicos. A combinação resulta em uma estrutura que tem previsão de resistir pelo menos 100 anos além de ter a possibilidade de mover a estrutura para uma nova localização. Além disso, o escritório garante que a casa pode ser 100% reciclada.

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Fonte imagens: site do arquiteto

Cada módulo tem 5 m² e pode ser combinado de acordo com a necessidade do usuário. O preço para 3 módulos (compondo 15m²) é de 25 mil euros, se aproximando a um valor de 8 mil reais o metro quadrado, tal valor se assemelha ao preço de venda encontrado por um imóvel novo em grandes cidades como São Paulo, provando mais uma vez que uma construção sustentável não é sinônimo de gastos extras.

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Fonte imagem: site do arquiteto

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Fonte imagem: Archdaily Brasil – Yvonne Witte

Com um simples passeio na internet, conseguimos buscar e ver que não é apenas do papelão que pode ser reaproveitado na construção civil, como por exemplo o uso de garrafas pet junto com taipa de pilão na construção de habitações. E que as soluções podem ser mais baratas do que aquelas que empregam o sistema construtivo tradicional de concreto e aço. As possibilidades são inifinitas para o que podemos fazer com o que consideramos lixo, mas sabemos que as pesquisas pouco serão incentivadas enquanto for prejudicial à indústria do consumo desenfreado. Por isso, cada dia mais, trabalhos que relembrem e nos convidem a reflexão como o de Myriam Glatt se tornam essenciais.

Isadora Saad e Paula Becker

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Cheios e Vazios – Arquitetura de Galeria

Branco, cinza, concreto, gesso e minimalismo. Parece até mesmo uma obra arquitetônica portuguesa. Mas não, esta é apenas a concepção de um projeto para uma galeria. A neutralidade arquitetônica tem que ser a máxima possível, ela não pode interferir na arte a ser exposta, ela tem que ser suporte para tal. Quanto mais superfícies brancas para exposição, melhor. A escolha do branco se da por não interfere em nenhuma  obra, e muito menos se destacar mais do que ela. Concepção nomeada como cubo branco na maioria dos projetos de galeria.

Como o branco, a arquitetura também não deve se destacar-se mais do que a arte. Ela tem que ser minimalista, e funcional e muito bem detalhada. A obra de arte tem que ser o foco do ambiente e não ser o segundo plano. Para ser funcional ela tem que expor o máximo de obra de arte possível, e isso não implica somente em quadros, mas também em esculturas.

Os detalhes surgiram para esconder toda a infraestrutura do projeto.  Ar condicionado, elétrica, corrimão, circulação vertical etc. Tudo o mínimo visível possível. A concepção sempre de deixar a arte ser o principal ponto de atração do local.

Grande peça desta arquitetura é o curador da galeria. O pensamento deve vir junto, trabalhado de forma harmônica, onde os eixos devem estar alinhados. Nenhum pode ser mais arrogante que o outro. O curador não é arquiteto, mas é ele é quem sabe como será as exposições futuras, e isso é muito importante.

Como exemplo, somando 500m2 de área construída, o projeto da nova Casa Triângulo  abriga um terreno escolhido não só pela localização mas também pelo seu potencial de ocupação enquanto espaço expositivo.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Sendo similar ao edifício da Bienal, a Casa Triângulo é um dos poucos espaços em são Paulo que possui 5 metros de parede expositiva, trazendo uma proporção única para galeria.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Projetado com piso de concreto e paredes brancas, o arquiteto além de trazer o conceito do cubo branco para dentro da construção, insere um plano translucido em policarbonato que configura todo o perímetro durante o dia trazendo luz natural e pela noite o efeito contrario.

Em geral os materiais foram escolhidos visando uma obra rápida e minimalista, para também facilitar a transição entre uma exposição e outra.

(Casa Triângulo – Metro Arquitetos)

Trazendo duas exposições de caráter diferentes, a exposição Filhxs do Fim de Daniel Lie mostra pra gente como o cubo branco pode ser desconstruído a partir da mudança de cor das paredes e da arte suspensa sem usar qualquer parede como suporte de arte. Já a Pinturas e Relevos Recentes do artista Valdirlei Dias Nunes, utiliza o cubo branco como suporte e linha de amostra.

