Bamboo + contemporaneidade.

WANG QUEM?

TALENTO,VISAO E COMPROMETIMENTO + MEMORIA.

A recém nascida revista/jornal Bamboo na edição de julho contou um pouco sobre o ultimo Premio Nobel da Arquitetura, o Pritzker (1979) de Wang Shu (Amateur Architecture Studio). Em duas de suas paginas encontramos fotos da Nova Academia de Artes de Hangzou, e um texto que rapidamente explica um pouco sobre a arquitetura de Wang, mas deixa o leitor curioso pela pouca informação técnica e falta de desenhos para relacionar com o texto desenvolvido.

A academia apresenta uma liberdade, o arquiteto chinês não construiu um espaço rígido, deixou que o espaço alimentasse a criatividade de seus usuários para cada qual desenvolver seus percursos e usos como se sentir melhor. Alem da liberdade o arquiteto também chamou atenção no fato de reutilização de materiais, que já e um método que Wang utilizava em outros projetos.

O  nome da matéria se da como “arqueologia do futuro”.  

 Arqueologia: Disciplina científica que estuda as culturas e sociedades antigas através da análise dos seus vestígios materiais. Esse significado nos ajuda a relacionar o projeto, o nome da reportagem, arquitetura contemporânea e historia da China. Muitos dos materiais utilizados são oriundos de artesanato chines ou mesmo são materiais reutilizados que Wang consegue dar um uso. Ai que esta a ironia da contemporaneidade, a academia dependeu do antigos materiais utilizads,o onde estão as memórias e experiência, para  ser a obra premiada em 2012.

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A revista bamboo tem uma série de características marcantes ao meu ver. A começar pelo tamanho, maior do que uma revista comum, também a sua capa branca “clean” e extremamente racional, e por último, o papel que se assemelha ao de um jornal, mais grosso e texturizado do que as páginas brilhantes e barulhentas de uma veja qualquer. O formato geral assemelha-se também ao de um jornal e não a uma revista pois as matérias são o que eu apelidei de “matéria para conversa” e não para conhecimento técnico. Apesar de nos proporcionar informações relevantes e de caráter específico, é impossível não relacionar esse tipo de informação com um “digest”. A informação claramente é mastigada antes de ser transmitida ao leitor, e as matérias são curtas e proporcionam somente o suficiente para que o leitor entenda do assunto sobre um panorama geral, carecendo de informações técnicas pelo menos do ponto de vista da arquitetura.  

As matérias que eu escolhi por seguirem a mesma linha editorial são as matérias “anarquitetura” e “cidade de todos”. O que eu achei fascinante nessas duas matérias foi que em apenas alguns parágrafos a relação que surgiu entre as duas e as musicas dos racionais e do árcade fire é impressionante. Há essa tensão que resulta do conceito da cidade grande nascida com o Sprawl, que segrega a população do subúrbio da população “downtown”.

Temos no Capão Redondo uma população marginalizada, que se sente incomodada com a visão do resto da sociedade sobre o local que elas moram, e sua falta de voz ativa na hora de tomar as decisões que os concernem. Há também muito presente o ideal de cidade visível e cidade invisível, e é aí que entra a matéria ‘cidade de todos’ da bamboo. Essa matéria tem como tema a cidade colombiana de Medelín, que é a segunda maior do pais, e que como toda grande cidade tem (tinha) muitos problemas. Alem de ser uma grande cidade, Medelín é uma cidade em um pais em desenvolvimento, e cujo pais é a Colômbia, com sérios problemas de narcotráfico. Alem disso, Medelín era o palco dessa violência criada pelo próprio governo, tornando-se uma cidade em constante guerrilha e com muitos problemas de desigualdade social. O artigo aborda a questão social em conjunto com a questão urbanística, e como um afeta o outro diretamente. O autor começa pela topografia e relaciona isso diretamente com a questão da moradia. O autor fala da divisão geográfica como uma divisão social, um tema muito presente tanto nas musicas dos racionais como nas do árcade fire, onde o subúrbio é o lugar de menos valor e com menos infra estrutura, bem como São Paulo. A cidade é dividida por um rio, as moradias mais caras estão próximas a ele, e conforme vai se afastando do rio e indo em direção às encostas surgem as ocupações de baixa renda, segregada física e socialmente. No entanto, diferente da maioria das cidades, a situação começou a ser resolvida a partir de um plano urbanístico que mudou a percepção e configuração da cidade, alem de a situação da população. Essa mudança se originou com grupos independentes, e com o auxílio do novo prefeito eleito e um urbanista. O slogan que eles usaram para ganhar a campanha foi “os nossos edifícios mais bonitos têm de estar em nossos bairros mais pobres”, e fez com que não só se aproximassem das populações, mas ajudou a quebrar a barreira que tinha entre a população. Pela primeira vez houve uma pesquisa feita nas partes mais carentes para descobrir as necessidades, queixas e sonhos dessa população para que o as áreas de intervenção fossem categorizadas. É possível relacionar isso com o que poderia ser feito no Capão pois lá a maior queixa é que as pessoas não participam da tomada de decisões, conseqüentemente, não há mudanças na região e as necessidades dessas pessoas não são atendidas. A maior reclamação de Mano Brown é a falta de infraestrutura nos bairros mais carentes, pois não há serviços nessas regiões, da cidade invisível.

