ARQUITETURA SEM LUGAR: ESPAÇOS RESIDUAIS

A arquitetura funciona como a base para  a vida urbana. Contudo, é impossível não reparar nos espaços as relações entre cheios x vazios que os edifícios em suas formas configuram. Por isto, é uma consequência associar a arquitetura com os conceitos da fotografia e filmagem pela sensibilidade em relação à representação arquitetônica que tais conceitos transmitem. Pode-se dizer que a percepção que temos da arquitetura é uma percepção esteticamente reelaborada pelo olho e pela técnica fotográfica. Isto não significa que através das fotografias e filmagens estamos vendo as cidades. Porém, através da imagem fotográfica somos capazes de receber impulsos físicos que dirigem numa determinada direção a construção de um imaginário que estabelecemos como o de um lugar ou uma cidade determinada e a memória que acumulamos por experiência direta, por narrações ou por simples acumulação de novos indícios é a que produz nossa IDEIA da cidade. Esta ideia varia de acordo com cada lugar que vivenciamos:ao percorrer espaços em seus cheios e vazios, que proporcionam experiências únicas de acordo com os elementos que os compõem, seja ele uma cobertura, um brise que forma um jogo de luzes, uma textura ou até mesmo a ausência de elementos que muitas vezes configura espaços que não pertencem a ninguém: espaços residuais.

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Foto de John Davies em Kenton, Reino Unido.

Os espaços urbanos vazios e abandonados,funcionam como íman aos olhos dos fotógrafos cidadãos. A expressão francesa terrain vague, representa os que parecem se converter em fortes pontos de atenção, indiciando e indicando o que as cidades são e a experiência que tem-se dela. Porém, tais espaços vazios, ausentes e inóspitos, fazem com que sejamos estranhos frente a nossa própria cidade: o habitante urbano sente os espaços não dominados pela arquitetura como reflexo da sua própria insegurança, do seu vago por espaços sem limites que constituem uma expressão física do seu temor vazio,mas também uma expectativa do espaço do possível. Contudo, tais espaços incertos não necessariamente transmitem uma mensagem negativa, mas inegavelmente, sempre a expectativa utópica do por vir. O entusiasmo por esses espaços flutuantes é, em código urbano, a resposta a nossa estranheza ante o mundo, ante nossa cidade, ante nós mesmos.

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Imagem via satélite do Arco do Triunfo em Paris, França.

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Imagem via satélite de Guadalajara, México.

COMO ESTES LUGARES SE CONSTITUEM ?

Estes espaços residuais são lugares externos, estranhos, que ficam fora dos circuitos, das estruturas produtivas. Frutos muitas vezes de uma corrente modernista que tem como critério a  indisposição em dialogar com o ambiente local, assim como a recusa por construir lugares significativos e que, em antemão, prioriza projetos esteticamente exuberantes, onde encontram-se formas glamurosas que se destacam ante a passividade de uma vida urbana sem identidade. É a forma que seduz mais do que o conteúdo, a aparência contra a essência, a beleza contra a utilidade. Desde um ponto de vista econômico,estes espaços configuram áreas industriais, estações de trem, portos,baixos de viadutos, áreas residenciais inseguras, lugares contaminados, tem se convertido em áreas das que se pode dizer que a cidade já não se encontra ali.

Segundo Sola Morales, em seu lúcido texto Terrain Vague, o que configura estes espaços:

“São suas bordas carentes de uma incorporação eficaz, são ilhas interiores esvaziadas de atividade, são olvidos e restos que permanecem fora da dinâmica urbana. Convertendo-se em áreas simplesmente des-habitadas, in-seguras, im-produtivas. Em definitiva, lugares estranhos ao sistema urbano, exteriores mentais no interior físico da cidade que aparecem como contraimagem da mesma, tanto no sentido de sua crítica como no sentido de sua possível alternativa.”

Portanto, estas cicatrizes urbanas conferem na cidade lugares que supostamente tem de ser de todos, mas não representa o lugar de ninguém. Decorrente de uma arquitetura “ausente” e da intorspecção do espaço urbano ,são partes de uma ambição fracassada de muitos idealizadores.

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Baixo de viadutos: de quem são estes espaços?

COMO REVERTER ESTA SITUAÇÃO?

É natural que depois de entender como funcionam estes espaços, surgem questionamentos. Como lidar com os limites imprecisos destas cidades que tanto influenciam e circundam a vida cotidiana? Como incorporar estes espaços estranhos novamente na cidade? Como controlar o processo de globalização desenfreada que , em muitas vezes, é a justificativa para esta consequência?

O espaço público é uma conquista democrática , direito de todo e qualquer cidadão. Contudo, as assimetrias sociais criam uma setorização onde se criminaliza o excluído o que é refletido na sociedade e onde ela acontece , ou seja, na cidade e mais precisamente, nos espaços públicos. Por outro lado, as classes mais altas renunciam destes espaços por receio e medo e o resultado é catastrófico: um ciclo vicioso onde o medo e falta de interação geram uma inércia e ainda mais exclusão. Muito disto é resultado da imposição de um modelo econômico e social que traduz uma maneira estéril de fazer a cidade rentável e sem conexões com o passado e vida urbana.

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Professores lecionando embaixo de um viaduto na índia. O espaço residual ainda que absolutamente esquecido, ainda é utilizado.

As soluções são alternativas para contornar uma situação existente e em sua maioria danosa onde o papel da arquitetura e do urbanismo se faz complexo e problemático, uma vez que muitas vezes entende-se por arquitetura a imposição de limites e formas, que quando projetados parecem introduzir transformações radicais , modificando e causando o estranhamento pela cidadania. É um desafio atuar no terrain vague sem se converter em um instrumento agressivo de poderes. Por isto, qualquer intervenção deve ser feita através de uma continuidade e da escuta atenta a voz da vida cotidiana local, afinal recuperar o espaço público vazio implica um retorno ao essencial que o circunda, tendo em conta as também as tecnologias disponíveis atualmente, criando novas formas de viver o espaço público, através de diversos aspectos.

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Projeto Undergardiner, em Toronto, Canadá.

O projeto Undergardiner funciona baixo a uma grande estrutura com extensão de 1,75 km, conectando 7 bairros e envolve diferentes programas destinados ao uso público da população.

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Undergardiner em Toronto, Canadá.

Alguns pontos importantes devem ser levados em consideração para reintegrar e recuperar os espaços residuais as cidades fazendo com que sejam mais habitáveis e dinâmicas e que criem ambientes  mais vivos e menos exclusivos, de interesse a toda vida urbana. Através de projetos que enxerguem a cidade como um todo, de forma heterogênea e plural que é, como um organismo dependente de cada parte e articulação, que também envolvam programas que contem com um sistema coerente de mobilidade, cultura e atividades que atendam a diferentes usuários. Afinal o direito ao espaço público de qualidade deve e precisa ser de todos.

 

Nahla Chahoud e Orlando Stedile / maio de 2016.

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