 

(Filhxs do Fim – Daniel Lie)

(Filhxs do Fim – Daniel Lie)

 

( Pinturas e Relevos Recentes – Valdirlei Dias Nunes)

( Pinturas e Relevos Recentes – Valdirlei Dias Nunes)

Memórias Póstumas de Urbanismo

Cidades são organismos vivos – nascem, crescem, desenvolvem-se. Raramente morrem e, em geral, sobrevivem àqueles que as moldaram ou que nelas vivem.

Daniel Tavares e Isadora Ferraz, Arquitetura Contemporâneas
29 Maio 2018|10h00

                  Com o início da globalização e o desenvolvimento das metrópoles o urbanismo tende a suprir a falta de infraestrutura existente nas cidades, já que boa parte delas se desenvolveram sem uma delineação receptível, com exceção das cidades clássicas que pensavam em um planejamento urbano voltado não só para a população mas para seus recursos. Por conta disso as cidades tendem a ter regiões ociosas e degradadas pelo simples fato de criar arquiteturas individualistas sem pensar no seu entorno, desse modo formando “espaços-lixos”.

                  O fotógrafo paulista Mauro Restiffe elaborou uma exposição que se baseia na paisagem humana, arquitetônica e topográfica, mostrando as tensões políticas e sociais que estavam presentes no período das fotografias.

                Percorreu bairros centrais e periféricos de São Paulo, como Luz, República, Pinheiros, Vila Congonhas e Itaquera. Esse percurso foi feito em um momento no qual a cidade passava por modificações causadas por eventos como as intervenções violentas no bairro da Luz ou as obras que antecederam a Copa do Mundo.

               Restiffe mostrou em seu trabalho os usos que os habitantes dão a cidade, os conflitos econômicos e como é a preservação do patrimônio, tudo isso caracterizando a complexidade do relevo urbano. O dia a dia da população, desde os seus deslocamentos diários á protestos, ou por sua vez construção de novos edifícios descaracterizando a ambiência de uma região, ou seja, o que se vê é o espaço e o tempo da cidade, o que lhe dá corpo e vida.

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Foto: Mauro Restiffe

           São Paulo sofre um ciclo de evolução acelerado que dificulta o controle inteiramente do espaço. Exemplo disso é o que acontece largo da Batata, que ao mesmo tempo esta em reforma e em ruína. Logo surgem as construções, que em um breve período de tempo já parecem gastas, como se precisassem ser constantemente substituídas, numa espiral de renovação que não vê fim.

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Foto: Mauro Restiffe

             As fotografias expõem a complexa interação entre o espaço, as pessoas e a arquitetura, mostrando a fragmentação da experiência urbana.

                   A cidade foi documentada em seu estado de transição”.  Atualmente pode-se ver que muitas das questões com as quais eram preocupantes na época ainda estão pendentes. Por exemplo, o estacionamento do Teatro Oficina, onde ainda esta em disputa judicial.

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Foto: Mauro Restiffe

               Transformar quantidade em qualidade tem sido um fracasso. Já que atualmente com o malogro do urbanismo atual, a cidade tende se requalificar, para impossibilitar a evolução da degradação atual.  Todas as tentativas de fazer um novo começo apenas desacreditou a ideia de um novo começo, já que todas não obtiveram sucesso, pois logo após requalificar, outras partes precisavam de nova infraestrutura, tornando-se assim em um ciclo vicioso sem fim. A insatisfação com a cidade contemporânea não levou ao desenvolvimento de uma alternativa aceitável; tem, pelo contrário, inspirado apenas maneiras mais refinadas de articular a insatisfação.

              Os urbanistas com o passar dos anos percebeu a importância das virtudes da cidade clássica, o problema que isso se deu tardiamente, onde não se da mais pra remodular uma cidade consolidada, em algo totalmente novo, desqualificando a atual situação da cidade.

               As fotos mostram o uso da cidade, de como ela flui no sentido de estar sempre em transição. Por exemplo, a muito de ruína e construção: as edificações, o Memorial em chamas, o Templo de Salomão. Como o MASP que traz o sentido de uma cidade quase ocupada, aonde o vão de certa maneira pertence a quem estiver lá, desde os moradores de rua há as ocupações espontâneas.