O investimento em transporte público é ao meu ver o melhor investimento que pode ser feito para diminuir as distancias sociais e físicas, e incentivar a integração de todos. Esse projeto lutou contra a exclusão e a desigualdade, um tema muito presente nas musicas do árcade fire. A característica sempre presente do sprawl é o uso abusivo do transporte individual e a barreira que isso cria. Os valores não urbanos criados pelo anti urbanismo americano são vencidos com as idéias de Echeverri. Ele visava ampliar o mapa mental da cidade, que de acordo com ele é um mapa preconceituoso. Outro ponto relacionável com a musica dos racionais é o de ignorarmos essas áreas que não fazem parte da nossa realidade; basta se fazer uma pergunta: porque nós não vamos ao Capao? E a resposta é simples, porque simplesmente não temos nada pra fazer lá. E em Medelín a criação de infra-estrutura e transportes públicos vai contra a exclusão e desigualdade; alem disso, outros investimentos essenciais foram feitos nas áreas mais carentes ao invés de nas ares que já tem esses serviços, como a “adição de equipamentos educativos que dignificassem e dinamizassem os bairros; construção de habitação popular e um plano de parques lineares que conectassem a cidade e trouxessem as pessoas de volta à rua”. Ele quer que as pessoas vão a todos os lugares da cidade, ele quer que elas conheçam a cidade e saiam de suas bolhas, saindo de sua pequena rotina para conhecer o tamanho real da metrópole. Ele quebra o conceito do subúrbio, onde se ter um carro é o maior ato de liberdade e as vias são um espaço transitório, esse espaço passa a ter significado, rompendo o conceito do subúrbio segregado.

Outro ponto fundamental no projeto para Medelín foi o investimento em educação e cultura, outra barreira a ser rompida. Há segregação também nesse quesito pois o preconceito se estende à “educação menor” que as pessoas de regiões mais carentes recebem devido à falta de recursos, criando um complexo de superioridade nas pessoas  com melhor qualidade de vida. Foram construídos nas periferias cinco bibliotecas-parque localizadas em bairros críticos e ligadas a um sistema de teleférico público, ligando a periferia à base do vale, e fazem transferência para a linha do metrô que circula paralela ao rio, conseqüentemente há transporte para todas as áreas da cidade, inclusive as mais distantes.

A conclusão desse projeto resultou em um novo senso de identidade coletiva, quebrando a noção de subúrbio e cidade central. Esse projeto relaciona-se com a obra do artista Gordon Matta-Clark. Sua arte dialoga de perto com a arquitetura, principalmente os subúrbios nova-iorquinos. A partir de sua observação do caos da cidade escondido na ordem aparente, ele cria instalações a partir de ‘cortes de construção’. Sua arte é uma afronta direta aos subúrbios e ao modo de vida americano, pois ele constrói planos negativos mudando a percepção que temos do ambiente, mudando as noções do espaço construído e de verticalidade e horizontalidade. Sua critica constrói-se a partir dessa arquitetura fora de contexto para mostrar como a arquitetura “fecha-se em si mesma”,  e que esse sistema aparentemente perene e eficiente é na realidade um causador da segregação social.  Ele desconstrói a arquitetura mostrando que na realidade os processos urbanos são irracionais e se escondem atrás da disciplina das edificações.

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