         O mundo tende a ficar sem o urbanismo, pelo simples fato da população dar somente importância para a arquitetura, e deixar por sua vez o urbanismo de lado, ao invés de pensar em uma interação entre ambas. Ao invés de pensar em uma arquitetura para o povo atualmente existe uma preocupação com o plano de massas.

             Uma Arquitetura limpa, é o que a deixa esteticamente bonita para o conceito do publico, essa limpeza se dar por uma arquitetura que define, exclui, limita, separa do “resto” e que ao mesmo tempo consome o que esta em sua volta. Tornando –se assim um ‘Espaço-lixo’ onde setoriza e subdivide o público do privado

            Essa por sua vez explora e esgota os potenciais que só podem ser gerados pelo urbanismo. Limitando assim possíveis inovações e principalmente transformações, para uma cidade melhor.

               Nas fotografias de Restiffe a cidade é habitada, pode-se ver a figura humana – mas ela é engolida pela cidade, pelo entorno, fazendo parte e, ao mesmo tempo, sendo consumida.

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Foto: Mauro Restiffe

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Foto: Mauro Restiffe

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Foto: Mauro Restiffe

                          Analisando com mais precisão as fotografias de Mauro Restiffe, percebe-se que todas são a partir da visão do pedestre, nunca de outro observador, as imagens são feitas, atravessando a ruas, passarelas, calçadas, etc.

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Foto: Mauro Restiffe

               Pensando nessa visão do pedestre e em uma cidade que engloba a junção do urbano com a arquitetura, há a necessidade de um urbanismo que funcione e que não seja egocêntrico, para que haja um “novo urbanismo”, ele deve:

  • Deixar de se preocupar com o arranjo de objetos, ou seja, a preocupação de se inserir na arquitetura, e focar na implementação de territórios com potencial;

  • Deixar de apontar para configurações fixas, mas focar para a criação de campos de ativação que acomodam processos que se recusam a ser cristalizados em forma definitiva; que sejam mutáveis.

  • Deixar de ser uma imposição de limites, mas sobre expandir noções, negar limites, não separar e identificar entidades, mas sobre a criação de híbridos que juntem usos, tipologias e funções;

  • Focar na infraestrutura para infinitas intensificações e diversificações, atalhos e redistribuições – a reinvenção de espaço.

Que sensações a arquitetura pode causar?

Ao adentrar a 14a edição do sp-arte que ocorreu em março desse ano no pasmoso Pavilhão da Bienal o texto curatorial já provocava com o tema dessa montagem:

“Que sensações uma obra de arte pode causar?”

Pouco distante dali, no centro da cidade, entende-se a indagação de Fernanda Feitosa.

Situado no icônico edificio de Oscar Niemeyer, o pivô não é uma galeria de arte, é muito mais do que isso. É um espaço de experimentações, troca entre artistas, curadores e o público em geral sem nenhum fim lucrativo e que nos presenteia a cada temporada com exposições independentes excepcionais num espaço que ficou abandonado por mais de 20 anos.

No projeto imannan (que fica em cartaz até dia 02/06), vemos o diálogo entre as obras de Anna Maria Maiolino, Ana Linnemann e Laura Lima, esta que é tema dessa resenha.

“ imannam surge da opção das artistas pela subversão da ideia da arquitetura como um local comum entre o eu e o outro, em busca de outras lógicas de relação através da proposição de situações que convidam a um acontecimento – um revés – no mundo.”

Utilizando a arquitetura singular do Pivô como ponto de partida, as artistas apresentam propostas de experimentação nas diversas áreas do espaço com instalações, intervenções arquitetônicas, trabalhos sonoros e filmes concebidos ou adaptados especialmente para este projeto.

“A instalação, ocorra ou não em um local específico, surgiu como um idioma flexivel”

David Deitcher

Embora os trabalhos de instalação só viessem a ser reconhecidos a partir da década de 60 com os trabalhos de Lygia Pape, Cildo Meireles, Dan Flavin e Olafur Eliasson, poucos sabem que o pai da “ambientação” como era chamada foi o dadaísta Marcel Duchamp.

Na ocasião da exposição surrealista de 1942 em Nova York, na qual fora convidado para ser o curador, Duchamp enfureceu os artistas expostos com a ideia do que veio a chamar de “Uma Milha de Barbante”, sua obra que constituía num labirinto de fios amarados em torno das telas em que estavam instaladas, o que exigia uma postura ativa do espectador enquanto as contemplava.

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Marcel Duchamp – Uma Milha de Barbante 

Vamos voltar a pergunta inicial. Que sensações uma obra de arte pode causar?

O desconforto? Ou será que desviando dos barbantes seria a única maneira de criar uma narrativa para que a exposição fosse vista por completo?

Longe de Nova York, no edifício Copan, Laura Lima distorce o espaço expositivo do pivô rebaixando o teto para uma cota que força o espectador a se abaixar para que possa visitar a próxima galeria.

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Danilo Dueñas no espaço do pivô com poucas interferências na arquitetura (note o adesivo vermelho no vidro em referência a Mondrian e o neoplasticismo)

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No meio desse vão uma surpresa. Ela também distorce a ideia de alicerce do edifício quando “copia” um dos pilares da galeria e faz com que ele apareça girando, junto com outros elementos da arquitetura como tomadas e interruptores de luz.

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Mais uma vez, que sensação uma obra de arte pode causar?

A tontura? A vertigem?

Motivados por esses questionamentos, pensamos em mais um: Que sensações a arquitetura pode causar?

Do centro de São Paulo fomos para Berlim, onde Daniel Libeskind com seu Jewish Museum responde a quase todas as nossas perguntas.

Daniel Libeskind – Jewish Museum 

A começar pela sua implantação, que não nos incita um eixo, uma linearidade, uma entrada ou uma saída. A entrada é feita pelo edifício existente ao lado, o Kollegienhaus, um antigo museu barroco. E ao descer três níveis há “escolhas” distintas de eixos a serem feitas pelo espectador. Cada uma delas com sua narrativa representa uma experiência dos judeus na Alemanha. Há o eixo do exílio, o da continuidade e o do holocausto, cada qual com as suas sensações. O eixo do exílio que oferece um ponto de escape até o exterior, conectando o museu ao “Jardim do Exílio”, um grande quadrado composto por 49 pilares de seção quadrada dispostos em uma quadrícula. O da continuidade é conduzido por uma escadaria que emerge e leva até a coleção permanente, desenvolve-se de forma linear seguindo a fachada do edifício, outorgando nos descansos acesso aos diferentes níveis do museu. Essa escada apresenta-se como um jogo de escalas e luzes, conduzindo o visitante através de espaços estreitos e obscuros até espaços amplos e luminosos.

o eixo da continuidade

 Quanto ao “eixo do holocausto”, surge um passeio sem saída no qual o solo inclina-se até o teto culminando na “Torre do Holocausto”. Um espaço vazio de concreto de 24 metros de altura cuja única iluminação é a luz natural que entra por uma pequena fresta no teto e não contam com calefação ou condicionamento de ar. Em grande parte, não têm luz artificial. Evidenciam-se como elementos independentes do restante do edifício. Somente pode-se acessar fisicamente o último dos “vazios”, o “Vazio da Memória”, onde se encontra a instalação Shalechet de Menashe Kadishman.

o eixo do holocausto

a instalação de Menashe Kadishman, um “mix” de emoções

Por muito tempo o museu de Daniel Libeskind ficou sem nenhuma exposição itnerante justamente pelo fato do próprio museu já ser uma obra que causava estranhamento naqueles que passavam. As sensações causadas com a elevação do piso, o jogo dos vazios, na presença de luz (e na falta dela também) geravam a curiosidade. Há inclusive aqueles que relatam se sentir mal ao sair do museu.

o espaço expositivo com piso irregular

Sensações a parte, é inegável que o trabalho de Libeskind é uma obra arquitetônica que conseguiu personificar esse desconforto e provocar para contar a história do que foi o holocausto. E detalhe, embora fosse inagurado em 2001, o projeto do museu já estava pronto desde antes da queda do muro de Berlim, em 1989.

E você? Que sensação você sente ao visitar uma obra de arte? Qual foi a última obra arquitetônica que te arrancou um sorriso? Que te despertou um arrepio?

Gabriel Contreira e Isabela Rincon

 

 

 

Como a nova geração de arquitetos espanhóis conquistaram seu espaço através da crise econômica e o que nós podemos aprender com isso?

Recém formados e entusiasmados, a galera que se formava nos anos 2000 experienciou uma economia próspera e formação acadêmica dos “Por que não?”, contudo, a crise de 2008 estagnou o mercado da construção civil e forçou os jovens arquitetos a trabalharem vossas criações a partir do orçamento disponível para a produção dos mesmos. O número 419 da revista francesa ‘A’A’ – L’architecture d’aujourd’hui conta como foi essa jornada.

A nova realidade que os cercava forçou-os a questionar preconceitos como a reversibilidade de estruturas pré-existentes e o emprego de certos materiais, que eram intrinsecamente negligenciados no meio da arquitetura espanhola. O resultado disso foram projetos inesperados, que se apoiaram na interdisciplinaridade para atingirem o verdadeiro mais com menos e ganharem força a partir do caráter político que passaram a ter. Além disso, a arquitetura espanhola deixou de ter uma única escola ou um único nome como já fora em tempos passados, já que cada escritório enfrentou as adversidades com linguagens completamente distintas.

Na edição posterior da mesma revista, o Dossier presente critica duramente as mudanças feitas em 2005 no caminho do estudante francês de arquitetura, e como algumas escolas buscavam o contato com estudantes de áreas distintas numa formação mais capacitada, questionadora e já livre de certos estigmas (os mesmos que a os arquitetos contemporâneos espanhóis tiveram de aprender na marra).

Trazendo para nossas escolas brasileiras, aos poucos, o ensino de arquitetura vai se adaptando as urgências do nosso mundo hodierno. A falta de preocupação dos mestres em impedir que jovens ambiciosos apenas limpem o terreno em busca da prancheta em branco e projetem construções novas que poderiam ter sido adaptadas nas pré-existências ou que não questionem os custos (financeiros e ambientais, tendo em vista que a indústria da construção civil consome cerca de 50% dos recursos mundiais além de ser uma das maiores produtoras de lixo) atrelados a tais intervenções. A falta de incentivo também das escolas numa melhor interatividade com alunos de outros cursos para que novas abordagens possam ser alcançadas durante o processo criativo e posteriormente no gerenciamento de carreira do aluno.

Sabemos que a inquietação e pró-atividade do aluno é considerada pré requisito básico, fica a provocação em como conseguir aflorar tais sentimentos desde os primeiros contatos com o estudo da arquitetura.

Súnion_archikubik_18_ext07fonte: https://veredes.es/blog/en/escuela-sunion-archikubik/

Por Isadora Saad e Paula Becker

Como a tecnologia transformou a Arquitetura

Quando falamos sobre arquitetura contemporânea, logo pensamos em formas e volumes de arquitetos como Rem Koolhas, Zaha Hadid, Renzo Piano e Norman Foster que se aliam a tecnologia para tornar exequível a geometria complexa de cada obra.

Esta complexidade é gerada a partir da tecnologia, que esta mudando a arquitetura. Em um sentido muito real, arquitetura e design utilizam a pesquisa e o desenvolvimento da tecnologia para impulsionar seu trabalho a novos patamares, apresentando prédios e produtos que não são apenas esteticamente melhores, mas também mais seguros ​​e funcionais.

Resultado de imagem para zaha hadidZaha Hadid – Heydar Aliyev Center

Atualmente, não podemos mais contar apenas com o avanço da tecnologia construtiva. Com o desenvolvimento dos softwares chegamos a todas e quaisquer etapas projetuais – dos mais simples aos com maior grau de complexidade, tornando o desenvolvimento mais simples e com melhor resultado.

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Programa Rhinoceros

“Para um projeto menos complexo, como uma casa simples, é possível até dispensar o uso de software. Mas têm projetos que não podem existir sem essa tecnologia”, explica José Wagner Garcia, arquiteto da Noosfera Projetos Especiais e doutor em arte e ciências pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos.

O contraste com a arquitetura moderna é grande, onde antes tínhamos uma fonte de revolução industrial, em que as indústrias desenvolviam elementos em serie, com tamanhos e formas padrões, hoje a tecnologia também nos traz sustentabilidade e conforto térmico, além de recursos naturais que independem do volume desejado.

Para entender melhor a relação desenvolvida entre a tecnologia e arquitetura, devemos analisar e relacionar edifícios modernistas e contemporâneos. Ao estudar o edifício o SAS Royal Hotel ( 1958-60) do Arne Jacobsen e o Roy and Diana vagelos Education Center (2016) do Diller Scofidio + Renfro, percebemos de cara em qual época cada edifício foi construído. Enquanto o primeiro tem formas e volumes puros através das linhas retas, o segundo já trabalha com geometrias complexas, com plasticidade e leveza.

Resultado de imagem para arne jacobsen hotel Resultado de imagem para Roy and Diana vagelos Education Center (2016) do Diller Scofidio + Renfro

SAS Royal                                           Roy and Diana V. Education Center

Este contraste arquitetônico começa através das ferramentas de desenho. O edifico moderno era pensado e desenhado a mão, sem uma tecnologia de apoio, logo um desenho mais rígido, pesado. Já o contemporâneo, também pensado através do croqui, tem como aliado a parametrização, onde é desenvolvido toda a forma e volume do edifício e das peças únicas.

Segundo o Arquiteto Albert Wimmer, o projeto da estação central de Viena só deu certo devido a tecnologia computacional de apoio, onde a cada desenvolvimento do projeto ele acontecia de uma forma paramétrica. Segundo ele, a cada mudança de desenho em uma peça todas as outras se ajustavam em tamanho, e isso acontecia devido a parametrização.

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Estação Central de Viena

A tecnologia construtiva associada a arquitetura, desenvolveu o que era o estilo moderno e hoje o que é o estilo contemporâneo. O modernismo acontece em um período de Revolução Industrial, com materiais padrões e pré-fabricados como o vidro e o ferro por exemplo. No edifício do Jacobsen tem um raciocínio fabril, onde a caixilharia de vidro e metal segue sempre com as mesmas dimensões, encaixando perfeitamente ao volume. Mas quando olhamos o edifício contemporâneo, percebemos que os materiais são construídos propriamente para o momento. A tecnologia hoje permite que isto ocorra, desenvolvendo produtos exclusivos.

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Resultado de imagem para Roy and Diana vagelos Education Center (2016) do Diller Scofidio + Renfro

João Paulo Teixeira e Gabriela Cohen.

Regeneração do provecto pelo contemporâneo

Propostas hodiernas que tem como embasamento a recuperação de regiões deterioradas com a passagem do tempo.

Daniel Tavares e Isadora Ferraz, Arquiteturas Contemporâneas

03 Abril 2018|08h00

                Com o passar dos anos, e com as evoluções tecnológicas e construtivas, as cidades vem cada vez mais evoluindo e se reconstruindo. Buscando novos meios de construir, ocupar os espaços, e ao mesmo tempo pensando em sustentabilidade. Tendo assim uma expansão territorial e populacional, alguns espaços onde antes tinha um uso retroativo, não possuem mais finalidades no hodierno.  A vista disto  acabam por sua vez se deteriorando, e convertendo-se em lugares inseguros e negligenciado.

            Para reverte-se essa situação, e recuperar o valor histórico e patrimonial, é importante que as novas arquiteturas se “encaixem” no existente.  O intuito não é dizer que novo é mais valioso porque se encaixa; mas seu encaixe é um teste de seu valor. Criando-se assim uma Arquitetura Sustentável, com edifícios energéticos, saudáveis e confortáveis de uso flexível e com vida longa útil.

            Em um comentário sobre o que faz um bom projeto, a Comissão de Arquitetura, disse: “Um bom designer considerará a relação entre um projeto e seu contexto. Isso não implica que um dos objetivos de um projeto seja necessariamente “encaixar”; no pior dos casos, isso pode ser pouco mais do que uma desculpa para a mediocridade. Diferença e variedade podem ser virtudes tanto em novas propostas quanto em conformidade; e, claro, diferentes contextos podem ser mais ou menos uniformes em sua natureza “.

            O que existe é um ideal exigindo conformidade. Não leva em conta o poder de transformação da arquitetura em relação não apenas a um único local, mas a todo um bairro urbano. Um bom exemplo disso é criar edifícios em locais inseguros e deteriorados que quebram os modelos convencionais, trazendo um efeito vital para área, para que deste modo, o novo faça ter vida no antigo. Por consequência, o local se torna funcional e ganhe ao mesmo tempo uma diversidade de pessoas e usos, deixando assim de ser inutilizado, ou seja, do que adianta modernizar somente uma região enquanto outra vive em completo caos.

            Exemplo disso foi o projeto da Zaha Hadid, Port House, em Antuérpia, onde o projeto foi feito em lugar deteriorado, restaurando um antigo edifício e combinando o clássico com o contemporâneo, ao fazer um edifício em cima do outro, esse efeito pode ser alcançado pela introdução de edifícios incomumente altos em um  local específicos(Porto de Antuérpia – Bélgica).  A altura não é a única coisa  que investe em significado urbano, mas a combinação de arquitetura, força de vontade, finanças, confiança no futuro e políticas de planejamento arrojadas.

“Somente aqueles que arriscam ir longe demais podem descobrir até onde pode ir ” – Eliot

            O projeto Port House, em Antuérpia, da Zaha Hadid Architects mencionado anteriormente  faz uma ruptura com o passado encenando uma batalha entre o antigo e o novo de forma tão direta que se torna brutal. O antigo é um posto de bombeiros abandonado do início do século XX, com características mais  simétrica. Enquanto o novo com uma  forma multifacetada em sua extensão.

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Fonte: Archdaily

                O novo edifício renova e amplia a estação de bombeiros abandonada tornando-a uma nova sede para o porto – reunindo os 500 funcionários do porto que, anteriormente, trabalhavam em edifícios separados espalhados pela cidade.

Devido à sua localização cercada por água, as quatro fachadas do edifício são consideradas de igual importância sem a existência de uma fachada principal. A criação de ZHA é uma extensão elevada, em vez de um volume próximo, que teria ocultado pelo menos uma das fachadas existentes. A análise histórica da antiga estação de bombeiros também destacou o papel da sua torre original.

Cercada por água, a fachada da nova extensão é uma superfície envidraçada e ondulada que reflete os tons e cores de céu da cidade. As facetas triangulares permitem que as curvas, aparentemente lisas em cada extremidade do edifício, sejam formadas com folhas planas de vidro. Elas também facilitam a transição gradual de uma fachada plana na extremidade sul do edifício para uma superfície ondulada no norte.

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Fonte: Archdaily

                A desconstrução do antigo para o novo feito por Zaha Hadid ganha toda a sua força desafiando os próprios valores de harmonia, unidade e estabilidade, e propondo, ao contrário, uma visão diferente de estrutura: a visão de que as falhas são intrínsecas à estrutura.

            A Casa do Porto é diferente porque é uma extensão de um edifício existente e rigidamente simétrico, emblemático para a arquitetura clássica, repetitiva, ordenada e supostamente opressiva e desonesta da qual Hadid queria se livrar, infundindo a disciplina com invenção, complexidade, não-euclidiana, geometria e estruturas de construção assustadoramente improváveis.

            Por mais que a primeira impressão  do projeto de Zaha Hadid seja aterrorizante, por conta do seu tamanho, e forma perante ao contexto que está inserido,   não podemos  negar que o edifício trouxe por sua vez uma nova característica para o antigo Porto da cidade. Alem de conduzir uma nova multiplicidade a região, com novos uso e diversidades de pessoas. Prova do valor atribuído ao projeto é que atualmente para visita-lo precisa-se agendar com meses de antecedência.

            Outro projeto que focou na restauração de uma estrutura antiga para que esta tenha novos usos, e que ao mesmo tempo traga vitalidade para algo que antes estava deteriorado foi o projeto Seoullo 7017 na Coreia do Sul, embora se trata de uma escala maior do que o projeto anterior, o Seoullo é a revitalização de um viaduto destinado para carros, onde se torna inviável a vida e diversidade no local.

            O prefeito de Seul, Park Won-soon, em 2014 anunciou que a capital sul-coreana construiria uma versão do High Line (parque elevado de Manhattan), redirecionando um viaduto para uma rota de pedestres. Perto da estação rodoviária ferroviária no centro de Seul.

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Fonte: Archdaily

         O escritório MVRDV que foi o vencedor do concurso para a elaboração do novo High Line, disse que o projeto “é como uma coisa viva que pode se adaptar às mudanças de condições”, correspondendo “exatamente às nossas exigências”.

            O viaduto de 16 metros de altura e de 983 metros de passagem, foi imaginado para possuir mais de 25 conexões de pedestres para ajudar a requalificar a área entre a Estação de Seul e o Mercado de Namdaemun. Até agora, 10 conexões foram concluídas. O skygarden também possui um projeto luminotécnico, para que haja iluminação a noite, tendo assim uso 24 horas por dia.

            Preocupados em ter massa arbórea não foi viável acomodar um plantio extensivo e continuo como o do high line, pois deste modo só seria possível 100 mm de terra o que é suficiente somente para grama. Com isso o parque possui mais de 24.000 plantas de 228 espécies e subespécies.

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Fonte: Archdaily

              Ao longo do viaduto para atrair pessoas foram criados: sete pavilhões circulares abrigam cafés, uma exposição e uma loja, bem como o elevador, trampolins e uma piscina rasa. Esses conjuntos de formas de bolas aleatórias cria bolsos movimentados de atividade que se chocam fisicamente e visualmente com o passeio linear, mas os visitantes não parecem se importar.

            Uma grande comparação com  o Seoullo 7017 é a rodovia elevada do Minhocão de São Paulo, construída em 1970 e fechada ao tráfego aos domingos desde 1976, é uma comparação óbvia. Uma proposta de criar dois generosos corredores de plantio em contêineres pré-fabricados, juntamente com estruturas de bambu em forma de árvore e uma infinidade de atividades, planejadas pelo arquiteto Jaime Lerner e o projeto está atualmente sob revisão pelo prefeito. São Paulo é uma cidade com 3m² de espaço aberto por pessoa, ou seja, parecido com o centro de Suel.

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Fonte: Archdaily

              Seul poderia servir de inspiração para colocar o projeto brasileiro em pratica.  Tanto o Seoullo 7017 quanto o Minhocão contrastam visivelmente com a extravagante proposta Garden Bridge, de Thomas Heatherwick, para Londres, outro exemplo de contágio da High Line, que fez a capital desperdiçar aproximadamente 40 milhões de libras em projetos e obras antes de abandonar o projeto sob uma nuvem de aquisições.

            Seoullo é um notável projeto para o design do espaço público em um ambiente urbano denso, uma lição que todas as cidades podem aprender. Em que a mudança desse elevado obsoleto, construída em uma época em que a prioridade eram os automóveis, sugere um caminho a seguir para uma construção de cidades mais sustentável.

                Com tudo isso pode-se concluir que a cidade contemporânea ideal é a que consegue conciliar o antigo com o novo, de tal forma que se consolide um modelo de cidade compacta, onde podemos afirmar que esse sistema de cidade sustentável evite a saturação, e a degradação de bairros, ou edifícios que por sua vez não teriam mais funcionalidade para aquele período que esta inserido.

                Para isto  o modelo ideal de cidade compacta deve possuir alta densidade com uso misto, para que deste modo haja uma diversidade de pessoas, e fluxos variados em vários períodos do dia, com novos padrões de consumo, ruas seguras, e preservação patrimonial, usando deste modo edifícios antigos para novos usos, tornando-os duráveis e reutilizáveis.

                Os edifícios mais altos perto de transportes públicos, ou eixos importantes, enquanto os miolos de quadra com ate 4 pavimentos, alem de praças ajardinadas criando assim microclimas. Os bairros devem serem conectados entre si,  com eixos verdes, e priorizando o pedestre ao invés do carro.